Folhas de Outono
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Observei o pássaro que sobrevoava os céus até que me parecendo ver desenhando, fez questão de descer. Eu juro que achei que ele ia bater no vidro, por isso fechei os olhos, mas quando os abri ele estava no galho da árvore que era bem próxima a janela, só assim descobri que era um corvo. Já desenhei muitos deles, mas só pela internet. Essa era a primeira vez que poderia desenhar um e, quem sabe, poderia fazer várias cópias desse mesmo só que em outras poses, ele voando por exemplo.
Assim que terminei o rabisco, alguém me cutucou e era o professor. Não fiz questão de mostrar susto ou surpresa, nada disso. Apenas arqueei uma sobrancelha e ele, irritado, respondeu:
— Pode tirar seu cachorro daqui?! — apontou para o corredor, Max levantou a cabeça rosnando para o professor que deu uns passos pra trás.
— Relaxa, ele ainda é filhote. – respondi calma. – Max? – o chamei e ele me olhou interessado pra ver o que eu queria. – Atrás de mim, sim?
Ele se levantou e foi atrás de mim, era incrível como a obediência e a inteligente que aquele cachorro tinha me fazia o admirar cada vez mais. Ás vezes me faz sentir mais orgulho e admiração do que pela essa raça que é a mesma que a minha.
— Pronto, senhor. – falei voltando pro meu desenho, agora o que precisei fazer era pintá-lo, não tem muita importância o cenário, mas a frase que eu colocaria naquela página junto da data que foi feito.
— Tem certeza, Joshua? – perguntou o professor. – Há tanto lugar longe da... – ele se interrompeu, não seria bom o aluno novo descobrir que eu tenho problemas.
— Sim, algum problema no lugar que escolhi? – interrompeu-o assim que ele ia voltar á falar, pelo menos tem alguma coisa que me chamou atenção daquele rapaz.
Quando me virei, notei que era o mesmo que havia levado uma bronca na portaria. Ele era loiro e tinha olhos que, valeu a pena comparar, os mesmo de Max! Fiquei chocada que poderia um ser humano ter esse tipo de olhos, estou falando até o formato. Mas também chegou a ser engraçado a comparação, mas valeu.
— Ah... – falou ele assim que me viu o encarando, eu não me constrangi ou desviei o olhar, apenas continuei o observando. Eu sei, sou muito cara-de-pau. – Tem algum problema em sentar aqui? – perguntou sendo sincero na pergunta, não foi grosso, mas foi gentil. Eu estranhei por um momento, mas eu neguei com a mão.
— Não, nenhum... – e assim que respondi, me virei pra olhar Yuri e percebi que ele estava interessado também no rapaz ao meu lado, encarando-o como se fosse dar comida. Estranho.
— Oh, então não vejo problema professor. – respondeu de volta pro professor, que falou “tudo bem”, mas parecendo mais como um “problema seu se for mordido...”. Sério, tem certas coisas que eu fazia que me fez e firmou mesmo o pensamento que posso ter um lado animalesco mesmo, o tipo que assusta.
O professor começou a escrever algumas anotações no quadro e percebi como Mary e Jane me encarava com fúria. Pronto. Agora outro esquema de piadas ridículas e sem fim vão se prolongar naquele semestre que se iniciava.
Enquanto copiava as anotações senti alguém me observando, já sabia quem era.
— Precisa de alguma coisa? – perguntei pro rapaz ao meu lado.
— Bem, já que fez a pergunta... – respondeu, fiquei confusa e mais ainda quando ele pediu: — Eu quero primeiro: o seu nome, segundo: seu caderno e terceiro: sua permissão pra acariciar o cachorro... – eu tive de me virar na sua direção e cruzar as pernas para aquele absurdo.
— Como é que...
— Você me perguntou e eu respondi. – respondeu simplesmente, encarei para Max que me encarou de volta. Fiz um gesto pro rapaz que ele entendeu que podia passar a mão. Já me senti traída quando vi Max permitir, talvez ele soube quando viu que eu não fiz cara feia ou porque não briguei com o rapaz?
Logo, um pouco com dor de cabeça, dei meu caderno pro loiro que sorria ainda mais quando viu que eu estava dando tudo aquilo que ele pedia.
— Pronto. – Respondi mais fria que um freezer.
— Espera e o seu nome? – perguntou, parecia que ele ia fazer questão de querer saber, mas eu não iria dar. Não sou eu que dou todas as respostas afinal.
— Descubra por si só... – e por coincidência, o sinal bateu, já foram as duas primeiras aulas? Como o tempo passou depressa. Já levantei com meu sketch’ nas mãos e assim que fui andando no corredor, Max me seguiu com a cauda abanando, quando olhei pra trás pra acariciar meu animal, o aluno novo parecia meio entediado, mesmo quando Mary e Jane, dentre outras garotas o circularem.
