Flores de Rodório - A flor da Romãzeira
2 Capítulo 1 - A serva da Morte
Notas iniciais
Quando acordei no Submundo, eu não sentia mais dor, ou medo, ou qualquer outra emoção negativa que me foram impregnadas por tanto tempo. A única coisa que conseguia sentir no momento em que meus olhos se abriram e encontrei ao meu lado meu novo mestre era gratidão e devoção. Hades me tirou do tormento de minha vida e aquilo consumiu qualquer dúvida que eu tinha a cerca de me devotar a ele... O que dizer? Minha madrasta sempre disse que eu era o elo fraco da corrente da fé de nossa casa.
Hades, diferente do que muitos podem pensar, não me tratou de forma cruel depois do acordo, pelo contrário, sempre foi muito educado, cordial e gentil comigo, e isso é algo que até hoje não entendo, nem mesmo minha senhora Perséfone conseguiu me explicar.
Cordial como sempre, Hades me deu alguns dias para me adaptar a meu novo lar, e pediu que algumas almas me explicassem o funcionamento das coisas, me mostrassem onde eu dormiria e garantissem que eu teria sempre vestes dignas para vestir, além disso, pediu para que eu não contasse a ninguém sobre sua saída dos Campos Elísios, e garantiu que as almas que me acompanhavam também não contassem nada sobre aquilo.
Depois de uma semana, eu já estava inteirada do funcionamento do Palácio, mas ainda não via um motivo para que o Deus do Submundo tivesse me trazido para servir pessoalmente a ele, visto que as almas haviam me dito sobre a existência de uma mulher chamada Pandora, a General do Exército de Hades.
Era manhã de domingo e mesmo assim os treinos continuavam a mil no Mekai, assim como no Palácio de Hades. Estava ocupada acompanhando Loudviga e Andreo, as almas que foram enviadas por Hades, no caminho para o Jardim de Perséfone, onde minha senhora repassaria as ordens do Imperador, quando fomos abordados por uma figura um tanto quanto assustadora, para minha pessoa acostumada apenas às boas almas que trabalhavam comigo e os Deuses Gêmeos – quase sempre cordiais.
— Senhor Radamanthys. – Andreo curvou-se veementemente, acompanhado de Loudviga, e eu fiquei parada, encarando o espectro com meus olhos arregalados, completamente em choque. – Em que podemos ajudar?
— Onde estão indo? – perguntou ele, com a postura firme e o olhar severo, o que me fez tremer um pouco e abaixar os olhos, principalmente quando ele me olhou de forma quase agressiva. – Quem é ela?
— Oh, esta é Diana, a nova serva da senhora Perséfone. – respondeu Loudviga, segurando-me pelos ombros. – Estamos levando a menina até o jardim da Imperatriz.
— Ela não está morta. – sentenciou o homem alto, e pela primeira vez desde que eu havia chegado, tremi como vara verde.
— Oh... Não, realmente. – Andreo concordou. – Mas, não estamos aqui para questionar as ordens da Imperatriz! Ela mandou que trouxéssemos a menina com vida, e foi o que fizemos. Diana já passou duas semanas conhecendo nosso castelo e agora vai começar a servir a Deusa Perséfone pessoalmente, não é bom que deixemos nossa senhora esperando!
Porém, o olhar dele continuava sobre mim, quase me despindo de minha pele para enxergar o que havia dentro do meu coração, e eu temi que ele pudesse realmente ler meus pensamentos naquele momento.
E, da mesma forma como havia chegado, Radamanthys deixou-nos, de forma silenciosa, deixando o caminho livre para que passássemos.
— É bom tomar cuidado com esse aí. – sentenciou Loudviga, de braços dados comigo. – Radamanthys de Wyvern não é o Juiz mais temido do Meikai à toa, ele tem os olhos de uma águia e é fiel ao senhor Hades.
— Isso é bom, não é? – questionei, confusa. – Significa que estamos do mesmo lado.
— É bom, só que não se esqueça de que você é a mão do Senhor Hades aqui dentro, ele precisa de servos fiéis, mas nem todos podem saber quem realmente serve ao nosso senhor, ou os Deuses Gêmeos irão nos tirar do caminho. – ditou Andreo, abrindo as grades do portão de aço negro que dava início ao Jardim de Perséfone. – Com certeza o senhor Hades pedirá que você ganhe a confiança dos deuses Gêmeos para eles acreditarem que você trabalha do lado deles.
