Flor do deserto
21 Capítulo 20 - Ameaça em domicílio.
Notas iniciais
A cidade de Londres acordara naquele dia com grandes expectativas e ansiedades. Faltavam poucos dias para o Natal, mas o clima não era de paz e alegria. Depois da coletiva de imprensa, pode-se dizer que alguns ânimos foram acalmados, mas não o suficiente para fazer a cidade dormir tranquila. Lestrade saiu daquela sala mais preocupado do que aliviado. Foi rapidamente ligar para Donovan, para saber do intérprete. A agente atendeu ao segundo toque:
— Donovan falando.
— Agente, aqui é o Lestrade. Conseguiu o intérprete?
— Temos um problema chefe.
— Que problema? Onde você está?
— Estou na embaixada senhor, e estou com o intérprete na minha frente. Ele quer falar com o senhor.
— Passe para ele então.
Um homem de meia idade atendeu ao telefone. Seu sotaque era forte. Claramente um estrangeiro. Ele saudou Lestrade:
— Bom dia Inspetor, meu nome é Jonah e sou o intérprete de árabe e outros dialetos da região do oriente médio. A sua agente me expôs a situação. Mas infelizmente não posso ajudá-los.
— Como assim? Senhor Jonah, isso é uma convocação obrigatória. O senhor pode ser preso se não quiser nos ajudar.
— Então me prendam! Podem me prender! Mas minha família que mora no Líbano está sendo ameaçada.
— Espera, calma. Alguém fez contato com o senhor?
— Hoje pela manhã, antes de sua coletiva de imprensa começar, eu recebi uma ligação de um número desconhecido. A pessoa do outro lado da linha me ameaçou, dizendo que se a polícia pedisse minha ajuda para algo e eu aceitasse, eles matariam a mim e à minha família no Líbano. Eles até disseram onde eles moravam. Sinto muito, mas não vou arriscar a minha vida e a da minha família. Faça o que quiser comigo senhor, mas não posso ajudá-los.
— Mas teria pelo menos alguém que você pudesse nos indicar?
— Não, sinto muito, tenha um bom dia.
O homem desligou e devolveu o telefone a Donovan. Lestrade praguejou sacudindo o celular na mão, e chutando repetidamente um lixeiro próximo à ele. “`Droga!! Parece que eles estão sempre um passo à nossa frente!!”, resmungou o Inspetor. Lestrade coçou a cabeça, resolveu ir fazer uma visita no 221b.
***
Emanuelle estava de frente ao computador, abrindo e mexendo em todos os arquivos, passando uma vista rápida sobre cada um deles, tentando pelo menos entender do que se tratavam. Sherlock estava do outro lado da mesa. Estava calado. Apenas observava tudo ao seu redor, e principalmente a visitante de seu apartamento.
Um barulho de carro parando em frente ao prédio chamou a atenção de Holmes, fazendo- o se levantar da cadeira e olhar pela janela. Apesar da chuva torrencial, ele viu um homem grisalho se protegendo da chuva com uma pasta. Ele logo foi em direção de Emanuelle, e disse em seu ouvido, fazendo a jovem ter um breve sobressalto:
— Lestrade vem aí. Vá no meu guarda roupa, pegue um roupão azul e enrole-se nele. Sua camisola é um tanto provocativa, então vamos evitar distrações.
A jovem ficou vermelha como um tomate, e se levantou imediatamente da cadeira seguindo direto para o quarto. Não ousou olhar o detetive, ela estava morta de vergonha. Assim que Emanuelle fechou a porta, Lestrade apareceu na porta do apartamento:
— Sherlock, temos problemas.
— O intérprete não vai ajudar, correto?
— Mas como você...deixa para lá. O pior é que eu tenho a impressão de que não vamos conseguir ninguém. De alguma forma esses maníacos estão um passo à nossa frente, e ameaçando a vida daqueles que poderiam nos ajudar. Donavan está cuidando disso agora, breve ela me passará notícias.
