Notas iniciais
Olá a todos :3

Essa pequena história é apenas uma apresentação da protagonista de uma long fic que está nos meus planos, embora estes sejam de longo prazo.
Ela é uma pequena aventura com início, meio e fim, mas também uma preparação para o que está por vir.

Espero que se apeguem a Lunara, apesar dela não ser a pessoa mais carismática da face do Sonhar. :p

Diziam as más-línguas que um vilão nascido do crime era melhor do que um herói que caía em desonra.

Lunara Fletcher escutara aquilo desde muito nova, e acreditara ser uma verdade indiscutível enquanto crescia. Afinal, a ideia de que os heróis deveriam ser puros, caridosos e gentis era amplamente aceita por todo o Mundo dos Sonhos, e até mesmo em sua contraparte, conhecida apenas como Realidade, haviam vestígios de histórias onde o bem imperava por ser perfeito.

Entretanto, isso é um equívoco. A maioria dos mundos não é feita apenas de tons pretos e brancos, mas também de cinzas. E ela aprendera isso da pior maneira possível, sentindo na pele o desgosto de ter-se tornado um símbolo caído, cujas únicas palavras a serem destinadas não passavam de injúrias e receios vãos.

Evidentemente, ela descobrira também que, se era seu destino viver manchada, talvez não fosse tão absurdo transformar esse medo que tinham dela em algo real…

—Estou te dizendo, Lu. Não dá pra te ajudar se você não me ajudar. Eu já lhe disse várias vezes para não atacar os contratantes. — Rato reclamou, talvez pela enésima vez, enquanto batia com a caneca de hidromel – provavelmente a única coisa que tinha condição de beber naquela tarde – sobre a mesa.

Não se podia colocar a culpa nos preços da Taverna da Passagem, o local que Lunara adotara para beber e procurar por trabalho. Em verdade, era um lugar acessível para a maioria dos aventureiros, caçadores de recompensas e bem (ou mal) feitores num geral. Além de ter bebidas de qualidade, haviam quartos nos andares superiores, com o necessário para uma noite bem-dormida.

O estabelecimento era construído com pedras escuras, com veias douradas que percorriam cada bloco, dando uma impressão irregular para quem olhasse os padrões como um todo. De frente para a porta de entrada, havia o extenso balcão de algum tipo de material liso e luminoso, quase como vidro – talvez fosse um cristal de cor escura, amadeirada. Ele estava presente em todos os móveis e superfícies que ocupavam o local, desde as mesas e cadeiras ao palco, mesmo que sua tonalidade mudasse de um ponto a outro. Os lustres que pendiam do teto também eram feitos dele, e tinham invólucros de vidro transparente, responsáveis por manter as chamas que iluminavam o local acesas e inalteradas.

O palco era pequeno, mas inúmeros menestréis tocavam e cantavam sobre histórias de heroísmo, tragédia e comédia.

O mais importante, no entanto, estava semiescondido num mezanino acima do balcão, o qual podia ser acessado apenas por uma escada atrás deste. Ali reuniam-se os nobres e outros tipos de pessoas importantes, que iam até o estabelecimento com o principal propósito de encontrar um aventureiro para resolver algum problema que tinham. Havia um sistema mágico que os escondiam parcialmente dos olhos daqueles que estavam em baixo, enquanto podiam observá-los perfeitamente. Mas, é claro que alguém mais experiente passaria facilmente por tal impedimento.

Lunara era uma dessas pessoas. E o que ela via lá em cima dificilmente deixava-a animada para aceitar qualquer missão. Entretanto, a mulher precisava de coisas básicas para a sobrevivência: comida, água, e sendo otimista, uma cama para descansar.

Ela não tinha muitas opções ali. Rato já era de alguma ajuda, o rapaz era o tipo de pessoa tão perdida na vida que não oferecia perigo algum. Em comparação, costumavam falar que ela era tão amigável quanto um dragão faminto, e bem… não estavam errados quanto àquilo.

Ambos haviam formado uma parceria, em que dividiam as recompensas dos trabalhos que ele conseguia no nome de Lunara. Seria fantástico se, e apenas se, ele não tivesse um dedo podre para escolher seus contratantes, o que sempre causava algum tipo de desentendimento que podia levar à morte de alguém.

Lu bufou, virando a própria caneca com o resto de hidromel para acabar com ele num gole só. — Não é culpa minha que sejam todos pérfidos, idiotas ou loucos.

—Se continuar pensando assim nós dois morreremos de fome.

—Então traga até mim alguém decente, pra variar. Não é porque estou sem opções que vou matar, sequestrar ou oferecer meu corpo para esse monte de… — ela fez uma pausa, talvez porque a bebida afetara um pouco seu discernimento, talvez porque quisesse achar uma palavra que não fosse pérfidos, idiotas ou loucos.

—Egoístas asquerosos sedentos por poder?

Ela respondeu com um resmungo. Estava coberta por uma longa capa com capuz, em tons de verde e marrom bem escuros, e vestia-se com roupas pretas por baixo, o padrão para alguém que estava sempre de viagem: camisa folgada, calças de pano grosso, botas e um colete. Luvas da mesma cor cobriam suas mãos, e o pouco que podia ser visto dela eram partes de seu rosto.