— Por que os deuses gêmeos desafiariam o senhor Hades? Isso é quase suicídio... – murmurei, confusa; foi quando uma mão delicada tocou o topo de minha cabeça, e, com um suspiro, senti o cheiro de flores frescas misturado ao ar quente do Submundo. – Senhora Perséfone! – curvei-me rapidamente, assim como os outros.
— Eles podem não tentar nada nesta era, mas já tentaram antes. – com um sorriso entristecido, Perséfone respondeu à minha pergunta. – Você deve ser a menina Diana, minha nova serva.
Concordei levemente com a cabeça e a vi dispensar Loudviga e Andreo, chamando-me com um aceno de mãos para adentrar o jardim mais a fundo. Era um belo local! Acho que foi o jardim mais bem cuidado de rico que eu contemplei em anos, e falo isso com a certeza de que nenhuma outra pessoa vivente no mundo possuía um exemplar de árvore feita de prata e flores feitas de joias preciosas.
E, bem no meio do jardim, uma enorme romãzeira se erguia, linda e robusta, contendo os mais vermelhos e suculentos frutos da Terra. Lindas romãs cheias e maduras, as romãs do Mito de Perséfone e o Inverno... Meu pai me contou tantas vezes sobre ele... Perséfone comeu três sementes da Romã e, por isso, tinha que passar três meses no Submundo, enquanto o resto do tempo ela vivia na terra com a Mãe, a Deusa Deméter.
— Diana, Hades lhe contou por que você está aqui? – perguntou ela, indo se sentar em um banco de obsidiana instalado sob a romãzeira.
— Não, minha senhora. – permaneci parada de pé, mantendo a cabeça baixa em respeito.
— Ele lhe trouxe aqui para que você faça um favor para nós. – continuou ela, chamando minha atenção. – Há muito tempo atrás, havia aqui no Submundo uma deusa muito importante, a deusa Macária. Ela era a deusa da Boa Morte e iluminava as nossas vidas... Macária era como um sopro de vida no meio de tanto caos, destruição e morte. – Perséfone respirou fundo antes de continuar. – Thanatos acabou se apaixonando por ela, e ela também o amava, mas... Thanatos começou a agir de forma possessiva, quase doentia e isso assustou a deusa Macária, que tentou fugir de seu palácio e do esposo; sim, ela se casou com Thanatos. A deusa da Boa-Morte fugiu para o palácio de Hypnos e lá pediu a ajuda do deus do Sono... Hypnos a prendeu em algum lugar de seu palácio e a protegeu do irmão... Entretanto, Macária nunca mais conseguiu sua liberdade e até hoje não se sabe o paradeiro dela...
— Meus senhores me trouxeram aqui para tentar encontrar a deusa Macária, não é? – sugeri, com o rosto calmo. – Quantos outros vieram fazer o mesmo trabalho?
— Muitos outros. – confessou Perséfone, encarando-me com pesar.
— E nenhum deles teve sucesso, não é? – continuei e a vi acenar positivamente com a cabeça. – E por que precisam de mim viva para isso?
— Sonhar é uma coisa complicada, Diana. Almas não comem, não bebem e não dormem, por consequência, não têm sonhos... Precisamos que você sonhe. Os outros que vieram antes de você começaram a sonhar sempre com a mesma imagem depois que chegaram aqui. Sonhavam com uma mulher de asas de borboleta presa em uma gaiola negra, mas não viam onde! – Perséfone segurou minhas mãos. – Trouxemos todos eles, só que cometemos um erro terrível, mandamos nossos servos até o palácio dos Gêmeos para invadir a fortaleza e arrancá-la de lá. Mas não funciona deste jeito.
— Alguém precisa me levar lá e mostrar o caminho. – completei o pensamento, olhando nos olhos castanhos da deusa. – Hypnos? Não... Tem que ser alguém que não perceba isso até o último momento...
— Você precisa de alguém de confiança, alguém que conheça muito bem o Meikai e que te leve para o castelo, mas também precisará de alguém de dentro do Palácio dos Gêmeos. – concordou a deusa. – Hypnos não te levaria lá por nada, eu já tentei de tudo, Hades já ordenou e mesmo assim ele não a deixa ir.
— Hypnos tem vários filhos, não tem? – questionei, ajoelhando-me a frente dela. – Eu me lembro das histórias que minha mãe contava sobre as coisas aqui de baixo. Eu me lembro de três deles, Morfeu, Fantasia e Oneiros, eles existem mesmo?
