Florescer
9 O jardim de Perséfone
Notas iniciais
0 | 9
O jardim de Perséfone
— Pensei que faríamos algo divertido. — Perséfone apoiou o cotovelo no braço da poltrona, suspirando pesadamente. Hades, por outro lado, mantinha o olhar cravado no tabuleiro calculando as próximas jogadas como se aquilo fosse realmente importante. — Ao menos, foi o que você disse.
— Isso é divertido.
— Não. Não é.
— Tem uma sugestão melhor? — ela não respondeu e ele abriu um sorriso imperceptível ao notar o rosto dela. Perséfone estava enfezada, porém, o semblante irritado não a deixava menos bonita. O deus acomodou-se melhor na poltrona e relaxou a coluna, a encarando diretamente. Então, moveu uma das peças. — Sua vez.
O casal estava em uma saleta – um cômodo grande, contendo decoração bonita e masculina, de cores escuras. Haviam prateleiras encostadas nas paredes, quadros enfeitando todo o local e duas poltronas escuras ao centro, ambas colocadas sobre um tapete redondo. Entre as duas poltronas, foi posto uma mesa engavetada que o deus usava para guardar jogos de todos os tipos, incluindo damas, baralho e dominós.
— Eu vou perder de novo! — a deusa reclamou, apontando para o tabuleiro. — Olha isso! Não tem mais jeito!
— Está desistindo rápido demais, Perséfone. — Hades exprimiu, achando a ocasião engraçada. Ele, individualmente, não gostava de perder. Só isso. Perséfone, por outro lado, considerava a derrota algo detestável. — O jogo ainda não acabou. Pense, meu bem. Você está sendo pessimista antes da hora.
— Não estou sendo pessimista. — disse, descrente, quase levantando as mãos para o alto em um sinal de desistência. — Sou péssima com jogos, principalmente xadrez.
— Xadrez é um jogo simples. Basta ter estratégia. Analise bem as jogadas, os furos, olhe para o tabuleiro — aconselhou. — e pense “qual jogada ele fará?”, “o que pode acontecer se eu colocar minha peça aqui?”. Dê margem de erro ao adversário.
— Não poderíamos fazer outra coisa? — ela já tinha aceitado a derrota.
— Como?
— Como, por exemplo, conversar. — sorriu, cheia de segundas intensões; Hades soube o que estava por vir. — Você pode me contar o porquê de ter me sequestrado.
Ele a fitou longamente como se pensasse e isso a deixou esperançosa. Estava no Submundo há pouco mais de uma semana – ela ainda não tinha noção de como o tempo passava naquele lugar. Até então, Hades não parecia ter qualquer pretensão de lhe levar para casa.
Nos primeiros dias, a deusa se empenhou em esperar o tempo dele. Agora, sentia-se impaciente e com saudades de casa – mesmo que, no fundo, gostasse de estar no Mundo Inferior. Claro, isso jamais admitiria em voz alta. Perséfone era naturalmente curiosa, como tal apreciava conhecer lugares novos.
— Não. — negou, por fim, e abriu um sorriso mínimo ao admirar o semblante dela transformar-se na mais pura fúria.
— Sabe que vou continuar insistindo, não sabe?
— Sei, sim. — respondeu tranquilamente, mantendo a expressão neutra. — Independente do que faça, a resposta continuará a mesma.
— Você é insuportável. — murmurou, entredentes, como uma criança emburrada, os braços cruzados e o olhar voltado para um canto qualquer do cômodo.
Sabia que não havia verdade em suas palavras. Ele podia ser tudo, menos insuportável – e esse era o problema. Perséfone não tinha motivos para ficar brava, mas ela queria ficar. Queria sentir raiva, poder esfregar algumas verdades na cara dele, gritar, berrar. Mas como trata-lo dessa forma, logo ele, que estava fazendo de tudo para agradá-la – até mesmo deixando o trabalho de lado para jogar aquele maldito xadrez só porque ela estava entediada?
Ele não foi correto quando a sequestrou. Mas o que mais Hades fez de errado, além disso?
— Acabou? — a voz masculina a trouxe de volta para o mundo real. Ele estava com as sobrancelhas arqueadas, analisando cada movimento seu. — Se está tão entediada assim, podemos fazer outra coisa.
— Você precisa parar com isso.
— Isso o quê? — ele pareceu confuso. Na realidade, não era só ele quem estava confuso com as coisas.
— Isso!
— Não estou entendendo.
