Fogo
14 Capítulo 12
Notas iniciais
O sol amanheceu com sua essência tão tranquila quanto a da alma dos dois amantes.
Heitor acordou com um barulho de algo batendo. Ao olhar para a janela vê um passarinho se batendo na janela, tentando sair. Ele se levanta e abre a janela para que ele possa escapar para sua vida.
– Boa sorte amiguinho. – Disse, quase numa prece.
Ao olhar pra trás ele percebeu uma forma mexer-se nas cobertas. Um sorriso escapa de seus lábios ao lembrar-se da noite anterior.
– H-Heitor? – Disse Marcello.
Heitor se aproximou novamente da cama, jogando-se sobre ele e dando-lhe um beijo intenso.
– Bom dia, meu príncipe. – Falou Heitor, fazendo carinho nos cabelos loiros do outro.
– Príncipe? Haha.
– Melhor levantar. Tivemos sorte de ninguém vir aqui, melhor não abusar.
– Hun... tá bom.
Em pouco tempo já estavam novamente de pé, descendo as escadas para o café-da-manhã.
– Papai! – Gritou Florença.
O Senhor de Castro parecia exausto, mas Florença não dava sinais de ter dormido apenas quatro horas e nem do acontecimento com Heitor no dia anterior.
– Minha filha querida – Disse, respirando profundamente. – Fique calma, nós vamos sair daqui a pouco para comprar seu presente. Termine de comer, pelo menos.
– Isso não é justo! Vocês não me deram meu presente ontem e ainda me fazem esperar mais! Não é justo, não é justo, não é justo!
Isabella, a Senhora de Castro, parecia prestes a explodir, e se tinha uma pessoa paciente com a filha, essa era ela.
– Mia bambina querida, você pode falar um pouco mais baixo? Minha cabeça ainda dói por causa da agitação de ontem.
Heitor e Marcello entraram na sala no mesmo momento em que Florença terminava de jogar goela abaixo sua comida para ir comprar logo o seu presente.
– Terminei! Vamos agora! – Disse, batendo o pé no chão.
Obviamente contra a sua própria vontade, o Senhor de Castro levantou-se, o rosto vermelho de nervosismo.
– Tá, tá vamos logo.
– Querido, em espere, estou terminando de comer, já estou indo.
Giancarlo assistia tudo em seu lugar, com uma cara de “Meu Deus, eu realmente sou irmão dessa coisa?”, que era praticamente a mesma expressão de Marcello.
Os dois sentaram-se à mesa, e Isabella levantou-se.
– Desculpem não fazer companhia, mas sabem como é, não? – Disse, apontando discretamente para Florença. – Marcello, meu querido, eu, seu pai e sua irmã voltaremos à noite. Vamos almoçar fora mesmo. Se cuide, tudo bem?
– Tudo, mãe. – Disse, dando um sorriso e recebendo um afago da mãe em seus cabelos.
Quando pareciam ter todos já saído, o Senhor de Castro entra novamente dentro da sala, indo em direção á Heitor.
– Ah, meu rapaz, antes que eu me esqueça, aqui estão botinas novas que eu comprei pra você. – Disse, mostrando o par novinho de sapatos. As que Heitor usava estavam de fato bem velhas, mas ele não se importava, mal tinha notado.
– P-puxa, Senhor de Castro, não precisava.
– Ahhh, claro que precisava. E só não entreguei antes por causa de... você sabe... Florença podia ficar com ciúmes. – Disse, dando um sorriso envergonhado.
Mas o Senhor de Castro estava enganado. Por estar de costas não percebeu a ira subir à face de Giancarlo ante aquela cena. Ele até parou de comer, estarrecido com o que via.
– Então obrigado. – Disse Heitor, tentando evitar o olhar de Giancarlo.
O Senhor de Castro finalmente deixou o recinto, e o silêncio reinou durante o resto do café-da-manhã, uma estranha rivalidade pesando no olhar de Giancarlo.
