Flores De Maio
30 O Improvável
Notas iniciais
Flores são flores
vivas num jardim
pessoas são boas
já nascem assim
flores são flores
colhidas sem dó
por alguém que ama
e não quer ficar só. – Cazuza
****
— Alô? Sérgio? Sérgio? Responde seu covarde!
Ela olhou o celular, e notou que ele já havia desligado.
— Droga!
Ela jogou o celular em cima da cama, e ficou sem nenhuma reação, apenas ficou pensativa, não sabia o que fazer, não sabia como agir, sentia que o peso do mundo estava sobre suas costas, e estava completamente perdida.
Ela se levantou, e foi até a sua janela, a abriu, e olhou para fora, tudo estava terrivelmente quieto. Uma brisa fria lhe envolveu, e um arrepio tomou conta do seu corpo, juntamente com um medo fora do comum. Enriquinho se mexeu onde dormia, e ela quase pulou com o susto que teve, mas respirou fundo quando viu que era só o seu filho dormindo inocentemente.
Ela ficou ainda uns poucos minutos olhando para fora da janela, vendo o completo silêncio, não havia nem ao menos barulho dos insetos, talvez eles também estivessem sentindo a tensão que rondava a mansão, e resolveram se entocar. Maria fechou a janela, e voltou para sua cama, mas antes, tomou seu filho nos braços, ele estaria mais seguro ao seu lado, ou ela se sentira mais segura sabendo que ele estaria ali.
****
Já era dia, a noite passara lentamente, pelo menos para Maria. Todos já se encontravam à mesa, quando Maria apareceu para lhes acompanhar para mais um café da manhã.
— Bom dia. – Sentou-se servindo de uma xícara de café.
— Nossa Maria, você tá com uma cara de acabada, o que houve? – Fernando perguntou.
— Fernando, o que eu mais gosto em você é essa sua sinceridade. – Debochou. – E respondendo sua pergunta, essa noite mal preguei o olho.
— Por que minha flor? Tá se sentindo bem? – Fifi se preocupou.
— Você tá doente Maria? Fiquei sabendo que ontem você teve um desmaio, desmaios não são bom sinal. – Disse Cecília.
— Calma gente, por favor, minha saúde está ótima, não precisem se preocupar.
— Então o que foi que tirou seu sono? – Perguntou Estêvão.
— Sérgio. Esse desgraçado tá tirando a minha paz, eu tô com medo de que ele possa fazer mal a algum de vocês.
— Calma Maria – Fernando segurou sua mão – mas cedo ou mais tarde esse filho da mãe vai ser pego, você vai ver.
— Só espero que não seja tarde demais. – Disse Maria, e após, deixou um suspiro no ar.
— Esse Sérgio deu um jeito de surpreender todo mundo, né, quem diria que ele seria capaz de tirar a vida de alguém. – Disse Fifi.
— A gente se engana com as pessoas tia, às vezes quem tá do nosso lado, que achamos não ser capaz de matar uma mosca, é pior do que pensamos. – Disse Maria num tom de indireta.
— Pois é. – Estêvão concordou. – Bom, como não sabemos o que ele pretende fazer, é melhor evitarmos sair de casa, ou só sair pra fazer algo que seja necessário, aqui estamos mais seguro que lá fora.
— Estêvão tem razão. – Disse Fernando.
— É, talvez sim, mas eu não quero me tornar refém dele dentro da minha própria casa, não quero parar as minhas atividades diárias por conta dele. – Argumentou Maria.
— Mas você desfilando na rua só vai chamar a atenção dele, ele pode estar nos vigiando uma hora dessas. – Disse Cecília.
— Mãe, isso não é problema pra ele, ou se esqueceu que ele morou aqui durante um bom tempo? Ele conhece todos os nossos passos. Acho melhor que Aninha e Enriquinho não saiam de casa em hipótese alguma, pelo menos até prenderem ele, enquanto isso Aninha não vai pra escola.
— Ela vai gostar disso. – Fernando brincou, e todos na mesa riram.
— Bom, acho que estamos decididos, não é? – Maria indagou.
— Eu concordo com você Maria, por mim Aninha não vai pra escola, enquanto isso, a gente aguarda ele dar sinal de vida. – Disse Estêvão.
— E se a gente oferecer dinheiro a ele? – Sugeriu Fifi. – Talvez ele nos deixe em paz.
