Folhas de Outono
8 Casa de Joshua
Acho que estou mais pra louca, acho que sou louca. Não que eu já fui normal, mas meus pensamentos não são assim! E antes que pensem em qualquer outra coisa... Ele me chamou pra "passar na casa dele" e não "dormir" lá! Acho que pirei ou é a falta de oxigênio nessa cidade por ser próxima demais da montanha.
Andei ao lado de Joshua enquanto ficava pensando em como seriam seus pais, provavelmente alguma espécie de pais modelos, bonitos e com uma casa que parece aquelas de seriados ou de novelas. Grandes e bonitas, majestosas e sua família cheia de alegria. Provavelmente tem algum cachorro ou quem sabe até algum animal exótico. O que me despertou uma profunda curiosidade sobre o rapaz do meu lado. Ele era algum tipo de herdeiro ou algo assim? Pra morar no bairro mais luxuoso da cidade, normalmente quem vive por lá é família de Jane, que por um acaso é a filha do prefeito da cidade. A outra mala sem alça é a sobrinha de um empresário, que por coincidência era irmã da mãe de Zack. Sim, Mary era prima de Zack sim... Que tragédia. Imagino como deve ser horrível ter alguém desagradável como ela em seu encalço. Ter o mesmo sangue então, meu Deus.
Eu encarei o rosto de Joshua pra ver se ele parecia algum tanto com Mary. Ele me encarou de volta percebendo que o fuzilava nada discreto e, na rua mesmo, ambos paramos pra nos encarar. Ele parecia assustado com minha cara-de-pau em continuar o olhando daquele jeito. Ele firmou o olhar e então parecia que competíamos.
Até que ele piscou.
— Droga. Perdi.
— Isso era uma competição? – perguntei sem entender. Esse menino acha que nasci apenas para competir com ele?
— Ah... – suspirou ele um pouco melhor, parece que saber que não estávamos competindo ajudou ele. Saber que não havia perdido. – Não era?
— Não. – falei com um olhar morto. Eu dava esse olhar sempre pra coisas óbvias. Ou seja, o tempo todo.
— Que bom! Ao menos não perdi... – ele parou um segundo e voltou em me encarar, Max nos observava atento, como se nós o divertíssemos. – Então por quê me encarava tão intensamente?
Se eu pudesse chamar aquela sensação de “serpente” eu diria. Era como se as palavras de Joshua me cercassem e envolvessem, não de um jeito carinhoso eu diria, mas mais... Brutal e cínico. Algo que não seria o Joshua que eu conheço. A vontade vinha e parava na garganta e depois descia. O que ele fez?
— Está sentindo atração por mim? Emma? Ou pensou em algo além disso...? – perguntou curioso, de repente eu via a criança que havia dentro dele, algo que não seria muito legal de mexer. Porque se eu mexer não saberia mais se era Joshua que estava ali comigo.
— Não. Seu besta... – ri desconcertada, puxava as mangas pra cobrirem minhas mãos pequenas e cruzei os braços sobre meu corpo. – Eu... Apenas estava “checando”.
— Checando? – perguntou curioso. Ele se aproximava tão imprudente, tão diferente de como eu agiria. – O que seria?
— Estava vendo se você parecia com alguém daqui... Com Mary.
— Ah... – falou em decepção. Esse menino não era normal como pensei. – Não achei que fosse isso.
— Por que vieram morar aqui?
— Meus pais vieram aqui porque meu tio que mora no nosso país, disse que aqui era um ótimo lugar pra viver.
— Sim, nisso ele tem razão... – falei. Me sentia feliz, mas decepcionada. Acho que queria saber bem mais sobre o menino estrangeiro do que imaginava.
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Demorou quinze minutos pra que chegássemos em sua casa. E cara, era incrível a casa dele:
Por todo lado você via uma árvore gigante como se fosse o centro de seu jardim, o portão era daqueles de ferro preto e clássico, coisa que só mansão tinha. E acho que eram 100 metros só pra chegar na porta de sua casa. Haviam flores lindas e que nunca imaginei um dia poder vê-las, a não ser na Floricultura da Nana onde haviam várias flores diferentes e plantas diferentes, ali, na mansão de Joshua parecia um orquidário de tanta orquídea que eu via nas árvores.
