– Eles já estão aqui, Juliette. – Amaya me diz, com um grande sorriso no rosto.

– Todos eles? – Pergunto, ansiosa e amedrontada.

– Sim, pelo que O Grande Comandante disse antes de se agrupar com seus amigos.

Olho-a e não vejo um traço de emoção em seu rosto. Ela está calma.

– E o seus amigos, eles estão aqui?

– Sim, eles estão espalhados pelo setor, prontos para qualquer parada. A questão é se você está – ela diz, com uma sobrancelha erguida.

Estou preparada. Pensei muito durante esta semana. Quero que meu filho – ou filha, como tanto insistem Aaron e Kenji – cresça em um lugar seguro. E sou eu quem deve torná-lo um bom local para se viver. E tudo depende desta reunião.

– Estou preparada, Amaya. Até coloquei um vestido, assim como você me recomendou.

– E é um belo vestido, realmente. O comandante tem um ótimo gosto. – Ela me observa, vendo como o vestido longo e tomara que caia se ajustava a meu corpo. Ele é verde, de um tom esmeralda. Da cor dos olhos de Aaron.

– É claro que ele tem um bom gosto, Amaya. Ele é meu... – Paro, pensando na palavra para usar. Ele é meu... o quê? Eu o amo, e sei que ele me ama também. Mas com um filho a caminho, não estabelecemos nenhum título ainda. Acredito que ele já passou do estágio de namorado. O próximo estágio seria um noivo.

Balanço a cabeça, querendo recuperar a linha do pensamento. Agora não é hora de pensar nisso.

– Ele é seu, Juliette Ferrars. E isso já é o suficiente. – Ela diz, com um sorriso de lado. – Você é uma grande sortuda. Não se acha um homem como ele facilmente – ela continua, enquanto abre a porta e me guia até onde estão todos.

– Já te apresentei o Kenji, Amaya. – Ela ri alto. – É sério. Porque você está rindo disso?

Amaya continua a rir, sempre andando, e responde – Porque é engraçado, Juliette Ferrars. Não sei o que te fez pensar que posso ter algo com o homem invisível, mas isso não é algo que eu queira discutir agora. – Ela para, chegando até a porta.

Lembro-me da assembleia que Aaron convocou há apenas algumas semanas. Desta vez, será um pouco diferente. Estaremos dispostos em uma grande mesa, em trajes formais, aparentando uma falsa civilidade.

Mas sabemos que todos querem minha cabeça ali. Porém, todos sabem que sou forte. Muito forte.

Minha cabeça não estará tão acessível assim, felizmente.

Olho para Amaya. Ela olha para mim.

– Você não está sozinha, Juliette. Você tem muita gente ao seu lado. Você é a líder da nossa causa. Você é a versão feminina com cabelo e sem cadeira de rodas do professor Charles Xavier. – Amaya pausa, contendo a animação. – E estamos com você nessa.

Sorrio e respiro fundo.

É agora.

Aceno para a Amaya com a cabeça.

E ela abre a porta.

Warner’s pov

Já estou posicionado e invisível com nosso grupo quando a vejo entrar.

Ela está deslumbrante.

Seu sorriso é quase tão angelical quanto diabólico. Seu cabelo está solto em volta de seus ombros, chegando até o vestido tomara que caia verde, que deixa seu olhar mais vibrante.

Ela anda calmamente, sem nunca deixar de sorrir. Amaya está em seu encalço, apenas a dois passos de distância. Sua roupa é toda preta e não tem nenhuma arma aparente, mas sei que ela as carrega em algum lugar. Ela está séria, atenta. E sinto-me mais tranquilo. Sei que a Juliette está segura a seu lado.

Indo até a cadeira vaga na ponta da mesa, Juliette não parece se abalar com a quantidade de líderes presentes. Vejo a emoção deles, e há uma combinação de medo e raiva entre eles. Alguns têm respeito e até admiração transparecendo.

Isso pode mesmo dar certo.

Amaya parece ouvir meus pensamentos, porque ela olha diretamente para mim. E apesar de eu não saber como ela sabe onde estou, ela pisca o olho esquerdo.

Eu riria se não estivesse tão tenso.

Juliette chega até sua cadeira e apoia as mãos no encosto. Ela olha um por um na mesa, dando algum tipo de aviso com o olhar. E o sorriso dela faz tremer até a mim. Mas não por medo dela. E sim medo por ela. Por minha filha.