— Você precisa parar com isso, Hades. — ela estava quase bufando outra vez, com a indignação entalada na garganta. — Quando eu estava em perigo, você foi lá e salvou a minha vida. Desde que cheguei me tratou como se eu fosse uma princesa, como se eu fosse especial. Então, hoje fiquei entediada e você deixou de trabalhar para tentar me divertir. Tudo depois de ter me sequestrado! Quem não está entendendo nada aqui, sou eu!
— Deixa-me tentar compreender a situação. — fez uma pausa, contemplativo, com o olhar intenso e a bochecha apoiada em uma das mãos. O cotovelo repousava no braço da poltrona e a expressão no rosto másculo era neutra, sem qualquer evidência emocional. — Você, basicamente, quer que eu te trate mal.
— É! — exclamou. — Quer dizer, não! Não foi isso que eu disse!
— Foi exatamente isso que você falou.
— Você só está sendo muito legal, entende?
— E qual o problema?
— Nenhum! — nem ela sabia o que estava dizendo. — É que você não devia ser tão legal! — nem tão bonito, acrescentou mentalmente. — Você é o deus dos mortos.
— E é por isso que eu devia ser um tremendo de um babaca?
— Quer saber, esquece. — pediu, por fim, desistindo de se explicar. Agora ela que se sentia babaca por ter dito tantas idiotices em uma só frase. — Acho que estou ficando maluca.
— Eu também acho. — concordou, meneando a cabeça.
Eles se encararam. Riram, em seguida, achando graça daquela situação tão bizarra.
— É disso que estou falando! — ela apontou para ele, ainda sorrindo. — Ao invés de rir, devia ficar com raiva por tudo o que acabei de dizer. Você nem ligou quando te chamei de insuportável!
— Bom, — ele pareceu pensar. — não foi mentira. Às vezes eu sou.
— Desisto. — disse, por fim, referindo-se ao jogo e a conversa. — Já que não vamos mais jogar, o que faremos?
Ele a fitou longamente com um estranho sorriso pairando nos lábios.
— Tenho uma ideia.
+
— Vai acabar com o resto do meu dia se continuar com essa cara azeda.
Hécate levantou o olhar do livro para Tânatos, que a encarava com um brilho divertido nos olhos escuros. Estavam passando o tempo na biblioteca do palácio – um cômodo imenso, cheio de prateleiras que alcançavam o teto. Ela ainda tentava entender o que aquele maldito fazia ali.
Aquele era um dia de temperaturas amenas. Depois de voltar do mundo dos mortais, Hécate se retirou para a biblioteca, pretendendo passar o resto do dia lendo alguns de seus livros desinteressantes sobre feitiços e poções.
Doce engano. Não demorou para o deus da morte aparecer com aquele sorriso irritante de quem sabe das coisas.
— Se está tão incomodado com a minha cara azeda, sugiro que se retire. — retrucou, arqueando uma das sobrancelhas, ainda mantendo a expressão indiferente. — Continua aqui porque quer. Nunca pedi para que me fizesse companhia.
— Essa doeu. — ele fingiu uma careta de dor e colocou a mão no peito para dar um ar mais dramático a situação. Hécate quase rolou os olhos. — Sua língua anda bem afiada para uma dama.
— Não sou uma dama. — respondeu, simploriamente. — E você está longe de ser um cavalheiro. Diga-me logo o que quer, Tânatos. Não estou com paciência para lidar com as suas gracinhas.
— Assim você me ofende. — ele a mirou com ares de inocência, tombando a cabeça para o lado. Apenas a mesa de centro os separava. — Por que acha que quero algo?
— Qual outro motivo o traria até aqui? — devolveu com outra pergunta, ainda o encarando com uma calma indiferente.
— Só estou curioso. — revelou, por fim, apoiando o cotovelo no braço da poltrona e o queixo na mão, sem retirar o olhar da moça. Ela cruzou as pernas. — Você anda muito mal-humorada, mais do que já é. — a deusa resolveu ignorar o ultimo comentário. Não gastaria sua saliva para retrucar as tolices combinadas de Tânatos. — Aconteceu algo entre você e o Hades?
Hécate o encarou. Seu olhar era frio.
— Não.
— Houve uma época em que você mentia melhor, Hécate. — ele sorriu de canto, interessado, e a moça bufou, sentindo o resto de sua paciência esvair. — Até me fez pensar que tinha superado tudo o que aconteceu entre vocês dois, anos atrás. Vejo que estive enganado.
— O que aconteceu entre Hades e eu é passado, Tânatos. — ela disse, apenas, apertando os lábios e semicerrando os olhos. — Foi há muito tempo. Nem sei por que estamos falando sobre isso.
— Realmente, foi há muito tempo. — concordou, pensativo. — Mesmo assim, você se incomoda com o fato de o Hades estar apaixonado por outra pessoa. Ainda o ama, não é?
