Flores De Maio

10 Ela Tem Um Jeito Lindo De Me Olhar Nos Olhos


Olhei a vida pela lente das flores e,

dentro de mim, floresceu um jardim

de esperança. – Dell Delambre

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Pronto, 2x0 para Maria. Sua mãe queria fazer Estêvão passar vergonha frente a sua roda de amigos civilizados e muito bem educados, que só falam da bolsa de valores, sobre mais uma firma que quebrou e blábláblá. Essa festa ia ser um tanto interessante, um contraste só, os ricos e os pobres, a classe A e a classe C, isso vai ser cômico. Provavelmente Cecília ia aprontar alguma coisa, mas Maria estaria ali de butuca, pois caso fizesse alguma coisa, ela que tinha que se dar mal.

A casa estava movimentada, e todos os empregados estavam cuidando para que fosse a festa do século, e Estêvão ali boiando. Ele não entendia das músicas, comidas e arranjos que Cecília falava que queria.

“Será que essa vida é mesmo pra mim? Será que um dia vou me acostumar com tanto conforto e luxo?” – Pensou.

Pelo que ele observara, o lustre que ficava no centro da sala era mais caro do que sua casa na favela, e nem se trabalhasse toda a vida, compraria uma daquelas.

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A festa acabara de começar, e Maria mal via a hora de terminar, ficar forçando um sorriso não era muito o seu forte, mas engoliu a seco e foi, são só algumas horas. Lívia, como sempre, não faltava às festas da mansão, e as duas estavam juntas se arrumando, sua companhia fazia a hora passar, era cada besteira que ela dizia, que Maria se acabava de rir. E enfim, estavam prontas!

Quando desceram, o salão já estava razoavelmente cheio, Lívia desceu as pressas em sua frente, e ela desceu mais devagar, não confiava em si de salto alto e vestido longo, ainda mais agora que andava tão desastrada. Ela desceu degrau por degrau, como se fosse a estrela da festa, e rapidamente todos os olhares voltaram para ela, mas ela tratou de olhar para um em especial, sim, o dele. Ela ainda ia pergunta-lo por que tanto a olhava, mas não podia recrimina-lo, também não conseguia parar de olha-lo. Quando chegou ao pé da escada, Sérgio fez o ‘favor’ de recebê-la, dando-lhe um beijo avassalador, que nem a própria esperava, com certeza era para marcar território, para mostrar aos marmanjos de plantão que ela era ‘sua’.

— Maria meu amor, você está linda! – Rodeou seu braço na cintura dela.

— Obrigada. – Sorriu gentilmente.

— Vou deixar você com Lívia, e cumprimentar os convidados. – Beija sua testa e sai.

— Podia fazer uma cara melhor né! – Disse Lívia dando-lhe uma bronca.

— Não sou obrigada a sorrir quando não quero. – Foi direta.

— Ihh, calma.

Maria estava simplesmente linda, para variar, as deusas que me desculpem, mas, nem a mais bela, chegara aos pés daquele ser divino. Ela usava um vestido longo, com as costas nuas, a sua cor era dourado e justo até a segunda costela flutuante, e o restante era de cor azul marinho e mais solto. Seu vestido não era decotado, pois sabia que não precisava disso para chamar atenção, sua beleza fazia isso por si só. Seus cabelos estavam soltos, com um leve enrolamento, ela não costumava usa-lo preso, ou com algum penteado que deixava sua nuca nua, o motivo? Ninguém sabia. E aquele perfume, era algo inebriante, entorpecedor, e mais uma vez, sem querer, ou querendo, sem medo de errar, ela foi a mulher mais linda festa.

— Maria – Estêvão se aproximou das duas – atrapalho?

— Claro que não San Roman!

Maria sorriu de forma doce e espontânea, e mais uma vez, seus olhos se encontraram, mas dessa vez, ela teve poder sobre si, e não ficaram parados, encarando um ao outro, por uma eternidade.

— San Roman, quero te apresentar Lívia, minha amiga.

— Finalmente conheci o famoso filho de Enrico Goulart! Muito prazer Estêvão, Maria falou muito bem de você, e que era um gato! – Disse Lívia totalmente desinibida.

