Fogo
10 Capítulo Dez – Desastre Inevitável
(1 mês depois...)
A loira olhou as coisas ao seu redor, já sentindo uma nostalgia indescritível. Enfim chegara o dia que ela tanto temia: o dia em que deixaria sua casa, para habitar com Vinicius um apartamento no centro da cidade, que por um acaso tinha vista para o mar e era a coisa mais linda que ela já vira em toda sua vida e ainda sim, a mais assustadora. Ela desviou os olhos do seu querido e desgastado guarda-roupa para fitar o criado mudo. Em cima dele, havia um porta retratos com caveira que ela particularmente adorava. Era sua foto com o vocalista do Charlie Brown, o falecido e inesquecível Alexandre Magno Abrão, o eterno Chorão. Ainda doía olhar para aquela foto. O dia em que conheceu-o, foi um dos melhores de toda a sua vida. Gostaria de dar replay...
Suspirou fundo, sentindo algumas lágrimas cretinas invadir-lhe o rosto. Ela havia comunicado á amiga Alicia sobre o casamento com Vinni e surpreendentemente, a patricinha pareceu compreender. Quer dizer, na cabeça dela a marrenta e o playboy continuavam a se odiar... Mas naquela altura do campeonato, Manuela já não tinha mais certeza. É ela estava ciente de que ele continuava o mesmo imbecil de sempre e que aquele casamento não passava de um teste de paciência para os dois, por outro lado temia não resistir as investidas dele. Por mais ogro e insuportável que ele fosse, tinha algo que a atraía para ele. Era um porre.
– A casa não será a mesma coisa sem você. – a voz de sua irmãzinha soou atrás de si, fazendo com que a Lohmann se virasse para encarar Maria. A pirigueti correu em sua direção, a abraçando de lado. A mais velha retribuiu.
– Cale a boca. Você sabe que eu volto em menos de duas semanas. – disse brincalhona.
– Se quiser, eu tenho uns laxantes...E uns frascos de pimenta. – retrucou a outra, sorrindo divertida. As duas riram. – Sério, toma cuidado. Aquele cara é louco.
– Eu sei. – Manuela suspirou e ambas se separaram. – Mas ele é que tem que tomar cuidado. – um pequeno sorriso malévolo brotou em seus lábios. – Ele pode ser louco, mas eu sou muito mais. – e dera-lhe uma piscadinha. Maria sorriu. – E então, cadê o laxante e o frasco? Eu vou precisar muito disso.
Maria gargalhou sonoramente. É, no fim das contas aquelas baboseiras fariam muita falta para a Lohmann mais velha.
–--X---
Decididamente, aquele seria um longo e problemático dia para Vinicius Albers. Suas coisas já estavam todas empacotadas e algumas de suas coisas já levara para o apartamento. Ele se dirigia ao novo lar, quando sua mãe o obrigou a voltar para a sala. Passou mais de uma hora e meia recebendo sermões sobre como tratar uma dama e os escambal.
Só que a Manuela, não é exatamente uma dama. Pensou em dizer, mas não se atreveu. Conhecia perfeitamente Eleanor e sabia que se dissesse coisa do tipo, embarcariam em uma discussão inútil que poderia durar dias e até mesmo meses. Ambos eram igualmente cabeças duras.
– Eu já entendi. – ele exclamou, após respirar fundo. As vezes sua mãe conseguia cansá-lo. – Não se preocupe, mãe. Eu vou cuidar muito bem da revoltada.
– Assim eu espero! – rebateu Eleanor nervosamente. – Esse casamento é muito importante para a nossa família, filho. E além do mais, eu acredito que vocês podem se entender. São tão parecidos quanto diferentes. Vai ser bom, você vai ver. – e sorriu ternamente.
Ele franziu o cenho. Ele, igual a Manuela Lohmann?! Nem agora e nem nunca! Reprimiu o impulso de verbalizar seu pensamento. Sua mãe estava bastante sensível por causa da sua mudança, e ele realmente não queria chateá-la ainda mais. Além do que, estava um tantinho ansioso para ir até seu apartamento. Seria deliciosamente divertido infernizar a loira, sorriu com o pensamento. Os dois ficariam obrigatoriamente em um mesmo apartamento, dividindo a mesma cama, o banheiro...
Ia ser incrível. Ao menos, era o que ele esperava tão veementemente. Mas fora isso, ainda tinha o “elemento surpresa”: os bilhetes anônimos.
Momentos mais tarde,
Manuela colocou blocos de tijolo na porta de seu quarto, para impedir que outra pessoa viesse a habitá-lo. Não ia permitir que um estranho qualquer se apoderasse do lugar que veio ser seu refugio durante anos. Se alguém quisesse entrar ali, teria de pular pela a janela. O que seria bem cansativo de se fazer: pular para entrar, pular para sair... A loira esboçou um sorrisinho com o pensamento.
Seus pais haviam insistido para que ela fosse para o apartamento com Vinicius e, ela até tentou quebrar aquela regra pedindo socorro para um de seus amigos mas... Travis estava na Inglaterra. Bryan sabe-se lá Deus onde havia se metido, Alicia inventou uma desculpa qualquer e por fim, só restou o irmão mais novo de Vinni, Gabriel.