Não houve uma resposta. Por mais que quisesse gritar que não e expulsa-lo daquela sala, a feiticeira não pôde. Apenas desviou o olhar do dele, incomodada com o rumo que aquela conversa estava tomando.
— Não estou aqui para te julgar, dizer o que você deve ou não fazer. — ele disse, agora sério. — Estou aqui porque sou seu amigo e estou preocupado. Eu te conheço bem, Hécate. Você precisa seguir em frente, esquecer o que vocês dois viveram.
— É fácil falar, Tânatos.
— Sei disso. — concordou, acenando com a cabeça. — Mas você precisa tentar.
Ela apenas fechou o livro, sem saber ao certo como responder.
— Não posso fingir que gosto do que está acontecendo.
— Não estou dizendo para fingir. Você pode começar tentando ser menos hostil com a Perséfone. Ela não tem culpa de estar aqui e é uma garota muito legal.
— Eu não gosto dela.
— Você nem a conhece. — ralhou, arqueando uma das sobrancelhas. — A verdade é que você não gosta da ideia dela retribuindo os sentimentos do Hades. Mesmo que Perséfone não esteja apaixonada, você sabe que a possibilidade disso mudar é enorme.
O silencio reinou e Hécate o quebrou com um suspiro pesado.
— Eu odeio quando deixa sua personalidade insuportável de lado para bancar o conselheiro.
— Conviver muito com Hypnos dá nisso. — ele deu de ombros e se levantou, ainda fitando-a com aquele olhar de quem sabe das coisas. — Pense no que eu disse.
— Vou pensar.
— Ótimo. Nos vemos no jantar.
Ele se retirou, deixando Hécate sozinha com seus pensamentos.
+
— Vai demorar?
— Por que a pressa? — Hades perguntou, olhando-a por cima do ombro. Os dois se encaminhavam ao exterior do castelo, dessa vez por uma passagem que Perséfone não conhecia, embora ela tivesse a impressão de que daria para os fundos. — Estamos quase lá.
— Não gosto de suspense. — revelou-lhe com um dar de ombros, escutando o ecoar de seus passos contra o piso de pedra. Hades erguia-se como uma muralha logo a frente, impedindo-a de ver o que havia no fim do corredor.
Eles já andavam há alguns minutos, passando por cômodos desconhecidos. Perguntava-se como ele conseguiu memorizar todas as passagens. Ela, nem em um milhão de anos, daria conta.
— Encare como uma surpresa. — falou, simploriamente. — Acredito que o local onde iremos acabará servindo como uma boa distração pelos próximos dias.
— Assim espero.
Ela resolveu continuar em silencio, acompanhando-o com as mãos juntas na frente do corpo. Não demorou para que atravessassem uma porta larga, cheia de detalhes, como tudo o que havia no castelo. A brisa gélida do lado de fora soprou em seu rosto e ela segurou um suspiro quando seus olhos captaram a paisagem.
Hades não sentia orgulho do jardim que se estendia metros adiante. Não tinha o costume de visitar o local ou tempo para cuidar das pobres plantas que tentavam, de alguma forma, sobreviver com a terra pouco fértil dos domínios. Os empregados, atarefados demais com os serviços do palácio, também acabaram deixando de lado e o jardim ficou no esquecimento, até então.
— Não é grande coisa como os jardins do Olimpo e o mundo dos mortais. — ele quebrou o silencio, vendo que a jovem continuava estática, com os olhos arregalados e a boca entreaberta. Desconcertado, lembrou que Perséfone era uma divindade da natureza. Provavelmente estava pensando que ele era um idiota por deixar as plantas a mercê da própria sorte, em um local tão morto quanto o Mundo Inferior.
— Está brincando? — ela ainda encarava a paisagem com os olhos esbulhados. Hades quase fez careta. Ela odiou, teve certeza. — É perfeito!
— Você gostou? — soou mais chocado do que realmente gostaria. — Gostou mesmo?
— É claro que sim! — bateu palminhas, animada, com um brilho no olhar ao ver a quantidade exorbitante de narcisos dourados – os mesmos que Hades usou para atraí-la, antes do sequestro. Tudo bem, a memória não foi agradável, mas, pelos deuses, aquelas flores eram incríveis! — Confesso que algumas plantas precisam de cuidados, alguns canteiros estão realmente deploráveis, mas não é nada que uma mãozinha não possa arrumar.
— Você é mesmo uma pessoa muito fácil de agradar. — ele soltou uma risadinha e ela deu de ombros, sem discordar. — Bom, se gostou — continuou. — é todo seu. Pode ajeitar como quiser.
