Flores de Rodório - A flor da Romãzeira
6 Capítulo 5 - O Treinamento de Sagitário
Notas iniciais
— Vamos lá, mocinha, ou ainda não aprendeu a se defender depois de todo esse tempo?
Era interessante descobrir que um santo de Athena tão renomado podia ser bem sádico quando queria. E assustador mesmo era saber que aquele sádico era Aiolos, agora sobre mim, desferindo socos potentes contra meus braços, cruzados sobre meu rosto em forma de defesa.
Respirando fundo, comecei a me concentrar, até que finalmente consegui visualizar um espaço de tempo onde seus golpes não eram tão potentes, já que ele perdia parte do vigor após cem golpes fortes. Focando-me naquela brecha, usei meu cosmos para desprender de meu corpo um forte aroma de papoulas amarelas. Aiolos me disse que elas possuíam uma qualidade sedativa muito forte e, com a quantidade certa concentrada, poderiam desacordar um Deus Menor.
Deixando o perfume forte se desprender de mim, percebi que os movimentos dele ficavam cada vez mais lentos, e isso me deu a brecha para acertá-lo com um chute potente no peito, jogando-o para longe de mim.
Em estado letárgico, Sagitário tentou se colocar de pé, mas eu corri até ele, sentando-me sobre seu dorso e prendendo as mãos uma de cada lado, usando meu cosmos para prendê-lo no chão usando raízes firmes e grossas.
— Papoulas... – murmurou ele, sorrindo aquele sorriso divertido tão raro de se ver. – Usou as papoulas amarelas, muito bom.
— Obrigada, mestre. – sorri, apoiando minhas costas em suas pernas erguidas, respirando fundo e cansada. – Mas, sei que vai dizer que demorei muito para pensar nisso e na brecha dos golpes.
— Acho que foi o suficiente. – continuou ele, remexendo-se sob mim, parecendo desconfortável. – As raízes também estão bem fortes, estou tentando me soltar desde que me colocou aqui. Parabéns, Diana, está preparada para o combate físico.
— E o mental? – perguntei, inclinando-me por sobre ele, segurando-o pelos pulsos novamente. – O que eu preciso fazer para medirmos meu domínio sobre a minha mente?
— Você suportou todo o meu treinamento, está preparada mentalmente. – confessou ele, encarando-me de forma enigmática. – Não consegui destruir sua psique nem quando te fiz se lembrar da época em que esteve presa.
Gelei quando ele me lembrou daquilo. Logo nos primeiros dias de treinamento, ele começou a agir exatamente da forma que Euron agia quando estava comigo na cabana, chegava com dois pés em meu peito, jogando-me de forma abrupta no chão e me chamando para revidar.
Várias vezes em que ganhava de mim em força, Aiolos me deixava deitada no chão sob ele e ficava lá, apenas me encarando fixamente enquanto eu chorava e esperneava, tentando arrancá-lo de cima de mim.
Isso se sucedeu por várias vezes, até que finalmente eu consegui acertá-lo de forma tão potente e agressiva que ele caiu ao longe, encarando-me boquiaberto e preocupado.
“Aiolos encarava Diana, sentada no chão, completamente pálida e tensa. Não imaginava que o medo e o pavor fossem tão encravados nela, já que os mortos costumam esquecer o que lhes causou dor, mas também não pensou que ela fosse conseguir uma força tão grande daquela memória.
— Diana... – Aiolos conseguiu apenas chamar quando ela saiu da campina chorando, correndo na direção do mar, o vestido branco esvoaçando como os cabelos esverdeados cheio de flores.
O cavaleiro suspirou. Sabia que estava pegando pesado demais com a ninfa, mas se ela queria adentrar o Mundo dos Sonhos, precisava entender que os deuses usariam o que fosse preciso para quebrá-la, e, depois de saber mais sobre os anos que ela passara presa, teve certeza de que aquela seria a memória que Hypnos e os filhos escolheriam para atormentá-la.