Era perceptível que sua pele era muito clara, e um observador mais atento notaria que haviam marcas em baixo-relevo em sua face, em forma de folhas e flores. Ocasionais mechas de cabelo rosas desbotadas eram visíveis saindo por baixo do capuz, e o mais impactante eram seus olhos, da cor do âmbar, ou talvez de um pôr do sol. Eles não possuíam muita vivacidade, entretanto, e pareciam estar sempre voltados para o que já foi, em vez do presente.

—O que foi que o último cara fez para que o deixasse para morrer, posso saber?

—Ah… esse imbecil… — ela movimentou apaticamente a caneca vazia de um lado para o outro, como se isso fizesse o objeto se encher de novo, de alguma maneira mágica. Claramente, nada aconteceu.

—Sim, não foi o homem que estava procurando pela árvore da Contadora de Estrelas?

—Precisamente. E então ele colocou na cabeça que precisava ter Bree e assim realizar todos os seus desejos.

Rato deixou escapar uma risadinha de descrença. — É brincadeira, né?

—Pareço estar brincando?

Ele olhou bem para ela, engoliu em seco e afastou um pouco seu corpo.

—Mas ela é… bem, ela se parece com uma criança. Eu ouvi falar, não que eu tenha realmente visto, mas sabe, os boatos correm…

—De fato, ela parece uma garotinha.

—Meio que concordo com sua reação, dessa vez. Caramba, o que essa gente tem na cabeça?

—Ele tinha muito tempo livre. — Lu estalou a língua, recostando-se na cadeira e largando por fim a caneca sobre a mesa, cruzando os braços em seguida. — Talvez isso tenha apodrecido seu cérebro. Bom, de qualquer forma ele não chegou a tocar na garota…

Rato suspirou com certo alívio. Sua mente imaginativa tendia a percorrer veredas nefastas, era uma sorte que nada de pior havia sucedido. Então ele parou para pensar sobre todo aquele assunto com mais insistência, e ergueu uma sobrancelha, levando sua própria bebida à boca.

—Você não disse o que fez com o homem. Onde deixou ele?

—Quando foi que eu disse que deixei ele em algum lugar?

Ele teve a impressão de ter visto um vestígio de sorriso, e um arrepio correu por sua espinha. Bom, havia pensado que ela realmente tinha abandonado o contratante em questão, porque era o que costumava acontecer, atitude que piorava terrivelmente a reputação que a mulher já tinha. Mas algo lhe dizia que as coisas tinham saído um pouco do controle daquela vez. Bem, mais do que o de costume.

—Não me diga que você ma… — imediatamente, ele sentiu a boca ser tampada pela mão dela.

—Não diga isso alto, vamos arranjar problemas.

Ele lutou para se libertar e começar a sussurrar de uma maneira exaltada que no mínimo chamava tanta atenção quanto se ele estivesse gritando para todo o mundo ouvir. — Não sou eu falando isso que vai causar problemas, me diz que você não fez isso. Lu? Diz alguma coisa?

Aqueles olhos de pôr do sol exibiam algum tipo de diversão feita apenas para ela, e Lunara parecia perdida nos próprios pensamentos de novo. Mas, assim que eles focaram e ela entreabriu os lábios pálidos para falar, um homem adentrou o recinto causando ainda mais estardalhaço que seu próprio parceiro de negócios.

—Por favor… por favor, algum de vocês! Qualquer um, me ajude a encontrar minha filha!

Ela observou em silêncio o homem ser atendido por alguns outros clientes que haviam no local, levando-o até uma mesa vazia e fazendo-o sentar-se. Alguém pediu um copo de água para o taverneiro, oferecendo-o ao desconhecido, que continuava apavorado, dizendo que a filha havia sido sequestrada por algum tipo de monstro. Bem, monstros por aquelas bandas não eram nenhuma novidade, o Mundo dos Sonhos tinha um reino próprio para os Pesadelos, criaturas de todas as raças e tipos, medonhas e terríveis.

—Impossível de saber… — murmurou para si mesma, batucando os dedos finos sobre o antebraço. A comoção fizera até mesmo o bardo que estava tocando parar sua apresentação, visto que os presentes estavam mais concentrados no homem. Lunara achou uma pena, afinal era uma boa música, ainda que a história fosse deveras otimista demais para ela.

—Ei, não use isso para mudar de assunto…

—Qual era o assunto mesmo?

—Não se faça de ingênua…

—Fique quieto, estou tentando escutar.

A resposta de Rato foi descabelar-se com as mãos enquanto grunhia de insatisfação. Lu achava que ele tinha talento para a dramaturgia, era naturalmente um melodramático. Ou talvez ela que acabou tornando-se indiferente demais.

