Fly
1 Prólogo : I - Outside of You
Notas iniciais
Prólogo
Era um dia chuvoso. Duas crianças brincavam num quintal enlameado. Um de cabelos marrons um pouco rebeldes e outra de cabelos curtos e prateados.
A chuva não dava trégua, mas isso pouco importava para os dois pequenos que se divertiam como se aquele fosse o último dia de vida deles. Como se o amanhã dependesse daquilo.
Aquele não era o último dia da vida deles, de fato, mas era possivelmente o último dia em que se veriam.
- Porque ainda estamos de baixo da chuva? – perguntou o menino de cabelos marrons. – Vamos acabar pegando um resfriado!
O outro bufou e parou de correr. Virou-se para encarar o garoto de olhos azuis e de estatura menor que a sua. Ele suspirou.
- Ora Sora, você é muito lento! – gritou ele animadamente. – Assim você nunca vai conseguir ganhar de mim numa corrida, sabia?
- Poderíamos brincar lá dentro! – disse Sora arfando. – Riku, nós vamos acabar ficando resfriados se demorarmos demais debaixo da chuva.
Não demorou mais do que alguns minutos antes que uma mulher alta e esbelta, com cabelos longos e castanhos aparecesse na varanda do quintal, com duas toalhas na mão.
- Sora! Riku! – chamou ela. – Venham para dentro.
E sem questionar, os amigos seguiram até ela. Riku pegou uma toalha e secou os cabelos prateados, que estava brilhoso com as gotas d’água que ainda permaneciam nos fios.
- Riku, sua mãe daqui a pouco irá chegar. – comentou a mulher, que era mãe de Sora. – Não sei o que ela vai dizer quando vir você todo molhado.
- Não se preocupe tia Nadeshiko. – falou Riku sorridente.
- Acho que Sora não se importaria de emprestar algumas roupas secas, não é meu filho? – perguntou a mulher olhando para o filho docemente.
Sora apenas assentiu com um largo sorriso, e puxou o amigo para dentro de casa.
A casa não era algo grandioso. No andar de baixo havia uma cozinha simples, um pequeno quarto, a escada para o porão no corredor, e a enorme sala, onde se encontrava uma escada para o andar de cima. Os amigos apenas foram apressadamente para o quarto de Sora, que era a segunda porta à direita.
O lugar não era grande. Só havia a cama do menino, o guarda-roupa, uma mesa de cabeceira e uma escrivaninha, com várias fotos e desenhos espalhados pela superfície do móvel.
Sora abriu o guarda-roupa e tirou algumas peças, entregando-as para Riku. O menino de cabelos prateados apenas olhava a chuva bater na janela.
- Riku? – chamou Sora. – Porque olha tanto a chuva desse jeito?
- Jeito como? – perguntou ele arqueando uma sobrancelha.
- Tão concentrado. – respondeu Sora como se fosse algo óbvio. – Você, às vezes, fica tão pensativo e calado.
- Sei lá. – disse Riku em pouco caso. – Deve ser o meu jeito mesmo. – e ele abriu um sorriso outra vez. – Vou ao banheiro trocar de roupa.
Sora apenas assentiu e viu o amigo sair do quarto, deixando-o sozinho. Ele subiu em cima cama e ficou olhando a rua pela janela. As luzes dos postes começamavam a acender, indicando que a noite já estava dando início.
Voltou a olhar para o resto do quarto e se virou para o guarda-roupa e pegar algo seco para vestir.
Em poucos minutos, Riku voltara já todo seco e pegou Sora sentado na cadeira da escrivaninha, enquanto contemplava algo. O garoto se aproximou e viu o amigo olhando para uma foto recente que os dois tiraram juntos no quintal da casa de Riku, enquanto apostavam corrida pelo terreno.
- Amanhã você vai embora, né Riku? – perguntou Sora de repente.
O garoto de cabelos prateados se sentou na cama e olhava para o amigo de cabelos castanhos.
- Acho que sim. – comentou Riku em resposta. – Minha mãe disse que tudo está preparado para amanhã...
- Mas você quer ir embora?
A pergunta deixou Riku sobressaltado. Não sabia o que responder de fato. Pensou por mais alguns momentos, e nesse tempo, abria e fechava a boca, interrompendo qualquer coisa que pudesse falar.
