Fogo

6 Capítulo 6 - Jantar de noivado part. I


– O diário lilás que eu escondi debaixo da sua cama! – bradou Maria, rangendo os dentes.

Manuela fez um pequeno esforço para tentar entender o que a irmã dizia, mas acreditando se tratar de uma missão impossível – já que ela estava bêbada demais para aquilo – acabou assentindo e sussurrando uma coisa qualquer.

Maria revirou os olhos, aborrecida pela falta de interesse da irmã e decidiu procurar sozinha o bendito diário. Mas é claro que aquela situação não ficaria daquele jeito; ela iria se vingar da irmã, a mais velha não perdia por esperar.

(...)

Dois dias depois...

Depois do brilhante plano arquitetado por ele e o melhor amigo, Vinni resolveu tirar uns dias de folga de toda aquela loucura. Verdade fosse dita: as brigas com a Lohmann mais velha eram hilárias, mas muito estressantes e se ele pudesse evitar, o faria com o maior prazer. Fazia tempo que ele não surfava e como era o dia das mães, achou que talvez fosse bom... Enfrentar aquelas ondas de mais de dois metros eram um ótimo calmante para ele. E além do mais, a própria mãe não estaria em casa: iria para o motel com seu pai, assim como todo bendito ano. O Albers franziu o cenho diante do pensamento. Que tipo de pais eram aqueles? Afastou os pensamentos para longe e encaixou a prancha no carro.

– Não sabia que você surfava, Vinni. – ele virou-se para encarar a garota. Era a tal de Alicia, a melhor amiga da louca. Eles tinham ficado uma ou duas vezes no passado e desde então, ela não largara mais do seu pé.

Ele tinha de admitir que ela era linda. E tinha uma língua hábil demais para ele... Mas, ainda sim, não passava de atração física. Aquela garota parecia não compreender isso.

– E eu não surfo. – resolveu mentir. – Estou indo levar a prancha para o meu irmão. – respondeu, encerrando aquela conversa. Deu meia volta no carro, parou em frente a porta do motorista, abriu-a e então adentrou, um tanto impaciente.

Alicia o viu partir, com uma expressão tristonha. Gostava tanto dele, tanto que até chegava a doer! Por que ele não enxergava isso? Ou: por que tinha de ser tão cretino? Suspirou entristecida e decidiu que tinha de se mudar urgentemente, ou aquela paixão insana acabaria a consumindo lentamente.

(...)

Apesar de ter dito ao filho que sairia com Augusto, Eleanor na verdade foi fazer outras coisas. Iria conversar pessoalmente com a mãe da jovem Mannu. Sempre se deram bem e sabia, graças a fontes seguras, que a vida financeira dos Lohmann não estava indo nada bem, o que a permitia usar brandamente algum de seus truques nas mangas.

Catarina Lohmann era uma mulher ruiva, de olhos esverdeados e em ótima forma para a sua idade. Sempre fazia compras em um supermercado próximo ao seu bairro, mas naquele dia, havia resolvido inovar e experimentar o da outra esquina. Onde os produtos eram mais baratos, incluindo a cesta básica. Por saber da ótima condição financeira da família Albers, não pôde deixar de se espantar ao cruzar com Eleanor em um dos corredores, onde ficavam os macarrões instantâneos. Arregalou os olhos e aproximou-se, curiosa.

– Eleanor Albers? – a perplexidade era palpável.

– Catarina! – a outra teve a decência de fingir surpresa. – Ah, mas que surpresa adorável amiga... Faz tanto tempo que não nos vemos! – exclamou com os olhos brilhando.

Ia matar dois coelhos numa cajadada só. Era sensacional o quão generosa a vida era com ela.

– É, faz um tempinho sim. – concordou a ruiva, cada vez mais desconfiada daquele encontro tão inusitado. – O que está fazendo em um mercadinho econômico como este? – arqueou a sobrancelha e aproximou seu carrinho do da vizinha.

– Ah, sabe como é...Vim conhecer o outro lado do bairro. – mentiu, sorrindo alegremente. – Mas me conta. – disse aproximando-se cada vez mais da Sra. Lohmann. ­– Como andam as coisas lá na sua casa? Está tudo bem? A Maria está grávida?

– Ah as coisas andam... – ela interrompeu-se bruscamente ao se dar conta da ultima pergunta. – Como você sabe da gravidez da minha Maria Joaquina?!