Ela concentrou-se na conversa do pai desesperado, que por estar meio distante da sua mesa, era um pouco difícil de ouvir. Mas conseguiu tirar algumas informações, entrecortadas com goles de água, gritos e choro. Aparentemente a menina tinha sido levada por uma criatura de longas garras e pele enrugada, possivelmente uma fêmea. Fora agarrada enquanto brincava com uma cuidadora… a senhora não tivera sorte, tendo sua vida levada com um único golpe, que fez chover sangue, antes do corpo se desintegrar. O homem tentara seguir o monstro raptor até onde conseguira, mas este era muito veloz. A única coisa que ele afirmar com convicção, era que tomara o rumo do lar de todos os monstros… o Reino dos Pesadelos.

O lugar mal fora citado e boa parte dos clientes da Taverna arfaram em uníssono. Aquilo já bastava para saber, não haveria incursão alguma para resgatar a menina. Uma coisa era adentrar covis de monstros, resgatar donzelas de dragões, dizimar um grupo de demônios…

Mas adentrar o antro da escuridão? O lugar onde se originavam todos os males do Sonhar e das mentes dos homens? Ridículo… aquilo era suicídio, e por mais que houvessem almas caridosas ali dentro, elas não eram loucas o suficiente para arriscar-se nesse nível por uma criança que poderia já ter sido devorada.

—Estamos vivendo tempos perigosos. — comentou o taverneiro, que havia se aproximado da mesa de Lunara, por alguma razão tendo deixado seu lugar atrás do balcão. O senhor era decerto forte para a idade, e possuía inconfundíveis orelhas de lobo saindo do meio dos cabelos acinzentados. Lunara já havia notado os caninos avantajados dele algumas vezes, principalmente quando sorria.

—Sempre houve perigo, mas parece que estão percebendo isso somente agora. — A mulher retrucou. Ela moveu seus olhos do homem que ainda tentava convencer alguém a buscar sua filha, e fixou-os no taverneiro. — Qual sua opinião sobre o caso?

—Foi levada para ser uma isca de bruxa, certamente. Se a intenção da criatura fosse comê-la, não teria se dado ao trabalho de carregá-la consigo. E se quisesse fazer algum tipo de ritual, bastaria-lhe retirar as partes necessárias.

Rato fez uma careta, enojado com a última frase. — Pobre garota.

—É um caso perdido, a menos que alguém decida ir contra a corrente.

—Em vez de tentar me convencer a cometer suicídio de uma maneira não muito agradável, Conan, poderia me dizer o que quer conosco?

—Certamente… eu vim apenas para fechar a conta de vocês dois. — seus dedos com garras discretas bateram de maneira muito sutil sobre o tampo da mesa, enquanto continuava, com o tom bem mais baixo, próximo de um sussurro. — Eu acredito que vão desejar deixar esse estabelecimento agora mesmo. Há um grupo a caminho não muito feliz com você, senhorita.

—Uh… eu entendo bem o porquê.

Rato, a esse ponto, estava ainda mais pálido que a própria Lunara, olhando-a de uma maneira acusadora que parecia prestes a se quebrar em puro pânico. Ignorando-o, ela separou algumas moedas de cobre e uma de prata, um pouco mais do que devia à Taverna, e estendeu-as para colocá-las sobre as grandes mãos do senhor.

—Não havia necessidade de avisar.

—Não quero distúrbios dentro da minha taverna, senhorita. — ele fez uma pausa, e continuou, ainda com a voz bem baixa. — Além disso, já faz muito tempo, mas você ajudou alguém a quem eu prezo muito.

Ele remexeu nas moedas sobre as palmas e devolveu o excedente.

—Não vou sair daqui devendo nada, Conan.

—Então considere… fazer o que sabe fazer de melhor. — ele fez um gesto com o queixo na direção do homem amargurado, e afastou-se. — Não há nenhuma divida a ser paga, senhorita. Cuidem-se, vocês dois.

Lunara praguejou qualquer coisa ininteligível. Rato, ainda paranoico, virou o resto de bebida que havia em sua caneca e percebeu que estava tremendo violentamente.

—Ei… o que ele quis dizer?

—Agora não… — ela ergueu um dos braços e retirou a luva que usava, mostrando uma mão delicada, mas ainda contornada pelos estranhos padrões florais que haviam em seu rosto. Levando o dedo indicador e o polegar a boca, ela assobiou de uma maneira aguda, o que fez toda a conversa paralela parar, e várias cabeças voltarem em sua direção. — Vou buscar a garota.

O que se seguiu foi uma onda de perplexidade, descrença e zombaria. Muitos dos presentes não sabiam quem ela era, ou de seu passado… se soubessem, dificilmente ririam. Outros, aqueles que a reconheceram apesar de seus esforços para não chamar muita a atenção, sabiam bem que era o tipo de coisa que ela faria, mas não significava que a mulher era imune às consequências. O homem, no entanto, apenas deixou seu lugar na mesa e foi até Lunara, com os olhos marejados e as mãos prontas para segurarem as dela.

—Obr…

—Não agradeça, apenas vamos sair daqui, estamos sem tempo.

—Mas…

—Depois, eu já disse. Vamos, Rato. Pare de tremer, está me deixando nervosa.