Mesmo assim, seu coração doeu como nunca antes quando viu a moça sair de lá correndo e chorando, aquilo o deixava atordoado. Há muito tempo o coração de Aiolos e Sísifo se misturava, assim como as lembranças, os remorsos e suas dúvidas, isso fazia um mal terrível à mente do cavaleiro e ele acabou endurecendo um pouco suas defesas pessoais para que não se ferisse, agora, via algumas barreiras caírem ao ver a ninfa chorar.
Respirando fundo, ergueu-se do chão e caminhou até a praia, pendendo a cabeça pra frente ao ver a moça encolhida com o rosto entre os joelhos, chorando copiosamente. Delicadamente, ele tocou a cabeça de Diana, sentando-se ao lado dela e olhando pra frente.
— Desculpe, ultrapassei os limites hoje. – e Aiolos ouviu-a fungar, enxugando o nariz e os olhos com o dorso da mão.
— Eu entendo... – e Diana soltou uma risada anasalada. – Eu sei que não queria me machucar ou fazer qualquer outra coisa, mas... Ele ainda está aqui. – e tocou a cabeça com as duas mãos. – Eu já tentei fazê-lo sair, mas cada vez que eu tento, ele parece se enterrar ainda mais.
— Esse homem, o homem que te machucou, quem era ele? – perguntou o cavaleiro, olhando-a com cuidado. – Você me contou que ele te feriu, mas não disse quem ele era.
— Ele era um soldado do Santuário, – Diana começou a falar, olhando para a areia, tentando não se desesperar ao falar do assunto. A verdade é que ninguém parara para lhe perguntar como ela se sentia com a questão que passara em vida, e, assim como ela, preferiam apenas ignorar o que ocorrera na Terra e viver com ela uma nova vida no Submundo, porém, nenhum deles nunca havia lhe tratado de forma que lhe lembrasse dos momentos terríveis, todos eram tão bons e gentis... Talvez por isso ela se sentisse acuada com Radamanthys e agora com Aiolos, eles lhe mostraram que a vida não seria perfeita só porque a maioria lhe tratava com educação e carinho. Ela precisava falar, precisava colocar para fora o que havia passado. – eu não sei por que ele me escolheu, ou por que fez isso comigo... Eu... – e novamente a ninfa de cabelos esverdeados soluçou, enxugando os olhos com os dedos.
— Não precisa me contar se não quiser... – volveu Aiolos, retirando seu elmo dourado, deixando-o de lado na areia.
— Eu quero. – Diana exclamou, sentindo o coração apertar. – Ele me levou para a cabana dele, era em uma parte mais isolada do Santuário, perto de um penhasco... Eu conseguia ouvir o mar à noite e as gaivotas pela manhã, acho que seria um cenário perfeito se eu não estivesse acorrentada ao chão e amordaçada como um prisioneiro. – ela pigarreou para limpar a garganta. – Eu não sei quanto tempo passou, mas deve ter sido muito. Reencontrei um amigo do meu irmão aqui, Camus de Aquário, e ele parecia bem diferente da época em que nos conhecemos... Nesses dias em que eu estive presa, eu aguentei todo tipo de agressão física e mental, mas Euron, o soldado, nunca tentou me estuprar. Ele sentia prazer apenas em me bater como se eu fosse uma boneca de pano. – a voz da moça tremeu quando se lembrou das vezes em que Euron quebrara uma cadeira em suas costas apenas porque ela errara o ponto do ovo cozido.
— Ninguém foi atrás de você? – o cavaleiro questionou, perplexo.
— Camus disse que foram, mas quem iria suspeitar de um soldado do Santuário? Pelo que eu consegui entender, Euron era respeitado e ninguém nunca teve nenhum motivo para suspeitar dele. – Diana olhou para o mestre, claramente magoada e ferida. – Por que a deusa Athena não me ajudou, Aiolos? Eu rezava todos os dias, eu pedia tanto a ajuda dela... Eu rezei para ela, depois para o Deus da minha mãe e mesmo assim aquilo continuava...
