Fogo
6 Parte 2 - Chamas - Capítulo 5
Notas iniciais
Heitor se apressou a fechar a janela. Uma grande nuvem de poeira subiu repentinamente, e na velocidade do trem que estava, atravessar aquela área poeirenta não podia dar outro resultado. Estava voltando de sua estadia na capital, na casa de sua irmã. Lúcia era uma das pessoas mais doces que ele conhecia, o tratava como uma mãe que mima seu filho.
Tinha passado duas semanas e meia na casa dela, e ficou impressionado com o tamanho da cidade grande. Todos aqueles prédios, aqueles automóveis, e toda aquela gente. Céus! Eram muitas pessoas. Todas as ruas ficavam tomadas de gente durante quase todo o dia.
Agora Heitor estava mais do que aliviado de estar voltando. Apesar de amar a irmã, sentia que seu lugar não era a cidade. Era muito agito, muita confusão, muito barulho. Gostava mais da fazenda, onde ele poderia ler, passear e escrever tranquilamente.
Nesse momento, o trem acabava de passar pela área poeirenta do caminho, e Heitor já podia abrir a janela novamente. A paisagem se estendia durante vários, incontáveis, infinitos quilômetros. No horizonte, as montanhas davam o toque final da beleza do amanhecer do Sol.
O vagão restaurante estava quase vazio. A cadeira à sua frente, que ficava virada para ele, estava desocupada, e apenas um casal se sentava a alguns lugares de distância. Heitor pegou seu jornal e começou a ler. Apesar de ainda ter apenas quinze anos, gostava de saber o que acontecia mundo afora. Mas as notícias não estavam muito interessantes aquela manhã.
Mesmo lendo despreocupadamente o jornal, Heitor percebeu quando um jovem entrou no vagão. Ele carregava, estranhamente, a mala de viagem. E diz-se estranhamente pois ele poderia muito bem guardá-la em sua cabine. O rapaz aparentava ter a mesma idade que Heitor, a única diferença eram seus cabelos loiros lisos e seus olhos cor de mel.
O rapaz parecia desconfortável carregando aquela mala, e procurava um lugar para se sentar. Heitor acabou de distraindo dele e do jornal, que fechou e pôs no colo. Se pôs a observar a paisagem, com o pensamento vazio.
Um minuto depois assustou-se ao perceber que o rapaz tinha se sentado na cadeira à sua frente. Heitor olhou confuso para ele e checou, embora tivesse certeza, que haviam muitas outras cadeiras vagas em todo o vagão restaurante. O rapaz ajeitou a mala no chão e se virou para olhar a paisagem pela janela. Heitor fez o mesmo, para não ter que puxar assunto com o estranho.
Depois de alguns minutos, Heitor estava ficando nervoso, pois tinha a impressão que o jovem à sua frente ficava olhando de soslaio para ele, mas acabou achando que estava paranoico e sua atenção voltou-se para a janela. Estava quase cochilando quando sentiu um toque em seu joelho.
– Ei, Psst. – Disse o rapaz.
– Han? – Respondeu Heitor, assustado.
– Ei, tudo bem? Se importa de me emprestar o jornal? – Disse, com uma voz jovem e atenciosa.
– O que?
– O jornal. Se importaria de me emprestar para que eu possa ler? – Disse, com um sorriso de dentes perfeitos. Ele tinha um sotaque diferente, que Heitor não decifrou, talvez fosse de alguma outra parte do país.
– Ah... não. Claro que não. – Disse Heitor, confuso. Esticando o braço e entregando o jornal ao outro.
O jovem pegou o jornal, e sua mão tocou na de Heitor. O calor da pele do outro fez Heitor sentir um calafrio estranho, que nunca sentiu antes. O rapaz agradeceu com um sorriso encantador e abriu o jornal.
Ele lia, inquieto. Soltando comentários. Heitor estava começando a se sentir desconfortável com a presença do outro, que ficava a todo o momento lhe falando coisas a respeito do jornal, e Heitor apenas concordava com a cabeça.
– Hunn... Ah, olha só, um francês foi preso por matar um escravo envenenado. Terrível, não acha?
– Ehr... sim. – Respondia Heitor, com um sorriso amarelo. O jovem olhava para Heitor com um sorriso animado, como se estivesse adorando ter alguém para conversar. Heitor se sentiu culpado, por não estar gostando da companhia, mas ele era tímido demais para fazer amizade em qualquer lugar.
– Ih, a safra de feijão está a metade do que foi nesse mesmo mês do ano passado. Prevejo uma crise, não? – E deu uma risada.
Heitor pensou em uma maneira de sair da presença daquele estranho que estava deixando-lhe desconfortável de uma maneira esquisita.
– Eu... vou ao banheiro. – Disse, se levantando. Assim que disse isso, se sentiu um pateta, pra que diabos alguém avisa pra um desconhecido que vai ao banheiro? Esperou que o outro caísse na gargalhada sob tão ridículo comentário, mas o outro apenas fez que “sim” com a cabeça, sorrindo.
