Florescer

10 Capítulo 9 - Veja quem eu sou


Tempos antigos. Guerra. Mercenários invadiram uma casa. Eles mataram um pai e violentaram uma mãe. As duas filhas eram jovens demais, então as obrigaram a assistir. Mãe e filhas foram levadas para o Egito, Eram escravas agora. Mais tarde, as escravas roubaram um barco real e tentaram fugir, mas foram capturadas novamente e a mãe foi gravemente ferida. Devido à ousadia do roubo, elas foram levadas até a corte. As duas filhas choravam enquanto abraçavam a mãe à beira da morte.

O Faraó chegou acompanhado de seu Sumo Sacerdote.

– Sacerdote, o que você sugere? – O Faraó Seti I perguntou.

– Prenda-as ou mate-as também – Imhotep sugeriu. Acreditava que aqueles estrangeiros eram os piores seres.

Naquele momento a princesa chegou e viu a triste cena. Ela sentiu pena das meninas feridas ao redor da mãe. Aparentemente, a mais velha teria uns 10 anos enquanto a outra era tão pequena que mal caminhava sozinha. A mãe delas não resistiu.

– Não! Mamãe! Acorde! – Uma das meninas gritou.

Nefertiri sentiu um nó na garganta. Conhecia a dor que apunhalava aquelas meninas.

– Pai, Posso ficar com elas? – A princesa Nefertiri perguntou ao faraó.

– Não são boas para você. – Seti permitia que apenas virgens egípcias acompanhassem sua filha.

– Mas... Podem me ser úteis...

– Fique com a criança se insiste.

– Eu insisto – Nefertiri se levantou da reverência — Porque não entrega a mais velha de presente para Anck su namun? Ela não tem nenhuma serva.

O faraó sorriu para sua filha mais amada e mais sábia. Ele considerou a perda da mãe e a escravidão como punições suficientes àquelas crianças.

– Entreguem a mais velha para Anck su namun e deixem a mais nova com minha filha, Nefertiri – O faraó ordenou.

As meninas foram separadas do corpo sem vida da mãe.

– Esse povo não merece sua misericórdia, princesa – Imhotep disse a Nefertiri.

– Guarde seus conselhos para você e meu pai – Nefertiri respondeu enquanto pegava sua mais nova e pequena serva no colo.

– Sinto muito – A princesa sussurrou para a garota mais velha, enquanto a levavam para Anck su namun. Nefertiri gostaria de poder ficar com as duas.

Pelo menos as meninas foram bem tratadas. Quando Nefertiri ia treinar com Anck su namun, elas ficavam juntas.

Depois de muitos anos, As duas irmãs escravas reencarnaram como Angelica e Helena.

~.~

Angelica acordou com ruídos do falcão que ela havia deixado entrar em seu quarto na noite anterior.

– Desculpe, amiguinho – Ela abriu a janela – Seja livre!

O falcão voou para fora e para dentro do quarto dela de novo. Angelica sorriu.

– Esta confuso? Eu também – Angelica acariciou o pássaro e disse num devaneio: –Voe até a minha mãe e diga que sinto falta dela...

Imediatamente o falcão voou para fora, até Angelica o perder de vista.

~.~

Rick acordou assustado de um sonho horrível com Angelica. Evelyn já estava de pé, ela não havia dormido bem.

– Pesadelo? – Evelyn perguntou ao marido.

– Sim – Rick levantou-se e vestiu-se rapidamente – Quer saber? Vamos pegar algumas flores de lótus agora!

Evelyn viu um falcão voando pertíssimo de sua janela. A ave seguia a caminho do rio Nilo. Um ótimo lugar para encontrar flores de lótus.

~.~

Depois do café da manhã, Helena ouviu seus pais discutindo. Apesar de muitas palavras estarem em egípcio antigo, ela pode entender:

–... Fracasso! – Anck su namun gritou.