Lestrade ainda falava quando outro barulho de carro parando em frente ao 221b chamou a atenção de ambos. Lestrade foi olhar pela janela, e Sherlock foi em direção ao quarto que Emanuelle estava, trancando a porta por fora. Lestrade viu o homem que saiu, era Harrison, seguido por três agentes especiais. Ele entrou no 221b. Lestrade se virou para avisar ao Sherlock, vendo-o saindo do corredor que dava acesso aos quartos. Mas antes que pudesse falar qualquer coisa, Holmes interpôs, e disse:
— Já sei. Lestrade, não dê nenhuma palavra sobre Emanuelle estar aqui.
— Não darei, mas Holmes, como você sabia que…
Lestrade ainda falava quando, precedido pela sra Hudson, Harrison entrou com seus agentes no apartamento;
— Querido -disse a senhora- esses homens são agentes federais e mandaram deixar eles entrarem.
— Tudo bem sra Hudson, eu assumo daqui -disse Sherlock, sem tirar os olhos do chefe da segurança.
Ela então, saiu, fechando a porta atrás de si.
Harrison foi o primeiro a falar, após um curto e incômodo silêncio, no qual Sherlock usou para avaliar todos os quatro visitantes.
— Ora ora, senhor Holmes. Não conhecia a casa do famoso irmãozinho de Mycroft. É um prazer finalmente conhecê-lo.
— Gostaria de poder dizer o mesmo -respondeu Sherlock. Harrison riu, passando a mão no queixo.
— Você é irmão dele mesmo. É tão presunçoso e arrogante quanto ele. Falando nisso, como vai ele?
— Trabalhando como sempre, e mais eficazmente que você, sem dúvidas. Afinal, ao invés dele ficar cantando e dormindo com cada secretária nova que chega ao setor, ele se concentra em fazer seu trabalho. E tenho certeza que ele é o melhor no que faz, despertando inveja em certas pessoas.
Harrison fez uma careta, indo dois passos na direção do detetive. Lestrade, para cortar a tensão crescente entre os dois homens na sala, perguntou:
— O que veio fazer aqui Harrison? Não é bom para o chefe de segurança se expor desse jeito.
— Ah meu caro, não se preocupe. Eu vim conferir se as minhas crianças estão fazendo o dever de casa direito.
— Estávamos até você chegar, está nos atrapalhando, pode ir embora -disse Sherlock.
— Onde ela está?
— Ela quem?
— Não se faça de desentendido detetive! -explodiu Harrison- Eu preciso saber quem é essa mulher, eu estou no comando dessa investigação e exijo saber! -Emanuelle, que estava tentando forçar a porta do quarto para sair, ao ouvir o grito do chefe, parou imediatamente e entendeu o que se passava na sala.
— Com todo respeito senhor -disse Lestrade- eu estou liderando a equipe de investigação e…
— Não mais inspetor. Depois da reunião, eu mexi uns pauzinhos, e agora você e o senhor Holmes vão dar satisfações diretamente a mim.
—E depois Mycroft é que é o incompetente -alfinetou Sherlock- você é uma vergonha, só consegue as coisas à base de favores.
Harrison estalou os dedos, e dois agentes se aproximaram de Sherlock. O detetive foi imobilizado. Colocaram os braços dele para trás, segurando-o com força. Harrison se aproximou, deu um sorriso sarcástico e acertou um soco certeiro no estômago de Holmes, e depois outro, fazendo Sherlock se curvar. O detetive se esforçava para respirar, fazendo um estranho chiado. Lestrade deu um passo à frente, mas foi impedido pelo terceiro agente, que puxou uma pistola com silenciador e apontou para o inspetor.
— Não se meta nisso Lestrade, para seu próprio bem -disse Harrison. Em seguida, ele deu sinal para esse agente da arma vasculhar a casa. Os outros dois endireitaram Sherlock à força. Uma onda de dor subia abdômen acima no detetive, fazendo sua respiração ficar um pouco mais difícil.
O agente armado, ao tentar entrar no quarto, percebeu que a porta estava trancada. Ele avisou a Harrison, ao que este respondeu dando sinal com a cabeça, autorizando arrombar a porta. O agente apontou a arma e atirou na fechadura, desbloqueando a porta. Ao entrar viu que o quarto estava vazio. Olhou debaixo da cama, e nada viu também. Mas antes de sair do cômodo, pensou em abrir o guarda-roupa. Ele abriu as duas portas de vez, achando uma jovem acocorada no fundo do móvel. Lutando, ela foi puxada para fora de lá, como também para fora do quarto. Com a arma encostada nas suas costas, elas foi levada para Harrison, sendo imobilizada pelo agente.
