Flores De Maio
14 Não Te Tatuei Em Minha Pele, Mas Em Meu Coração
No jardim de minha existência,
existem rosas e outras flores, mas
dentre todas elas, a mais linda é você.
– Wilson Sanches
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— Não acredito Maria! E agora, o que vamos fazer? – Estava apavorado.
— O que foi San Roman? – Ria. – Está com medo?
— E o que você queria, nunca andei de elevador, e na primeira vez, fico preso! Socorro – batia na porta – socorro!
— Desiste – segurava a mão dele – a essa hora não tem mais ninguém aqui.
Ele a olhou com uma cara engraçada.
— Tá rindo de quê? – Ele perguntou.
— Dessa tua cara, é hilário! – Fala sério. – Não é a primeira vez que esse elevador dá problema, eu já pedi milhares de vezes pra chamarem um técnico para ver isso, mas acham que uma mulher não sabe dessas coisas.
— Então já sei a primeira coisa que vou fazer quando assumir essa empresa. – Ele riu.
— Eu vou tentar ligar pra casa, pra ver se eles conseguem fazer alguma coisa.
Ela começou a mexer em sua bolsa em busca do seu celular, mas não obteve sucesso, ele não estava lá.
— Que cara é essa?
— Acho que deixei meu celular em cima da bancada do laboratório. Mas você tem um celular aí, não tem? – Ele a olhou envergonhado. – Que foi?
— Meu celular é tão antigo, você vai rir.
— Ah, por favor San Roman, até parece que eu tô ligando pro modelo do seu celular! – O repreendeu.
— Calma morena! – Brincou.
Ele tirou seu celular do bolso, pensando que estavam salvos, mas se decepcionou totalmente quando apertou os botões inúmeras vezes.
— Não tenho boas notícias.
— Ai meu Deus! Vai, diga logo!
— Tá sem carga.
— Então não há mais nada que possamos fazer – se sentou no chão – vamos ter que passar a noite aqui.
— É seguro Maria? – Também se sentou, ficando de frente para ela.
— Bom, a qualquer momento podemos despencar, e ir com tudo ao chão, aí morremos com a queda. Mas fica tranquilo, vamos ter uma morte bem radical! – Ria.
— Ah não Maria – se levantou tentando abrir a porta – eu quero sair daqui! – Esmurrava a porta.
— Calma San Roman – se divertia com o medo dele – eu tô brincando, senta aí!
— Tem certeza? – Se sentou novamente, um pouco desconfiado.
— Tenho, não vai acontecer nada com a gente. – Após parar de rir, ela se acalma e volta a falar. – Se Enrico tivesse vivo, diria que essa é uma das coisas que só acontecem comigo.
— Engraçado.
— O que?
— Você fala tão bem dele, que às vezes acho que ele não foi tão ruim quanto eu penso.
— E ele não era. Eu não sei te dizer o que aconteceu no passado deles, mas eu digo com toda a convicção do mundo que Enrico jamais deixaria sua mãe grávida sozinha por aí. Ele me falou dela, e falou de um jeito que eu não tinha ouvido antes. Ele não é esse monstro que você acha que é, isso você pode ter certeza.
— Eh... Um dos motivos pra eu ter aceitado tudo isso, é tentar achar as respostas, e não – coloca um tom de brincadeira na voz – só porque você insistiu.
— Eu insisti? Eu não fiz isso San Roman! Quem te disse isso?
— O advogado. Ele foi até a minha casa e disse que você implorou pra ele me levar volta. Ele disse várias coisas.
— Ah, eu mato esse advogadozinho! Sim, eu pedi a ele pra tentar te convencer a voltar, mas foi porque se você não ficasse com a herança, minha mãe o faria, e imagina como ficaria aquela casa com a minha mãe no poder? – Ria.
— Eh, você tem razão. Mas voltando a falar do Enrico, como ele era?
— Ele – sorria ao falar – era uma das melhores pessoas que eu conheci, ele era inteligente, forte, decidido, corajoso e sabia ser carinhoso com quem merecia seu carinho. Por diversas vezes ele me disse que queria que eu fosse sua filha, e eu o amava como um pai, na verdade, ele foi mais meu pai, do que minha mãe foi minha mãe. Você tem sorte por tê-lo como pai. – Concluiu.
