Flores De Maio

3 Uma Rosa Sem Espinhos Não É Uma Rosa


“A rosa se casou com o cacto.

Compreendia seus espinhos.”

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Acordou, mas nada era certo ainda. Abriu seus olhos e percebeu que Sérgio não estava mais na cama, o que dava a ela um certo alívio, não estava disposta a ouvir as mesmas piadinhas de sempre, sobre sua cara amarrotada, sobre o terrível bafo que tinha ao acordar, ou coisas do tipo. Ela se levanta e vai até a imensa janela do seu quarto e a abre. Aquela vista era linda, tão perfeita e ao mesmo tempo indescritível, como se estivesse em um filme romântico antigo, onde, estar ali era a única coisa que importasse. Ela permite que o vento toque sua pele pálida, era uma sensação estranhamente incrível, era como se ela fosse livre, mesmo que por alguns segundos.

Ela vai até o banheiro, toma uma ducha rápida, se seca e bota a roupa mais fácil que havia em seu closet. Sua vontade era de ficar no quarto o dia todo, sem precisar ver sua ‘família maravilhosa’, e ouvir seu texto decorado. Era um saco para ela ter que aturar Cecília, sua mãe, falando sobre a herança que Enrico vai deixar para ela após sua morte, ver seu irmão sempre concordando com as besteiras que sua mãe diz, e o pior é que Sérgio também acha que ela está certa. Enrico não era nenhum santo, e fazia de tudo para provocar Cecília, talvez essa era a arma que ele usava para se defender da ambição dela, e ela se sentia feliz quando ele colocava sua mãe em seu lugar, ele era o único que conseguia essa proeza naquela casa, mas era desnecessário eles falarem na cara dele o quanto ansiavam pela sua morte, e pela fortuna que iriam receber, bem, a única pessoa que tinha direito legalmente era sua mãe, por ser esposa dele, mas... A pessoa mais nobre daquela casa era sua tia Fifi, que fazia tudo sem interesse algum, sem querer nada em troca, sua mãe a chamava de parasita, por ela viver com eles, mas essa foi à vontade de Enrico. Sempre que podia, ela defendia a tia contra o veneno de sua mãe, e contra as piadas de Sérgio e Fernando. Em sua tia ela conseguia enxergar o afeto que nunca viu em sua mãe.

Mesmo contra sua vontade ela desce para um café da manhã adorável. Todos já se encontravam em volta da mesa, menos Enrico, que por algum motivo ainda não havia aparecido.

— Bom dia. – Os saúda somente por educação.

— Bom dia minha florzinha! – Disse sua tia Fifi com um sorriso branquíssimo na boca, como se estivesse fazendo comercial de pasta de dente. Ela adorava a forma que sua tia a chamava de flor.

— Pensei que não ia descer mais meu amor – dizia Sérgio com tom de ironia – estava roncando como uma moto louca! – Ria como se o que tivesse dito fosse muito engraçado.

— Desculpe, não queria te incomodar com meu ronco estrondoso, MEU AMOR! – Enfatizou.

— Senta logo filha, come alguma coisa, você anda tão pálida ultimamente, qualquer hora vai cair na rua.

— Obrigada pela sua preocupação mãe. – Se sentou.

Estranho sua mãe se mostrar preocupada, ela não era disso. A única pessoa que ela se preocupava de verdade era com ela mesma.

— Ela não está preocupada com você Maria – dizia seu irmão Fernando com um certo sarcasmo na voz – apenas não quer ter que arcar com seu enterro, ou ter que fingir um tristeza.

Todos, menos Fifi é claro, riram do comentário idiota de Fernando. Seu coração se apertou, contra sua vontade.

— Se for por isso mãe, não se preocupe, não quero que sua mente super ocupada se preocupe com um ser tão insignificante quanto eu! – Jogou o guardanapo na mesa e se levantou.

Ela se recusou a tomar café com eles, sabia que se continuasse ali, se deprimiria ainda mais.

— Aonde você vai Maria? – Perguntou Fifi. – Você não comeu nada!

— Perdi a fome tia.

Ela se virou para sair da sala, e tropeçou na cadeira de rodas de Enrico, que acabara de entrar. Ela se desculpou com ele, e saiu sem olhar para trás, e, mais uma vez, foi o motivo de piadas para eles.

— Não precisa me levar junto não Maria Cristina! – Gritou enquanto ela saía da sala.