— Lívia! – A repreendeu, ficando quase roxa de vergonha.

— O prazer é meu Lívia. – Apertaram as mãos. – Não sabia que falava de mim Maria.

— San Roman, você não deve levar em conta tudo que Lívia diz, ela é meio louca! – Estava visivelmente sem graça.

— Não liga pra ela Estêvão, ela disse sim que você é um gato.

— Lívia, já chega! – Aumentou um pouco o tom.

— Bom, Maria, eu vim dizer que você está muito bonita.

— Obrigada, você é muito gentil. – Sorriu docemente, mas ainda vermelha.

— Eu... Eu vou falar com uns amigos, licença.

— Lívia, você ficou maluca! – Se viram para o lado oposto de Estêvão.

— Maria, ele é muito gatooo!

— Por favor, se controle!

— Eu pegava ele facinho, se ele parasse de te olhar e me olhasse um pouco.

— Para de dizer besteiras, ele me olhou como qualquer um na festa.

— Sei. Ele tava quase babando em cima de você. Aê, arrasando corações, hein amiga!

— Ele é casado Lívia, e tem uma filha – se viram de novo e o vê conversando com Babi – aquela deve ser a esposa dele.

— Se ela é a esposa dele, por que não está morando aqui com ele e a filha?

— Não sei, deve ter algum motivo. Ela é bem bonita.

— Sim – a analisa – mas não mais bonita que você Maria, invista nele!

— Sua louca, caso não se lembre, eu sou casada!

— Ah é, tinha me esquecido.

Elas riem.

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— Teb – tinha o braço envolta do dele – essa casa é linda! Nunca vi nada igual antes!

— É Babi, às vezes até me perco aqui dentro! – Riam

— Que loucura isso que aconteceu contigo né.

— Nem fala Babi, ainda tô meio zonzo.

— Me diz – pega uma taça de vinho branco com um garçom que passava – como é a família do seu pai?

— Difíceis. Elas amam dinheiro, e ainda não engoliram essa história de que Enrico tinha um filho, e não ficaram muito felizes por eu ter assumido a herança. Bom, eles não me ofenderam diretamente, mas eu sei o que se passa na cabeça deles, quer dizer, nem todos são assim.

— E aquela ai – se referia a Maria – mora aqui?

— Sim, ela é filha da minha “madrasta”. – Fez aspas com os dedos.

— Parece metida, insuportável e de nariz em pé.

— Muito pelo contrário, ela é super simpática, educada e elegante.

— Nossa, quase uma deusa! Nunca vi você elogiar tanto uma mulher! – Ficou enciumada.

— Foi ela que deu a ideia de convidar vocês. – Tentou contornar.

— Isso não me faz gostar mais dela. Licença, vou até o banheiro. – Saiu com raiva.

— Ihh, o que deu nela?

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— Oi Fernando.- Lívia se aproximara dele.

— Oi Lívia, que bom te ver! Tá linda!

— Obrigada! Sabe o que eu tava pensando?

— Não, ainda não tenho poder de ler pensamentos. – Toma um gole da sua bebida.

— Que – chegou mais perto e fala quase sussurrando perto do seu ouvido – você podia me tirar da festa, e me levar pra qualquer outro lugar. – O olha sorrindo maliciosa.

— Lívia, eu já te disse que entre nós não vai haver nada, será que é difícil pra você entender?

— E por que não? Eu sou tão feia assim?

— Não. É pelo simples fato de você ser a melhor amiga da minha irmã.

— Ah – riu – é por isso? O que você acha que vou dizer a ela? Que você manda muito mal na cama? Ou que tem o pinto pequeno? Ah por favor Fernando, eu não sou mais uma adolescente!

— A sua vontade possessiva de querer ficar comigo pode ser um plano de vocês para denegrirem a minha imagem.

— Eu não acredito que tô ouvindo isso! – Pasmou. – Você acha mesmo que Maria e eu ficamos pensando nisso? Tua irmã tem mais o que fazer! Você deveria parar de vê-la com maus olhos.

— Eh... Talvez você tenha razão.

— E então – volta a sorrir maliciosa – topa ter a melhor noite da sua vida?

— Você garante que será?

— Pode ter certeza que sim!