— Sim, entretanto são fiéis demais ao pai, não conseguiria convencê-los. – quando ela disse isso, dei um sorriso maroto.
— Minha senhora, até hoje não nasceu uma criatura que pudesse resistir ao charme dos Alessandros, isso abrange a minha mãe, a meu irmão e a mim. E, além do mais, eu sou inteligente, posso dar meu jeito de conseguir as coisas sem eles sequer notarem que estão traindo o pai. – brinquei, sorrindo amplamente. – Eu sei, não será fácil nem muito rápido, mas eu vou dar um jeito de achar sua Macária.
Perséfone continuava com a expressão triste e isso me entristecia também.
— Você não se preocupa em morrer tentando? – perguntou ela, tocando minha cabeça novamente.
— Se eu morrer, eu vou ter que ficar aqui para sempre, não é? Então, já tenho toda a certeza de que preciso. Eu sei para onde vou se isso der errado, e sei quem eu vou encontrar. – no momento pensei em minha mãe e por um minuto vi na expressão da deusa da Primavera a mesma expressão que minha mãe fazia quando lia as cartas de Milo. – A Macária, ela é filha de vocês, não é?
— É... – suspirou a deusa, muito cansada. – É nossa filha sim.
— A gente vai achar a sua filha! Nem que eu tenha que dormir por quatorze horas seguidas! – ri amplamente, encarando-a com brilho nos olhos.
Naquele dia, meu compromisso com a Deusa Perséfone começou, e como sempre que eu recebia uma ordem, eu tentaria cumprir a minha missão da forma mais rápida e limpa possível.
Aquela seria uma missão onde eu precisaria usar de persuasão e inteligência para proceder. Não era um embate físico (graças aos céus, já que eu nunca tive treinos físicos em toda a minha vida), assim, a primeira coisa que precisava fazer, era traçar um primeiro plano para conseguir encontrar a deusa Macária primeiro em minha mente, já que Perséfone disse que a deusa dava dicas de onde estaria usando o portal dos sonhos.
Desta forma, passei a me isolar ainda mais das atividades do castelo e pedi permissão à minha deusa para que eu pudesse usar a biblioteca da Giudecca, onde Lune de Balron escrevia os livros da vida e armazenava todo o conhecimento da Terra.
— Bom dia, Lune. – sorri, adentrando a Primeira prisão, deparando-me com ele sobre a tribuna, já escrevendo muitas linhas em um livro purpúreo. – Como vai?
— Senhorita Diana! – rapidamente ele se ergueu e veio até mim, beijando minha mão esquerda, já que a direita ocupava-se em segurar uma cesta de doces frescos. – O que a traz até este lugar, senhorita?
— Bem, minha senhora me deu dois dias de folga, mesmo eu achando que ainda não tive tempo o suficiente para me cansar. – mantive o sorriso, colocando atrás da orelha uma mecha de cabelo que caía do complicado penteado que as almas haviam feito. – Então, eu pedi permissão para vir ler alguns livros, e ela deixou que eu o fizesse.
— É adepta à leitura? – Lune segurou-me pelo braço, levando-me até as prateleiras abarrotadas de livro, o som estalado da sapuris dele sobre o chão de mármore negro era o único barulho que cortava os gritos abafados das almas sendo punidas ao longe... Era perturbador ouvir aquela melodia dia e noite.
— Muito! – concordei, acenando levemente com a cabeça. – Mas, você deve entender, ultimamente adquiri uma vontade enorme de ler sobre as coisas aqui do Submundo. – e soltei uma risada baixa. – Até pouco tempo atrás, eu nem mesmo pensava que todas as histórias do meu pai poderiam ser realidade, e agora aqui estou eu, completamente perdida. Acho que devia ter prestado mais atenção nele!
— Não se puna assim. – comentou Lune, tirando da prateleira um grande livro de capa dura e muito azul, as inscrições na frente estavam em grego clássico e me esforcei para entender o que dizia. – Você sabe ler em Grego?
— Tive aulas com um tutor, mas, é bem diferente do que eu estou acostumada. – peguei o livro nas mãos, passando a pontados dedos pelas letras pintadas em prateado. – Acho que vou ter que prestar muita atenção na leitura!
— Se a senhorita quiser, pode ler aqui mesmo e qualquer dúvida basta que me chame! – simpático como eu nunca pensei que seria, Lune me indicou uma poltrona, colocada ao lado da tribuna onde ele se sentava.