O chão repleto de grama bem cuidada fascinava o olfato de Max, isso dava pra ver bem. Até podia sentir a natureza falando comigo através daquele lugar. Aquilo seria um "recanto" pra estar. Senti inveja de Joshua, mas por saber que pode ter aquilo e querer ter também, mas sei que posso ter aquilo também, não em minha casa... Claro que não, mas na floresta daqui. Tá aí um lugar que eu sempre quis ir, mas meus pais nunca deixaram. Disseram que é onde vivem os lobos mais cruéis e terríveis que se pode imaginar, animais que escaparam do Laboratório Central do Marco que os americanos tinham aqui perto como base, faziam experiência nos animais e depois soltavam eles para ver suas reações à natureza, o que não era muito bonito de se ver atualmente. Então, ao descobrirem nosso "povo", eles destruíram o lugar com protestos que valeram muito, mas algo mais aconteceu, algo misterioso. Porque o local, logo depois dos protestos, o lugar explodiu. Não foi nenhum ataque, foi alguém de dentro que deu chance pros animais. Mas foi isso, tanto que temos uma cerca que separa a floresta da cidade, pra que nenhum animal venha até nós e nos machuque. Como não vi nenhum e isso aconteceu há mais de 15 anos, eu não tenho ideia do ocorrido, diferente de meus pais.
— Gostou? — perguntou Joshua me encarando.
— Sim, como não gostar? — falei feliz, era incrível demais para uma mera mortal como eu.
— Bem... Venha ver dentro então. — falou sorrindo de orelha a orelha, não sei porque.
Ele abriu a porta e uma empregada que passava quando o viu se curvou, carregava toalhas para levar pra outro cômodo e era interessante que não só ela, mas tanto os mais velhos que trabalhavam ali usavam uniformes, na minha casa tinha uma também, mas minha mãe privou ela de não usar uniformes. Não entendia o por que, já que era até bonito ver. Se eu fosse uma empregada adoraria usar uniforme. Irônico, mas é a verdade.
— Ahn...- falei ao lembrar que Max me seguia. Joshua arregalou os olhos e nem se lembrava do cão que eu trazia junto.
— Ah! Pode deixá-lo fora, se ele achar a cabana vai encontrar Elise... — falou e acariciou a cabeça de Max. — Elise é minha Hovawart. Talvez você nunca tenha ouvido falar dessa raça, mas ela lembra bastante um Retriever.
— Ah... — falei pensativa, imaginando como deveria ser. Se ela lembra aquela raça, provavelmente deve ser do tamanho de Max. — Tudo bem, Max, vá brincar vai! — falei pra ele. E assim que fechei a porta, que era imensa de sua casa, Joshua passou a mão no meu cabelo.
— Seu cão é muito leal á você...
— Sim. Até demais... — disse tirando sua mão pesada de minha cabeça.
— Lealdade é algo que se encaixa perfeitamente nos cães, não acha?
— Sim. Deve ter algum animal leal á nós afinal... — disse abrindo um sorriso generoso.
— Concordo, e não se preocupe. Ele não vai sair desse jardim até que você saia desse lugar. E também, Donna... — ele chamou a empregada que perguntou "sim, jovem senhor?"
— Donna, pode por favor alimentar Elise e Max? Acho que Emma vai passar um bom tempinho com meus pais...
— Sim, jovem-mestre.
— Ai, meu Deus... — falei tapando a boca, era engraçado demais alguém tratar Joshua com tanta respeito assim, um ser humano tratando o outro com respeito, isso era raridade e incrível demais.
— O que foi? — perguntou, estava perplexo com meu choque.
— Vocês realmente não são daqui...
Ele riu daquilo. E tinha motivos ótimos ainda pra rir de mim.
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Havia um grande tapete de pele de carneiro estendido na frente da escadaria, Joshua me guiou até o salão da esquerda onde tinha uma gigante sala, sem televisão, apenas três sofás e várias estantes de livros que lembrava uma biblioteca ou um espaço muito bonito. Os livros coloriam o lugar, mas algo em particular me chamou atenção: uma vitrola grande e antiga, tão vintage que não pensei encontrar uma ali, só em museu. Junto dela vários discos e dentre eles, outro que me chama atenção era do Elvis.
— Seu pai gosta do Elvis?
— Sim tanto que dançava até. Ele e meu tio dançavam freneticamente imitando o Presley.
— Imagino que foi cômico.
— Sim, muito... — falou sorrindo. Seus olhos brilhavam enquanto me mostrava a casa, nem parecia a pessoa que havia me interrogava anteriormente.
Joshua é um rapaz estranho, mas divertido e, até agora, o melhor amigo que eu poderia ter. Não pela casa, não me entendam mal, mas ele é realmente bom pra mim. O único até agora.
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