O resto do dia correu sem mais obstáculos.
Uma hora antes do pôr do sol Heitor e Marcello estavam na jabuticabeira, conversando, isso por insistência do segundo.
– Então... o que Florença te fez mesmo? – Perguntou Marcello.
O coração de Heitor doeu ao pensar na noite anterior, calmamente contou tudo a Marcello, que o ouviu com ouvidos atentos.
– Meu Deus, não pensei que ela fosse capaz de tanto. Quer dizer, eu tinha ouvido ela ameaçar que você seria dela há algum tempo, mas... te atacar, isso é horrível.
Heitor quedou pensativo, ele dizer que tinha ouvido Florença ameaçá-lo aquele dia fez sua curiosidade despertar.
– Hunn, Marcello, posso perguntar uma coisa?
– Claro.
– Há quanto tempo você gosta de mim?
Marcello deu um sorriso, e pôs o dedo no queixo, como quando se está pensando. Logo depois levantou-se do galho em que estava sentado e sentou-se no mesmo em que Heitor estava.
– Meu amor – Disse, beijando-lhe as mãos. – desde a primeira vez que te vi, naquele trem, eu soube que queria passar minha inteira vida ao seu lado.
Heitor corou, não imaginava que Marcello tinha gostado dele desde aquele momento. Marcello puxou-o pela nuca, unindo seus lábios em um beijo apaixonado e demorado.
– No trem eu também tinha sentido algo ao te ver, mas eu não entendia o que era. Pra mim ainda era estranho sentir amor por um... homem. – Disse Heitor.
Marcello sorriu pra ele, entendendo o que ele queria dizer. Marcello havia descoberto relativamente cedo que gostava de homens. Na escola sempre andava mais com as meninas, e gostava de vê-las comentar sobre os meninos bonitos, pois era exatamente o que ele sentia, somente não tinha coragem de dizer, pois foi criado pra ser homem, e não era nem um pouco afeminado, assim como Heitor.
Ficaram ali, abraçados, e Heitor subitamente começou a chorar.
– D-desculpe, é que eu... foi nessa árvore que eu vi a fazenda pegar fogo... e também onde seu pai disse que eu poderia ficar nessa casa, e tantas outras coisas. Ela me deixa meio... emotivo. – E deu um sorrisinho triste.
Marcello assentiu, beijando-lhe a testa.
– E onde nos beijamos. – E beijou Heitor novamente.
Ficaram ali mais alguns minutos, apenas sentindo o contato um do outro, como se nunca fosse ser suficiente.
– Hunn, acho que vou ler alguma coisa. – Anunciou Marcello.
– É, eu estava pensando em pegar algumas uvas, já que o dia está meio frio e elas devem estar boas.
– Vá lá, eu vou ver se acho algum livro ou algo assim, te encontro aqui daqui a uma hora?
– Tá bom. – Disse Heitor, descendo da árvore.
Os últimos raios de Sol banhavam a fazenda em cor laranja, e Heitor achava aquilo fascinante.
Caminhava entre uma das seções da plantação, uns quinhentos metros dentro dela. Dali mal podia ver qualquer coisa que não fossem as próprias uvas. A casa-grande, as senzalas, tudo se misturava ao horizonte, a fazenda era realmente grande.
Heitor estava com uma cesta na mão, catando as uvas boas e pondo-as nela, e chupando algumas outras logo. Tentava se apressar. Não haviam mais escravos trabalhando ali àquela hora, e consequentemente não haviam capitães-do-mato que fizessem a segurança do local.
Assim que viu que o cesto estava cheio o suficiente virou-se para retornar à casa-grande, encontrar Marcello na jabuticabeira, mas foi surpreendido por um soco no queixo que o fez cair com tudo no chão.
– Não é tão queridinho agora, não é? – Giancarlo estava à sua frente, com o punho fechado. – Vamos ver se vai ser a mocinha do meu irmão depois da lição que vou te dar.
