Focas
1 Capítulo 1
A primeira vez que eu o vi daquele jeito, achei que estivesse pensando em se matar.
Outono na Cornualha. As poucas plantas agarradas àquele enorme rochedo pareciam cabelos de algum animal mítico, chicoteados pelo vento. Eu tinha deixado o carro na estrada e segui a pé até a praia; alguns albatrozes se divertiam, se deixando levar pelo vendaval. Sharona não entendeu por quê eu queria vir aqui essa época do ano, com o tempo tão horrível — e ela tem razão, pois eu não sou um albatroz ou uma planta, meus dentes batem com o frio e às vezes tenho medo que o vento me leve...
Me lembro do meu primeiro acampamento de verão — eu, Coz, Andy e Ed. Ou melhor, eu e Andy, pois Colin só aparecia para me proteger sei lá de onde quando eu não precisava, enquanto nós dois resolvemos brincar de legionários ou algo assim. Me distraí com uma lebre, me perdi deles e só fui achado no dia seguinte. Choveu muito à noite e nunca me sentira tão pequeno antes.
Até agora, sobre esse rochedo, no dia de meu aniversário.
Eu disse a ela que precisava ficar um pouco só, não conseguia me concentrar nas tarefas de casa, não conseguia compor. Sentia falta da banda, dos ensaios, mas ao mesmo tempo estava perdido e sozinho. Disse a ela que estava cansado pela última turnê, mas era óbvio que ela não acreditaria.
'Sua última turnê acabou faz três meses, Jonathan.'
Mas o mundo ainda pesa em meus ossos, e a cada passo ele cresce, as casas, as pessoas, as coisas com seus olhos famintos por minha alma. Estou velho, quero paz.
Nem percebi quando cheguei à beira-mar. Meu corpo inteiro tremia de frio e comecei a querer voltar para casa — mas Sharona e as crianças não estavam lá, tinham ido visitar minha mãe, lembrei. Os próprios albatrozes tinham se recolhido e as ondas quebravam violentas sobre as rochas, suas lágrimas geladas dilacerando meu rosto, o céu branco de energia e triunfo.
Esse era o triunfo da natureza, o triunfo da música; minha insignificância deixou de ser um fardo e tornou-se uma dádiva. Aqui eu era a água, a pedra, o chão, o vento. Ninguém sabia meu nome, minha voz; e cada gota de tempo era puro som, dissolvendo-se em minha pele conforme eu ouvia; eu era nada e tudo ao mesmo tempo, eu era a música do mar.
Eu era...
...um banhista no meio da tempestade.
Logo acordei de meu fluxo de pensamentos. Havia alguém se banhando, já longe da praia; não vi sinais de roupas ou algo assim por perto, e, pelo tamanho, parecia ser uma criança. E como não seria, quem mais teria essa ideia com o tempo nessas condições?
Assustado, tirei o casaco, a calça e os sapatos e comecei a entrar na água. Na falta de um salva-vidas, ou eu tirava essa criança de lá ou morreríamos os dois. Nem tinha saído da praia ainda e as ondas já me tocavam os cabelos, de tão bravio que estava o mar.
'Ei! Você! Está tudo bem? É muito perigoso entrar na água com o tempo assim!'
Me aproximei um pouco, mas a criança não respondeu. De longe, parecia um menino.
'Vou até aí te buscar! Fique calmo!'
Calmo era o que eu não estava naquelas circunstâncias; a água gelada me fez pensar que ia morrer.
E foi quando já não sabia se conseguiria continuar nadando que ele se virou e sorriu.
'THOM!'
Dizem que, quando morremos, a imagem de alguém que amamos em vida vem nos buscar. Eu tinha morrido então? Por que ele estaria aqui, se arriscando dessa maneira, e justo hoje?
Justo hoje?
Lembrando de sua depressão, avancei mais e mais, já esquecendo um pouco a temperatura da água. Na verdade o mar parecia mais morno agora, provavelmente devido ao movimento dos animais em frente...
Focas.
Dez, quinze, talvez vinte focas mansas como cachorrinhos; uma delas quis me morder e me defendi; depois vi que poderia usar seu corpo como apoio para chegar mais perto. Exatamente o que Thom estava fazendo — na verdade, ele estava em pé nas costas de uma foca, brincando com as outras como se estivesse em um parque num dia ensolarado.
'Thom, seu louco, você quer morrer?!'
Ele riu, mas não era sua gargalhada normal — era algo mais contido, mais cansado, mais velho. Mau sinal.
'Thomas, pelo amor de Deus, você bebeu ou o quê? Vamos sair daqui, vem, te levo comigo.'
Mas ele não parecia nem um pouco bêbado, e eu sei que não deveria mas isso me assustou ainda mais. E tinha as malditas focas nos rodeando, várias e várias e várias, caudas e nadadeiras e bigodes em lugares inoportunos e
'Não, Jon-Jon, eu não quero morrer', ele disse com ar sereno.
'Você quer?'
Em qualquer outra ocasião eu não teria hesitado para responder, mas agora eu perdia o equilíbrio e começava a lutar para me manter acima da água, agora um pouco morna, e desviar das focas...
Eu não sabia o que fazer, e estava chorando. Eu estava em mar aberto, cercado de focas, prestes a me afogar e chorando.
'Shhh. Tudo bem. Vem cá.'
E ele me abraçou, nadando e nadando para dentro do oceano, minha cabeça já um pouco dolorida, o cortejo de focas, a água morna, as algas.