— Eu não sei, Diana... – murmurou Sagitário, consternado. – Eu queria poder te dar a resposta, mas não a possuo.
— Tudo bem, eu sei que ninguém pode ter uma resposta para isso... – e a moça fungou novamente. – No dia em que o Imperador Hades me salvou, eu tinha pulado de um penhasco. Eu consegui fugir porque Euron me deu uma surra tão forte, mas tão forte que ficou com medo de ter me matado e me deixou dormindo sobre a cama do quarto dele. Eu fugi pela janela, com ele correndo atrás de mim, e quando eu vi o penhasco, eu só pensei em pular para fugir daquilo.
— Você é uma guerreira, Diana. – Aiolos tocou o ombro da pupila, sorrindo de forma confiante. – Conheço muitos guerreiros de alta patente que não teriam a mesma coragem que você, tanto em suportar tudo o que suportou, como pela entrega que dedica à missão que a Imperatriz Perséfone lhe deu.
— Obrigada, mestre. – agradeceu a mais jovem, sorrindo com o rosto vermelho e inchado. – E eu tenho que te agradecer também por ter aceitado me treinar e por me ajudar a entrar no Mundo dos Sonhos.
— Você me lembra uma pessoa que eu conheci, ela era destemida como você, acho que ia querer que eu te ajudasse. – comentou ele, esticando as pernas e apoiando as mãos na areia, olhando para o céu. – Ademais, vale a pena gastar cada micropartícula de cosmos criando a proteção para podermos treinar quando a pupila em questão é tão aplicada.
— Essa barreira é uma barreira de ilusão, não é? Não permite que ninguém entre ou saia desse ambiente em questão, e nos isola, é isso? – sugeriu a ninfa, encarando-o de forma curiosa.
— Os mortos têm alguns privilégios aqui nos Elísios. Quando eu decidi que iria te treinar, fiz questão de que os Campos criassem para nós uma atmosfera perfeita. É claro que isso me custa um pouco do cosmos, mas ainda assim é melhor do que sermos interrompidos ou visitados pelos deuses da Morte e do Sono, não é? – riu ele, beliscando de leve o braço da pupila.
Aquela foi a primeira vez que Diana viu Aiolos sorrir, e ela ficou tão encantada que prometeu a si mesma dar mais motivos ao cavaleiro para sorrir para ela. Era um sorriso tão lindo, não deveria ficar guardado apenas para o sagitariano.”
Depois daquele dia, eu prometi ao cavaleiro de Sagitário que seria muito sincera quando a questão fosse os limites do nosso treinamento, e ele fazia questão de perguntar a toda hora se estava tudo bem e se poderíamos continuar.
Com o decorrer do tempo, criamos um laço difícil de explicar. Com apenas um olhar, ele era capaz de saber se eu estava bem e poderia continuar, enquanto eu conseguia entender quando ele se sentia fadigado e precisava se retirar para lamuriar-se sobre suas vidas, como fazia em todo final de tarde.
Desenvolvemos essa boa relação, e eu já me sentia confortável para brincar com Aiolos, tirando-o do sério várias vezes e o deixando envergonhado em outras. Era interessante e ele retribuía muito bem quando queria, sempre me lembrando de que eu era muito lenta em aprender e nunca conseguiria entrar no Mundo dos Sonhos sendo lenta daquele jeito.
— Você está preparada, Diana. – senti as mãos dele em minha cintura, só então percebendo que havia perdido a concentração, por consequência, as raízes se desfizeram e ele pôde se libertar. – Podemos começar os preparativos para sua entrada. – e ele se sentou, mantendo-me sobre seu colo, encarando-me bem dentro dos meus olhos. – Vou perguntar apenas desta vez, tem certeza de que vai continuar?
