Folhas De Outono

51 Era mais forte do que eu


Sabe, dificilmente eu vou responder a um “tudo bem?” com um “Não”, por mais que essa seja a resposta na maioria das vezes. Responder “Sim” te poupa de uma longa explicação sobre o que lhe faz mal e convenhamos, a pessoa não se importa, afinal, nunca perguntam o que te faz bem quando você responde “sim”. Eu não parava de pensar nisso, sobre o que realmente me deixava feliz, talvez chocolate seja a resposta para tudo mas, eu realmente não sei o que me deixa feliz. Acho que nunca me senti 100% bem durante um dia inteiro. Ficar com Teddy é ótimo para mim, mas ao mesmo tempo, sentimentos como ciúme e medo correm pelo meu corpo e a insegurança é cada vez maior.

Dizem para esquecer o passado e seguir em frente mas, quando o passado é bom, não querem esquecer, por que eu deveria esquecer o ruim? Faz parte de mim e é responsável pelo buraco o qual eu tento preencher todos os dias. Amadureci muito nova e decidi criar um mundo meu, aprendi a não me apegar a nada, nem mesmo a uma pétala de rosa, frágil e indefesa, pois a base da minha vida fora rompida e meus pais acabaram com a minha confiança. Aprendi ser forte, tinha que ser forte e hoje me vejo fraca novamente, talvez culpa do amor ou talvez porque eu apenas tenha me cansado de não ser eu. Sim, a menina gelada do coração vazio e que pouco fala com seres humanos, não sou eu, aliás, esqueci quem sou eu, me perdi no passado e nunca mais encontrei.

Teddy e eu estávamos bem novamente e eu não acreditava nisso, sei que não é pra sempre, queria parar de pensar assim mas, sabia que não duraríamos assim. Em breve estarei voltando para o Brasil para o Reveillon e ficarei longe dele, inúmeras coisas podem acontecer sem a minha presença, não que eu divide dele, mas sim, não confio nos outros que nos cercam.

Já estamos entrando em Dezembro e minha ansiedade para voltar ao Brasil aumentava. Minha mente ainda não havia ser acostumado com Framlingham, por mais que eu achasse que estivesse. Tenho poucas lembranças boas sobre o Rio de Janeiro e tem uma única lembrança que mantêm minha esperança viva. Eu tinha 10 anos, coisas ruins já haviam acontecido, decidi fugir não ir para casa depois da escola, peguei um ônibus para a praia do Arpoador, já era fim de tarde e o melhor lugar do mundo nesse horário era lá, o mais belo pôr do sol que eu já havia visto. Morávamos em um bairro considerado rico, mas nunca vi o dinheiro deles a meu favor. Me sentei na pedra do Arpoador e aguardei a noite dizer “olá”. A cada minuto o sol encontrava mais o mar e achei que não seria mais feliz em outro lugar que não fosse ali, naquele exato momento. Quando o sol enfim se perdeu no mar, todos em volta aplaudiram e olhei cada rosto feliz naquele lugar.

As aulas já estavam perto de acabar, para tirarmos férias para as festas de fim de ano e meu aniversário também estava chegando. Nunca mencionei mas, dentro do meu caderno, guardo uma foto do meu aniversário de um ano. Eu quase não tinha cabelo e uma pequena presilha com um laço branco, o enfeitava. Meu vestido era branco, com babados em rosa... Por que deixaram de me amar de uma hora para a outra?

“Yolanda?” – Era a voz do Teddy.

Já era quarta-feira e estávamos na aula de Química, não prestei atenção na aula inteira.

“Sim?” –Perguntei a Teddy.

“Quando é a competição de hóquei?” –Ele perguntou.

“Eu... eu nem lembrava mais disso!” –Respondi espantada.

“Deve estar perto.” –Ele disse.

Agora eu não conseguia mais parar de pensar na competição e já estava me preparando para Lori me cortar do time principal. Era estranho, Lori nunca mais me incomodou, nem Susan.

No fim da aula, fomos para o pátio externo, para aguardar até a hora do almoço, faltavam meia hora. April estava sentada sozinha. Teddy me olhou, como se estivesse pedindo permissão para se aproximar dela.

“O que?” –Perguntei. –“Vai lá, ué.” –Eu completei.