– Mas agora Seth me ajudará! – Imhotep disse pomposo – Nada pode parar a vingança dele!

– Quando eu a matei perdi tudo! – Anck su namun disse – Eu achava que precisava de poder mas o que realmente preciso é de Helena e você...

– Só viveremos quando matarmos todos eles!

– Matar quem? – Helena entrou no quarto bruscamente.

– Saia daqui, isto é entre sua mãe e eu – Imhotep disse rispidamente a Helena.

– Não, é entre nós! – Helena replicou.

– Helena, por favor... – Anck su namun pediu.

– Não vou sair até me contarem a verdade! – Helena bateu a porta usando seus poderes.

Imhotep avançou pronto para gritar ou tirá-la dali a força, mas Anck su namun o impediu.

– Ela esta certa – Anck su namun disse tristemente a Imhotep – Não podemos esconder isso para sempre.

Imhotep se sentou e Anck su namun segurou a mão dele. Helena também se sentou, sabia que era hora de ouvir uma longa história.

– Tudo começou há muito tempo, quando os templos do Egito eram novos e nós éramos impetuosos como você...

Quando eles terminaram de contar tudo, Helena estava muito magoada e pasma para dizer qualquer coisa.

– Mentimos para protegê-la.

– E para que você nos aceitasse. Tente entender... – Anck su namun tentou segurar as mãos dela, mas Helena se esquivou.

– Eu teria aceitado... Amaldiçoados ou não! Tudo o que sempre desejei foi ter pais que pudessem me amar – Helena secou os seus olhos – Acho que Angelica estava certa. Mentir é tudo o que as pessoas sabem.

Helena saiu da casa perturbada. Enquanto ela partia, Imhotep tentou pará-la com seus poderes, mas ela escapou usando os dela. Eles procuraram por Helena, mas ela não queria ser encontrada.

~.~

Seria verdade o que eles dizem? Angelica estava lendo o diário de Sarah. Ela encontrou seus desenhos de infância, muitos deles eram figuras dos deuses egípcios na cena do julgamento. Também leu sobre o sonho da sua mãe. Alguém bateu na porta. Ela fechou o diário.

– Senhor Khalid – Angelica ficou desapontada ao abrir.

– Helena esta aqui? – Ele entrou sem esperar convite.

– Não. Algo errado? – Ela disse desconfortável com a presença dele.

– Nada – Imhotep a olhou. Os olhos dela estavam cansados. Tão ingênua como uma ovelha... Ou como aquela nova religião diria uma “cordeira” imolada... A Seth.

– Imho... Frank! – Anck su namun chegou apressada – Angelica, você esta bem?

– Sim, o que ouve?

– É Helena, ela saiu sem dizer aonde ia.

– Mau hábito. Não se preocupe, ela volta. – Angelica sabia que Helena fazia isso para esfriar a cabeça. Pensou em perguntar se eles brigaram, mas deixou para lá. Não era da conta dela.

Anck su namun olhou para uma mesa. Angelica havia deixado algumas fotos do diário de Sarah ali. Uma delas era de Helena criança. Anck su namun passara anos imaginando como a filha seria. Angelica percebeu que ela estava emocionada.

– Bem, pode ficar com essa – Angelica entregou a foto a ela – Não sei por que, mas mães adoram fotos.

Imhotep derrubou a pedra de Seth no chão, que brilhou pra ele, discretamente.

– Você esta indo para algum lugar? – Anck su namun notou uma mala pronta.

– Pra casa... Meu pai esta aqui.

– Pensei que não se entendia com seu pai – Imhotep disse a ela, desconfiado dos O’Connells.

– Nem um pouco, mas... Eu me entendo com o Egito menos ainda – Angelica disse melancolicamente. Não tinha certeza se partiria, mas parecia razoável.

– Posso fazer alguma coisa por você? – Anck su namun perguntou.

– Diga a Helena que já paguei o aluguel e... Desculpe.