— Mas você teve mais sorte ainda por ter conhecido e convivido com ele.
— Eh... Você tem razão...
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Já era tarde, e como os dois estavam presos, ainda não tinham chegado em casa, deixando Fifi preocupada.
— Sérgio, você sabe da Maria?
— Não Fifi – ele mexia no seu notebook, e nem se deu o trabalho de olha-la – não a vejo desde que acordei.
Ela saiu antes que pudesse dizer meia dúzia de palavras grosseiras a ele, afinal, ela era a sua esposa, custava ao menos fingir que se importava?
Ela foi até o escritório, onde Cecília lia alguma coisa no jornal, Aninha entrou com ela.
— Ciça, posso entrar? – Perguntou, já dentro do cômodo.
— Primeiro – colocou o jornal em cima da mesa e tirou seu óculos – você já entrou, e segundo, não me chame de Ciça!
— Tá, desculpa.
— Fala logo o que você quer e some da minha frente!
— É a Maria, já está tarde, e ela ainda não chegou.
— O que você quer que eu faça? Maria já é maior de idade!
— E o meu pai? – Perguntou Aninha. – Ele também não tá em casa. Você sabe dele vó?
— Não Ana Lara – se irritou por ela chama-la de vó – também não sei do seu pai, e te digo a mesma coisa que disse para a estúpida da minha irmã, ele é maior de idade, sabe se virar sozinho!
— Não fala assim com ela Cecília! – Abraçou a pequena. – Ela não é culpada dos seus problemas!
— Você me irrita muito, sabia Josefina? Você tentou ligar pra ela?
— Já, o celular só chama, mas ninguém atende, e isso tá me deixando mais preocupada ainda!
— Também já liguei pro meu, mas o celular dele só dá fora de área.
— Já ligou para o Fernando, ou para aquela amiguinha petulante dela, a Lívia?
— Não, voou ligar agora. Vem comigo Aninha. – Se virou para sair.
— Josefina – Fifi a olhou – pede para o Sérgio vir aqui, por favor.
Josefina saiu do escritório com Aninha, e não muito tempo depois, Sérgio adentrou pela porta do mesmo.
— Me chamou? – Se sentou na cadeira que ficava de frente para ela.
— Sim. Josefina te disse que Maria “sumiu”? – Fez aspas com os dedos.
— Sim, mas acho que ela não sumiu, deve estar com Lívia, ou, sei lá.
— Ou talvez não.
— O que você está querendo dizer Cecília?
— A pestinha da filha do favelado disse que o pai dela também sumiu, ou seja...
— Eles devem estar juntos. – Seguiu o raciocínio de Cecília. – Eu te disse que, indiretamente, nosso plano ia dar certo, e tá aí uma prova, eu tô torcendo para que eles estejam juntos.
— Eh... – Fez uma pausa. – Mas, e se Maria se apaixonar pelo favelado? Já pensou nessa hipótese?
— Isso pode acontecer, mas ela não teria coragem de me trair, sua filha é certinha demais Cecília, o oposto de você.
Os dois riram.
— E você?
— O que tem eu?
— Também não é muito certinho.
— Ah Cecília, eu sou homem, o mundo é diferente pra nós.
Eles riram mais uma vez.
****
Apartamento de Lívia.
— E então gato, quer comer alguma coisa? – Se sentou em seu colo.
— Algo ou alguém em especial? – A beijou.
— Te disse que não ia se arrepender de sair daquela festa chata.
— Você tinha toda razão, só me arrependo de não ter feito isso antes. – Mordeu o lábio inferior dela.
O clima começava a esquentar entre os dois, quando o celular de Lívia toca.
— Ah, não atende não. – Beijava seu pescoço enquanto ela pegava seu celular.
— É sua tia, eu vou atender!
— Minha tia! O que será que ela quer?
— Não sei, cala a boca aí. – Atende. – Oi tia Fifi, tudo bem?
— Tudo sim Lívia, quer dizer, mais ou menos, estou preocupada com a Maria, já está tarde, e ela não chegou, por acaso ela está com você?
— Não tia, ela não tá aqui. A última vez que a vi, ela estava na empresa com Estêvão, e depois não nos falamos mais.
—Ah meu Deus! Pelo menos ela tá com ele, já que ele também não chegou.
— Sim. Já tentou ligar pra eles?