Heitor chocou-se com as palavras ele. Ele havia descoberto sobre ele e Marcello, mas Heitor não pôde processar a informação durante muito tempo, pois recebeu um chute fortíssimo na barriga que fê-lo contorcer-se.
– Então, não esperava que eu soubesse que você está se esfregando com o maricas do meu irmão, não é? Haha. Espere só a mamãe saber disso. Vocês dois ali, se beijando como dois amantes na jabuticabeira. Que nojo! – E deu mais um chute em Heitor, que não conseguia respirar direito.
Levantou-o pela gola da camisa, apenas para dar-lhe mais um murro no olho, e Heitor caiu novamente no chão de terra.
Giancarlo o chutava a todo momento, com uma fúria assassina nos olhos. Quando Heitor estava mole no chão, ele tirou os sapatos dele e levantou-os.
– A princesa gostou dos sapatos que o papai deu foi? Por que não os prova melhor? – E enfiou os sapatos de Heitor no rosto dele, sujando-o todo de terra.
– Haha, espero que meu irmão venha ver a mulherzinha dele logo. – E deu mais um chute. – Não morra pra eu poder repetir a dose outra hora.
Heitor não percebeu quando ele foi embora. Estava deitado na terra, quase inconsciente, mal respirava. Sua visão estava turva, e as lágrimas escorriam sem ele nem se dar conta. Como podiam achar que ele queria tomar o pai dos outros? Mais do que ninguém Heitor sabia como era perder um pai, e não desejava isso pra ninguém. E agora Giancarlo também sabia de sua relação com Marcello. Ao imaginar Marcello recebendo alguma punição de seus pais, seu coração doeu profundamente. O outro iria sofrer por sua causa, iriam tomá-lo dele. O choro de Heitor tornou-se compulsivo. Não encontrava forças, nem força de vontade para levantar-se. Estava tudo acabado. Tentou se mexer, mas sua barriga lançou uma onda de dor por todo seu corpo, dificultando sua respiração. Depois de um tempo que não soube medir, acabou por ficar de quatro, tentando se equilibrar, sentindo a terra entre seus dedos. Sua visão prejudicada pelo soco e pelas lágrimas não o permitia divisar as coisas. Ao se concentrar acabou por enxergar o cesto que carregava. Grande parte das uvas tinha caído pra fora, mas isso não importava, agora ele tinha um plano. Iria tentar chegar à casa-grande, avisar Marcello do que aconteceu e juntos iriam embora dali. Talvez pudessem ter uma vida juntos, bem longe, onde poderiam se amar sem nenhuma proibição, sem nenhum medo.
Com uma força sobre-humana para suas condições conseguiu se levantar, e sua visão girou. Tentou manter o foco. Deu o primeiro passo, sua barriga reclamou. Aos poucos foi andando, e começou a sentir-se melhor. Heitor olhou pra trás, sua visão meio turva. Além do cesto, ele não conseguia definir uma coisa. Seria sua imaginação pregando peças? Mesmo deitado ele tinha a impressão de que o sol ainda não tinha se posto, mas ao olhar na direção de onde estava, o céu completamente escuro. Devia ter recebido uma pancada bem forte na cabeça, mas mesmo assim, algo estava estranho. Mesmo que fosse o sol, a luz que vinha da direção da casa-grande não era firme, contínua, ela bruxuleava, se mexia. De repente então Heitor viu sua vida ir por água abaixo. Apertou os olhos, apenas para ter certeza do que iria ver em seguida. Custou a abri-los, a realidade era cruel demais para que merecesse ser enxergada. Todas as visões de sua infância retornaram em turbilhão. Mas mesmo assim abriu os olhos, e pela primeira vez pôde divisar com mais clareza a luz alaranjada que vinha da direção da casa.
E como um demônio que acompanhava a luz, a coluna monstruosa de fumaça erguia-se centenas de metros em direção ao céu.
Fale com o autor