O que deu nelas?
Encarei o corredor cheio de gente do 1° e 2° ano entrando e saindo de suas salas, que bom que o meu lugar já está reservado, lá embaixo.
Descendo as escadarias vi algumas meninas dizendo: “Que cachorrão!” e “que cachorro lindo!”
Sabem, o fato de ter um problema com a raiva, faz com que todas as pessoas temer você e, não querer se aproximar de você, apesar de nunca querer isso. Eu não tenho algum problema psicológico e isso o próprio psiquiatra já havia dito isso. Só estava com raiva da minha mãe numa certa época porque não a aceitava, quando uma menina se esbarrou em mim, uma das valentonas e perigosas da nossa escola, Catherine, ela voltou pra me enfrentar e botar medo em mim, mas parece que o jogo virou pra ela.
Só sei que quando acordei, o nariz dela estava sangrando e desmaiada no chão, uma multidão tinha brotado a nossa volta filmando o que aconteceu, mais tarde, depois da suspensão, psiquiatra, eu encarei aquela menina de novo, e ela estava um touro quando vê a capa vermelha, o pior foi que, ela veio como um. Por coincidência, eu tinha brigado com Jack naquele dia e mais com minha mãe, parecia que tudo havia dado de errado pra mim naquela manhã, e quando tudo acabou e voltei ao normal, tive pena de Catherine e das meninas que estavam também, provavelmente, tentando me segurar na hora. Então minha “fama” pegou em toda a escola. Tudo o que me acalma e me deixa mais tranquila agora, é a presença de outros animais. Por isso, Max deve ficar comigo. Ordem do diretor.
Fui até a cantina e saí de lá com uma garrafa de suco na mão, de dentro do meu bolso comprei uns biscoitos pra Max, uns que enchia rapidinho e acabava com a fome dele, tadinho do meu amigo.
— Aqui, rapaz, você merece. – dei pra ele cinco deles, e começou a pegar um por um, dava um tempo eu jogava pra ele outro, Max pegava todos no ar.
Tudo estava calmo e tranquilo, até que um fantasma surge ao meu lado.
— Emma! – falou ele agitado, era o aluno novo novamente. Meu Deus, o que esse rapaz viu em mim? E como ele sabia o meu nome?!
Meu pensamento se seguiu para as peças que estavam ao seu redor na sala, provavelmente fofocaram algo sobre mim, de novo.
Ele segurava uma maçã vermelha, mas tão vermelha que parecia ter sido pintada daquela cor.
— O que foi?
— Nada, só queria te mostrar que eu descobri seu nome. – respondeu se sentando ao meu lado e, uau, ele era uns dez centímetros maior do que eu, ainda bem que árvore era grande o suficiente, dei umas batidinhas no chão para Max, quando olhei pro menino, vi que ele estava um pouco corado.
— O que aconteceu com seu rosto? – perguntei curiosa, nunca havia visto uma coisa dessas na minha vida, eu era branca que nem ele e nem quando eu corria ficava corada. Sério, ás vezes me pergunto se sou humana mesmo.
— O que tem meu rosto? — perguntou passando a mão na face.
— Sei lá, tá vermelha.
— É? Que estranho...
— Muito. – falei e ele inclinou a cabeça um pouco pro lado e suspirou aliviado quando viu que o cachorro ficou entre nós. Ele tem algum problema comigo, tenho certeza disso.
— Você sempre foi assim?
— Assim como? – perguntei passando a mão no meu cabelo e tirando a toca.
— Delicada.
Ele estava sendo sarcástico? Ou estava falando sério? Não é que não sei a diferença, mas ele era estranho.
— Sim, delicada como arame farpado.
— Não, delicada como uma roseira cheia de espinho mesmo.
— Prefiro arame farpado.
— Achei que preferisse comparações com a natureza... – falou desencostando da árvore pra me encarar, eu também fiz o mesmo e o encarei. Não acredito que estava ouvindo aquilo.
— Sério, o que você quer de mim?
— Nada, eu estou falando sério mesmo, só achei você interessante... – desbuchou e achei um pouco engraçado aquela situação, o primeiro garoto que vem falar comigo, pra não me zoar e sim pra conversar como um ser humano e ele logo diz que me achou interessante? Que raro!
— Jura? – falei com sarcasmo.
— Sim, senão não estaria falando com você, certo?
— Tá. O que você achou interessante?
— Ahn... – ele fingiu pensar, eu achava aquilo bobo, mas é o jeito dele, por que julgar? Mas eu quis julgá-lo mesmo quando ele me respondeu:
— Que tal você ser a única garota que não se interessou por mim?
— Como é que é?!
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