- Eu não sei Sora. – respondeu ele por fim. – Se meus pais acham melhor assim, então eu acho que devo fazer isso por eles. – comentou num tom quase tristonho.
Sora pulou da cadeira e se sentou na cama ao lado do amigo. Ele pegou nas mãos de Riku inocentemente, encarando seus olhos esverdeados.
- Você é meu melhor amigo, Riku. – disse ele. – Meu melhor amigo para a vida toda. ¹
Riku nada respondera. Apenas ficava em silêncio.
A calma foi quebrada por um som de buzina vindo da rua. Os dois foram espiar pela janela e o carro da mãe de Riku estava estacionado.
- Acho que isso é uma despedida Sora.
E o garoto saiu do quarto do amigo, descendo as escadas lentamente enquanto sentia o corrimão pela última vez. Olhou para cima e encontrou Sora no topo da escada.
Ele nada fez. Apenas acenou para Riku, enquanto o via desaparecer de vista pela sala em direção à porta da frente.
Sora ficou parado por alguns instantes, até que ouvia uma batida de porta distante. Correu para o quarto em direção a janela. De joelhos na cama, o menino via o carro que levava o amigo embora.
Sora esperava que o visse algum dia, até se convencer de que ele jamais voltaria. Mas não podia prever o futuro e suas reviravoltas.
Capítulo 1 – Outside of You
Sora estava distraído mais uma vez na aula de história. O professor com certeza falava algo sobre a revolução francesa, porém, isso pouco interessava ao jovem, que rabiscava qualquer coisa em seu caderno.
Uma bolinha de papel o tirou do transe em que se encontrava. Olhou para o quadro e viu que o professor havia escrito algum esquema o absolutismo francês de Luís XVI. Voltou o olhar para o pedaço de papel amassado. Desamassou e leu o que se encontrava nele.
Presta atenção!
Ass: Kairi.
O rapaz bufou e amassou o papel mais uma vez, jogando-o de lado e voltando para os rabiscos no caderno. Na verdade, não era rabisco, eram algumas linhas que esboçava o cenário que via todos os dias pela janela da sala de aula.
Era um ótimo desenhista, e isso não poderia negar. Mas seu hobby era desenhar paisagens. Kairi amava seus desenhos, mas ultimamente ela havia andado estranha com relação a ele.
Os dois eram namorados há quase um ano. Ela era apenas uma novata em seu primeiro ano de colegial, que entrara um mês depois do início das aulas. Sora não hesitou em ajudá-la e ali começou uma amizade que virou namoro quase dois meses depois.
Kairi era uma pessoa legal, gentil, compreensiva e completamente amiga. Ele não havia o que esconder dela, mas ultimamente nem ele pôder negar que estava distraído sem motivo.
- Senhor Uematsu? – chamara o professor. Sora apenas levantou a cabeça para encará-lo. – Já que o senhor parece muito interessado no assunto, — e estreitou os olhos. – sabe qual foi o marco, e também início, da Revolução Francesa?
Sora parecia pensar por alguns segundos antes de responder.
- O início, e marco, e também o que alguns historiadores dizem ser o evento que tirou o mundo da Idade Moderna e levou para a Idade Contemporânea, mas isso é relativo, foi a tomada da Bastilha, que era o símbolo do absolutismo francês. Acertei senhor Hamada?
O professor estreitou os olhos e tentou não parecer furioso. Sempre era assim: Sora se distraía e Hamada o chamava e lhe perguntava algo. O rapaz respondia, e na maioria dos casos, corretamente e enfurecia o professor, que sempre queria arranjar alguma desculpa para fazer o garoto se dar mal.
- Correto senhor Uematsu. – disse Hamada fazendo pouco caso.
A aula continuou por mais quarenta minutos, antes de tocar para anunciar o fim das aulas do dia. Sora jogara as suas coisas de qualquer jeito na mochila e preparava para sair da sala com Kairi.
- Foi sorte sua ter acertado aquela pergunta! – disse a menina durante a caminhada pelos corredores.
- É... – falou Sora distraído. – Acho que ver aquele documentário sobre Revolução Francesa no The History Channel no final de semana valeu a pena. – e riu levemente.