— Ora ora, mas que bela jovem. Me diga querida, qual o seu nome?
Emanuelle permaneceu calada, olhando em desafio para o homem. Ele então acertou o rosto da jovem com o dorso da mão. Fazendo Sherlock avançar para cima de Harrison, sendo impedido pelos agentes. Emanuelle cedeu ao pedido, dizendo baixinho seu nome, com as lágrimas já caindo de seus olhos.
—Emanuelle... É um belo nome -disse Harrison- Preste a atenção que eu vou perguntar só dessa vez: É você quem os terroristas estão procurando?
Os olhos de Emanuelle destilavam medo nesse momento. Ora ela olhava para Sherlock, ora para Harrison. Como ela permanecia calada, o homem deu outro forte tapa no rosto da jovem. Sherlock ao ver a cena, dizia entredentes: “covarde!”, fazendo mais força para se desvencilhar dos homens, ao que estes apelaram com socos na lateral do abdômen do detetive para acalmá-lo, fazendo-o parar de lutar.
Emanuelle balançou a cabeça positivamente, olhando para o chão. Seu rosto ardia, e estava molhado pelas lágrimas. Harrison deu uma risada irritante, comentando: “estão vendo? até que não foi difícil”. Ele fez um sinal com a cabeça, fazendo seus homens libertarem Sherlock e Emanuelle. Assim que foi solto, Holmes correu para Emanuelle, a abraçando, impedindo-a de cair no chão. A jovem afundou o rosto no peito do detetive, desatando em soluços silenciosos. Sherlock sentiu que a jovem estava escorregando, provavelmente perdera a força nas pernas pelo susto, então abraçou-a com mais força, ao ponto de sentir a expansão de seu tórax a cada soluço que ela dava. A situação era deprimente. Se Holmes pudesse matar alguém com o olhar, o alvo naquele momento seria aquele chefe da segurança. Antes de sair, Harrison falou em tom de ameaça, apontando o dedo de longe para Sherlock:
— Vocês tem uma semana para me dar resultados, caso contrário o nome de sua namoradinha estará em todos os canais de televisão. E não haverá Scotland Yard que conseguirá protegê-la.
Tendo dito isso, saiu do apartamento; deixando para trás um inspetor boquiaberto indignado e um casal machucado.
***
Carl estava saboreando um grande sanduíche que acabara de chegar. Da mesa da lanchonete onde estava sentado, ele conseguiu assistir a toda coletiva. O homem se levantou para pagar a conta, assim que a coletiva acabou. Quando estava no caixa, ele recebeu uma ligação. Ao olhar o número, reconheceu quem era. Atendeu o telefone, e se apressou para sair da lanchonete para ter mais tranquilidade para falar com seu chefe. Ele atravessou a rua, e se encostou numa árvore:
— Salaam Aleikum -disse Carl.
— Aleikum Essalam- Respondeu o homem do outro lado da linha, continuando logo em seguida- eu acredito que você viu a coletiva, não é?
— Sim, eu vi chefe.
— Eles não estão acreditando em nós, acham que estamos brincando.
— Concordo com o senhor. Eu acho que eles mereciam uma demonstração das nossas intenções.
— Muito bem, sabia que você pensaria do mesmo jeito que eu. Fiz certo em lhe chamar para fazer parte dessa grande obra de Allah.
— Obrigada senhor. E então, o que vamos fazer?
— Eu quero que você faça o povo se voltar contra o governo. Faça algo que fará com que o povo pegue suas autoridades pelo pescoço, exigindo que eles dêem o que pedimos. Depois então poderemos soltar o nome da moça, mas até lá quero ver a cidade ser destruída por sua própria gente.
— Entendi senhor...mas, como teremos a garantia que as autoridades não darão aquilo que o povo quer antes da hora?
