Flor de cristal

3 A lua me falou


Notas iniciais
Espero que gostem :)

— Diga-me que isso é brincadeira, Shuichi? Briga de novo? – falava nervosamente o Sr. Hatanaka com o filho mais novo

Desde que começara a trabalhar com Kurama, Shuichi havia melhorado muito seu comportamento, deixando de se meter em confusões. Porém nem tudo eram flores na vida de um adolescente.

— Pai, não fui eu quem começou. Os caras chegaram do nada e vieram pra cima da gente sem motivos! – justificava ele – Eu apenas me defendi.

— Não tem desculpa Shuichi! Se eles que começaram, devia ter ido até um posto policial pedir socorro, e não revidar! – brigava o patriarca da família

Kurama e Shiore apenas observavam o sermão do Sr. Hatanaka, sem interferir em nada. Apesar de Kurama sentir vontade de defender o irmão em alguns pontos, não queria se intrometer na forma de educar do homem mais velho, respeitando assim sua maneira de conduzir a situação. Provavelmente Shiore pensava da mesma forma.

— Espero que esteja entendido, mais um erro seu e acabam suas regalias. Seu irmão está tentando te ajudar e nem isso você reconhece, está faltando com respeito com ele também! Espero que se desculpe por envergonhá-lo. – terminou o homem se retirando do aposento

Shuichi permanecia no mesmo local olhando para o chão. Não perecia sentir remorso pelo acontecido, na realidade, parecia estar sentido raiva.

— Não é justo, ele não estava lá pra ver o que houve – resmungou o adolescente

— Não se preocupe meu querido, seu pai está apenas preocupado com seu futuro. Você sabe, a reputação é muito importante hoje em dia para crescer na vida – falou Shiore calorosamente acalmando o garoto

— Eu sei mãe, mas as vezes o papai nem escuta o que tenho a dizer. Sabe estou me esforçando muito e ele nem reconhece – desabafou o garoto

Não era de hoje que Shuichi sentia-se inferior perante os feitos do irmão mais velho. Kurama sempre foi considerado o filho perfeito aos olhos dos pais e da sociedade também. Sabia que por mais que se esforçasse, não chegaria aos pés dele. Talvez por isso tenha optado por outros meios de chamar a atenção.

— Shuichi, não fique irritado. Apesar de parecer sem sentido agora, mais pra frente você verá que isso pode ter feito toda diferença – falou Kurama também apoiando o irmão

— Eu sei – respondeu bufando – Eu vou dormir okay? – anunciou o jovem indo em direção ao quarto

— Não se preocupe querido, um dia ele entenderá – falou Shiore olhando amavelmente para o filho mais velho

— Eu sei mamãe, não me preocupe. Shuichi é um menino bom, creio que somente está tentando chamar a atenção – respondeu ele sorrindo de volta

— De qualquer forma você deveria ir para sua casa, já está ficando tarde e amanhã imagino que você deva levantar cedo – falou a senhora

— Sim mamãe, eu irei – respondeu Kurama dando um beijo na bochecha da mãe ao se despedir

— Vá em segurança meu filho – desejou ela

— Não se preocupe, eu sempre vou – disse ele antes de sair da casa.

Apesar do frio, a noite estava bem agradável ao ver de Kurama. Devido a baixa temperatura não havia quase ninguém nas ruas, vendo-se apenas alguns casais passeando ou funcionários andando apressadamente para chegar em casa após um dia de trabalho. Andava olhando para cima contemplando o céu estrelado, tentando não pensar em nada. As vezes era bom para a cabeça relaxar dessa forma. Decidiu se sentar em um banco no parque perto de sua casa, afinal, não era sempre que tinha tempo e sossego para espairecer a mente.

— No inverno o céu fica ainda mais bonito a noite

Kurama surpreendeu-se ao ouvir uma voz próxima a ele. Virou e se deparou com uma garota sentada num banco bem a frente ao seu. Ele a olhou um pouco confuso, parecia-lhe familiar, mas da onde?