“Mas vai ficar brava comigo.” –Ele disse.

“Olha, não sou sua mãe, tome suas decisões sozinhos.” –Respondi.

“Já ficou brava.” –Ele disse rindo.

“Ela parece triste. Faça o que tem que fazer enquanto eu fico aqui.” –Eu disse.

Teddy ficou parado me olhando.

“Vai logo! Antes que eu mude de ideia.” –Eu disse o empurrando.

Teddy, enfim, foi até ela, que estava sentada, lendo alguma que estava apoiada no chão. Fiquei observando os dois, de braços cruzados. Ela quem tinha interrompido nosso abraço depois o show de sábado, porque eu havia deixado cair um dinheiro no chão. Não diria que ela estava sendo gentil, afinal, ela interrompeu nosso abraço. Tá, eu nunca vou conseguir enxergar um lado bom na April, Lori e Susan. Confiar nas pessoas não é meu ponto forte.

“Yolanda!” –Era a voz da Lori vindo de trás de mim.

Me virei e era ela mesmo. Com o cabelo preso em um rabo de cabalo alto, Lori me deu um papel.

“Aqui está o time que disputará todo o torneio. Hoje é o nosso último treino, o jogo foi antecipado para sábado agora.” –Ela disse.

Olhei para o papel e lá estava meu nome.

“Até tentei te tirar do time mas, você é muito boa.” –Ela disse sorrindo.

Eu deveria tirar tudo o que disse sobre Lori? Melhor não. Ela estava sendo gentil, da maneira dela, mas estava. Lori olhou para algo que estava atrás de mim e logo parou de sorrir.

“Até o treino.” –Ela disse se virando para ir embora.

“O que ela queria?” –Teddy perguntou parando do meu lado.

“Só me dar esse papel.” –Eu disse entregando o papel a ele.

Teddy pegou o papel e o leu.

“Ela te colocou no time?” –Ele perguntou.

“Acho que você deve trocar o grau desse teu óculos, porque tá difícil, hein?” –Eu disse.

“Não, é porque eu não achei que ela faria isso.” –Ele disse.

“A chantageou para ela me colocar no time, não foi?” –Perguntei.

“O que? Não!” –Ele disse.

“Okay.” –Eu disse.

Me arrumei para o treino de hóquei e aguardei as meninas no campo. Lori chegou minutos depois e se sentou ao meu lado.

“Não gosto da April.” –Ela disse.

Me virei para ela, admirada com o fato de ela estar conversando comigo.

“Achei que não gostasse de todo o colégio.” –Eu disse.

“Isso não é verdade. Eu gosto de você.” –Ela disse.

“Espera... O que?” –Perguntei espantada.

“Tá, não gosto de você, mas estou me acostumando contigo, era isso que eu queria dizer.” –Disse Lori.

“Mas... Achei que quisesse que eu voltasse para o Brasil.” –Eu disse.

“As vezes.” –Ela disse sorrindo.

“Você está diferente...bateram em você?” –Perguntei.

Lori começou a rir, ela simplesmente gargalhava e eu havia perguntado séria, eu realmente queria saber.

“Não sei, Yolanda, era pra eu te odiar.” –Ela disse ainda rindo.

Fiquei olhando para ela, sem entender nada. Até que Susan aparece.

“Lori!” –Ela disse gritando.

Lori imediatamente parou de rir e foi até Susan. Elas conversaram algo, Susan olhou para mim com uma cara não muito boa e se afastaram, o que me fez duvidar se o problema era realmente a Lori. Eu realmente não estava entendendo o que havia acontecido ali, talvez, Lori fosse um fantoche de Susan e que ela estava a espera de alguém para libertá-la. Ela sempre foi cruel comigo, como se o coração dela fosse mais vazio que o meu, mas acho que na verdade, ela era mais forte do que eu.

Notas finais
Férias chegando, ficando livre pra fanfic. *-*
Ah, pretendo criar, em breve, uma playlist com 12 músicas, como trilha sonora da fanfic, porque aqui é profissa. KKKKKKK (aceito sugestões de música. Tenho Autumn Leaves e Hold you - nina nesbitt)
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Obrigada por ainda acompanhar a fanfic.
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