—Sim, mas eles não atendem. Tá bom Lívia, qualquer coisa vamos nos falando.
— Isso tia, mas se acalma, ela vai ficar bem. Tchau! – Desliga.
— O que ela queria?
— Maria ainda não chegou em casa, nem ela nem o Estêvão.
— Será que eles estão juntos?
— A última vez que a vi, estavam.
— Relaxa, minha irmã sabe se virar, e ela não está sozinha. Tomara que esteja colocando um belo dum chifre no Sérgio, ele merece!
— Que isso gato, não conhecia essa sua antipatia por Sérgio.
— Nunca fui com a cara dele, por mim, Maria se divorciava dele, mas não vamos falar deles, pois não foi por isso que vim até aqui!
Ela entendeu o recado, e ali mesmo se pegaram como loucos, fazer o que né, viva a pegação!
****
Tempo é uma coisa imprevisível, em certos momentos, ele é rápido como o Bolt, mas quando ele é mais requisitado, ele consegue ser mais devagar que o almoço de domingo.
— Eh San Roman – se acomodava no chão – a nossa noite vai ser longa. – Olhava o relógio.
— Eh, percebi – dizia sem animação – e eu já estou com fome. – Olhava para a rua.
O elevador era panorâmico, e dava para ver a rua, mas quem estava na rua não via quem estava dentro.
— Uma hora dessas minha tia já notou minha falta, e deve tá super preocupada, ainda mais eu não atendendo o celular, já deve ter ligado pra Deus e o mundo.
— E sua mãe?
— Ah, ela não está nem aí, deve estar tomando um drink com Sérgio, não me arrisco a dizer que Fernando esteja em casa, deve estar com alguma mulher. Eles só vão notar minha falta amanhã, quando eu chegar em casa.
— Acho linda a forma que você fala deles. – Brincou, e ela riu. – Aninha também deve estar preocupada, nunca fico fora de casa sem falar com ela.
— Ah Aninha – suspirou – ela é super especial, me apeguei a ela facilmente, um doce de menina.
— Ela é, ela foi o que fiz de melhor nessa vida.
— Não posso opinar sobre isso – ria – mas se você diz, eu acredito. Aproveitando que estamos falando dela, será que ela está se sentindo bem na escola nova? Ela te disse alguma coisa?
— Ela me disse que sente saudade da antiga, dos amiguinhos, mas tá gostando sim, ela gosta de desafios, assim como o pai!
— Ah San Roman, só você pra me fazer rir uma hora dessas! – Ria dele. – Mas fico feliz por ela estar gostando, não queria que ela estivesse fazendo algo, só porque eu achei que seria melhor. A outra escola é um pouco longe, e estava sendo cansativo pra ela, mesmo indo de carro, e essa nova, além de ser muito boa, e perto da mansão.
— Não precisa se preocupar, ela tá gostando sim, e eu agradeço por você sempre ver o que é melhor pra ela. – Um pequeno silêncio se forma, mas Estêvão trata de manda-lo embora. – Maria, acho que já temos bastante intimidade, né?
— Hãm? Por que tá me perguntando isso?
— Porque se já tivermos intimidade, você pode me mostrar sua tatuagem.
— Rá, vai sonhando! San Roman, esquece isso, esquece que eu te falei dessa tatuagem. Acho melhor nos ajeitarmos nesse elevador, porque nossa noite vai ser longa.
— Tá bom, tá bom. Mas é melhor a gente ficar mais perto, porque vai ficar frio, e assim, vamos ficar menos desconfortáveis.
Ela o olha desconfiada.
— Eu não vou abusar de você não Maria! A não ser que você queira. – Brincou.
— Besta. – Foi para perto dele.
Essa ia ser a noite mais desconfortável para ambos, mas subitamente, gostaram da ideia de ficarem tão pertos um do outro. Ela foi para o seu lado, se aconchegou em seus braços, deitando-se em seu peito. Ele a abraçou, como se quisesse protege-la de qualquer coisa que fosse.
Ao se deitar em seu peito, Maria se sentiu protegida, como jamais se sentira nesses anos de casada com Sérgio, fora uma sensação inesquecível para ela. Ela passaria quantas noites fossem preciso presa num elevador, desde que ele estivesse também.