****

E ali estava ela, no lugar da casa que mais gostava: a estufa. Ali Maria se sentia viva de verdade, junto às flores, em meio ao perfume radiante que elas exalavam, era como se ela fosse uma delas, em um corpo que não era seu.

— Bom dia! – Dizia a elas com um belo sorriso.

Era como se elas retribuíssem o bom dia, como se elas sorrissem para Maria, ah, por sua vontade passaria o dia inteirinho ali, contando seus segredos, angústias, sonhos, e sabia que não seria recriminada por nada que dissesse.

Ela coloca seu avental, pega uma tesoura de poda, e começa a cuidar delas.

— Não vai doer muito, é para o bem de vocês.

Ela as podava com todo o carinho do mundo, como se fossem suas filhas, suas filhas...

— Cris!

— Oi Enrico, eu tô aqui!

— Eu já sabia. – Se aproximou da porta da estufa. – Vem, lava as mãos e vem tomar café comigo, é uma ordem! – Sorriu.

Franziu a testa, sorriu e fez como ele pediu. Empurrou sua cadeira de rodas até uma mesa que ficava no jardim, onde, uma das empregadas terminava de pôr a mesa.

— Até quando você vai levar em consideração o que eles dizem? – Se acomodava na mesa.

— Eu sou uma idiota. – Se sentou.

— Não Cris, você não é idiota, eles são idiotas! – Ria tomando um gole de café.

— Ah Enrico, às vezes me dá vontade de sumir, mas como não posso, venho pra estufa pra me libertar. E por falar nisso, você podia deixar a estufa pra mim quando você morrer, – Enrico não se sentiu mal com as palavras de Maria – se você sente algum apresso por mim, é a única coisa que eu peço.

— Ah Cris – sorriu – não quero falar da minha morte agora. Bom – mudando o assunto – sei que não temos conversado tanto como antes, e você sabe que eu me preocupo...

— O único. – Interrompeu.

— Enfim – a olha com reprovação, detestava quando alguém o interrompia – como andam Sérgio e você? Digo, o casamento de vocês?

— Bem – não foi tão confiante quanto deveria – como todo e bom casal! – Tentou sorrir para ver se ele mudava o assunto.

— Eu tô falando sério Maria Cristina! Me diz, por que você ainda está casada com ele?

— Ué – arregalou os olhos – por qual motivo as pessoas ficam casadas Enrico?

— Umas se casam por amor, e outras por conveniência.

— Eu não estou casada por conveniência.

— E também não por amor. – Arqueou a sobrancelha, cheque mate!

Maria ficou sem toda graça com que Enrico dissera, eram poucas as vezes que isso acontecia, pois eles se sentiam muito a vontade durante suas conversas.

— Olha só quem está dizendo, o maior conhecedor de assuntos do coração que eu já vi! – Ironizou. – Tá dando uma de Hitch agora Enrico?

— Pode não parecer, mas eu já amei muito uma mulher Cris.

— Sério? – Se surpreendeu.

— Pensou que um cara como eu não pudesse se apaixonar?

— Não, não é isso, mas tenho certeza que não é a minha mãe.

— Eu fui muito apaixonado por uma mulher, com quem queria passar minha vida toda, mas o destino ficou contra nós, e você tem razão, não é sua mãe.

— Nossa, mas o que foi que aconteceu?

— Por favor Cris, não quero falar sobre isso. – Mudou o tom de voz.

Surgiu um silêncio na mesa, que Maria fez questão de quebrar rapidamente.

— Então por que você se casou com a minha mãe se não a amava? – Estava se sentindo uma criança curiosa.

— O que senti por ela foi só uma paixão, e nem chegou perto do que senti por essa mulher. Mas quando a vi sozinha, viúva, com duas crianças, não pensei duas vezes.

— Ah, então você se casou com ela por pena? Você não pode reclamar muito por ela só querer seu dinheiro.

— Isso não me abala, sei que depois da minha morte ela vai me odiar mais ainda. – Soltou um sorriso malicioso.

— O que você quer dizer com isso?

— Aguarde...

— Ah Enrico, você e seus mistérios. – Se levantou. – Adorei o café da manhã com você.

— Sabia que eu te quero muito bem?

Ela sorriu, gostava quando ele dizia essas coisas.

— Sabe – continuou – eu queria muito que você fosse minha filha, eu teria muito orgulho de ter uma filha como você.

— E eu adoraria te ter como pai.

— Sabe o que eu queria que acontecesse na sua vida?

O olhou fixamente para que continuasse.