E o casal continuou a andar para fora do colégio, e em seguida, pelas ruas do bairro. O silêncio predominava entre eles. Como de costume, eles foram à praça que havia perto da casa de Sora. Sentaram-se em um banco e o rapaz olhava fixamente para uma fonte próxima que havia.
- Sora? – chamou Kairi e ouviu apenas um ‘hmm?’ por parte dele. – Você anda muito distraído. Alguma coisa aconteceu?
- Ah, nada não Kairi. – respondeu o rapaz rapidamente ao ver a expressão preocupada da namorada. – Só estou um pouco cansado ultimamente. Essa maratona de aulas está me matando.
A garota não pôde deixar de rir com a careta que Sora fizera. Mas isso não aliviava em nada a sua preocupação. Ela continuava a fitar o rapaz, que apenas mantinha seu olhar distraído e fixo na fonte que havia.
Os olhos azuis e penetrantes do rapaz sempre a deixou curiosa sobre ele. Amava seus desenhos, pois parecia ter expressão, ganhava vida no papel e isso ela admirava. Mas ela sabia que aqueles olhos escondiam algo que ele procurava evitar. Tampouco ela insistia em saber.
Delicadamente, a menina pousou sua mão sobre a dele. O garoto em transe voltou a olhá-la com uma expressão de dúvida, na qual ela apenas respondera com um pequeno sorriso tímido e preocupado.
- Kairi? O que houve? Com esse olhar você me preocupa.
- Estou me sentindo tão afastada e longe de você, Sora. O que aconteceu conosco? – perguntava ela mais para si mesma do que para ele. – Sinto que estou ficando fora das coisas que se passa com você. Não era assim antes. Sempre dividíamos tudo...
- Kairi! – interrompeu o rapaz, dando uma pausa para ela respirar. – Não é nada. Não precisa ficar preocupada. É apenas bobagem.
A ruiva continuou a fitá-lo e o abraçou. Ele retribuiu e deu-lhe um beijo nos cabelos lisos.
- O que aconteceu na semana passada para você ficar assim? – perguntou ela ainda envolvida nos braços do namorado.
Ele não respondeu de imediato. Apenas ficara pensativo. Muita coisa acontecera nos últimos anos. Algumas rápidas, outras dolorosas, mas coisas que são naturais acontecer.
- É apenas bobagem Kairi. – respondeu ele, desfazendo o gesto e olhando nos olhos da ruiva. – Por favor, eu não quero comentar agora, ok?
Ela assentiu e ele sorriu, ficando agradecido por ela respeitá-lo. E era isso que o rapaz amava na namorada. Ela nunca fora exigente. Sempre compreensíva e isso ele admirava.
Ela sorriu em seguida e os dois se beijaram calorosamente.
- Vamos! – chamou ele quando voltaram a se olhar. – Vou te levar para casa.
Eles se levantaram e continuaram a andar por algumas ruas. Kairi morava duas ruas antes de Sora, o que sempre fazia com que ele a deixasse em casa.
Ela o beijou mais uma vez, antes de entrar em casa. E com um aceno, ela fechava a porta da frente, deixando Sora sozinho, que vagava pelas ruas fazendo o caminho até em casa.
A casa estava vazia quando chegou. O rapaz subtendera que os pais ainda estavam trabalhando. Tirou o tênis e foi até a cozinha pegar algo para comer. Subiu as escadas até o seu quarto e jogou as coisas na cama.
Andara até a escrivaninha e vira que a folha de papel ofício A4 ainda estava do mesmo modo como ele a deixou no dia anterior, quando perdeu a inspiração para desenhar algo novo. Lembrou da fonte na praça e se sentou, pegando alguns lápis e borrachas para tal.
Algumas horas depois, os pais de Sora chegaram a casa. Ele parou o desenho, que estava com a fonte e alguns detalhes da praça em traços simples e finos no papel, e desceu para cumprimentar os pais.
A mãe de Sora já se encontrava um pouco mais velha, mas ainda mantinha o sorriso e a expressão delicada de sempre, com os cabelos castanhos e alguns fios brancos caindo sobre o ombro. O pai de Sora tinha cabelos escuros e rebeldes, não tanto quanto o do filho, mas o menino pelo menos fazia ideia de onde vinha a rebeldia inexplicável de seus cabelos.