— Acredite Carl, nossos governantes trabalham em cima de uma ética hipócrita. Apesar de morrerem de vontade de denunciar a mulher, para se livrarem das pressões populares, eles não o farão, pois o mundo inteiro está de olho. E como eles ficariam diante de todos os países? Seriam conhecidos como os covardes que obedecem à terroristas. Não, nosso querido governo preferiria ter o parlamento queimado e sangue nas ruas do que “se queimar” diante de todos os países do globo.
— É verdade senhor...é verdade. Eu já tenho idéia do que poderemos fazer. Eu acho que o senhor vai gostar do meu plano.
***
— Como é que não podemos fazer nada?! Fale com seu irmão Sherlock! Ambos sabemos que ele tem o parlamento nas mãos dele!
— Você acha que Mycroft já não tentou livrar-se desse verme? O ódio de Harrison por meu irmão é quase palpável, e já que ele soube que eu estava envolvido nessa, não perderia a chance de saborear uma vingancinha contra Mycroft, me atingindo -Sherlock passava a mão sobre o abdômen, que estava bastante dolorido. Num suspiro comentou- somos apenas civis diante desse almofadinha do governo.
Ambos guardavam silêncio. Emanuelle estava sentada no sofá com uma compressa no rosto, e observava os dois homens de pé discutindo sobre o que acabara de ocorrer. Depois de um tempo, ela rompeu o silêncio:
— Uma semana?
— Nunca vamos conseguir fazer isso em uma semana- bufou Lestrade- pelo menos não sem um intérprete.
— Não é possível que em toda a Inglaterra não exista alguém que possa traduzir esses documentos -rebateu Sherlock.
— Existir até pode, mas o problema é que eles não vão nos ajudar! De alguma forma estão todos sendo ameaçados, e ninguém vai colaborar.
— Os ameace de volta então!
— Você acha que somos o quê Sherlock? Um bando de ditadores com um porrete na mão? Se eles não querem nos ajudar, não podemos fazer nada, principalmente porque é a família de cada intérprete que está sob risco! E eu não quero mais vítimas.
— Mais vítimas terão se não houver quem nos ajude!
Emanuelle observava tudo calada. Ela pensou por um momento, e esperou o silêncio pairar entre os dois para anunciar sua decisão:
— Se me permitem senhores, eu posso não ser intérprete, mas cresci falando e escrevendo em árabe. Eu sei que fazem pelo menos dez anos que não ponho a minha língua materna em prática, mas acredito que posso adiantar algumas coisas, enquanto vocês tentam achar alguém para traduzir tudo isso. Afinal estou de licença por uma semana, estarei em casa o dia todo.
Sherlock e Lestrade se entreolharam. Lestrade comentou:
— É uma boa idéia. Por mim tudo bem, me dá tempo de achar alguém. Quantos arquivos são?
— Não contei todos -Emanuelle disse, levantando-se do sofá e indo em direção à mesa onde estava o notebook, sentando-se na cadeira e começando a mexer nas pastas.- Mas eu sei que são no total 32 gigabytes de arquivos.
— 32 gigabytes?! É muita coisa! Você não vai conseguir traduzir tudo nem que fique 24 horas sentada nessa cadeira durante o resto da semana.
— Eu sei disso. Por isso que eu estava tentando organizar as pastas.
Lestrade se aproximou mais da mesa para ver o que tinha na tela. Sherlock permanecia no mesmo lugar, com o olhar distante. Parecia pensar em algo.
—Veja -a jovem mostrava um conjunto de pastas para lestrade- essas três pastas da primeira fileira são listas com o nome, foto e endereço de mais de duzentas pessoas.
— Espera, quer dizer que aí tem de bandeja as informações de todos os integrantes do Hukm Allah?
— É isso que eu não sei. Podem ser informações tanto de possíveis alvos como de integrantes. Eu abri alguns desses arquivos e tinha todos os tipos de gente, desde parlamentares até vendedores de pipoca. A única coisa que sei é que todos esses nomes estão separados nessas três pastas. Não há como saber quem é mocinho ou vilão.
— Sim, há um meio -interrompeu Sherlock, ganhando a atenção de ambos- as tatuagens!
— É mesmo! as tatuagens -disse Lestrade, acertando um leve tapa em sua própria testa.
