Folhas De Outono
24 Ferragni Lane
Sábado, o dia mais esperado da minha vida. Mary Lane já estava arrumada na sala e eu vesti a roupa que eu mais gostava, queria poder olhar para ela e lembrar desse dia. Agora eu seria Yolanda Ferragni Lane. Quis manter o Ferragni, gostava dos meus avós. Ed havia se oferecido a nos acompanhar e claro que topei sua companhia. Mary tinha combinado de que passaria as 9 a.m na casa do Ed, para busca-lo e irmos direto. Quando chegamos na casa do Ed, desci do carro e dei um abraço logo nele. Ele sentou no banco de carona e eu fui atrás. A viagem nunca demorara tanto.
Quando chegamos no cartório, Ed saiu e segurou a porta, esperando eu sair também e a fechou logo em seguida. Arrumei meu cabelo e esperei Mary se aproximar, a abracei e fomos de braços dados até o cartório. Ed foi ao nosso lado, carregando meu casaco. Após assinar todos os papéis, acho que passei meia hora chorando. Fomos direto para o The Aegean comemorar.
“Só acho que deveríamos passar um final de semana em Londres para comemorar.” – Disse Ed após tomar um suco.
“Seria uma despesa muito grande.” – Eu disse cortando a carne.
“Não seria. Adorei a ideia, Ed.” – Disse Mary.
“Tenho casa lá, podem ficar lá com a gente.” – Disse Ed.
“Não atrapalharíamos?” – Perguntei.
“Claro que não. Seria até divertido a casa cheia.” – Ed disse sorrindo.
Era um caso a se pensar. Talvez seria uma ótima opção para o próximo fim de semana. Londres, na minha cabeça, era um lugar inalcançável, distante das minhas possibilidades. Mas assim, eu acredito em tudo o que desejo. Desejo, porque preciso, de certa forma, me faz bem. Qualquer outro país era o meu “desejo” e feliz por ter sido Inglaterra. Novos ares, longe do meu passado e ao mesmo tempo tão próxima dele. Minha vida começara do zero e já estava na sua melhor nota. Parei de comer e fiquei observando minha vida presente, Ed tomando seu suco de laranja e Mary comia uma sala, eles são o que os meus olhos consideram “ponto de foco”, onde você só enxerga eles e o resto, faz parte de um cenário. Eles se tornaram as duas pessoas mais importantes para mim. Quando penso em felicidade, ambos me vem a mente. Quando penso em tristeza, os imagino me abraçando. Tudo me remete a eles, minha vida.
“Estou feliz por vocês e por presenciar isso.” – Disse Ed.
Me inclinei até ele o beijei na bochecha.
“Eu que fico feliz por vocês estarem comigo.” – Falei colocando minha mão direita no braço esquerdo de Ed.
Permanecemos no restaurante por mais uma hora e finalmente saímos. Decidimos apenas caminhando pela cidade, para passar o tempo. Caminhei de braço dado com Ed e Mary ao meu lado esquerdo. O vento gelado deixava meu rosto vermelho e o do Ed mais ainda. Ele carregava minha bolsa em seu ombro direito, como sempre gentil, gostava de carregar as coisas para mim. Nos sentamos em uma praça e peguei meu caderno que estava na minha bolsa.
“Já vai escrever?” – Perguntou Ed me entregando a bolsa.
“Minha mente não para.” – Eu disse abrindo a mesma.
Folheei meu caderno até uma página em branco e a fiquei encaram, esperando as palavras se juntarem e formarem um pensamento produtivo. Eu estava sentada no meio dos dois. Ed observava o caderno e Mary apenas olhava para frente. Encostei a ponta da minha caneta na folha de papel e finalmente comecei a escrever. “Conceito de perfeição varia de acordo com o que seu coração está sentindo no momento. O que é perfeito para você hoje, já pode não ser tão bom assim amanhã. As pessoas mudam, ficam em constante mutação, seus sentimentos também. Tenho noção o suficiente para saber o que é perfeito para mim para todo o sempre, e este é a vida que levo agora. Não melhoria nada, talvez a melhoria, não dure tanto.” Li o texto duas vezes e olhei para Ed.
“Assinaria embaixo desse texto. Não melhoraria minha vida.” – Ele disse me olhando.
“Ed, sua vida tem muito o que melhorar. Você tem um futuro brilhante com a sua música, aguarde.” – Eu disse fechando meu caderno.
Deitei minha cabeça no ombro direito de Ed. Fiquei observando famílias passarem na minha frente. As crianças felizes, elas deveriam dar valor a esse momento, o qual desconheço. As pessoas demoram a saber o que é importante, muito só notam, quando não tem mais aquilo que lhe tornava feliz e você não sabia. A vida, não vem com manual, claro, mas se, parássemos para pensar que, existe algo chamado carma, tudo seria mais fácil. Se você é bom com a vida, ela lhe retribuirá. Quando criança, decidi me apegar nisso, apesar de ser mal tratada pelos meus pais, nunca os tratei mal, e olha onde a vida me colocara agora. O carma devolveu aos meus pais, o que eles me deram toda a vida. Ausência de liberdade. Eu agora me baseava no Ed, tão bom com todo mundo, acredito que a vida lhe guarda algo bom no futuro, quando sua mente amadurecer e seus sonhos começarem a se solidificar. Não gosto de achem que sou a coitada, que os pais não amavam, eu sou uma pessoa como qualquer outra, porém um aprendizado diferente. Era assim que eu gostava de chamar, “Aprendizado”, porque a vida na verdade sempre será isso, se você se trancar em um quarto, aprenderá que sente fome, mas não aprenderá como se relacionar com outras pessoas. E me mantive nesse quarto maior parte da minha vida e agora aprendi que, fugir da sua realidade, não te faz evoluir, talvez te faça regredir. Não tenho vergonha do que fui, do que continuo sendo, tenho vergonha das pessoas que vivem e não têm uma história para contar. Eu tenho, triste, mas é uma história a qual me tornou a menina madura e forte de hoje. Não sinta vergonha de quem você é.
“Não esqueça da nossa música.” – Disse Ed.
Notas finais
OBRIGADA POR LEREM ♥ sério, muito obrigada.
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