Ela ergueu-se da cadeira em que estava sentada, endireitando a capa ao redor do corpo. Assim que o fez, alguns dos risinhos que ainda eram ouvidos pelo local cessaram. Era peculiar, afinal Lunara não parecia nada especial sentada naquela mesa até então, mas agora que levantara, era visível que ela era bem mais alta que um ser humanoide comum. Essa distorção de percepção causava mais impacto do que o tamanho dela em si. Seus olhos estreitaram-se na direção dos presentes com certa ameaça, enquanto apontava o dedo indicador em direção a porta, para que os dois que a acompanhariam fossem naquela direção de uma vez.

O homem, claramente um aldeão comum, era uma cabeça mais baixo que ela. Rato, miúdo em suas proporções, deveria chegar no máximo em seu peito. Este foi o primeiro a movimentar-se para a saída, com certo receio de que Lunara o agarrasse e o carregasse consigo (o que, verdade seja dita, acontecera mais de uma vez). Não demorou muito para que o grupo saísse da Taverna da Passagem, com o aldeão de fato sendo arrastado pela aventureira com nenhuma cortesia.

Era possível ouvir, entretanto, um grupo de cavaleiros se aproximando. Lunara fez um esgar de insatisfação, ela estava chegando ao limite do quão incomodada conseguia ficar sem explodir com alguém. E se fosse para descontar sua raiva no exército real, certamente os problemas se acumulariam além do aceitável. Estalando os lábios, ela puxou o capuz que cobria a maior parte do seu rosto para trás, erguendo a cabeça para observar a lua acima deles. Estava na fase crescente, mais alguns dias e seria lua cheia. Duvidava se seria o bastante para lidar com o Reino dos Pesadelos, mas para evitar alguns soldados, era mais do que o suficiente.

A luz incidiu diretamente sobre o baixo-relevo em sua pele, que cobria quase que por completo a face, tingindo-a com um brilho prateado. Seus olhos alaranjados foram mudando gradativamente, tornando-se da cor da prata fluída. Os cabelos longos e róseos começaram a se mover por vontade própria, abrindo-se e flutuando no ar. Então, ela segurou tanto Rato quanto o homem que precisava ajudar e, num átimo de segundo, o suficiente para os cavaleiros estarem próximos o bastante para vê-los…

O trio desapareceu em um faixo de luz prateada.

Para ser mais correta, não foi um desaparecimento. Na verdade, Lunara agora estava correndo com ambos abaixo dos braços, usando as longas pernas para dar impulso e a magia em suas marcas para conseguir velocidade. Enquanto a luz da lua tocasse sua pele, ela podia considerar-se capaz de quase qualquer coisa. A mulher diminuiu um pouco o passo depois de constatar que estavam bem distantes dos soldados, mas manteve um ritmo constante. Dali até o Reino dos Pesadelos ainda restava um bom pedaço de caminho, com todo o tipo de coisa estranha que é possível encontrar no Mundo dos Sonhos podendo barrá-los a qualquer momento.

É… não fazia o menor sentido dizer que aquele lugar era seguro. A própria existência dele era regida pela cabeça dos humanos do outro lado, e se um desiquilíbrio ocorresse em algum ponto, o mundo simplesmente reiniciava. Como o virar da página de um livro, tudo o que já foi era substituído por milhares de existências novas. A menos que as criaturas fossem muito fortes e preparadas, não eram capazes de resistir ao Reinício, e eram tragadas para o esquecimento.

As únicas exceções à regra eram o Reino dos Pesadelos, que mantinha certa consistência, independente do que ocorria com a maioria de seus habitantes… e Arkalune, o Reino Lunar, que persistia desde os primórdios dos mundos. Sendo o único reino capaz de coexistir em duas dimensões diferentes, ele era transportado para a Realidade todas as vezes que um Reinício começava.

—Você… é uma arkalunária, não é? — questionou o aldeão, assim que Lunara finalmente parou de correr. Havia uma distância segura (ou o mais segura possível) entre eles e o Reino dos Pesadelos, mas era possível ver as muralhas negras à distância.

Rato não disse nada, apenas controlou sua tremedeira – que tinha ficado muito mais intensa desde que se aproximaram da casa dos monstros – e fitou Lu de esguelha.

—Você vai mesmo entrar lá?

—Eu odeio ter dívidas. Além disso, tenho contas a acertar com algumas criaturas lá dentro. — ela cruzou os braços e fitou o homem, finalmente se dando ao trabalho de respondê-lo. — É. Sou. Quanto a sua filha, espero que tenha algumas coisas em mente.

Ele ficou em silêncio, então a mulher mostrou-lhe três dedos erguidos. — Eu prometo trazê-la de volta viva. Mas você deve entender o suficiente da situação para saber que talvez ela não venha intacta.

Um traço de pavor percorreu o rosto do homem. Rato estava lívido, e tentou segurar o cotovelo de Lunara para chamar sua atenção, mas ela apenas lançou-lhe um olhar que dizia para ficar em silêncio. Não adiantava medir as palavras, a garota fora levada para um antro de decadência, e só um milagre faria ela retornar inteira, física e mentalmente. E a mulher não acreditava mais em milagres.