– Boa sorte no outro lado – Imhotep disse a ela e ele e Anck su namun partiram.

– Não precisa matar ninguém, ela já vai embora – Anck su namun disse a ele.

No caminho, Alex os viu de longe e os achou muito familiares...

~.~

Após um banho, Angelica vestiu sua calça jeans, um top branco e uma camisa xadrez – As roupas que ela vestia quando chegou naquele mundo. Eram mais práticas e estilosas, mas ao se olhar no espelho se sentiu um pouco estranha. Será que ela voltaria a ser a mesma Angelica de antes? Não sabia quem era e nem para onde ir.

Alguém bateu na porta de novo, eram Lin e Alex.

– Oi! Bom, eu vim me desculpar pelos meus pais – Alex era um péssimo mentiroso.

– Olha, não tenho nada contra você ou eles...

– Você esqueceu seu chá! – Lin interrompeu Angelica com um largo sorriso, enquanto oferecia a ela um chá com uma flor de lótus dentro.

– Tá legal, entrem! – Angelica sorriu.

Ao entrar, Alex chutou a pedra vermelha para o outro lado do quarto. Ele olhou para o chão, mas não encontrou nada.

Alex, Lin e Angelica tiveram uma conversa amigável. Alex se lembrou do quanto ele desejava um irmão na sua infância. Um garoto seria um bom companheiro de aventuras, mas uma irmãzinha para cuidar seria ainda mais incrível. Angelica teria sido ótima. Alex e Lin se despediram, mas ficaram no lado de fora, esperando os efeitos do chá.

Em um canto do quarto, a pedra vermelha se quebrou, silenciosamente, e um escorpião avermelhado foi libertado. Sem perceber a presença dele, Angelica bebeu o chá, imaginando onde Helena estaria.

De repente, ela estava no antigo Egito e Helena era sua irmã mais nova. Num vislumbre, ela voltou ao seu apartamento.

– Mas o que... — Angelica olhou ao redor.

“Algo mágico aconteceu” – Ela se lembrou de Evelyn dizendo e enquanto Angelica piscava, inúmeras cenas do passado explodiam em sua mente.

Angelica viu a senhora Crawford – Anck su namun – matando Evelyn enquanto Rick gritava.

Ela viu os deuses e todo o julgamento de Evelyn em flashes tão rápidos que só ela poderia entender.

Maat a tirando de Evelyn, Isis a entregando a Sarah.

Ela se lembrou de ter desenhado os deuses quando era mais nova e de como alguns deles sempre a acompanhara.

“Seu pai se chama Rick e a sua mãe Evelyn” – Isis dissera a ela uma vez – “Um dia você irá conhecê-los”

Angelica caiu de joelhos no chão, ofegante. Agora tudo fazia sentido, todas as sombras de dúvida desapareceram. Ela permaneceu no chão, a verdade abrindo e libertando a sua mente, enquanto o escorpião de Seth se aproximava dela.

Helena abriu a porta com os seus poderes e entrou. Depois de vagar bastante, ela finalmente percebeu que Angelica era a família mais verdadeira que ela tivera.

– Angel, me perdoa eu... – Helena viu a amiga ajoelhada no chão e se apressou para ajudá-la, abaixando-se ao lado dela.

O escorpião se sentiu ameaçado pela presença inesperada e ferroou o calcanhar de Helena. Ela caiu no chão com falta de ar.

– Helena! – Angelica gritou, segurando a amiga.

– Minha perna! – Helena deu um grito de dor.

Angelica percebeu que o tendão de Helena estava inchado e ferido. Ela se virou e viu dois falcões matando um enorme escorpião vermelho. Como eles haviam entrado? Não importava.

– Aguente firme, vou encontrar ajuda! – Angelica disse a Helena.

– Des...culpe – Helena sussurrou e fechou os olhos.

– Não! Helena! Acorde! – Angelica gritou desesperada, sacudindo Helena.