– Boa tarde, senhores – Juliette diz, antes de sentar em sua cadeira, cruzando os tornozelos elegantemente. Sua cabeça está erguida e suas costas eretas. Ela cruza as mãos em seu colo, e vejo o que ela quer transmitir a todos aqueles homens a sua frente: poder e grandeza; há um brilho de desafio em seus modos. Vejo e experimento tudo o que ela quer passar a eles. E ela passa, com sucesso. – Espero que a viagem até aqui tenha sido agradável.

Há um suspiro frustrado de um dos governantes. – Seria mais agradável se fossemos direto ao ponto, senhorita... – ele para, dizendo o resto com uma dose carregada de desprezo – Ferrars.

Juliette sorri e levanta uma sobrancelha. – E qual é o ponto do qual o senhor trata?

Olho-a confuso. Ela está deixando-o mais irritado.

– O ponto em que você e seu povo anormal nos ameaça e nos força a uma união – ele diz secamente.

Arregalando os olhos, Juliette responde – Eu nunca forçaria vocês a nada, nem agora e nem em uma possível união. Retirarei todo o militarismo do governo. Este é o mal que nos cerca.

– E como você pretende fazer isso? – Pergunta um rapaz. Olho-o e o reconheço. É o Artur, do Setor 23. Minhas lembranças dele são boas.

– Com democracia – Juliette sorri amigavelmente para ele, talvez vendo-o como um possível aliado. – Os cidadãos votarão em um representante para eles. Para defender os seus direitos e escolhas.

– E você será a tal representante? – Pergunta o mesmo homem de antes, carregado de ironia.

Juliette olha para ele, interessada. – Se o povo assim quiser, senhor...?

– Melbourne. – Ele completa, azedo.

– Melbourne, – Juliette sorri ao dizer – você também pode concorrer à presidência do seu setor.

– Não precisarei, já que não chegaremos a um acordo.

Ela apenas olha para ele, parecendo triste. – É uma pena, mas sei que conseguiremos chegar a um acordo, Melbourne.

Ele ri. Olha para ela. E diz – Não dá para fazer acordos com pessoas mortas.

E vários homens se levantam da mesa, todos armados.

Juliette’s pov

Faço contato visual com Amaya. Ela está pronta.

Conto quantos homes estão vindo até nós. Uns sete, talvez.

Melbourne vem na frente de todos. Levanto da cadeira e o derrubo facilmente. Seguro-o com uma chave de braço enquanto observo Amaya agir.

Ela é incrível. Com apenas as mãos, ela derruba os homens que chegam até ela. Seus golpes são diversificados e não leva muito tempo para que todos os infratores estejam no chão, gemendo de dor. Ela volta até mim, com um sorriso no rosto.

Então, tudo está de acordo com o planejado.

Solto o pescoço de Melbourne e ele apoia as mãos nos joelhos, tentando recuperar a respiração.

Volto calmamente para minha cadeira e observo os homens que restaram. Eles estão assustados com a ferocidade de Amaya. Tenho vontade de rir.

Foi exatamente como ela me disse pouco antes de entrarmos. “Podemos dar uma demonstraçãozinha a eles, Juliette Ferrars. Deixá-los se borrando de medo e querendo implorar uma união com você.”

E aqui estamos. Eis nossa demonstração.

Não posso deixar de sorrir.

Melbourne parece derrotado, e diz – Perdoe-me. Eu não sei... o que... estava fazendo – E tira uma arma de seu terno, apontando para mim.

Que previsível.

Amaya chega atrás dele e aponta uma metralhadora para sua cabeça e diz – Sei que esta é a única coisa que ainda sobe no seu corpo, meu caro, mas abaixe isto agora. – Sua voz soa ameaçadora até para mim.

Alguns segundos tensos se passam, até que ele abaixa a arma e a joga no chão. Amaya anda e a chuta para longe, ficando de frente com Melbourne. Ela sorri genuinamente para ele, parecendo outra pessoa. Até que dá uma joelhada... lá. Ele cai no chão com um baque, e ela apenas o olha e comenta – Agora sim essa coisa está morta. E é tão triste para você, já que não dá para fazer acordos com mortos.

Amaya vem até mim e sorri. Não sou sortuda só por ter Aaron. Sou sortuda por tê-la também.

Olho para todos os que ainda estão sentados. Respiro fundo e digo – Bem, alguém se opõe a um tratado entre setores?

Ninguém diz nada. Nem se levanta.

Quero dançar em volta desta mesa. Quero rir dos homens que me desafiaram.

Foi até fácil demais.

Passaram-se horas até que tudo fosse passado para um papel. Todas as condições e regras. Todas as assinaturas de todos os setores, até aqueles que tentaram me derrotar. Quando todos foram embora e Kenji deixou de ser invisível, vi todos os meus amigos sorridentes. Até mesmo Adam estava feliz, abraçando a Alia.