O nome da filha não era de fato Maria Joaquina, mas Catarina vivia gritando aos céus que ia trocar o nome da filha porque aquele era infinitamente mais bonito... Maria obviamente discordava. Principalmente depois de Carrossel.

(...)

Manuela olhou-se no espelho. O vestido havia caído muito bem. Curto e com um decote discreto, que realçava seus seios fartos, mas de uma maneira sensual e não e vulgar. Ela sorriu satisfeita, pegou suas coisas e saiu porta a fora, com os cabelos esvoaçando. Ao invés de descer os degraus, ela pulou de dois em dois indo rapidamente em direção a porta...

– Manuela Luiza Lohmann. – a voz de seu pai soou extremamente rígida atrás dela. A loira respirou fundo, e virou-se lentamente para encará-lo. – Onde é que você pensa que vai a essa hora da noite?

– Numa festa. – respondeu automaticamente. – Do meu amigo Bryan que está indo para a Colômbia... Eu avisei você e a mamãe. – argumentou, subitamente irritada com a própria burrice. Por que diabos passou pela a porta se diariamente pulava a janela?

Mas então lembrou-se: Vinicius. De uns tempos pra cá, ele tem se comportado de maneira bem estranha na opinião da loira. E depois do incidente dos pneus... A forma como ele aquietou o rabo... Estava muito esquisito. Aquele silêncio e a falta de troca de olhares assassinos carregados de significado...Estavam angustiando-a!

– Você não vai. – decretou seu pai. – Tem visitas esperando-a na sala de jantar mocinha! O que está esperando? Passa! – dissera em tom imperativo.

O que é claro, significava que ela estava ferrada ao cubo. Bufando frustrada e pensando numa maneira de fugir daquele jantar idiota, ela obrigou a si própria a obedecer. Seu pai era do tipo que ia atrás dela, com uma moto ou até mesmo uma bicicleta se fosse preciso. Só para, minutos depois, fazê-la se arrepender de ter ido a festa fazendo algo terrivelmente capenga.

Era melhor obedecer, decidiu.

– Quem é a princesinha do papai? – Gustavo sorriu largamente ao vê-la passar. Ela revirou os olhos e reprimiu o impulso de mandá-lo a merda.

Ao botar os pés na sala do jantar... Uma surpresa bastante desagradável. Ela não pôde deixar de arregalar os olhos ao avistar, ninguém mais, ninguém menos...

Que a família Albers inteira reunida. Com direito até mesmo ao irmão mais novo de Vinni, o tal Gabriel. Manuela arregalou os olhos, perplexa o bastante para não conseguir esboçar uma reação decente. Ela podia mandá-los ao inferno, e até queria muito isso, mas infelizmente, não conseguiu proferir as palavras... Ela não encontrou a própria voz. Agarrando-se a mesa, ela percebeu o papelão que estava fazendo: encarando Vinni como se ele fosse uma espécie de anjo da guarda ou sabe-se lá o que. Piscou os olhos e afastou o olhar, desconcertada.

– O que diabos significa isso, pai? – voltou sua atenção para o mais velho, que sorria abertamente. Como se tivesse acabado de ganhar na loteria.

O que era bastante improvável.

– É um jantar de noivado querida, sente-se.

Ainda anestesiada com toda a situação e ainda mais após tais palavras, Manuela andou sem saber exatamente como – estava desconfiada, surpresa e irada internamente – em direção a cadeira mais próxima. Seu corpo tremia de nervosismo e ansiedade.

– Noivado? – perguntou, levemente desconfiada. O maldito Vinicius encarava-a de uma forma bastante bizarra: sem quaisquer emoção; sem mesmo escárnio! Aquilo a estava agoniando.

– Sim. – confirmou sua mãe, Catarina que de alguma forma, olhava-a como se tivesse acabado de matar seu cachorrinho de estimação. – O seu meu amor.

Apesar de não ter colocado nenhuma comida ou bebida na boca, Manuela acabou engasgando-se. A saliva ficou entalada na garganta e sua adorável irmãzinha, na tentativa de socorrê-la, acabou depositando uns murros em suas costas. Os olhos verdes esbugalharam-se tanto que por um momento, Vinni pensou que eles fossem saltar para fora.

– Como assim meu noivado? Isso é algum tipo de piada? É uma porra de um reality show? Que infernos está acontecendo aqui?

Continua...