Aquele baile havia sido um divisor de águas para a vida de Gabe. Antes, ele não se sentia pertencente a lugar algum. Agora, ele se sentia pertencente a ela.

Sheba.

Uma garota transtornada, ele podia sentir.

No baile, o transtorno, a necessidade desesperadora, o pedido de ajuda e socorro que emanavam dela o atingiram em cheio. Isso sempre acontecia com ele, quando alguém estava precisando de ajuda. Mas com Sheba aquilo era intenso, como ele nunca havia sentido antes.

Chegou a pensar que estava ficando paranóico, que tudo não passava de sua imaginação. Mas simplesmente não conseguia ignorar Sheba. Quando a viu, percebeu que precisava ajudá-la. Não pensou duas vezes. Foi em direção a ela.

E quando a tocou, ela simplesmente se acalmou, a necessidade toda, o desespero, tudo se dissipou. Ela estava bem.

Mas todas as vezes que se afastava dela, ele sentia aquela necessidade de novo. Então, viu-se obrigado, com prazer, em ficar constantemente ao lado dela.

Não foi fácil, ele confessou para si mesmo. Sheba nos últimos dias tinha assumido um comportamento um tanto quanto estranho. Fazia de tudo para tentar irritá-lo. Não que isso o afetasse de alguma maneira, mas cada vez que se afastava apenas um pouquinho dela, ela aprontava das suas. E aquela necessidade voltava.

Ele compreendia que ela estaria passando por algum momento difícil em sua vida, e resolveu ajudá-la no que fosse preciso.

Apesar dos problemas que ela começara a causar.

Seu pai, Mitzrael, chamou-o para uma conversa particular.

\"Gabe...\" sua voz era calma e pacífica.

\"Sim, papai.\"

\"Esta garota, a hóspede.\"

\"Sheba.\"

\"Sim. Ela.\"

\"Que tem Sheba, papai?\"

\"Tome cuidado com ela, filho.\"

\"Ela precisa de ajuda, e eu vou ajudar.\"

Mitzrael sorriu. \"Sim, filho, eu sei. Mas existem coisas que você não sabe. Coisas sobre o mundo.\"

\"Ah papai, novamente isso... como se eu fosse um bebê que não pudesse viver o mundo... Eu sempre sinto como se o senhor escondesse alguma coisa que não quisesse me contar... Por que não fala?\"

Mitzrael conjecturou. Não, ainda não era a hora de Gabe saber quem ele era. Mas ele precisava se cuidar. Sheba fazia tramas. Ele não podia ler seus pensamentos, pois perdera esse poder assim que abandonara as asas pelo seu amor por Grace. Mas sentia a freqüência do sofrimento que emanava de Sheba. Ele sabia o que ela era.

Um demônio. Não um demônio graduado ou mediano. Um demônio meio-humano, mas muito forte, que pela aproximação de Gabe perdera temporariamente seus poderes. Mas podia recuperá-los a qualquer momento.

E temia por isso.

Fora os Senhores Demoníacos, que poderiam aparecer para reavê-la. E ele não poderia proteger sua família.

\"Ainda não é a hora, filho, mas um dia eu conversarei sobre isso.\"

\"Então, papai, acho que não podemos falar sobre Sheba, não é?\"

Mitzrael suspirou. \"Creio que esta é sua última palavra. Mas apenas fique atento e tome cuidado. O desespero que emana dela não é casual.\"

Antes que Gabe pudesse fazer qualquer pergunta a esse respeito, Mitzrael saiu. Ele tinha esse dom de sair em momentos oportunos, numa rapidez incrível. O que deixou Gabe pensativo.

O que poderia estar causando tanto desespero em Sheba?

Simplesmente nunca se perguntara a esse respeito. Apenas ficava fascinado com ela, com sua beleza e com o jeito que ela ficava tranqüila quando ele se aproximava, e a felicidade a inundava, olhando-o nos olhos. E nunca se lembrava de perguntá-la o que a perturbava tanto.

Era algo que ele tinha que descobrir.