— Acho que só dinheiro não vai satisfazê-lo tia. – Disse Maria. – Bom, o assunto tá maravilhoso – debochou – mas é melhor irmos trabalhar, senão vamos nos atrasar.
Maria se levantou, seguida por Estêvão e Fernando.
Apesar de a casa ter alguns policiais na segurança, Cecília (que ainda não era um poço de confiança), juntamente com Fifi, ficaram incumbidas de não tirarem os olhos dos pequenos. Mas elas achavam que se Sérgio fosse “atacar”, não seria na mansão, ele não seria idiota de aparecer na casa, e correr o risco de ser preso, no pensamento das duas, Estêvão, Fernando e Maria eram quem realmente estavam correndo perigo.
****
Os três chegaram à empresa, e antes de irem aos seus postos, ainda ficaram conversando próximo a entrada durante um breve período, e logo após foram aos seus afazeres, agindo como se nada tivesse fora do normal, apesar do burburinho sobre Sérgio ser um assassino estar rodando pelo local, mas eles trataram de não falar sobre o assunto com quem quer que fosse, menos ainda com a imprensa.
Maria chegou ao laboratório, onde Lívia a esperava um sorriso largo.
— Um bom dia para a melhor amiga do mundo! – Disse num entusiasmo só.
— Nossa, posso saber o motivo de toda essa alegria? – Dizia Maria enquanto guardava suas coisas no armário.
— É o melhor de todos os motivos!
— Você e Fernando voltaram? – Ela vestia seu jaleco.
— Não Maria – disse sem paciência – esquece Fernando e eu, OK? Eu tenho uma notícia que vai alegrar seu dia, sua semana, seu mês, seu ano, e talvez até seu século! – Se animou.
— Oba! Eu tô precisando de notícias boas! Agora diz logo. – Ela prendia seu cabelo com uma xuxa.
— A sua queridinha flor de maio é compatível com a nossa essência problemática. – Brincou.
— Não? Vocês quer dizer que finalmente esse bendita essência vai virar um perfume? – Não conteve sua alegria diante do que Lívia lhe disse.
— Exatamente mon amour – fez bico ao dizer isso – em breve teremos um belo perfume estourando em todo o mundo.
— Caramba, tanto tempo de trabalho, pensei que seria em vão, sabia? Graças ao San Roman, esse perfume sair.
— Como assim? – Ela foi andando em direção à balança, Maria a seguiu.
— Foi ele que sugeriu usar a flor de maio, na verdade, eu nunca pensei nela.
— Agora você vai querer colocar o nome do perfume de “San Roman”? – A olhou.
— Sei lá, o nome que o perfume vai ter é o de menos. – Mudou um pouco sua fisionomia.
— O que foi?
— Você me conhece, hein?
— E como não conheceria? Fala, o que tá te preocupando?
— Ah Lívia, é tanta coisa. Acho que o meu maior medo nesse momento, é ter que me separar do Estêvão.
— E por que vocês teriam que se separar? Vocês se amam Maria, isso é mais que notório. É por causa do Sérgio?
— Não, dessa vez não, se fosse por causa dele, seria moleza, mas é bem pior.
— Pior que o Sérgio? Maria, não tô entendendo.
— Nem tente Lívia, é mais complexo do que você possa imaginar.
— Ei, vem cá – a abraçou – eu não sei do que se trata, mas vocês vão ficar juntos, vocês nasceram pra ficarem juntos. – Ela a olhou. – Eu tô aqui tá. – Ela secou as lágrimas dos olhos da amiga.
— Eu sei – tentou sorrir – brigada por nunca não estar aqui. – Sorriu com mais vontade.
— Eu te amo muito Maria, você é a irmã que eu nunca tive, e você merece mais que ninguém ser feliz, e você vai ser tá. – Tocou com o indicador na ponta do nariz dela.
— Eu também te amo tá, e muito.
— Agora vamos parar com isso, porque tá mais pra despedida, e acho que nenhuma de nós pensa em partir, né?
— Que despedida o quê! – Elas se afastaram. – Não vou te dar o gostinho de viver sem mim! – Brincou.
— Eu também não queria, bobinha.
Elas estavam um pouco distante, mas olharam uma para outra com um olhar cúmplice, de irmãs que nunca se separariam, mesmo que a vida quisesse que sim, elas não iriam se separar, porque essa amizade era mais forte do que as maldades de quem quer que seja.
