Fogo

1 Capítulo 1


Era tarde da noite. As estrelas incendiavam o céu e a lua, cheia e azul, brilhava sobre a cabeça de todos, mas poucas pessoas prestavam atenção. O centro estava cheio de pessoas de diferentes elementais.

Muitos homens se acotovelavam em um círculo bastante fechado. Lio se aproximou do local. Não gostava de multidões e nem de se acotovelar, mas estava intrigado, sabia o que havia ali.

Subiu em um muro próximo, logo passou para o beiral de um telhado, aquilo era fácil no centro, afinal as casas eram sempre muito próximas, não como em Água onde os longos quintais o prendiam ao movimento rítmico do caminhar. Parou para observar o que ocorria ali. Conhecia de cor aqueles movimentos e a forma como os fios negros se enrolavam ao vento, mas sempre tinha a mesma sensação, por isso sempre voltava.

As chamas subiam em direção ao céu e mesmo a distância ele podia ver os quadris da pequena dançarina balançarem de um lado para o outro, hipnotizando os marmanjos que se aproximavam para tocar as chamas. Muitos saiam com as mãos queimadas, mas não se preocupavam com isso, qualquer coisa valia para ter um toque daquela bela chama dançante sobre duas pernas finas demais para se sustentar em duas pontas apenas.

O rapaz apertou as mãos sobre o peito. O frio delas se perdendo em meio às batidas descompassadas de seu coração ardente. Ele estava muito distante do fogo que a pequena dançarina libertava, mesmo assim podia sentir as chamas acariciarem seu peito.

A dançarina não era muito mais velha que ele. Era impossível, na verdade, que tivesse mais de quinze anos, ele já havia visto ela de perto o suficiente para perceber, mas em meio às chamas que ela controlava tão bem com seus quadris e braços parecia muito mais velha, garotas daquela idade não deveriam controlar as chamas tão bem.

Ele observou o giro que fez as chamas se inflamarem, tornando o dia em noite, as pernas pálidas aparecendo por entre elas com passos determinados. A noite ficou muito mais fria e escura quando ela se enrolou nos panos vermelhos de seu vestido, o mundo segurou uma respiração quando as chamas diminuíram até se apagarem, um dos pés esticados em frente ao corpo com saltos altos vermelhos que pareciam brilhar com as mesmas chamas que iluminavam a noite, o vestido parecia apresentar um desgaste após toda a pirotecnia. A jovem ergueu a cabeça mostrando os pequenos lábios vermelhos para o público e cuspiu fogo para o céu, era o fim.

Lio olhou seu relógio, passava da meia-noite, mas queria mais. Queria tocá-la. Cruzou a plateia, as mãos firmemente enfiadas em seus bolsos enquanto acotovelava-se com vários outros admiradores, alguns conhecia de vista outros eram novos. Ela ergueu os olhos em um tom escuro de azul, brilhando violeta com os flashs da lua da meia-noite.

Ele curvou, ciente que seus olhos apresentavam o mesmo brilho característico de alguém das realezas, herdeiros puros, filhos de reais com reais. Ela estendeu a mão, mas ele não a pegou.

As mãos começavam a cristalizar, poderia arriscar muitas coisas, mas não as chamas de sua pequena dançarina. Afastou-se sem mais, observando os olhos piscarem confusos quando a multidão tomou seu lugar na frente da moça loucos para olhá-la mais de perto, mesmo que não lhes estendesse a mão.

Ele a viu mais uma vez naquela mesma coisa, quando zarpava para Água e ela na direção oposta. Ela usava uma capa negra e surrada sobre o vestido vermelho, os olhos brilhando com a mesma intensidade e ele sabia que ela também o reconhecia.

Ele olhou para as próprias mãos, onde pequenos cristais de gelo se formavam na derme clara. Apesar de ser da realeza, ele não era nem água e nem ar, apenas gelo, um pária secundário.



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