—Segundo. Você não parece ser alguém capaz de pagar uma recompensa, mas eu e meu parceiro aqui estamos numa situação um pouco complicada. Acredito que não vai negar a nós um local onde possamos comer e descansar por um dia ao menos, certo?

—Independente do que acontecer, você decidiu ao menos tentar. Eu sou grato por isso, então sim, estamos de acordo.

Ela assentiu com a cabeça, e finalizou.

—Vocês dois vão ficar aqui. Eu vou entrar sozinha. Tomem cuidado e me esperem. Eu retornarei assim que puder. — dito isso, ela retirou primeiro a capa, dobrando-a e estendendo-a para que Rato a segurasse. Então tirou as botas, o colete, as calças e a blusa, diante dos olhares perplexos dos outros dois que, constrangidos ao máximo, viraram seus rostos para fitarem pontos opostos.

Lunara os ignorou. Ela vestia apenas um top trançado que cobria seus seios e a roupa íntima inferior. Era um ato sem sombra de dúvida estranho, mas ela precisava daquilo para canalizar mais poder. Afinal, as marcas se estendiam por todo seu corpo, e aquele brilho prateado envolveu-a quase que por completo. A mulher insistiu em repetir os últimos avisos que lhes dissera, e então partiu, deixando-os para trás e transformando-se mais uma vez num raio de prata.

Ela subiu a muralha negras sem muita dificuldade, usando o impulso das pernas contra o chão para saltar bem alto, e agarrando a beira do paredão com as mãos. Por um instante ficou pendurada, mas ela forçou-se para cima, e então sentou-se sobre o muro, olhando para baixo. Prédios de aparência retorcida e escura estendiam-se por uma terra morta, e em alguns pontos a lua iluminava algo que parecia ser água e uma cobertura de árvores… Sabia que para lá ficava o pântano, afinal não era a primeira vez que invadia o Reino dos Pesadelos.

A diferença era que da primeira vez estava acompanhada.

Mas apenas ela saiu viva lá de dentro.

Trincando os dentes, Lunara sacudiu a cabeça para afastar as memórias. Ela não precisaria delas agora… bastaria apenas uma em específico para fazê-la desistir daquela empreitada, então iria manter-se longe dela. Precisava pensar na criança. Sim, a garotinha…

Ela não havia perguntado coisa alguma ao pai da infeliz menina, mas podia sempre tirar informações de monstros de classe baixa. Sabendo que ela deveria ter sido levada à Corte das Bruxas, Lunara trilhou um caminho silencioso e quase imperceptível ate lá, capturando uma ou outra criatura e fazendo averiguações. Ela já mandara pelo menos umas dez para a inexistência, antes de encontrar uma com a informação que queria.

Essa em especial foi morta também, mas Lu não tinha muitas opções ali, para ser sincera. Não podia deixar que a encontrassem. Ela dissera que havia contas a acertar ali dentro, e haviam, muitas… mas não naquela noite. Não estava forte o suficiente, e por mais que as vezes tivesse desejado desaparecer, devia sua vida a alguém. Não podia simplesmente deixar-se matar.

Ainda esgueirando-se pelas construções decrépitas e medonhas, escondendo-se de monstros grandes e pequenos, matando outros que se interpunham em seu caminho, ela foi infiltrando-se cada vez mais na Corte das Bruxas. Então, finalmente a viu. A menina de longos cabelos negros e tez morena, de no máximo doze anos, estava presa em uma jaula, berrando e chorando, encolhida em posição fetal. Lunara prescrutou-a com os olhos, agora prateados, procurando por algum tipo de ferimento profundo. Mas a posição da garota não ajudava, muito menos a distância que estava dela. A julgar pelo choro, porém, podia imaginar que alguma parte de seu corpo havia sido perdida.

Bruxas eram traiçoeiras. Elas aproveitavam-se da inocência para capturar suas vítimas, e quando não usavam disfarces, procuravam belas crianças para servirem de iscas vivas. Elas marcavam-nas, as vezes com algum tipo de cicatriz, as vezes retirando alguma parte do corpo e guardando consigo, tornando-as suas servas obedientes. Essas pequenas vítimas atraíam mais outras, as quais eram mais necessárias para seus rituais doentios.

Lunara tivera experiências desagradáveis com bruxas, portanto odiava a raça inteira. Ela ficaria feliz em destruir cada recanto daquela corte, mas teria que contentar-se com apenas as criaturas que estavam presentes. Havia, pelo menos, três. Uma era muito antiga, tanto que sua pele parecia um papel enrugado. Provavelmente ela fora a responsável por raptar a criança, e seria sua mestra. A segunda era alta e bem nova, mas aparência não significava nada, e Lu sabia bem disso. A última bruxa estava mais afastada, mexendo num caldeirão que borbulhava com algum tipo de líquido roxo e fedorento. Não conseguia ver nada de sua aparência, afinal ela usava uma máscara em forma de bico de pássaro, e vestia-se com muitos véus e panos.

Seja ágil, Lunara.