****
Depois de um dia, ou meio dia de trabalho alegre, na companhia de sua amiga, Maria fora pra casa, já que desde que voltara, estava trabalhando meio expediente, principalmente agora, já que seu coração ficara na mão toda vez que se lembrava que seus filhos (filhos, já que para ela, Aninha não era outra coisa, a não ser filha) poderiam estar em apuros, mas ao chegar em casa, suspirou aliviada, pois os dois brincavam juntos, sem ter com o que se preocuparem.
Na casa, tudo parecia sob controle, uma paz que só, só que às vezes, paz de mais nem sempre significava um bom sinal.
Maria se permitiu esquecer um pouco os problemas, e relaxou. Ela brincou com as crianças, comeu brigadeiro, e se lembrou da carta, a última, e mais importante das cartas. Ela conseguiu entreter as crianças em outra coisa, e foi a até a estufa.
Achar o tal vaso com a flor de maio que Enrico havia lhe dado não foi uma tarefa muito fácil. A estufa era bem grande, e o que não faltava era flores, óbvio. Ela procurou em cada centímetro daquele lugar, e em alguns momentos, ela pensou que havia se desfeito da planta, mas achou improvável, ela nunca jogava os presentes que Enrico dava a ela fora, e mais ainda aquele presente. Quando ela ia se dar por vencida, quando ia deixar sua busca para outro dia, ela vê algo que chama sua atenção, e era o que ela estava procurando.
— Achei você sua fujona! – Pegou o vaso, que estava no alto. – Agora vamos ver se eu estava certa.
Ela fora até um balcão, e tirou a planta com todo o cuidado do vaso, e após, tirou a terra que estava ali dentro, e para a sua alegria, ali estava a carta, dentro de um saco plástico, para que não se desmanchasse com o tempo, estava intacta, Enrico pensara em tudo. Mas uma vez ela respirou fundo e não perdeu tempo, sentou-se numa poltrona, e começou a ler o conteúdo daquela carta.
Pois bem Cris, acho que você chegou a última carta, e talvez a mais importante de todas as três, sabia que você não me decepcionaria. Não sei o que você está sentindo em relação a mim, mas acho que não deve estar mais me amando como antes, mas antes de dizer o que tenho a dizer, te peço perdão mais uma vez, e nunca deixei de te amar, e você sempre foi a coisa mais importante da minha vida, eu te amo filha, muito. Mas chega de papo, e vamos ao que interessa.
No momento que eu soube que sua mãe estava grávida, não passou pela minha cabeça que esse filho não fosse meu, naquele instante, eu fui o homem mais feliz do mundo, eu ia ser pai! Mas logo fiquei sem chão, pois Cecília estava casada com outro homem, com Rui. Nós pensamos em falar com seu avô, mas essa ideia foi descartada, e mantemos essa história em segredo. Você pode estar se perguntando como eu tinha tanta certeza que esse filho era meu, não é? Eu confiava cegamente em Cecília, e ela me disse que não tinha tido relações com outro homem antes do casamento, a não ser comigo, e quando ela me disse que estava grávida, pelo tempo que ela estava casada, só poderia ser meu, ela só deu essa notícia a todos, e a Rui depois de algum tempo, para que não houvesse desconfiança.
Cris, eu sonhava todos os dias no dia do seu nascimento, quando eu te pegaria nos meus braços, em ouvir suas primeiras palavras, e o seu nome? Eu ajudei a escolher seu nome filha! Me lembro que sua mãe disse que já haviam escolhido o nome caso você nascesse homem, mas eu tinha certeza que viria uma linda menina, e acertei. Ela disse que Rui queria que seu nome fosse Maria, mas eu queria que você se chamasse Cristina, não sei por que, mas sempre gostei desse nome, foi então que sua mãe decidiu que você se chamaria Maria Cristina, até que ficou bem bonito, combinou com você.
— Claro! – Pausou sua leitura. – Por isso ele me chama de Cris, e por isso ele dizia que gostava tanto desse nome, e que era perfeito pra mim. – Voltou para carta, com um certo sorriso.
Foi então que tudo aconteceu: você nasceu, alguns anos depois nasceu Fernando (nunca suspeitei que ele fosse meu filho, pois depois do seu nascimento, sua mãe eu sempre nos preveníamos quando nos encontrávamos) confesso que fiquei triste quando soube que sua mãe engravidou, e dessa vez o filho não seria meu, e sim de Rui. Mais ou menos um ano depois que Fernando nasceu, sua mãe teve a ideia de darmos cabo da vida de Rui, eu lutei contra, mas acabei sendo vencido por ela. E Rui estava morto.
