Ficaram um tempo que parecia uma eternidade, ali, olhando um para o outro, através do espelho.

"Me desculpe, Sheba. Eu sinto tanto a sua falta... não queria que você fosse embora."

"Eu... quis ir embora desde o primeiro momento, mas algo me prendeu a você... eu pensava que fosse a magia entre nós, a conexão entre o olhar de anjo e o olhar de demônio, mas agora, através deste espelho que quebra essa conexão, eu sinto somente..." a palavra quase não saiu de seus lábios, tamanha era a rejeição de sua natureza, "...amor."

Algo se moveu dentro dela, e sua forma espectral se moveu num misto de felicidade e pavor. Aquilo fez Gabe se agitar, querendo atravessar o portal para protegê-la.

"Você está bem?"

Ela sorriu. "Sim. É uma coisa que acontece. Quando algo é bom para mim, significa que é ruim para você. Quando algo é ruim para mim, é bom para você."

Os olhos de Gabe pareciam confusos. "Como assim?"

"Quando sinto prazer em alguma coisa, por causa de minha natureza, geralmente essa coisa é uma coisa ruim, como uma discussão, um acidente, uma briga... essas coisas me dão prazer. Mas, como são coisas ruins, você sente como se eu estivesse em desespero. Da mesma forma, aquilo que me dá pavor, é justamente aquilo que deveria ser bom, como crianças felizes num parque, pássaros numa bela paisagem de verão..." Sheba pensou um pouco, confusa. "O problema é que esse sentimento, amor, é totalmente novo pra mim. Porque, ele é um sentimento bom, e eu sinto prazer em tê-lo, em senti-lo. Mas, ao mesmo tempo, minha natureza o rejeita, e sente pavor."

Gabe parecia entender.

"Veja, Gabe. Como poderemos ser felizes juntos, se tudo aquilo que eu abomino é o que te faz bem, e tudo aquilo que me faz bem, é o que te faz mal, e você sente como se eu estivesse em desespero?"

Ele suspirou. "Eu vejo seu ponto. Mas as coisas parecem que estão mudando por aqui." Ele tocou o que seria a imagem de seu rosto, mas acabou tocando o vidro. "O amor. Você me ama, e se sente feliz, embora se sinta com pavor."

Ela sorriu. "Espero que isso mude completamente."

"Eu queria poder te abraçar..."

"Isso não será possível" disse Sheba bruscamente. "Não posso."

E então, sua imagem começou a se desvanecer, enquanto ele buscava em vão tocá-la.

"Por favor, Sheba, não vá..."

"Voltarei quando puder, querido Gabe."

"Por favor!"

A imagem sumiu completamente. Gabe se viu sozinho na sala, embora Sheba ainda o observasse, desta vez de longe.

"Por favor." ele pediu mais uma vez, sabendo que ela não escutaria.

Sheba ergueu uma das mãos, pensando em tocá-lo, e desistiu, saindo pelas frestas das portas e indo para o vento sul.