Pensando consigo mesma, ela inspirou e expirou algumas vezes, e atacou. As marcas em sua pele brilharam com mais força e pareceram destacar-se da superfície, lentamente subindo ao ar, expandindo-se numa florescência mortal. Como trepadeiras, elas percorreram todo o espaço ao redor e ganharam cor, verde e rosa com tons vermelhos. Um espinho pontudo afunilou-se a partir de uma das folhas, perfurando o peito da bruxa que parecia ser mais nova. Outros iguais atacaram-na seguidamente, até que os gritos dela cessaram quando seu corpo tornou-se pó, assim como ocorria com a maioria dos outros habitantes do Sonhar.

Lu fechou uma das mãos em volta do caule que saíra de seu rosto, puxando a massa de flores vivas na direção da bruxa que raptara a criança. A criatura grunhiu de maneira ameaçadora, usando as garras que tinha para repicar as plantas que iam em sua direção. Ela parecia ganhar terreno, mas Lunara estreitou os olhos e enviou uma poderosa corrente de magia através dos caules, fazendo com que uma das flores vermelhas inflasse e, como uma planta carnívora, abocanhasse a bruxa. O barulho de ossos sendo triturados foi inconfundível, e, por fim, só havia uma oponente.

Uma risada distorcida, talvez masculina, veio de trás da máscara. A florescência perdeu as cores para voltar à prata, mas o pulsar da luz por toda sua extensão deixava claro que poderia vir um golpe ainda mais poderoso dali. Lunara piscou e uniu ambas as mãos em volta do caule principal de suas marcas, preparando um encanto.

—Venha a mim… luz do luar… torne-me sua lâmina.

As flores moveram-se todas para o centro, enrodilhando-se ao redor dela até formarem uma longa lança prateada. Lunara concentrou toda a magia em sua ponta e atirou-a contra a bruxa, acertando-a no peito e causando um brilho cegante, que fez aquela área do Reino dos Pesadelos, sempre sob a escuridão, parecer com o mundo lá fora.

Não havia nada quando a luz desvaneceu-se. Ofegante, Lunara notou quando as trepadeiras retornaram para o corpo dela, sentiu-as enroscarem-se profundamente em sua pele, como se nunca tivessem saído de lá, formando novamente os baixos-relevos. Aquilo era sempre desagradável e, no mínimo, bastante doloroso, mas havia se acostumado. Ela andou o mais rápido que conseguia por conta da fadiga e da dor e procurou pela chave da gaiola, perdida em meio aos trapos que fizeram parte da primeira bruxa. Encontrando-a, abriu a porta e observou a criança. A menina afastou-se sofregamente dela, enquanto segurava a mão direita contra o peito. Ainda escorria sangue do local, e faltava-lhe o dedo mindinho.

—Venha…

A garota balançou a cabeça negativamente, tremendo.

Lunara grunhiu de insatisfação, estendendo uma das mãos para segurar a criança e levá-la a força, quando sentiu algo agarrar violentamente suas costas, adentrando pele e carne, atirando-a na direção do caldeirão borbulhante. Ela bateu com força contra o ferro fervente, sentindo-o queimar suas costas, e rolou pelo chão. Algumas gotas da poção medonha foram derramadas, fazendo um rastro corrosivo que felizmente não a acertou. Enquanto a criança apavorada se encolhia ainda mais contra as grades de sua gaiola, Lu viu algo se assomar sobre si, uma sombra negra e de grandes proporções, ligeiramente similar a uma ave de rapina.

—Não era… uma bruxa.

—De forma alguma. — uma voz macia, mas de alguma forma igualmente horripilante e repleta de zombaria, chegou até ela. — Devo lhe agradecer por poupar meu trabalho de destruir esses seres patéticos, ou matá-la por tirar minha diversão?

—Dane-se.

Foi tudo o que respondeu. Considerando o aspecto da coisa, poderia ser um metamorfo. A rivalidade entre os metamorfos e as bruxas era conhecida, até mesmo datada. Isso também explicaria a razão de um de seus melhores golpes ter falhado, mesmo atingindo o peito… aquelas criaturas só deixavam de existir quando seu coração era destruído.

A questão era que um metamorfo tinha seus órgãos internos tão bagunçados quanto sua aparência externa. Eles podiam se parecer com qualquer coisa, não tinham uma forma própria, e era quase impossível matar um sem saber onde mirar. Alguém com uma boa intuição ou bons ouvidos poderia mapear o corpo e tentar atingir o músculo que dava-lhe vida, mas Lunara não estava em condições para isso. Em verdade, seu tempo estava esgotando-se a cada respiração.

Ela sentiu garras de sombras pressionando-a novamente, desta vez para baixo, contra a terra negra daquele local hediondo. Um hálito de carniça alojou-se bem próximo de sua face, muito embora não houvesse nenhuma boca real para gerá-lo.

—Você me parece perdida, arkalunária. Ou é realmente muito tola, entrando no nosso território dessa forma, por causa de uma… — houve uma pausa, onde a criatura prestava atenção a menina chorosa dentro da jaula, incapaz de fugir. Para sair dali, teria que encarar aquele ser maldoso, e isso certamente levaria ao seu fim. Mesmo que conseguisse esquivar-se, havia toda sorte de monstros terríveis a sua espera para abocanhá-la num bote apenas. — … criança?