Thom.
Estávamos afundando, descendo e descendo e descendo, e abri os olhos para encontrar os dele. Seu cabelo — ou era o meu? — começava a me fazer cócegas no pescoço. Estávamos perto de uma rocha e eu estava respirando.
Ele apoiou meu rosto, me acariciando com os polegares, e me olhou nos olhos com ternura.
'Estamos mortos, Thom? Não estou entendendo.'
Thom sorriu, se afastando um pouco.
'Jonny. Jonny Jonny Jonny Jonny. Sempre tão racional, tão controlado, tão lógico! Você nunca vai entender nada desse jeito!'
E ele tinha razão. Se fosse um sonho, eu podia entender o que bem quisesse. Mas cada sensação era tão real que eu desejava não ter que acordar, viver para sempre no fundo do oceano, corais, algas, focas.
'Você não precisa', ele disse.
'O quê?'
'Não estamos tão fundo assim.'
Me irritava que ele estivesse tão paciente de uma hora para outra. Me irritava que estivéssemos os dois abraçados, que mesmo debaixo d'água eu conseguisse respirar, sentir o cheiro de sua pele, suas mãos traçando minha coluna. Me irritavam o oceano profundo, o fundo do mar, e seus olhos...
'Seus olhos, Thom, me deixam...'
Mas eu não terminei a frase. Não com palavras, pelo menos. Eu era um adolescente e Thom era meu deus. Quando finalmente nos beijamos, eram meus lábios de quinze anos atrás, de quando eu não dormia para não sonhar com ele e ter que acordar depois.
Depois de me reprimir durante tantos anos, estava com fome. Ele respondeu rápido, suas mãos frenéticas por todo o meu corpo, nossas línguas ferozes. Tomei o cuidado de dedicar um pouco de atenção à sua laringe, de onde saíam os sons que eu tanto amava; beijava seu pescoço, suas orelhas, sabendo que não teria outra chance. Lambi um de seus mamilos através de sua camisa, e nunca pensei que um gemido seu me agradaria tanto.
Thomas Edward Yorke, eu lhe seguirei por toda parte.
De repente ele me afastou um pouco de seu corpo, levantando meu queixo com o indicador.
'Jonny.'
'Por favor, Thom, por favor, eu espero há tantos anos...'
'Jonny, olhe para mim.'
Ele parecia mais jovem, como se seus olhos fossem maiores.
'Eu sei que você acha que isso é um sonho. Eu sei que você acha que vai esquecer depois. Mas eu não vou. Eu não vou, e quero que saiba que você é meu.'
'Sim, Thom, eu sei, eu sou completamente seu, eu só --'
'Você entendeu o que eu quis dizer', ele continuou, segurando minha mão sobre seu peito. 'Meu. Meu, só meu. Para sempre.'
Ele traçava círculos sobre seu coração, como se estivesse dando nós em uma linha imaginária.
'E sempre e sempre e sempre...'
Eu parei sua mão e disse que entendi, mas ele continuou.
'Estamos a metros da superfície; se fizermos qualquer coisa aqui, vamos morrer.'
Nunca uma afirmação tão óbvia foi tão frustrante.
'E você tem que voltar pra casa, porque sua esposa e seus filhos vão voltar também, e eles também vão morrer, e seus netos, e bisnetos...'
'O que deu em você, Thomas?!'
Ele me olhou sério, mas parecia um pouco triste.
'Volte para casa, Jon. Eu esperarei por você, e não adianta fugir de mim. Amor verdadeiro espera, lembra disso?'
Agora ele ria, mas eu podia ouvir suas lágrimas em cada riso. Tudo, tudo estava errado, mas tudo fazia sentido. Nossa amizade, nosso laço, meu desejo — nosso desejo. Eu seria um bom pai, um bom marido; eu sempre amei Thom, mas também amo minha família. Eu esperaria.
Sorrimos, e nos beijamos com mais calma; não haviam mais focas, e começava a escurecer.
'Vamos para casa', eu disse.
'Já estou em casa', ele respondeu casualmente. E estava; seus olhos, eles eram o mar.
'Feliz aniversário, Jon-Jon.'
Feliz.
Aniversário.
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Thom estava errado; eu lembro de cada toque, cada detalhe, até hoje. Uma noite, quando ele não estava sóbrio o suficiente, contei a ele tudo que acabo de contar aqui. Thom, é claro, não acreditou em uma palavra e riu até que eu ficasse vermelho. Disse que se eu queria levar ele pra cama não precisava de tanto esforço lírico. Depois ficou pensativo por alguns segundos, sussurrou que talvez — talvez— nós dois sejamos almas gêmeas e só ele não tenha descoberto ainda.
Isso aconteceu há exatamente um ano, e eu achei que ele fosse se matar. Não sei por que voltei à mesma praia hoje; ela apenas traz lembranças ruins. Não exatamente ruins — às vezes, antes de dormir, tento reconstruir cada momento desse sonho louco, mas tão real. E isso é o que dói mais — nunca conseguirei viver todas aquelas cenas.
O motivo de estar escrevendo isso agora? É quase meia-noite do dia cinco de novembro, a lua está cheia e a maré está alta. Bem depois da praia, vi uma foca se aproximando. Foi até a praia, ficou a alguns metros de distância, olhou o mar, se arrastou como uma foca normal.
Olhou para mim.
Seus olhos, Thom, ela tinha seus olhos.
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