Flores
1 Prólogo — A neve vermelha
Notas iniciais
Prologue
Haviam naquela parte do globo quatro nações. Do lado oeste existia Thonis, a mais grandiosa delas. Ao norte, a nação de Turon se mantinha. Ao sul, a pequena nação chamada Dohan sustentava-se, mantendo o absoluto silêncio. E finalmente, ao leste, existia Yotõn. Cada nação possuía suas particularidades. Tais diferenças, políticas, econômicas e culturais, sempre foram motivos para as nações, principalmente Turon e Thonis, entrarem em desentendimentos ao longo dos anos. O povo de Thonis, em virtude de seus recursos naturais exclusivos, como alguns tipos raros de minérios e gás natural em abundância, eram detentores do maior poder político e econômico dentre as quatro nações. Em seu território existiam pouquíssimas pessoas pobres; estes somavam apenas 1% da população. Não atoa se auto declaravam como ‘A Nação de Ouro’. Tudo isso despertava inveja e ódio em Turon. Esta, ao contrário da sua vizinha dourada, não era rica e poderosa. Na verdade, a maioria dos habitantes de Turon pertenciam à classe média e proporcionavam à nação um poder econômico modesto por meio das indústrias de metalurgia e do porto. De geração em geração, vários reis passaram pelo trono de Turon, mas todos eles foram obrigados a ver seu povo sendo tratados como lixo e rastejando nas profundezas da miséria, enquanto a nação à sua frente ostentava sua riqueza e sua prosperidade.
Quando o jovem príncipe Celosia, filho do rei Ignis, assumiu o trono da Nação de Ouro depois que seu pai foi misteriosamente assassinado, a situação entre as duas nações já estava bem crítica. Alguns membros políticos da antiga corte de Thonis, mobilizados acerca desta terrível perda, acusavam fortemente o rei de Turon, Nimrod, como mandante do crime. Visando prevenir conflitos armados, Celosia criou o Conselho, que seria um grupo constituído não só pelos reis de cada nação, mas também por outras autoridades de expressividade política. O Conselho tinha o objetivo de unificar as nações, propondo acordos políticos, negociações de troca e empréstimo de recursos e acesso à cultura de cada nação. Porém, o rei inexperiente não poderia imaginar que a criação do Conselho traria efeitos contrários aos que desejava.
O que Celosia não sabia ao criar o Conselho é que poucos dias depois do assassinato de seu pai, uma epidemia de um vírus letal havia se espalhado por Turon. O vírus descarregava no hospedeiro substâncias que desencadeavam uma série de complicações nos tecidos do corpo, fazendo assim com que o organismo lutasse contra seus próprios revestimentos. A pele ficava completamente desfigurada, endurecida, repleta de cicatrizes e ganhava uma cor acinzentada. Depois deste processo, os tecidos internos também eram danificados, levando o indivíduo, lenta e dolorosamente, à morte. A doença letal ficou conhecida na nação como a Síndrome de Prata. A nação negra estava caminhado para uma catástrofe em massa. Com tudo aquilo acontecendo em sua nação, Nimrod, veterano rei Turon, estava por um fio de tomar uma atitude desesperada. Porém, o vínculo frágil que unia Nimrod a sanidade mental, só se rompeu de vez quando o Vírus de Prata atingiu seu corpo. Aquilo tinha sido a gota d’água.
Já bastante debilitado por conta da doença e louco de dor, Nimrod interpretava a criação daquele grupo como uma ofensa direta ao seu povo. Como se eles estivessem jogando na cara dele que eram mais fracos, de que eles precisavam de sua ajuda. Entretanto, foi em uma das atividades do Conselho que ele viu a oportunidade perfeita para um plano, um plano que possibilitaria não só a recuperação da sua saúde, mas também a conquista de um de seus anseios mais profundos: a completa destruição e dominação de Thonis.
Para comemorar a criação do Conselho, e já começar com suas atividades de aproximação cultural, Celosia propôs que uma das nações sediasse um festival. Yorda, rainha de Yotõn, ofereceu sua nação para sediar as festividades. Algumas semanas depois, o grande dia havia chegado. As ruas da nação da neve ficaram movimentadas. Gente de todas as nações estavam lá para contemplar o desfile das nações que seguiria nas principais ruas de Yotõn, exceto por uma total ausência do povo de Turon. Tal ausência se explicaria quando a nação começasse seu desfile. Assim que a FAT, Força Armada de Turon, se apresentou, Nimrod mostrou ao mundo o que havia acontecido em sua nação. Ao retirar o capuz que cobria o seu rosto e as luvas que usava, ele mostrou a couraça cinzenta que sua pele havia se tornado. Em seguida, todos os soldados e habitantes de Turon fizeram a mesma coisa. As reações àquela aparência amedrontadora foram de agonia, angústia, aflição e desdém, esta expressada pelos habitantes de Thonis. Após a perplexidade, a FAT iniciou uma carnificina, matando todas as pessoas que encontrassem pela frente. E então, em meio àquela correia e gritos de desespero, a voz de Nimrod foi ouvida nas caixas de som espalhadas pelo centro da nação, informando que a partir daquele momento Yotõn estaria sobre uma ditadura.
Assim como a rainha de Yotõn, várias pessoas presentes na comemoração também morreram. Por onde se olhasse, via-se o branco da neve sendo substituído pelo vermelho de sangue inocente. As pessoas que conseguiram sobreviver choraram por seus entes queridos que haviam partido. E lá, em meio a tantos dolentes, Aiden era só mais um que chorava. Mas, em meio a tantas pessoas que choravam, ele seria um dos poucos que teria coragem para transformar todas aquelas lagrimas em flores.
Fale com o autor