— Tem certeza que não vou atrapalhar? – perguntei, ajeitando a cesta em meu braço.
— Imagine, senhorita. – garantiu ele, sorrindo de forma delicada.
— Então, por favor, aceite os doces que eu trouxe. – e entreguei a ele o pacote, vendo-o corar levemente ao receber o presente. – São profiteroles com geleia de romã, eu fiz com a ajuda da Loudviga, espero que goste deles!
— Oh, com certeza, senhorita, vou adorar! – e pigarreou antes de continuar. – Não vai querer um pouco? São muitos apenas para mim.
— Imagina! Divida com alguém se não conseguir comer tudo, eu trouxe como um presente. – abracei o livro ainda mais. – Bem, eu vou começar a ler, muito obrigada por me ceder esse espaço.
E por várias horas eu fique sentada na grande poltrona ao lado da tribuna, queimando meus neurônios para conseguir entender cada palavrinha lá colocada, e estava indo bem. Acho que três horas se passaram até que cheguei à uma sessão do livro intitulada como “O senhor do Sono e seus filhos”, e nesta hora meu coração deu um pulo, minhas mãos secaram e eu quase soltei um gritinho de felicidade ali mesmo.
Comecei a ler a primeira página, e estava tão concentrada nas palavras que nem mesmo ouvi quando passos metálicos invadiram o local, assim como o som longínquo de vozes grossas. Após um tempo, percebi que seriam espectros, no entanto, não dei atenção a isso, continuando a mexer em uma mecha solta do cabelo e a ler com afinco.
— Lune, não sabia que tínhamos visita! – quando a sombra enorme pairou sobre mim e a voz pareceu tocar meu rosto, ergui minha cabeça, com os olhos levemente arregalados e a boca entreaberta. – Boa tarde, senhorita Diana!
— Senhor Minos. – soltei um riso constrangido, encostando o livro aberto em meu peito. – Boa tarde! Desculpe-me a intromissão!
— Ora, por que se desculpar? – ele tomou minha mão esquerda, e beijou o dorso de forma rápida. – Não é sempre que temos tão linda presença aqui na Primeira Prisão, não é mesmo, Radamanthys?
Novamente, gelei. Acabei por perceber que temia Radamanthys como nunca temi outro espectro; todos sempre haviam me tratado tão bem e de forma tão cordial que não conseguia teme-los. Isso não acontecia com Radamanthys, ele era sempre tão distante e frio, e me olhava como se eu fosse um coelho e ele um leão, pronto para me matar.
Tossindo levemente, olhei para o espectro de Wyvern, parado atrás de Minos, encarando-me de cima.
— Boa tarde, senhor Radamanthys. – ditei, colocando-me de pé rapidamente. – Acho melhor eu ir agora! Não quero atrapalhar.
— Ah, mas já? – questionou Griffon, dispondo a mão em minhas costas, encarando-me como a raposa ardilosa que era. – Acabamos de chegar e a senhorita já se vai?
— Os senhores, com certeza, têm de falar sobre coisas importantes, eu não quero interromper. – e me virei para Lune. – Posso levar o livro, Lune? Eu o devolvo amanhã de noite!
— Não tenha pressa para lê-lo, senhorita Diana, — sorriu ele, dando-me uma leve sensação de conforto. – se eu precisar usá-lo, peço para Meredith trazer de volta.
— Obrigada, Lune. – fiz um aceno com a cabeça, virando-me novamente para os Juízes. – Com licença, então, até breve. — e fiz uma reverência educada.
— Até! – a voz risonha de Minos me seguiu até a saída, e quando me vi fora da 1ª prisão, senti como se uma pedra fosse tirada de minhas costas.
Respirando fundo, voltei para o Palácio do Senhor Hades, indo me esconder em meu quarto, onde fiquei lendo até a madrugada. Devo ter adormecido por volta das duas e meia da manhã, mas isso foi bom, pois tive meu primeiro sonho com a Deusa Macária.
Como a Rainha Perséfone havia dito, ela apareceu dentro de uma gaiola, mas não era uma gaiola pequena, era ampla e parecia ser o mínimo confortável para que ela pudesse descansar. De dentro da gaiola, ela me olhava e estendia o braço para mim, gritando frases que eu não era capaz de ouvir, e quando eu finalmente consegui segurar a mão dela, eu acordei subitamente, sentindo meu peito doer e minhas mãos formigarem.
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