Perséfone virou o rosto para encara-lo e arqueou as sobrancelhas, confusa.
— Se eu te dissesse o que escutei — ela começou. — você iria rir da minha cara.
— Escutou certo, querida. — ele riu baixo. — O jardim é todo seu.
Ela olhou para Hades, depois para o jardim, então para Hades novamente.
— Você está brincando, não é?
— E porque estaria?
O jardim estava rodeado por uma cerca baixa de metal, distante, que delimitava o fim. Ao centro, estava um lindo chafariz que jorrava água fresca. Haviam romãzeiras espalhadas por todos os lados, com suas folhas esverdeadas e tronco escuro, em meio ao campo de narcisos dourados, que cintilavam, iluminando a escuridão.
Pelos deuses!
Aquilo só podia ser um sonho. Ela sempre quis ter o próprio jardim.
— Olha, eu quero muito gritar e sair saltitando como uma louca — ela confessou, baixo, ainda admirando seu mais novo presente. —, mas vou me conter em nome da educação que a minha mãe me deu. Então, muito obrigada, Hades. De verdade.
Ele riu, achando graça do jeito dela.
— Não agradeça agora. Acredito que você precise de instrumentos para cuidar das plantas. Vou pedir para que deixem um caderno e canetas no seu quarto. Escreva tudo o que precisar, qualquer coisa mesmo, e me entregue mais tarde. Pedirei para que Hermes traga os itens até aqui.
Ela sentiu todas as células de seu corpo vibrarem. Estava prestes a surtar de felicidade.
— Agora eu vou indo. Mais tarde venho te buscar para o jantar, e depois te ensinarei a passagem até aqui.
Ele virou para se retirar, mas foi impedido pela mão pequena e quente da jovem deusa. Olhou-a, um tanto surpreso com o toque repentino. Estaria ela mais à vontade com ele?
— Nada disso. Você vem comigo!
O deus nem teve tempo para responder. Aquela garota, mesmo sendo baixinha, tinha uma força fenomenal. Conseguiu o arrastar sem quaisquer dificuldades até um canteiro próximo ao chafariz, ignorando os protestos masculinos. Então, agachou, puxando-o junto, para avaliar as plantas.
— Eu não levo o menor jeito com isso, Perséfone. — confessou, mirando-a de soslaio. — Será que você não poderia me soltar?
— Não. Você fica. Sempre quis ensinar técnicas a alguém.
— Não acho que eu possua algum talento para jardinagem.
— Não precisa ter talento, basta treino. — respondeu, simploriamente, enfiando os dedos na terra fresca. — Está esperando o que?
Ele respirou profundamente e fez o mesmo. Ela ensinou – ou, ao menos, tentou ensinar – várias coisas desde adubagem à poda e plantio. Hades não entendeu uma palavra do que a deusa disse, mas acenou com a cabeça nos momentos certos, deleitando-se com a voz melódica e apreciando o rosto delicado da moça. Ela era tão linda que chegava a doer.
— Isso sim é divertido! — a deusa exclamou, algum tempo depois, e riu em seguida, com os braços, mãos e a barra do vestido sujos. Na palma, segurava um broto de narciso, tomando cuidado para não machucar a raiz. Eles fizeram um buraco fundo para planta-lo.
O estado de Hades não estava melhor que o dela. O rapaz limpou o suor da testa com o dorso da mão, pensando que, de fato, essa coisa de jardinagem era realmente complicada.
— Parece que temos opiniões bem diferentes sobre o que é diversão.
— Bom, eu joguei xadrez com você. — começou a desculpa. — Agora é a sua vez de fazer algo que eu goste.
— Esse pretexto não é válido. — retrucou, arqueando uma das sobrancelhas. — Você nem finalizou a partida.
Ela pensou por um momento.
— Eu não sei jogar xadrez.
— Ótima justificativa.
— Obrigada.
O silencio reinou.
— Façamos uma troca, então. — ele disse, sustentando um sorriso de canto. — Você me ensina suas técnicas malucas de jardinagem, e eu te ensino a jogar xadrez.
— Não gosto de xadrez.
— Como pode não gostar se disse que nem sabe jogar?
Ela emudeceu por um instante, encarando-o, descrente.
— Você é bem esperto, admito.
Ele estendeu a mão suja de terra na direção dela, abrindo ainda mais o sorriso vitorioso.
— Negócio fechado?
Perséfone desceu o olhar para os dedos longos do rapaz e suspirou pesadamente antes de apertar a mão dele, selando o acordo.
— Fechado.
Fale com o autor