— Não se lembra de mim né? – disse ela rindo

— Desculpe, sei que a vi em algum lugar, mas realmente não me recordo – respondeu ele educadamente

— Fui a sua floricultura no mês passado levar algum dos meus trabalhos a uma senhora – respondeu ela – Sabe, aquela que queria uma flor de cristal

— Ah sim, me recordo! Desculpe por não reconhecê-la, tenho andado um pouco cansado ultimamente. – respondeu ele se desculpando

— Não precisa se desculpar. Na verdade só te reconheci pois você tem características bem peculiares – observou ela

— Ah bem, você não é a primeira a dizer isso – respondeu ele um pouco sem graça.

— Imagino. Bom, desculpe atrapalhar sua meditação. Apenas achei raro alguém aqui a essa hora e com esse frio. Normalmente apenas eu venho a esse local a noite. – falou novamente

— Você costuma vir sempre aqui? – perguntou ele curioso

— Sim, eu venho aqui todas as noites. Gosto do silencio e do céu visto daqui. As luzes da cidade escondem muito as estrelas, mas daqui é possível vê-las nitidamente – acrescentou ela

— De fato, o céu aqui é lindo – respondeu ele olhando novamente para cima.

Kurama pensou que a garota falaria novamente alguma coisa, porém instaurou-se o silêncio. De certa forma ele estava agradecido por ela ter parado de falar. Foi então que percebeu um leve barulho, como um arranhado. Olhou novamente em direção a garota que fazia contornou suaves com lápis em uma caderneta. De alguma maneira seus movimentos o hipnotizaram. A menina porém pareceu perceber que estava sendo observada, erguendo os olhos para ele.

— Ah desculpe, eu o incomodei novamente? – perguntou ela

— Ah não... – respondeu ele saindo do transe -...eu apenas estava imaginando como consegue escrever algo nessa escuridão. – completou

— Não estou escrevendo, estou desenhando – respondeu sorrindo

— Entendo, porém continuo não acreditando como pode fazer isso

— Costume, como disse, venho aqui todas as noites – acrescentou ela

— Desenha todas as noites?

— Sim, afinal, cada noite sentimos coisas diferentes. – respondeu ela

— Você deve ter muita criatividade – falou ele rindo um pouco

— Não sei se chamaria de criatividade, penso mais que seja um exercício de autopercepção – respondeu ela repousando o lápis na caderneta

Kurama continuava olhando em sua direção, pensando em suas palavras.

— Importa-se se eu ver seu desenho? – perguntou ele repentinamente

A garota pareceu surpresa com o pedido, porém sorriu em resposta.

— Okay, porém é por sua conta e risco – respondeu ela se levantando e indo em direção ao garoto

A menina estava vestida com um sobretudo marrom, adornado com pele sintética nas extremidades. Por baixo era possível ver uma blusa preta e calças jeans azuis escuras. Suas botas de frio combinavam elegantemente com o tom de marrom da roupa mais quente. No pescoço, um cachecol acinzentado dava um toque especial.

Ela sentou-se a seu lado e entregou a caderneta ao garoto. Kurama olhou o desenho sem entender muito bem a principio. Era todo em tons de cinza, porém parecia não ter uma forma concreta.

— Aqui, está de ponta cabeça – falou ela rindo enquanto desvirava a caderneta

Kurama pensou em responder, mas ficara sem graça pelo erro cometido, preferindo olhar para o desenho a ter de encarar a menina que claramente estava se divertindo com a situação.

— Então, o que sente? – perguntou ela

Kurama olhava o desenho profundamente, tentando organizar seus sentimentos em relação aquilo que estava retratado. Não podia dizer que era feio, mas algo lhe fazia sentir solitário. Parecia um quarto escuro, alguns móveis lhe davam essa impressão. Entretanto, era como se eles estivessem incompletos, parecendo que o desenho apenas lhe desse a sugestão de que ali haveriam moveis, quando na verdade, não lhe eram nítidos. Tudo era escuro. Parecia vazio, mas ao mesmo tempo lhe passava a sensação de amplo.