— Excelente! Já temos um padrão! O que mais tem aí Manu? -disse Sherlock.
— Ainda há muitas pastas que não vi, mas naquelas em que consegui passar uma vista tinha algo sobre algumas contas bancárias, documentos de escrituras de propriedades. Havia também algo sobre projetos de bomba.
— Projetos de bomba?
—Sim, quer dizer, mais ou menos. Eu não sei dizer se aquilo que eu vi já era uma fórmula pronta para fazer explosivos ou se ainda estava em fase de testes.
—Joyce disse que Said estava envolvido em um novo projeto de bomba -comentou o detetive.
— Certo, vamos fazer o seguinte — disse Lestrade- no momento foque em traduzir essa lista. Assim teremos alguma satisfação para dar àquele arrogante. Pelo jeito ele só vai sossegar quando ver gente sendo algemada.
Emanuelle balançou a cabeça em afirmativa. Sherlock permanecia calado, pensativo.
Emanuelle se levantou da cadeira, dizendo:
—Bom... vamos começar logo então, não temos muito tempo. Me consiga uma impressora que vou começar imediatamente. Vou tomar um banho e um café forte e logo desço para começar.
***
O policial olhava desconfiado para Sherlock, enquanto lhe devolvia o telefone. Ele tinha acabado de falar com Lestrade, então mandou o detetive ir até a sala de interrogatório que dentro de instantes ele estaria levando o detento para lá.
Sherlock se dirigiu para o lugar determinado, sentando-se na ala de observação. Ele olhava através do vidro onde ele estaria dentro de instantes interrogando Wilson novamente. Enquanto esperava, os acontecimentos daquela manhã voltaram à sua mente. O arrogante homem entrando no seu apartamento e o agredindo, e agredindo à Emanuelle. “Covarde”, ele balbuciou. Sherlock sentiu uma forte onda de calor subindo do peito para a sua garganta ao lembrar da violência aplicada contra aquela moça. Queria tê-la protegido. Agora ela estava na sua casa, sentada na sua mesa traduzindo uma série de fichas. Sentiu vontade de ligar para ela, saber como estava, se precisava de algo. Entretanto Sherlock conteve-se, repreendendo-se por querer tomar uma atitude tão emocional. “Ridículo! eu não processo sentimentos. O que está havendo comigo?”. Sherlock se inquietou na cadeira diante da incógnita que o estaria fazendo agir assim. Ele queria respostas de si mesmo. O detetive fechou os olhos, encostou-se na cadeira e pôs-se a pensar. Lembrou-se do que sentia pela Mulher e comparou com o que sentia naquele momento. A conclusão que chegou, o fez estremecer. Não era a mesma coisa que pela Mulher, era mais forte. Muito mais forte. Ao se avaliar ainda mais, projetou uma simples possibilidade em sua mente: perder Emanuelle. Sherlock voltou em sua mente para a cena que a jovem recebeu um tiro no pescoço, lembrou-se do sangue dela em suas mãos; então fantasiou ela morta no chão em seus braços. Seus olhos cor de mel abertos e fixos, sem vida, e todo seu pescoço e peito manchados de sangue. O Holmes mais novo sentiu um intenso frio na espinha, seu peito ardeu, sua garganta secou, seus lábios estremeceram e seus olhos arderam. Ele sentiu um líquido quente escorrer por suas bochechas e ir parar em seus lábios, tinha o gosto salgado. Ele abriu os olhos, e com a ponta dos dedos tocou na parte molhada de seu rosto, percebendo que eram lágrimas. Sherlock olhava com terror para a ponta de seus dedos molhados, ao constatar que chorou por causa do que viu em sua projeção. O detetive congelou. “Não...não é possível” repetia para si mesmo. “Eu sou um sociopata, não processo emoções...Isso deve ser abstinência do cigarro, drogas... devo estar em alguma crise de abstinência”. Mas no fundo a própria consciência do detetive colocava em dúvida essa possibilidade, sugerindo algo assustador: ele estava sentindo. Sherlock não aceitou isso e, mentalmente, brigava consigo mesmo, como se brigasse de frente para seu reflexo no espelho:
—Você é patético, fraco! Está apaixonado! -disse o reflexo.