E Aaron. Meu Aaron. Ele sorria tanto que eu podia jurar que logo ele teria uma câimbra nas bochechas. Abraço-o tão forte que tenho medo de machucá-lo.

– Obrigado, amor.

– Por que você está me agradecendo? – Digo, curiosa.

– Por ter dado um futuro para todas as pessoas deste mundo.

Olho-o e vejo a emoção nos seus olhos. – Fui egoísta, Aaron. Não pensei muito no mundo. Pensei exclusivamente em nossa filha.

Ele arregala os olhos e sorri. – Filha?

Rio em seu peito. – Seria ótimo ter uma filha com você, Aaron.

– Seria ótimo ter qualquer coisa com ele, Juliette Ferrars. Um filho, um cachorro, um caso – Amaya diz, piscando um olho para ele.

– Sorte sua que gosto muito de você para ter ciúme – aviso-lhe.

– Você foi inacreditável hoje, Amaya. – Aaron diz, elogiando-a.

– Ai meu Deus. O comandante acabou de me elogiar. Acho que estou apaixonada. – Ela fala, piscando rapidamente e com a mão no peito.

– Vocês duas foram inacreditáveis hoje – ele completa. – E serei eternamente grato. Nossa filha poderá crescer adequadamente, ir para escola e voltar para casa, onde uma vizinhança agradável lhe esperará. – Ele diz, exasperado – Sem isso, meu plano iria fracassar consideravelmente.

Olho-o desconfiada. – Plano? Que plano?

– De nossa filha, em nossa casa branca e com um belo jardim, trazer as alianças de nosso casamento até nós. Ela e o irmãozinho, de mãos dadas.

Nosso. E casamento. Em uma mesma frase.

– Sim, Juliette. Você tornou tudo isto possível, — ele diz, se abaixando, e eu não posso, não posso acreditar. Ele apoia um joelho no chão e quero sair correndo e ficar aqui, quero beijá-lo e chorar, quero silêncio e o som da sua voz, quero que ele diga tudo e não diga nada, quero o infinito e não quero nada mais, por já ter tudo. Por já tê-lo. – Você tornou possível que eu viva. Que eu respire. Que eu ame, Juliette. Antes de você, eu era uma bagunça organizada. Meus sentimentos loucos e fora de ordem estavam organizados, mantidos em um lugar onde não podiam me escapar. E então... E então, você surgiu. E destruiu todos os pequenos compartimentos e divisões e seções que eu levei tanto para criar. Tirou toda a poeira que havia em meu coração e em minhas artérias e veias pela falta de uso. Deu ar aos meus pulmões. Reanimou meus hormônios e neurônios com cada palavra, cada toque. Você fez tanto por mim. E cada dia que se passou após isso, me questionei como poderia te retribuir. Como poderia lhe agradecer por tudo que me fez. Como poderia te dar pelo menos um terço de tudo o que você me oferece. – Ele para e sorri. – E pensei em casar com você. Talvez assim eu consiga demonstrar quão amplamente te amo. Mas, é claro, ainda saio ganhando, tendo você para o resto de nossas vidas, o que torna o casamento infinitamente mais interessante.

Olho-o surpresa e completamente sem fala, sem poder pensar ou discernir se isto é real.

– Portanto, Juliette Ferrars, você concede seu coração e cada centímetro de seu corpo, de sua pele macia e suave e que, neste momento, mal posso me manter distante, a este homem que só vive e apenas deseja viver por você?

Tento lembrar como mexer os músculos de minha boca. Tento lembrar como falar.

– Aceita logo, antes que eu aceite e tome o seu lugar, Juliette – Amaya diz, com lágrimas nos olhos.

Todos estão observando. Kenji está com um sorriso bobo no rosto. Adam e Alia nos olham contentes. Castle está sorrindo grandemente. Vejo até mesmo Ian limpar algo de sua bochecha. Uma lágrima? Não sei dizer.

Aaron está me observando ansioso, e está um pouco pálido.

– Juliette, amor, estou começando a ficar com dor na perna – ele diz.

Ter Aaron como marido para recompensar-me não parece nada mal.

Não mesmo.

– Não, Aaron. – Paro, frisando o momento. Escuto um “O QUÊ?” desesperado de Amaya. – Não preciso conceder meu coração e meu corpo, pois você já os têm há muito tempo. Mas achei a proposta de casamento como agradecimento tão boa, que sim, Aaron. Eu aceito me casar com você.

Notas finais
E então, pessoal, o que vocês acham de um casamento?