— Que aparecesse alguém e te virasse do avesso, te tirando dessa vida cômoda e sem graça que você vive.

— Você só pode está ficando maluco! – Deu três batidas na mesa. – Deus me livre, me sinto muito bem nessa minha vidinha sem graça e não quero ninguém pra muda-la! – Disse com um pouco de raiva.

— Você não acha que já está na hora de viver de verdade não? Parar de se importar com que os outros pensam a seu respeito, e fazer algo que realmente queira?

­— Tá bom Enrico – deu de ombros – vou te deixar aí com sua loucura, e voltar pra estufa. O lado bom das flores não falarem é que não escuto besteiras como esta.

Ela virou e saiu andando rumo à estufa, mas ainda o escutou dizer alguma coisa.

— Um dia você ainda vai me agradecer por esse conselho Cris!

Sem que ele visse, ela sorriu chamando-o de maluco em sua mente.

****

Maria passou a tarde toda na estufa, cuidando e conversando com as flores, e pensando nas coisas que Enrico dissera a ela, e, no mais impressionante: ele amara uma mulher de verdade.

Ela, e todos sempre souberam que ele não amava sua Cecília, mas nunca entenderam porque se casaram. Ela não se lembrava muito da morte de seu pai, pois era bem pequena quando aconteceu, as únicas informações que tinha sobre ele, é que morrera num infarto fulminante, sua mãe não costumava tocar no assunto, e pouco depois de sua morte, ela se casou com Enrico. A atitude dele em se casar com Cecília foi nobre, pois ela não tinha uma condição financeira boa, e ainda tinha dois filhos pequenos, mas trazia consigo uma beleza invejável entre as mulheres, de repente essa beleza tenha passado de mãe para filha, já que Maria tinha uma beleza que não podia se considerar terrena. Possivelmente, como Enrico dissera, o que sentiu por Cecília foi somente uma paixão, mas ela não conseguiu fazê-lo esquecer desse seu grande amor. Mas por que Enrico não se separou dela? Com certeza não foi por estar em uma cadeira de rodas, ele era muito independente para se prender a uma mulher por isso. E essa história foi outra coisa chocante: o acidente que fez Enrico perder os movimentos da cintura para baixo. No dia do acidente chovia muito, e ele estava em alta velocidade, mas quando foi frear, o freio não funcionou, e o carro capotou de um barranco. Com Maria, que estava com ele no carro, não aconteceu nada, além de uns arranhões, e para não dizer que não quebrou nada, ela quebrou a unha do anelar direito da mão, mas infelizmente, Enrico ficou paraplégico, lamentável... Maria se sentiu culpada, pois ele tinha ido busca-la no balé, porque sua mãe, por algum motivo, não pôde ir, mas ele, de uma forma tão paternal, a fez ver que ela não tinha culpa de nada, e desde então, os dois se tornaram cúmplices, uma amizade verdadeira e sincera surgiu entre eles. Atualmente, a saúde dele anda bem delicada, mas ele não se deixava abalar por isso.

Uma outra coisa meio esquisita é o porquê de Cecília não gostar de Maria, pois isso é mais claro. Ela sempre fez de tudo por Fernando, por Maria só o necessário, ela sempre tratou Fernando com amor, e Maria só indiferença. Em sua infância, Maria sentia muito, mas hoje não se importa, ou pelo menos finge que não. Sérgio é outro que Cecília tratava a pão de ló, dizia que ele era o partido perfeito para ela, e que ela deveria seguir os conselhos da mãe. Essa foi a única vez que Maria foi aconselhada por sua mãe, nem quando se tornou mocinha isso aconteceu, quem ajudou foi Enrico. Com 24 anos se casou com Sérgio, e agora com 27 não se atreve a dizer que é realizada. Hoje Maria uma mulher fina, porém infeliz, bonita por fora, mas estragada por dentro, ela é tudo o que a sociedade quer que ela seja, mas não o que realmente queria ser, talvez só tenha sido ela mesma uma vez na vida. De repente Enrico esteja certo, de repente deveria aparecer alguém pra mudar em 360° sua vida, quem sabe assim poderia sorrir de verdade, pois nem isso mais ela sabe o que é...

Continua...

Notas finais
Aí está meus amores, mais um capítulo quentinho direto do forno. Uma pergunta: Será que o sentimento que Enrico tem por Maria é só entre padrasto e enteada, ou poderia ser entre pai e filha? Aproveitem!!!