— OK, então me espere em frente a casa, e daqui dez minutos sairemos, a festa tá chata mesmo. Espero que não me decepcione Lívia.

— Não vou. – Pisca.

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A festa estava muito chata, principalmente para os amigos de Estêvão, que eram acostumados com música alta e danças desconhecidas pela classe A. Estevam todos muito entediados, mas ninguém tinha coragem de se manifestar.

— Tia – disse Maria – viu a Lívia?

— Oi minha flor! Não, não a vi.

— Tudo bem tia.

Josefina se enturmou com uns dos amigos de Estêvão, e estava curtindo cada momento da festa, bebendo todas, pelo menos alguém tinha que sair da festa feliz. Maria se sentia completamente perdida, Lívia havia tomado chá de sumiço, sua tia curtindo suas novas amizades e seu marido de conversinha com sua mãe, não sei quanto assunto eles têm. Ela foi até Sérgio, para que ele lhe fizesse companhia, pelo menos para isso ele tinha que servir, mas ao seu aproximar dos dois, ouviu uma conversa bastante suspeita, e resolveu parar para escutar, para ver o que estavam aprontando.

— Você não vai mata-lo não, né Cecília?

— Claro que não Sérgio, não diga tolices! Só vou dar a ele uma alegria extra – sorriu maldosa – essa noite vai ser inesquecível! – Coloca um pó dentro de uma taça com bebida.

— Depois do vexame que esse favelado passar, nunca mais vai querer olhar na cara de ninguém!

Ao ouvir a conversa, Maria teve certeza que estavam aprontando, mas ela não ia deixar isso passar em branco.

“Ah mãe, com certeza essa noite vai ser inesquecível.” – Pensou.

Quando o garçom, mandado por Cecília, foi até onde Estêvão estava, ela correu para pegar a taça antes dele. Ela estava mais tensa do que o habitual.

— Oi Maria – ele pega a taça – de novo.

— Oi San Roman, quase não nos falamos hoje. Hum – pega a taça da mão dele – sei que não é muito educado, mas eu queria essa taça, você pode ficar com outra né?

— Tá – a olha sem entender e pega outra taça – se você quer essa. – Sorriu. – Maria, será que eu poderia mudar essa música, é que essa tá muito chata, e daqui a pouco vai tá todo mundo caindo no sono.

— Claro que pode San Roman, a casa é sua, a festa é sua!

— Que bom! Não vai tomar? – Olha para a taça.

— Ah, sim, eu vou, mas antes tenho que falar algo com a minha mãe, com licença.

Ela saiu às pressas, e ele ficou sem entender, qualquer um ficaria, pois ela estava agindo de uma estranha até para ela. Ela ficara ansiosa para que mudasse a música, não sabia o tipo de música que ouviam, mas sabia que estouraria os tímpanos de sua mãe.

— Oi mãe, não falei ainda com a senhora. Você está linda!

— Maria – olhou para trás para ver se Maria falava com ela mesmo – tá tudo bem?

— Tô ótima! Querem beber comigo?

— Você está estranha Maria – disse Sérgio – muito sorridente.

— Não é nada, vocês estão vendo coisas onde não tem.

Ela chamou o garçom e pegou mais duas taças, e sem que os dois vissem, deu a taça com a alegria a mais para sua mãe, que não suspeitou de nada. Ela ficou olhando-a beber até o último gole, e sorriu, como dizem, que nem pobre no sol.

De repente, quando menos esperavam, começou a tocar um música estranha, com uma batida meio louca, que eles nunca tinham ouvido, e Maria logo olhou para sua mãe e para os convidados dela, deu-lhe uma vontade de rir, mas se segurou para não piorar as coisas.

— Que palhaçada é essa? Quem foi que botou essa música que mais parece ter vindo do inferno? – Gritava.

— Calma mãe, olha a pressão! – Segurou o riso, olhando os convidados de Estêvão se acabando de dançar.

— Eu vou acabar com isso agora mesmo!

Quando ela ia sair, deu um troço nela, e ela começou a se sentir estranha, Maria ficou preocupada, a droga da bebida estava fazendo efeito.

“Ah meu Deus, será que minha mãe vai morrer? E eu seria a culpada pela sua morte!” – Pensou com uma preocupação visível em sua face.

