Fogo E Sangue
1 Loince Peck
Loince estava chegando a fortaleza dos Peck com o saco nas costas. Ainda tremia, suava e sentia o calor do fogo nas bochechas, mesmo sabendo que o dragão devia ter voltado á sua rainha. Ver a pior cena de sua vida o tinha abalado, e ele havia pensado sobre esse ato durante a noite toda na viagem de volta à fortaleza Alletas.
A fortaleza dos Peck era digna de se ver. Se encontrava a poucas milhas de Ponta Tempestade, vassalos dos Baratheon. Tinha cerca de dez quartos aconchegantes, ocupados pela família ou por hóspedes, cheios de tapetes de Myr e incensos vindos do outro lado do mar. Existiam poucas celas na fortaleza, pois Hang Peck, o senhor de Alletas, acreditava que usar o dinheiro do seu povo para sustentar bandidos seria como se igualar a eles. Existiam apenas um portão na fortaleza, o que havia sido como uma herança sanguínea dos Peck muito conhecida por todos na região, a avareza. Todos os senhores, até os dias atuais, acreditam que apenas um portão a ser cuidado era de uma digníssima inteligência, pois custava muito menos para ser mantido.
Loince cruzou o portão, sem saber ao certo o que falar à senhor Peck. Desculpe senhora, deixei sua filha ser assada era, até agora, a melhor alternativa que ele tinha visto.
— Loince, não foi culpa sua. O que você queria? Lutar contra o dragão, é isso? — os cabelos ruivos de Kaleen se agitavam enquanto ela esbravejava contra ele. Ela nunca gostou da covardia que encontrava em Loince, desde que ela teve que protegê-los de um javali enquanto brincavam na floresta quando crianças — Você queria morrer como herói? A rainha caíria em cima de toda a sua casa se você matasse o seu querido animal de estimação, isso se você conseguisse chegar a tocar nele sem ser torrado. Bota essa cabeça no lugar.
Claro, eu não podia fazer nada ele pensou durante todo o caminho até Alletas, mas a coragem que Kaleen havia empurrado guela abaixo aquele dia ja havia escorrido durante todo o caminho. Por mais de seis vezes ele pensara em enterrar os ossos e dar alguma desculpa, como "Lauren se perdeu, senhora. Não a achamos". Mas o que o tinha feito seguir caminho era o fato de não existir desculpa boa o suficiente. Teria de explicar sua morte, mas isso apenas dependeria se eu seria capaz de denfendê-la disso ou não. Um dragão será a melhor coisa a falar, não podia lutar contra ele, além de ser a versão verdadeira da história.
Os guardas no portão, velhos conhecidos, acenaram quando ele passou. Apesar de ser apenas um sobrinho que fora trazido à Alletas como escudeiro, era respeitado na fortaleza. Logo na chegada, os filhos do tio o acolheram bem, e Lauren se apegou a ele mais do que todos. Sempre tivera jeito com crianças, mas agora isso lhe causava raiva. Se não gostasse de mim, ainda estaria viva.
Entrou na sala principal com os passos ressoando. Como era tradição da família, o almoço sempre era servido a todos igualmente. Do mais baixo criado até o senhor Hang Peck se encontravam na mesa, e todos viraram seu pescoço para homenagear a chegada da sua pequena Lauren na fortaleza.
— Loince, posso saber o motivo de sua demora? — O senhor de Alletas era um homem grande. Com braços musculosos e um peito largo, treinava com sua espada todos os dias, e nunca havia se deixado engordar. Mantinha os cabelos cortados, a barba aparada e as roupas limpas.
Sem saber o que responder, Loince acabou caindo no chão aos prantos. Agarrara-se a sacola de forma violenta. Tinha medo de ser punido, raiva do dragão e da rainha, uma tristeza infinita pela ida de Lauren e uma culpa imensa por se sentir incapaz. A última imagem que aparecera diante de seus olhos fora o meistre do castelo, Neolam.
Quando acordou, estava repousando em um dos quartos do castelo, sem saber como foi parar lá. Não se lembrava bem ao certo o que havia acontecido. Algo com um dragão, um jato de fogo... E, num instante, toda a lucidez voltara e ele se lembrava de tudo o que aconteceu. Da menina gritando, correndo, do fogo vindo e de uma boca enorme, engolindo a carne ja tostada da sua melhor prima.
— Acalme-se garoto, você chegou aqui muito nervoso. — Meistre Neolam se encontrava em cima dele, com um sorriso nos lábios e uma expressão tranquila. Eles ainda não sabem.
— Onde estã minha bolsa?
— Aquela sacola velha? — A gargalhada do velho ecoou no quarto. Sinta-se feliz velho, essa pode ter sido a ultima gargalhada que esta fortaleza ouvirá. Está ali, em cima do banco. — E lá estava, intacta, sem ser violada por ninguém, mesmo que Loince não precisasse olhar para a bolsa para saber disso.
— Preciso falar com a senhora de Peck, agora.
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