—Tsc… como se eu me importasse…

—Então se eu devorá-la você não vai ligar, correto? — Lunara quase conseguiu ver um sorriso brotando nas sombras vivas, algo tão antigo e malicioso que a fez estremecer por dentro. Mas sua expressão fechou-se e ela lutou para tentar deixar o aperto do metamorfo, o brilho da lua começando a percorrer suas marcas novamente.

—Não ouse.

—Hum. Você não está em posições de exigir nada, garota estúpida. — ele imprensou—a mais uma vez contra o chão, notando uma resistência maior de sua vítima. Os olhos dela, prateados e banhados por aquela luz provinda de seu lar, focaram-se nele com toda a raiva e determinação que era capaz de juntar. — Mas quem sabe, se você pedir, eu a deixe ir.

—Como se um Pesadelo como você pudesse fazer tal coisa.

Um riso de escárnio, sombrio, se fez ouvir.

—Você ficaria surpresa com o que tendo a tolerar e deixar passar quando me convém.

O olhar dela não diminuiu em nada a sua intensidade, Lunara não estava disposta a pedir nem a implorar. Ela forçou seu corpo para cima, conseguindo levantar-se alguns milímetros, suando com o esforço. As suas marcas começaram a destacar-se da pele, mas ela não possuía mais energia restando para usar outro golpe poderoso contra o metamorfo, sabia disso. Mesmo que o fizesse, seria inútil enquanto não acertasse o coração.

—Você é Lunara Fletcher, não é? A heroína tola que veio até aqui com os parceiros, anos atrás. Devo dizer, aparentemente não ficou mais esperta com o passar do tempo. — subitamente, o peso que a oprimia sumiu, fazendo com que perdesse o equilíbrio. Lunara ergueu-se penosamente, primeiro sentando e logo após ficando em pé, a respiração difícil. Era muito raro que observasse alguém de baixo, visto sua altura, mas aquela coisa era muito maior e imponente do que ela jamais fora, mesmo em seus tempos de glória.

—Você estava entre eles!?

Entre os monstros que fizeram aquela chacina que nunca mais conseguira esquecer, se ele estivesse lá… Seu sangue ferveu dentro do corpo com a ideia, por um momento esqueceu-se da criança, da sua fraqueza, de tudo ao redor e só pensou que deveria matá-lo, extingui-lo da face do Sonhar…

—Não creio que acreditaria na palavra de um Pesadelo como eu, mas não estive presente na ocasião. Se estivesse, não saberia dizer se seria melhor ou pior para você. — novamente aquela risada perversa vibrou em seus ouvidos. — Eu sei distinguir uma vontade forte, ao contrário da maioria dos meus iguais, pelo menos.

Mal ouviu aquilo, ela viu a escuridão ampliar-se, fechando-se ao seu redor, como uma noite sem estrelas, sufocando-a, bloqueando qualquer brilho da lua que ainda pudesse restar sobre aquele lugar amaldiçoado. Por um momento, Lunara arrependeu-se de ter entrado ali sozinha, de ter retornado para um Reino que apenas lhe causara dor e arrependimento.

Entretanto, quando sua respiração parecia que ia cessar, sentiu que era arremessada contra o solo, com rispidez. Seus olhos, que em algum momento haviam se fechado com o aprisionamento, abriram-se para fitar o terreno exterior ao Reino dos Pesadelos, o grande muro estendendo-se atrás de si. Do lado, a criança que havia tentado salvar estava inconsciente, mas permanecia viva. O terror tinha sido demais para ela, depois de tudo.

Lu ergueu-se e olhou para trás, para cima do muro, onde havia uma figura tremeluzente. Aquela voz, a mesma que acabara de escutar nos últimos minutos, o tom da criatura que acreditava ser seu algoz, veio até ela. Não sabia se era magia ou algum efeito do vento, mas o som atravessou a altura que separava a base do topo daquela construção imensa.

—Não pense que serei cortês novamente, criança estúpida. Considere que tem uma dívida comigo. — houve uma pausa, logo cortada por um toque inconfundível de sarcasmo. — Tente acumular um pouco mais de inteligência quando for pagá-la.

Dito isso, o vulto desapareceu por completo, não deixando nada para trás além da sensação de que algo estava muito errado. Ela não sabia nada sobre ele, além de que se tratava de um metamorfo e, de acordo com o próprio, não estava presente no dia em que caíra e perdera sua glória, assim como parte de sua sanidade. Talvez ele tivesse razão… Lunara estava sendo realmente uma garota muito estúpida, e isso durante muito tempo.

Ela pegou a criança no colo, tomando o cuidado de não acordá-la, mais para evitar escutar choro e berros do que por qualquer tipo de tato, e apressou-se na direção contrária ao muro.

Queria aumentar a distância do Reino dos Pesadelos o mais rápido possível.

Rato preocupava-se com a demora de Lunara, e tinha toda a razão do mundo para isso. O pai da garota raptada não ajudava, andando de um lado para o outro e choramingando sobre como sua menininha não retornaria para casa.