— Sérgio, Maria, tem algo estranho acontecendo comigo. – Botou a mão no peito.

— Mãe, o que foi? Quer que eu chame um médico? – Tentou segura-la.

— Eu tô com uma vontade de dançar!

O que? A droga estava fazendo seu efeito, e Maria não ia perder o papel de ridículo que sua mãe estava prestes a fazer. Cecília saiu de onde estava, e foi para o salão principal, onde os amigos do Estêvão estavam dançando animados, e se juntou a eles, ninguém acreditava no que viam, Cecília doidona, dançando até o chão! Os amigos dela, os empregados, Fifi, Sérgio a olhavam boquiabertos, sem entender, e Maria adorando tudo aquilo.

— Maria?

— Oi San Roman – disse vidrada na tela do celular que gravava tudo – precisa de alguma coisa?

— Vim te chamar pra dançar comigo. – Disse um pouco tímido.

— Eu? – O olhou. – Não sei dançar esse tipo de música.

— Eu pedi pra tocar uma mais lenta, tenho certeza que você é super pé de valsa. Vem, até sua mãe tá se acabando de dançar.

— Tudo bem. – Entregou o celular a Fifi, e deu a mão a ele.

Os dois foram para o meio do salão. Ele colocou sua mão quente sobre suas costas nuas, e ela ficou um pouco arrepiada. Ela estava bastante nervosa, não sabia direito o porquê, mas sabia que tinha que manter o controle sobre seu corpo, senão pagaria um mico maior do que o que sua mãe estava pagando. Ela colocou sua mão esquerda no ombro dele, e com a direita, segurou sua mão. Cada contato, cada vez que ficava mais perto, seu coração batia com mais força, com mais velocidade.

Foi assim, como ver o mar à primeira vez
Que os meus olhos se viram no seu olhar
Não tive a intenção de me apaixonar, mera distração
E já era o momento de se gostar.

Era uma música que ela nunca tinha ouvido, e para não ficar tão nervosa, pôs-se a prestar atenção na letra. A canção falava sobre olhar, sobre amor a primeira vista, e se Maria acreditasse em destino, talvez diria que foram os anjos que colocaram aquela música, mas para ela, não passava de uma consciência.

Quando eu dei por mim nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor, e vinha pra ficar.

Estêvão a conduzia de forma tão encantadora, que ela chegou a crer que ele foi dançarino em outra vida, caso houvesse outra vida.

Daria pra pintar todo azul do céu
Dava pra encher o universo
Com a vida que eu quis pra mim.

Como que por um impulso, ela deitou sua cabeça sobre seu ombro, fechou seus olhos, e fez questão de esquecer de tudo ao seu redor, das pessoas que os olhavam, da sua mãe drogada, e que era casada.

Tudo que eu fiz foi me confessar
Escravo do seu amor, livre pra amar
Quando eu mergulhei fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul, de todo azul do mar.

Aquela música parecia não terminar nunca. É destino, você estava fazendo seu trabalho muito bem. Depois de alguns segundos debruçada sobre seu ombro, ela levantou a cabeça e o olhou nos olhos, e viu seu reflexo através dele, se sentira tão bem, como jamais antes. Ele a olhava sorrindo, com aquele sorriso que deixava-a sem chão, aquele sorriso que a alegrava e fazia esquecer de todos os seus problemas.

“Que sorriso lindo é esse hein? Esse seu sorriso desmonta qualquer um, com certeza!” – Pensou.

Foi assim, como ver o mar...

Foi assim, como ver o mar
Daria pra pintar todo azul do céu
Foi assim, como ver o mar
Daria pra beber todo azul do mar!

O... Casal? Bem, eles se entregaram àquela dança, sabiam que para eles era mais que uma dança, era o encontro de duas almas que se desejavam, sem saber o porquê, mas sabiam que um sentimento já existia. Mas, quando estavam paralisados se olhando, Sérgio apareceu para estragar tudo.

— Larga minha mulher seu desgraçado! – A puxou, e deu um soco no rosto dele.

— Sérgio! – Disse Maria com a mão na boca surpresa com o que acabara de ver.

Continua...

Notas finais
Mais um meus amores, espero que gostem.