Fogo Azul
1 Shinai
O som oco da colisão de shinais dominava o pátio naquela manhã. O sol se erguia sonolento por cima das Montanhas de Inari, ao leste, e iluminava o local para onde Hikari recuava o passo, a medida em que seu sensei, Hinode Yosuke, avançava com fortes e precisos golpes sobre sua espada de bambu. Seu chichi-ue, Hikaru e o conselheiro deste observavam o treinamento à sombra da cerejeira no centro do local, à seis metros do combate. Hikari bloqueou o golpe frontal do sensei e girou sua espada para o lado, forçando-o a abrir a guarda, mas antes que pudesse executar seu próximo movimento, Yosuke já havia atingido-a acima de seu ventre com a sola do pé, lançando-a ao chão. “Crac”. Grunhiu terrivelmente e ficou ali, caída, com uma das mãos sobre as costelas e a outra segurando firmemente o cabo da arma. A respiração da jovem tornou-se trêmula e dolorosa seguindo o compasso de cada pontada de dor.
Uma brisa suave soprou algumas pétalas das flores de cerejeira em espirais para o solo e algumas delas caíram sobre a jovem Hikari, como que saudando-a pelo esforço inútil.
— Hikaru-sama — ela ouviu o conselheiro dirigir-se ao chichi-ue. O velho trajava o lilás roupão solene, que exibia em suas costas o Kamon do clã Hinode: o sol nascendo por detrás das Montanhas de Inari — reconsidere o que eu tenho dito, tens de adotar um filho homem para ser seu herdeiro. Olhe para ela...
O velho dirigiu à Hikari aquele mesmo olhar revoltante. Tentava parecer neutro para manter a cortesia, mas a jovem podia ver através daquela máscara uma mistura de desprezo e pena. Maldito..., Hikari praguejou-o mil vezes e tentou se mover, mas a dor a fez reconsiderar. Prendeu a respiração e mordeu a língua para não gritar
— Deve haver um motivo para eu não ter dado ouvidos a você, Fuyuki, na primeira e na segunda vez que me propôs. — Respondeu, o Shogun do clã Hinode. — Acha que esse motivo mudou de lá para cá?
— Hikaru-sama, peço mais uma vez, reconsidere. Mulheres não são para batalhas, ela nem sequer consegue lutar contra Yosu...
— E o que o faz pensar que você conseguiria, Fuyuki-jii-san? — Disse Yosuke-sensei, interrompendo o conselheiro. Hikari viu o velho Fuyuki ficar sem voz ao ouvir tal desafio e não era digno de menos. Yosuke, seu oji-sama, era um homem forte e jovem, com não mais de vinte e seis anos. Seu cabelo solto cobria suas orelhas em suaves ondas negras que morriam em seus ombros. Cicatrizes no braço destro e uma única na bochecha esquerda esbanjavam sua experiência de combate. Fuyuki era só um velho de pergaminhos, sem nunca ter pego uma espada, e se queixava até demais de dores nas costas. — A questão não está no que ela tem ou não entre as pernas. A Hikari-sama tem muitos deveres para com o clã. Está sobrecarregada.
— A Ojou-sama se sente cansada por estar fazendo algo que não é de sua natureza — respondeu o velho, sentindo-se insultado com tal comparação.
— Basta. — Interveio Hikaru, sua voz soou baixa, mas firme e cheia de autoridade. — Não discutam por algo tão vão. Fuyuki, Hikari é a minha herdeira você gostando ou não. Yosuke, não volte a desafiar Fuyuki desta forma. — O Shogun respirou fundo e suspirou, estava prestes a continuar com seus sermões, mas parou ao ouvir a filha murmurar. Todos voltaram os olhos para ela mais uma vez.
E a ela lutava para se levantar. De joelhos, apoiou a ponta do shinai no solo e, agora, com as duas mãos segurando o cabo, tentou se erguer, porém nos primeiros segundos tudo o que conseguiu foi tremer os braços. Essa era a parte mais difícil. A região da barriga, abaixo de seus seios, latejava intensamente a cada respiração. Após um ou dois segundos, firmou a sola do pé destro no chão e se obrigou a ficar de pé, com as pernas trêmulas e hesitantes. Hikari empunhou sua espada e fechou a guarda para o sensei. Eu vou provar pra esse velho... Eu vou. O olhar calmo de Yosuke-sensei, que antes estivera firmemente direcionado ao Fuyuki-jii-san, encontrou-se com o olhar desafiador de Hikari, porém este limitou-se a suspirar. Enfim, iniciou uma caminhada lenta na direção da jovem. A sandália de madeira do mesmo produzia um som leve ao chocar contra o chão de pedras. A persistência da garota não impressionou Hikaru, não era a primeira vez que ela demonstrava ser dura como uma pedra. Era de se imaginar que logo ela cairia, afinal andar com as costelas quebradas não era nada fácil, e lutar nessas condições era praticamente impossível para uma garota dessa idade, mas com o ar que restou em seus pulmões, ela gritou e desferiu um último golpe frontal com a espada de bambu em Yosuke que desceu tão rápido que pode-se ver a arma curvando-se contra o ar, e foi isso que impressionou o Shogun. O homem esquivou do ataque com um pequeno salto para o lado e segurou a sobrinha pelos ombros antes que esta fosse de encontro ao chão.
— Isto é o suficiente... — Ouviu Hinode Hikaru dizer e voltou os olhos parcialmente fechados para ele. Viu que este andava em sua direção e também viu o velho conselheiro atrás dele com um olhar de reprovação. Tentou se erguer dos braços do sensei, não gostava daquela posição impotente, mas sucumbiu a dor e, finalmente...
Chichi-ue...
..., desmaiou. Naquela noite-durante-o-dia, sonhou com Kitsunes.
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