Mas, contra todas as possibilidades, eles viram um brilho prateado surgindo a distância. Segundos mais tarde, Lunara parara em frente aos dois, transpirando enquanto segurava com força a criança. Haviam muitos cortes em seu corpo, principalmente nas costas, onde dividiam espaço com uma queimadura, e ela estava sangrando, além de exausta. Tirando isso tudo, Rato achou que parecia a mesma Lunara de sempre, embora havia uma expressão em seu olhar que denotava: algo perturbador havia acontecido. E não era apenas com a garotinha raptada.

Ela entregou-a imediatamente para o pai e fez um sinal que deixava claro que deveriam afastar-se daquele lugar, naquele exato minuto.

—Sem perguntas, sem choro e sem alívio, temos que ganhar distância daqui. — ela inspirou penosamente e voltou seus olhos para o homem. — Você, guie a gente até a sua casa, a garota precisa de cuidados com o dedo e talvez esteja um pouco histérica ao acordar, mas vai ficar bem.

Então, virou-se para Rato. — E você, vai me ajudar a cuidar disso quando chegarmos lá.

Com “disso”, ela se referia aos cortes e queimaduras em suas costas que incomodaram-na desde o momento em que foram feitos, e que certamente teria dificuldades em tratar sozinha. Um coro de “mas” começou, e foi prontamente ignorado por Lu, que apenas seguiu andando como se não houvesse acontecido nada de mais. É claro, os dois homens teriam que contentar-se com a falta de explicações da parte dela, afinal nenhum deles desejava deixá-la mais irritada do que já estava.

Foi uma caminhada mais longa do que Lunara poderia esperar, e infinitamente mais cansativa. Porém, eles enfim chegaram à vila onde o homem morava, tendo seu merecido descanso, assim como um farto almoço, como este prometera.

Enquanto descansava e cuidava de seus ferimentos, auxiliada por Rato, ele comentou sobre os padrões que as marcas em suas costas foram feitas: formavam um K bem torto, entretanto discernível. Considerando o que ela dividiu com o parceiro (e apenas com ele), sobre a aparência que a criatura tomara, e alguns pontos do diálogo entre ambos, chegaram a uma conclusão sobre o misterioso metamorfo que, de alguma forma, salvara a vida dela.

Ou melhor: o metamorfo que atara Lunara a ele com um débito que ela não queria ter, mas não conseguiria ignorar. Afinal odiava dever para os outros, fossem humanos, seres mágicos ou criaturas escabrosas.

Aquele era, certamente, uma criatura antiga chamada Kandrak. Um metamorfo diferente dos outros, mais poderoso que a maioria, excêntrico para um Pesadelo e, diziam algumas línguas soltas, tolerante com quem achava realmente digno de sua atenção.

Mas ele continuava sendo cruel, sádico e maligno.

Lunara provavelmente preferiria morrer a pagar, fosse qual fosse o preço.

É claro, demoraria ainda um tempo, maior do que ela imaginara a princípio, para que os dois se reencontrassem. No momento, tinha que se preocupar com o exército real, que ainda a procurava por causa do homem que havia aterrorizado, ao tentar algo contra Bree – o qual não havia realmente matado, no fim das contas, mas Lunara acreditava que existiam destinos bem piores que a morte.

Ela precisava ainda de um novo local para conseguir contratos e, consequentemente, dinheiro para manter-se bem alimentada e ter um lugar para dormir. Tudo dividido devidamente com Rato, que apesar de covarde e na maior parte das vezes inofensivo, ainda conseguia ser bem útil quando se esforçava.

Um dia ela retornaria para o Reino dos Pesadelos para, de fato, acertar algumas contas (e saldar uma dívida).

Mas isso faz parte de outra história. E esta, acaba aqui.

Fim… por enquanto.

Notas finais
+Sei que a classificação etária pode ter deixado algumas pessoas esperando mais, só que há certas citações no conto (canibalismo, a própria violência presente - embora não tão gráfica - e uma vaga insinuação de uma tentativa de ato pedófilo) que me fizeram optar por aumentar de +13 para +16. Sempre melhor prevenir do que remediar, não é mesmo?

+Decidi escrever essa pequena história para um concurso de uma editora que rolou a um tempo atrás, o qual infelizmente não deu em nada, enfim... reescrevi com o final que queria (a quantidade limite de palavras do concurso meio que quebrou minhas pernas) e editei as partes necessárias para colocá-la aqui. Isso também explica, em parte, a razão de eu ter colocado Lunara tão "cedo" no Projeto, afinal ela é uma personagem bem mais complexa do que parece.

+Quanto ao metamorfo, Kandrak... se vocês me acompanham já a algum tempo, saberão de quem se trata, obviamente. Mas, se você é "novo por aqui", pode procurar pela história Meteoro, de Contos de Além-Mundos, e saberá mais sobre ele.

+Bem, isso é tudo por hora, pessoal! Nos vemos por ai. :3

Kisses kisses para todos, e que a luz da lua guie seus caminhos, mesmo na mais tenebrosa escuridão.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!