- Filho! – disse Nadeshiko calorosamente. – Esperava que fosse sair com Kairi hoje.
- Err... Oi mãe. – começou ele. – Na verdade, ela estava um pouco cansada, e preferi levá-la para casa.
- Não se preocupe Nadeshiko. – começou o pai do rapaz. – Pelo menos eles estão bem.
- Realmente. Mas já que o meu querido Sora irá jantar em casa hoje, eu farei o prato favorito dele. – comentou a mãe do garoto.
- Mas e o meu prato favorito? – contestou o pai dele em indignação.
- Ora Kouji, amanhã eu faço. – disse ela com uma careta brincalhona para o pai.
Sora já sabia no que aquilo terminaria. Sorriu para os pais e voltou para o quarto.
Minutos depois voltara para a sala e jantou com a família. E como sempre, havia aquelas conversas diárias sobre como havia sido o dia de cada um. E Sora concluiu que nada houvera de interessante naquele dia.
Cumprimentou o pai e deu um beijo na testa da mãe e subiu para o quarto mais uma vez. Tomou um banho e vestiu o pijama, mas não iria dormir agora. Voltou para o desenho.
Quando achou que os traços estavam aceitáveis, ele bocejou e olhou para o relógio. Já eram quase onze horas. Espriguiçou-se e preparou a cama para dormir. Voltou para a escrivaninha e antes de apagar o abajur, ele olhara o porta-retrato ao lado de seu material de desenho.
Na foto, havia o rapaz quando era criança, e ao seu lado, com um largo sorriso, um menino de cabelos prateados e olhos esverdeados. Ambos estavam com as roupas sujas sobre um galho baixo de uma árvore, e pareciam se divertir ao máximo.
- Faz nove anos, né Riku? – comentou Sora baixinho consigo.
Sorriu involuntariamente e apagou o abajur. Voltou para a sua cama e logo caiu num sono.
No outro dia, tudo parecia normal. Porém, o rapaz se atrasara dessa vez. Arrumou-se rapidamente, despediu-se dos pais e saiu correndo de casa. Algumas ruas à frente, ele via que Kairi o esperava.
Quando alcançou a jovem, ela abriu um sorriso e fazia esforço para não rir da situação do rapaz. Ele se apressava em um pedido de perdão pelo atraso, mas fora interrompido pela namorada, que apenas não ligava para a situação.
O casal fez a caminhada matinal até a escola. Mas havia algo diferente nela naquele dia. Um dos corredores, que dava para o pátio, estava agitado e muitas garotas em volta faziam um enorme alvoroço.
- O que será que deu nelas? – perguntou Sora tentando não ter medo daquela histeria toda.
- Deve ser alguma coisa de “garota”. – disse Kairi revirando os olhos. – Mas logo as aulas vão começar e isso deve acalmar aquela histeria.
Ele assentiu e continuou andando até a sala de aula.
Minutos depois, o sinal que anunciava o início das aulas naquele dia soou, e todos se sentaram enquanto a professora Yamashita, de literatura, entrava na sala de aula.
Sora adorava aquela professora, enquanto muitos a odiava. Ela sabia bastante sobre várias coisas, e também dera muito incentivo aos desenhos de Sora no ano letivo anterior, o que fazia o rapaz admirá-la ainda mais.
- Bom dia queridos. – cumprimentou ela com um sorriso. – Creio que hoje temos um novo aluno nesta turma.
- E de volta a época dos deslocados. – comentou Sora baixinho para Kairi, que sentava atrás dele.
- Você me conheceu assim. – disse ela rindo.
- É, eu sei...
- Classe, eu espero que vocês recebam muito bem nosso novo aluno. – continuou a professora Yamashita. – Pode entrar. – e acenou para o novato.
O rapaz era alto, de pele clara. Não parecia nervoso e esboçava um sorriso na face. Seus olhos tinham um tom esverdeado e seus cabelos prateados caiam sobre o ombro do rapaz. Algumas garotas pareciam dar suspiros ou gritinhos histéricos enquanto o rapaz entrava na sala.
- Turma, eu lhes apresento...
- Riku Ishiyama?! – disse Sora surpreso ao ver o amigo de infância em sua sala de aula.
Fale com o autor