— Tenho. – concordei, sorrindo delicadamente e ajeitando os cabelos dele sob a faixa vermelha. – Mas, não quero me despedir de você, mestre.
— Não precisa. – ele colou nossas testas, fechando os olhos e respirando lentamente. – Você me fez lembrar a verdadeira missão de um cavaleiro, proteger o Amor, a Vida e as pessoas com força de espírito igual a sua. Obrigado.
— Obrigada, mestre, vou me lembrar de todos seus ensinamentos quando estiver lá dentro... – sentenciei, beijando a testa cálida de Aiolos, abraçando-o fortemente. – Espero que depois de me ajudar, você consiga encontrar seu caminho, seja ele para a Ilha dos Abençoados ou aqui mesmo nos Campos Elísios. – sussurrei, passando as mãos por seus cabelos.
— Eu vou tentar. – ele garantiu, abraçando-me de volta.
Passamos mais algum tempo deitados sobre a relva, olhando o céu dos Elísios de mãos dadas, e a cada momento em que as nuvens formavam novas formas no ar, eu tinha a certeza de que havia conseguido mudar ao menos um pouco o coração de Aiolos no tempo em que estivemos juntos. Acho que viver tanto tempo em pesar e dor muda bastante o modo como vemos a vida, ou, neste caso, a morte.
Isolar-se, eu aprendi, não era a saída. Aprendi com meu Mestre de Sagitário muito mais do que simplesmente me mover dentro da Prisão dos Sonhos, ou como me defender de ataques inimigos. Aiolos me ensinou muito sobre o quão complexos são os sentimentos humanos, e como devemos cuidar deles com cuidado, como se fossem uma rosa de cristal.
Às vezes, tememos tanto que essa rosa se quebre, que a deixamos escondida em um local profundo, onde ninguém poderá encontrá-la e quebrá-la. Não temos como esconder nossos sentimentos dos outros para sempre, por vezes, basta que um amigo tenha tempo para ouvir o que nos aflige e podemos curar um ao outro com os ensinamentos e vivências de cada um.
Aiolos aprendeu isso com o tempo, e aprendemos muito um com o outro, até mesmo curamos algumas chagas abertas em nossos corações. Percebo, hoje em dia, que realmente o tempo deve ter passado de forma diferenciada, pois a conexão que criamos pareceu ter sido cunhada por éons de convivência e amizade.
Quando finalmente chegou a hora, percebi a hesitação de Sagitário ao armar seu arco com a flecha que um dia fora guiada por Hades até o coração de Sísifo e, de acordo com Aiolos, continha o mesmo selo que mantivera o antigo cavaleiro de Sagitário preso no Mundo dos Sonhos.
Precisávamos daquela conexão, uma vez que Hypnos poderia facilmente me expulsar do Mundo dos Sonhos caso eu adentrasse a dimensão sendo mantida apenas por meu sono. E, como eu já havia imaginado, deveríamos criar um elo mais forte que me permitisse me manter dentro daquele local sem o risco de ser jogada para fora. O único problema a partir dali seriam as armadilhas da mente criadas pelos filhos de Hypnos, e as prováveis intervenções do próprio deus do sono.
— Quando entrar lá, não se deixe esquecer-se de quem realmente você é e de sua missão. – ditou Aiolos, a alguns metros de mim, apontando a flecha certeira para meu coração. – Mantenha em mente coisas que te ancorem a esta dimensão.
— Certo. – concordei, respirando fundo e piscando os olhos lentamente. – Estou pronta!
— Boa sorte, Diana. – ditou ele, antes de respirar fundo e atirar a flecha de forma certeira.
Em câmera lenta, vi a flecha voar em minha direção, até acertar meu peito. O impacto jogou-me para trás, mas não conseguia sentir nada, apenas o pesar ao ver Aiolos caindo de joelhos no chão, com os olhos cheios de lágrimas.
Enfim, tudo se apagou e senti meu corpo ser sugado para baixo, num movimento violento, tirando de mim um único arfar.
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