—Isso não é verdade! -retrucou o detetive.
—Mentira sua. Você chorou só na possibilidade de perdê-la.
—Estava somente me testando, analisando uma simples possibilidade,não quer dizer nada.
— O que seu irmão pensaria de você nesse momento? Que vergonha…
— Rídiculo -bufou Sherlock, impaciente.
—Ora vamos, está tão cego que não consegue ver a verdade diante de seus olhos!
—A verdade? A verdade é que uma jovem que sofreu muito na vida precisa de minha ajuda.
—Mais o que é isso? Sinto cheiro de compaixão em você?
—Eu não estou sentindo nada por ela -disse pausadamente, com raiva transbordante em cada palavra.
—Então prove para si mesmo que não está.
—Provarei.
O reflexo do detetive não dizia mais nada, apenas ficou estático olhando para ele, e logo desapareceu. Sherlock abriu os olhos e novamente pôs-se a olhar para a ponta dos dedos molhados.
O detetive foi interrompido de seus pensamentos com o barulho da porta se abrindo na sala que ele estava. Quem entrou foi John. O médico foi se aproximando de Sherlock falando:
— Espero que seja importante para você me tirar de casa perto da hora do jantar, a minha pequena Rosie está começan...Sherlock? Você está bem?
John ao se aproximar viu que o amigo estava com o olhar fixo nos dedos úmidos, seu olhar era uma mistura de indignação e determinação.
— Sim, sim estou -disse, levantando-se da cadeira- eu quero que você entreviste um prisioneiro. É o Wilson.
— Wilson? Aquele que invadiu a casa de Emanuelle e…
— O nome é senhorita Goes -Disse Sherlock friamente. John olhou desconfiado para Sherlock, continuando falando cada palavra lentamente:
— Tá...senhorita Goes.
— Sim, é esse homem mesmo. Ele falou da última vez que costumava roubar algumas coisas para os homens que o contrataram. Quero que ele faça uma lista das coisas que ele roubou para aqueles homens. Quero tudo, até de ele roubou um graveto para eles eu quero saber.
— Sério que você me chamou aqui só para isso?-John riu incrédulo- Para entrevistar um prisioneiro? Porque você mesmo não faz isso?
— Tenho que visitar um lugar, e só temos uma semana. Não temos muito tempo.
— Que história é essa de uma semana? E para onde você vai?
— Para a zona industrial de Londres, visitar a falida fábrica “Powerful Fertilizer”.
— Zona industrial? Sherlock, já está escurecendo e aquele lugar é muito perigoso para você ir sozinho.
— Então sugiro que você me empreste sua arma.
John revirou os olhos. Não estava com paciência para entrar numa discussão com Sherlock sobre a insanidade daquela idéia. Então tirou a arma da calça e a deu ao detetive, ao que este a guardou na parte de trás de sua calça.
— Isso é insano -alfinetou John.
— Eu sei, não me espere para o jantar, vou demorar.
— Você ainda não me explicou que história é essa de uma semana.
— Pergunte à senhorita Goes, e ela lhe explicará. Outra coisa: quero que ela passe o resto da semana com você e com Mary.
— Mas Sherlock, porque? Não que eu ou Mary tenhamos problemas com isso, mas é que ela…
— Ela não está segura no 221b, é melhor deixá-la com vocês por enquanto, até pelo menos ela poder voltar a trabalhar -mentiu sobre seus motivos. Sherlock queria provar que não tinha sentimentos por ela, mantendo-a longe.
— Entendo. Avisarei a Mary assim que terminar aqui -disse John, ainda desconfiado.
— Ótimo! Daqui a pouco Wilson chega. Me entregue essa lista quando eu voltar.
— Certo. Até mais tarde.
— Até.
Tendo dito isso, saiu da sala. O detetive, assim que saiu da Scotland Yard, foi à uma locadora de veículos e alugou um carro. Em seguida pegou a estrada, seguindo para a região industrial de Londres, enquanto um belo pôr do sol se desenhava no horizonte da velha cidade, iluminando também a via que o detetive estava percorrendo, rumo ao seu destino.
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