A noite passou vagarosamente, mas passou, e logo já se podia ver pequenos raios de sol. Ela acordou antes dele, o olhou e pensou que aquele era o tipo de homem que toda mulher merecia: cheiroso, cavalheiro, engraçado e como Fifi e Lívia diziam, um pedaço de mau caminho. Ele acabou acordando, talvez porque sentia que estava sendo observado.
— Onde eu tô? – Olhava para os lados assustado.
— Calma – tocou seu ombro – ainda estamos no elevador.
— Ah...
— Eles já devem tá chegando, e em breve não estaremos mais aqui. – Fez uma pausa. – Sabe San Roman, sei que não foi nas melhores condições, mas eu gostei de passar a noite contigo.
— Essa noite também foi a mais estranha da minha vida, mas também gostei do que aconteceu. – Colocou uma mecha do cabelo dela atrás da sua orelha.
— O que você está fazendo comigo hein? Você tá me fazendo querer fazer coisas que eu jamais faria em sã consciência.
— Tipo o que?
— Te beijar.
Ah, essa era a deixa perfeita! E é claro, ele aproveitou.
Não tive a intenção
De me apaixonar
Mera distração e já era
O momento de se gostar...
Ele colocou a mão na nuca dela, a trouxe para si e a beijou. Ao contrário do primeiro beijo, que foi um beijo tímido, esse foi um beijo com... Paixão? Talvez essa fosse a palavra, mas eles ainda não haviam se dado conta disso. Suas línguas dançavam uma bela música, a música do amor. Eles não se conheciam há tempos, mas se desejavam de uma forma inexplicável e não estavam dispostos a encobrir esse desejo, pelo menos não naquele momento.
Como tudo que é bom dura pouco, chegou alguém para atrapalhar o momento do casal. O expediente já estava para começar, então os funcionários já chegavam aos poucos, e um dos seguranças do local, se deu conta do elevador.
Não demorou muito para tira-los de lá, e logo eles já estavam livres e em casa.
— Maria! – Disse Fifi abraçando a sobrinha. – O que foi que aconteceu?
— Pai! – Aninha pulou no colo do pai.
— Por acaso vocês não estavam juntos, ou estavam? – Perguntou Sérgio “enciumado”.
— Eu estou bem Sérgio, obrigada por perguntar.
— Mas o que foi que houve pra você passar a noite com um homem que não é seu marido? – Indagou Cecília colocando lenha na fogueira.
— Ficamos presos no elevador da empresa, sem ter como entrar em contato, e só agora de manhã conseguiram tirar a gente de lá. – Explicou Estêvão.
— Meu Deus, vocês passaram a noite num elevador! – Fifi pasmou. – Vocês devem estar morrendo de fome, eu vou pedir pra prepararem algo pra vocês comerem.
— Primeiro eu acho que mereço uma explicação mais detalhada, não concorda Maria?
— Sérgio, eu não tenho nada pra te explicar, o San Roman já disse o que houve. Tia, eu não quero comer nada, vou subir, tomar um banho e tentar dormir um pouco, San Roman – se olharam – você deveria fazer o mesmo. – Se retirou.
— Bom – colocou Aninha no chão – eu vou comer alguma coisa, e seguir o conselho dela.
****
Com certeza Maria iria ficar toda dolorida por passar uma noite num chão duro de um elevador, mas para ela, valeu a pena.
“ O que este homem está fazendo comigo? Por que eu me sinto bem e viva quando estou perto dele? Por que eu quero ficar perto dele?” – Pensou.
Ela questionava o porquê de se sentir desta forma por um homem que não era seu marido, e o pior, não se sentia arrependida por isso, se sentia como quando fez sua tatuagem, um sentimento de liberdade, mesmo que esse durasse apenas poucos segundos, e tivesse que guardar esse segredo para si mesma a sete chaves, mas no fundo no fundo, ela sabia que ainda tinha um pouco de coragem para fazer aquilo que seu coração desejava.
“Será que ele apareceu na minha vida para me devolver a liberdade que eu nunca tive? Será que ele é a pessoa que vai mudar minha vida em 360°, como desejava Enrico?” – Pensou.
— Ah San Roman, o que estou sentindo por você?
Tudo que eu fiz foi me confessar
Escravo do seu amor, livre pra amar
Quando eu mergulhei fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul, de todo azul do mar.
Continua...
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