Heitor saiu andando na direção de onde achava que se encontrava o banheiro, e acabou encontrando-o. Ficou lá durante alguns minutos, apenas para jogar água no rosto e esperar o coração parar de bater tão rápido. Percebeu que o trem parou. Enxugou o rosto numa toalha e se encaminhou de volta ao vagão restaurante, iria apenas passar lá dizer, adeus ao estranho e se dirigir à sua cabine. Não queria ficar dando conversa a desconhecidos, mesmo que fossem de sua idade.
Caminhou por entre as mesas, procurando o outro. Ao chegar na cadeira que estava sentado, encontrou-a vazia, com apenas o jornal que havia emprestado ao outro repousando sob o acento. Nesse momento o trem apitou e deu um solavanco. Heitor olhou pela janela e viu que estavam em uma estação praticamente vazia. O trem começou a andar e Heitor avistou o estranho de longe, por apenas mais um segundo. Ele lhe deu um sorriso e um aceno à distância.
Heitor se sentiu esquisito, com um buraco enorme no peito. Ao pegar o jornal, notou que havia um pedaço pequeno de papel escrito com uma caligrafia magnífica:
Obrigado pela companhia!
O resto da viagem foi uma tortura para Heitor. De algum modo aquele rapaz tinha deixado ele, por incrível que pareça, confortável. Devia ser a companhia, pensou. Mas o fato é que mesmo sem querer ele pensou no outro o resto da viagem. Tinham ficado pouco mais de vinte minutos conversando, mas Heitor já estava com... saudades?
Decidiu afastar o pensamento absurdo da cabeça e avistou ao longe a estação em que iria descer. A ânsia de voltar finalmente para casa apagou qualquer outra coisa de sua cabeça. Foi à sua cabine pegar suas coisas, em poucos minutos já estava descendo do trem. O Senhor de Castro tinha dito que uma charrete estaria esperando-o do lado de fora da estação. Encontrou-a depois de procurar um pouco. Deu bom dia ao cocheiro e num instante já estavam com o pé na estrada.
Atravessaram a pequena cidade. Aquela parte era a única do município que não era constituída de fazenda, e era muito pequena. Heitor acenou timidamente para as pouquíssimas pessoas que conhecia, no máximo três ou quatro, e dentro de menos de dez minutos a estrada de terra surgiu aos seus pés.
A paisagem ao redor era inebriante. Pareciam que quinze dias serviram para deixar Heitor com ainda mais amor por seu lar. E isso não incluía somente sua casa, mas toda a serra, os montes, toda a floresta daquele lugar. Heitor amava o jeito com que as copas altas das árvores competiam com o topo das montanhas ao fundo.
O Sol já se fazia bem brilhante acima do horizonte, e o clima começava a esquentar. Mas não foi preciso esperar muito tempo para Heitor ver a fazenda Baccus, dos de Castro, surgir a algumas centenas de metros de onde estava.
Seu coração acelerou ao rever sua casa. Não sua casa, em que morava agora, mas sua casa mesmo, a casa em que tinha vivido mais da metade de sua vida, que foi consumida pelo fogo quatro anos atrás. Passaram em frente aos portões velhos e cobertos de plantas da antiga fazenda Graças de Santa Bárbara, a fazenda dos Outubro. Apertando sua vista, via a pequena pilha de destroços no meio do mato crescido. Heitor nunca, desde o incêndio, se atreveu a entrar naquele lugar de novo. Aquilo era seu passado, e ele preferia deixá-lo enterrado sob todas as cinzas e sob toda a poeira dos anos. Já não sentia vontade de chorar ao passar por ali, aqueles acontecimento endureceram seu coração ao sentimento, e Heitor jurara nunca mais se afeiçoar a ninguém, para não sentir a dor de perder ninguém de novo. Por isso ainda chamava o Senhor de Castro de “Senhor de Castro”, não de você, ou de pai, como imaginou que ia acabar acontecendo. Nem dava trela à Florença. Tinha a sensação que assim que se afeiçoasse a eles, os perderia.
Afastou todos seus pensamentos ruins ao atravessar a pequena ponte de madeira sobre o rio que separava as duas fazendas. Mesmo tentando evitar, ele sabia que amava todos eles. Era impossível não amá-los. Era incrível a sensação de voltar para casa.
A charrete parou e ele desceu, esbaforido. Agradeceu ao cocheiro e recolheu as malas. Aspirou o ar daquele lugar que era sua casa, embora não fosse seu lar.
Diferentemente da fazenda de seus pais, a do Senhor de Castro tinha sua casa-grande muito próxima da entrada, e por isso Heitor não precisou caminhar tanto para chegar até lá. A entrada da casa era muito bonita, em verde com várias flores nos parapeitos das janelas. Uma pequena escada levava até a porta, feita de madeira lustrosa e com vários desenhos em relevo.
Heitor subiu as escadas calmamente e deu três batidinhas na porta. Não demorou muito a porta se abriu e Heitor deu de cara com uma Maria muito surpresa.
– Si ’minino Heitor! Vosmecê já voltaste!
– Voltei, Maria! – Disse Heitor, dando um abraço apertado na escrava.
Heitor entrou na casa e deixou suas malas no chão.