— Parece-me muito triste – comentou ele ainda olhando para o desenho

— Você acha?

— Sim. – respondeu ele devolvendo-lhe a caderneta

— Não me culpe por isso, foi a lua quem me passou essa sensação – disse ela

— Além de vir aqui todas as noites sozinha para desenhar você ainda fala com a lua? Já pensou em procurar um psiquiatra? – falou ele rindo

— Hahaha você tem senso de humor pelo menos. Meu psiquiatra vai adorar quando eu contar pra ele sobre você – respondeu ela sorrindo de volta

Kurama a olhou com ar interrogativo.

— Cruzes, você realmente levou a sério? – perguntou ela ainda rindo

— Por um momento achei que estivesse falando a verdade – respondeu ele

— De qualquer forma, acho melhor eu ir. Nunca se sabe sobre os malucos que se pode encontrar na rua essas horas – disse ela se levantando

— Você mora muito longe? – perguntou ele levantando-se também

Ela olhou para trás novamente e o encarou

— Er, quero dizer, você sabe, é perigoso andar sozinha por ai a essa hora. Perguntei apenas pois iria me oferecer para te acompanhar até sua casa. Para chegar em segurança – completou ele um pouco sem graça por ter sido invasivo

— Você sempre é assim? – falou rindo – Relaxa, não precisa se preocupar tanto com formalidades. De qualquer forma agradeço a oferta, mas as ruas aqui são bem calmas, tenho certeza que nada de ruim me acontecerá

— Tem certeza? Não teria problema pra mim – sugeriu novamente

— Sim sim. Afinal, existe a mesma chance de você ser um lunático quanto qualquer outro na rua né? – disse ela piscando enquanto pegava sua mochila no banco

Kurama ficou de boca aberta com a afirmação. Quando ela olhou novamente pra ela, caiu na gargalhada.

— Jesus homem, você não sabe reconhecer uma brincadeira não? – falou ela enquanto recuperava o fôlego

— Bem, normalmente as pessoas não saem por ai chamando outros que mal conhecem de lunáticos – respondeu ele meio divertido

— Normalmente não, mas quem disse que sou normal? Lembre-se, psiquiatra e tal....

— Pensei que estivesse brincando quanto a isso – questionou ele

— Hahaha você não tem jeito né. Vou parar de brincar com você antes que realmente comece a acreditar.

Kurama suspirou.

— Antes que vá embora, lembro-me de dizer que queria entrar na floricultura aquele dia. Até agora não apareceu. Por acaso desistiu? – perguntou ele enquanto também pegava seus pertences no banco

— Não, realmente quero ver. Porém percebo que é corrido, não queria atrapalhar seu trabalho – observou ela enquanto começava a caminhar

— Venha quando eu estiver fechando. Já que gosta de sair a noite, pode mudar um pouco seu percurso por um dia, certo? – sugeriu ele

— Ah sim! Mas antes vou avisar o dr. – respondeu ela se distanciando

— Claro, leve ele também! – exclamou Kurama um pouco alto para ela ouvir

A garota então se virou e sorriu

— Agora você pegou o jeito! – respondeu novamente antes de virar e partir definitivamente.

Kurama voltou sua caminhada em direção a sua casa. Não havia percebido o quão tarde já era. Havia perdido a noção de tempo entretido na conversa com a garota. Não sabia exatamente o porquê a convidara para ir a noite na floricultura, talvez estivesse encucado ainda com a declaração dela quanto ao local ser elitista no dia em que foi lá. De qualquer forma não saberia dizer se a garota realmente apareceria.

Do jeito que é excêntrica, não me surpreenderia se estivesse lá me esperando agora.— pensou ele rindo.

Notas finais
E ai? O que acharam? Comentem ai pra saber o que estão pensando ;)