Nós dois nos casamos, e vivíamos como uma família de verdade, não me faltava motivos para sorrir, eu tinha a minha pequena nos meus braços! Infelizmente, não passou pela minha cabeça remorsos pelo o que fiz com Rui, eu dizia pra mim mesmo que tinha que ser assim. Não sei se você se lembra quando nós dois íamos tomar sorvete todos os finais de tarde, e ficávamos jogando pão para os pombos na praça, eu não precisava de mais nada Cris, eu já tinha você. Acho que devo ter errado um pouco com Fernando, eu tirei o pai dele, e deveria ter sido o pai que ele precisou, mas eu não fiz isso.
Mas o tempo passa, e as coisas não acontecem como a gente quer, não é mesmo? Num belo dia, ou no pior dia da minha vida, que seja, Cecília me disse algo, que me fez odiá-la com todas as minhas forças, e talvez você entenda o porquê de tanto ódio, e talvez você a odeie também, tanto, ou mais do que eu. Nós dois estávamos conversando, projetando nosso próximo filho, quando ela me contou algo do passado, mas precisamente, do dia que ela e Fifi foram ter os bebês. As coisas não eram tão modernas como hoje, e não tinham tantos hospitais, e quem fez o parto da sua mãe e tia, foram parteiras, aquelas que fazem os partos de todas as mulheres da família, então. Aquele dia chovia muito, eu estava apreensivo, era minha filha que está a prestes a nascer, e você não sabe o quanto é difícil você ter que disfarçar seu sentimento, agir como se fosse algo normal. As horas foram passando, e finalmente as crianças nasceram, com pouca diferença de minutos, o filho de Cecília nasceu primeiro, depois o da sua tia. Mas agora o detalhe que fez toda a diferença. Cecília me disse que teve algumas complicações durante o parto, e por circunstâncias do destino, o bebê dela nasceu morto...
— Não Enrico, quem nasceu morta foi a filha da tia Fifi. – Voltou para a carta.
Ela teve um belíssima ideia (as ideias dela nunca foram boas ideias, a não ser para ela) ela me disse que deu a parteira umas boas economias que ela tinha, para que ela trocasse os bebês, e dissesse que o filho morto era o de Josefina, e o vivo era o dela. Portanto, o filho, ou melhor, a filha de Fifi está bem viva, enquanto a criança que está enterrada há anos naquele cemitério, é a filha que um dia que sonhei em ter, é a filha pela qual eu ansiava noite e dia!
Você Maria Cristina Fernandez, não é filha da Cecília, como todos pensam, e infelizmente, também não é minha filha, você é fruto do amor de Rui e da Fifi!
— Não, isso não pode ser verdade! – Seus olhos se encheram de lágrimas. – Eu?... Sou filha da tia Fifi? – Ela não sabia se ria, ou se xingava Enrico. – Meu Deus! – Pôs a mão na testa. – Sim, por isso Enrico a trouxe pra morar aqui, por isso ele se afastou de mim de repente, e só se aproximou de novo depois do acidente. Por isso que a Cecília nunca gostou de mim, claro, claro, claro! A tia Fifi é minha mãe! – Desabou em lágrimas. – Ela minha mãe, minha tia na verdade é minha mãe!
Ela se levantou e ia sair da estufa, provavelmente, compartilhar da sua descoberta com alguém, mas ela não estava sozinha.
— Aonde você vai meu amor?
Maria gelou ao ver quem estava na sua frente.
— Que cara de surpresa é essa? Eu disse que ia aparecer quando menos você esperasse.
— Eu quero passar. Me deixa passar Sérgio! – O medo estava estampado em seu rosto.
— Claro que não! Temos alguns assuntos pendentes. E por acaso, eu ouvi o que você acabou de dizer, é verdade que você é filha da tonta da Fifi?
— Não fala assim da minha tia! – Gritou.
— Sua tia, ou sua mãe? – Gargalhou. – Até que você se parece mais com ela, do que com a estúpida da Cecília, mas chega de papo, vamos, você vai dar uma voltinha comigo.
— Eu não vou a lugar nenhum, e muito menos com você!
— Ah não?
Sérgio rápido como um felino, agarrou Maria, ela tentou se debater, mas ele era muito mais forte que ela, quando ele pegou um pano com um líquido, e colocou no seu nariz, fazendo com que ela inalasse, e logo perdesse a consciência.
Continua...
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