– Maria, O Senhor de Castro está aí?
– Num está não sinhozinho. A única pessoa que está aí é a menina Florença. Sinhô de Castro saiu pra arresorvê uns negócios na cidade e só volta na hora do almoço.
– Ah... – Disse Heitor, triste. Florença não era exatamente a única pessoa que ele queria ficar ao lado no primeiro dia de volta pra casa. – Então vou subir por meu quarto.
– Vá mesmo. O almoço vai ficar pronto em duas horinha. – Disse dando um sorriso simpático
Heitor acenou com a cabeça e subiu para seu quarto. Ainda dormia no mesmo quarto desde que tinha chegado ali. Sempre ficava com vontade de perguntar ao Senhor de Castro quando ia ter seu próprio, afinal aquele quarto era de um dos filhos dele. Mas ficava constrangido pensando que ele podia interpretar como uma cobrança.
No meio do caminho, teve uma surpresa não muito agradável.
– Heitooooor. – Disse Florença, com seu sorriso “sedutor”.
Ela era praticamente a mesma coisa há vários anos, apenas um pouco mais alta e agora com espinhas no rosto. Seus cabelos alourados e seu corpo, que ela fazia questão de exibir às escondidas do pai para Heitor, deixavam o rapaz com repulsa, e nunca retornava as investidas dela.
– Ah, oi, Florença. – Respondeu, reservado.
Ele tentou abrir passagem, mas ela apoiou o braço na parede do corredor, interrompendo-o.
– Que foi? Não está com saudades de mim?
Heitor engoliu em seco e desviou o olhar do dela e das sardas alaranjadas dela, as quais achava horrorosas.
– Claro que sim, mas cheguei da viagem agora e queria descansar um pouco, se não se importa.
– Ah, querido, por mim tudo bem. Mas eu estava mor-ren-do de saudades de você. – Disse ela, passando a mão sobre o ombro do outro. Heitor afastou a mão dela, e ela abriu passagem, a contragosto.
– Volte para me ver. – Disse ela, enquanto ele passava. Heitor podia sentir ela engolindo-o com os olhos.
Em pouco tempo achou seu quarto, desfez as malas, tomou banho e deitou na cama. Estava morrendo de cansaço e merecia algumas horas de trégua da viagem. O rosto do rapaz do trem passou na sua cabeça durante um lapso de tempo, mas ele balançou a cabeça para afastar tal pensamento com o estranho e logo adormeceu.
Acordou com a voz de Maria do lado de fora do quarto.
– Sinhozinho, o almoço já tá servido! – Disse, e sua voz saiu abafada através da porta.
– Ahn?... Ah! Já estou indo! – Respondeu Heitor, se levantando apressadamente.
Vestiu as calças apressadamente, pois estava apenas com ceroulas. Pôs a camisa e desceu rapidamente.
Estava tenso para não encontrar Florença no caminho, mas ela não apareceu. O estômago de Heitor já dava sinais de vida e ele apressou o passo. No corredor anterior à sala, ouviu vozes. Ele esperava descer e encontrar o Senhor de Castro já em casa, mas existiam muito mais vozes do que apenas a dele e de Florença. Se aproximou mais e notou três vozes diferentes. Reclamou mentalmente, pois provavelmente eram os amigos do Senhor de Castro, os senhores de escravos. Heitor odiava eles, pois eram cruéis e antipáticos, muito diferentes do Senhor de Castro. Mas não ia deixar de almoçar por causa deles.
Adentrou a sala e viu a pequena multidão. Avistou Florença abraçada a uma outra mulher, mais velha. O Senhor de Castro estava lá, também, conversando animadamente com outros dois rapazes virados de costas para Heitor. Estavam os cinco em uma pequena roda, conversando bem alto.
Heitor se aproximou e o Senhor de Castro percebeu sua presença. Veio andando animadamente até ele e abraçou-o.
– Heitor! Meu rapaz! Como foi de viagem?
– Muito bem. – Disse Heitor, com um sorriso agradecido.
– Isso é maravilhoso. Agora venha, deixe-me apresentar você aos meus filhos.
Então era isso! O coração de Heitor se precipitou, tinha muito medo do dia que conheceria os outros filhos do Senhor de Castro, pois não queria ser mal interpretado por eles. Iria fazer questão de dizê-los que não tinha intenção de tomar o pai deles. O Senhor de Castro levou-o até o grupo com a mão no ombro de Heitor. Apresentou-o primeiro ao rapaz que parecia ser o mais velho.
– Heitor, esse aqui é o Giancarlo, meu filho mais velho. Giancarlo, Heitor.
O rapaz, que tinha os cabelos loiros e curtos, esticou a mão para cumprimentá-lo.
– Oi rapaz, tudo bom?
Heitor afirmou que sim com a cabeça, mas sua atenção logo se voltou para o outro rapaz.
– E esse é Marcello, meu segundo filho. – Disse o Senhor de Castro, animado.
A mente de Heitor demorou para assimilar a imagem. Seu coração batia enlouquecidamente. Quase não teve forças para conseguir esticar a mão e cumprimentar o estranho do trem.
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