Mas não ia ser muito legal. Resolveu seguir os sutis conselhos dos seus pais, estando ciente do que aquilo significava. Ela não teria sossego durante a viagem e provavelmente seria chutada para fora, com o carro ainda em movimento. Revirou os olhos. Era bem provável que fosse o contrário.
– E ai noivinha? Pronta para dividir a cama comigo? – o diabo de olhos amêndoas se aproximou, sorrindo sadicamente. Havia certo divertimento em seu olhar, mas a garota preferiu ignorar piamente aquilo.
– Aham. – ela sorriu com cinismo, aproximando-se ainda mais dele. – Espero que você também esteja pronto. – e deu uma piscadinha, abrindo a porta do carona.
Na hora, o sorriso dele murchou. Aquilo obviamente não podia significar boa coisa. Ela já estava tramando... Respirou fundo e deu a volta no carro, abrindo a porta e rapidamente sentando-se no banco do motorista.
– Agora teremos bastante tempo para curtirmos um ao outro. Não concorda? – virou-se para encará-la, com um sorriso maroto.
– Claro. Como quiser. – ela sorriu falsamente. Era mais seguro agir com indiferença. Ele arqueou a sobrancelha e fitou-a momentaneamente, antes de ligar a ignição. Ficaram algum tempo parados, até que ela perguntou.
– O que está esperando? Dirige logo Albers. Ainda temos que arrumar as coisas do apto.
Ele riu da impaciência dela.
– Você é sempre assim impaciente? – perguntou cínico. – E eu estou esperando meu beijinho, não vou a lugar nenhum até que você me beije. – exclamou, voltando a ficar sério.
– Então vamos ficar aqui a vida inteira. – ela desviou os olhos da boca dele, para o volante. – Se você não vai dirigir, eu dirijo essa merda. – e envaidecidamente, jogou-se contra o colo do mauricinho, pisando no acelerador e tomando o controle do volante.
Aquela posição era bastante desconfortável para a loira. E um tanto infernal para Vinicius, que pela primeira vez em séculos ficou sem falar nada.
– Deixa que eu dirijo. – ele afastou bruscamente as mãos dela do volante, e isso fez com que a loira esboçasse um sorrisinho vitorioso.
Sem conseguir conter os dedinhos nervosos e já sofrendo fervorosamente de tédio, a loura ligou o rádio e colocou em uma estação que só tocava funk. Particularmente, Manuela detestava tal gênero musical. Mas tinha plena ciência de que Vinni odiava muito mais. Ele lançou-lhe um olhar de soslaio, enquanto continuava a digerir. Ela sorriu provocativamente e começou a cantar um trecho, praticamente aos berros. Bufando, Vinicius desligou a rádio. Mas ela era terrivelmente insistente e voltou a ligá-lo.
– Quer desligar essa merda? Ou pelo menos mudar de estação? – vociferou ele, olhando-a furiosamente.
– Não mesmo! – e passaram a viagem inteira discutindo e ligando e desligando a rádio.
Após quinze minutos na mais irritante provocação, os dois chegaram ao prédio que passariam a habitar. O exterior era tão charmoso quanto o interior. E a garagem era incrivelmente espaçosa. A loira pensou que seria ótimo para a moto e o carro que pretendia comprar. Levaram as coisas ao apartamento, ambos com idéias mirabolantes na cabeça. Chegando na porta de entrada, Manuela lembrou-se de algo.
– Albers. Espera. – ela pigarreou.
Ele olhou-a por sob o ombro, enquanto destrancava a porta.
– O que foi? Quer que eu te pegue no colo? – indagou com um sarcasmo brutal.
– Não. Eu acho isso totalmente brega. É coisa de mulherzinha. – disse desdenhosa e o empurrou, pegando da mão dele a chave. – É que eu chamei uns amigos meu aqui, sabe como é. Festinha de inauguração. Eu gostaria muito que você ficasse trancado dentro do quarto. – e sem esperar por uma resposta, abriu a porta do apartamento, adentrando-o com tudo.
Vinni arregalou os olhos, descrente. Não era possível que ela já tivesse tramado algo pelas suas costas.
– Você fez o que?! – gritou incrédulo. E ao adentrar o novo lar uma surpresa bastante desagradável: hippies, punks e todos os amiguinhos idiotas da Manuela presentes, segurando copos vermelhos e alguns, cigarros. – Puta que pariu. – trincou os dentes.
Aquela garota ainda ia ser a causa de uma parada cardíaca. Ou possivelmente um derrame. Ele mordeu os lábios, estalando a língua.
– Oi Vinni. – a amiguinha dela, Alicia surgiu em sua frente aparentemente bêbada. Ele estreitou os olhos. – Seja bem-vindo ao seu novo lar... – e estendeu os braços, como se esperando um abraço.
Ele a ignorou grosseiramente e apressou-se em direção ao seu quarto. Infelizmente, como ele temia havia um casal se agarrando ali. Vinicius fechou os olhos com força. Maldita fosse Manuela Lohmann.
Fale com o autor