Flor de Lótus

4 Capítulo III ✽ “Um segredo que não é meu”


Notas iniciais
Boa tarde, galera! Tudo bem com vocês? Espermos muito que sim O/ A gente tá bem empolgadas com essa fic e os capítulos tão chegando até mais cedo ♥ Vamos aos agradecimentos: Obrigada a todos que favoritaram: Bookie, sabrinavilanova e NekoDark. Aos que colocaram pra acompanhar: Pink U e Kelly dEugen. E aos que comentaram nos capítulos passados: SahVandenburg, Sonata ao Luar e Ariane Munhoz ♥ Muito obrigada, vocês nos motivam muito a continuar! Esperamos que gostem desse capítulo cheio de coisinhas e com uma curiosidade bem legal nas notas finais hihi Boa leitura!

Capítulo III ✽ “Um segredo que não é meu”

Um pesado silêncio pairou sobre a galeria logo após a decisão do imperador. Tudo o que ouviam era o alarde no pátio principal. A reunião havia acabado e nada do que dissessem seria ouvido. Um decreto do Filho do Céu jamais seria contestado.

Embora tivessem mais questões do que poderiam trazer à tona, os príncipes fizeram as devidas reverências ao serem dispensados por um aceno de mão do imperador. O soberano mostrava-se pouco preocupado com o alarde do lado de fora e iniciou uma pequena reunião com os ministros e o general.

Shun Hai foi o último a deixar o salão dos militares, ainda atrapalhado com a decisão do pai. Queria sim ter mais tempo ao lado de um querido amigo, mas não desejava comprometê-lo como uma espécie de servo que viveria em seu encalço para todos os cantos do palácio. Com a tensão ainda imposta pelo momento, acompanhou os irmãos, descendo demoradamente as escadas até o último degrau, antes de alcançar a praça.

O amarelo das telhas recebia o esplendor do sol de verão que fulgurava sobre a intensidade dos tons que coloriam os templos ancestrais e as suntuosas residências atrás do complexo palatino. O céu azul acentuava ainda mais as cores da Cidade Proibida. Seria sempre uma imagem bela de se admirar, mas as atenções foram todas para o acontecimento a alguns metros de onde estavam os príncipes.

Foi uma grande e animada surpresa o que os olhos verdes encontraram e um genuíno sorriso logo se desenhou nos lábios.

Os cavalariços tentavam conter a fúria de um belo e negro equino de crina alva como a neve. A pelagem escura reluzia sob o sol da tarde e ele parecia a criatura mais imponente que já tinham visto naquela cidade. Os pelos brancos e grossos da crina, ondulavam no ar conforme os movimentos ficavam mais bruscos.

O que todos viam era um cavalo que se recusava a ser domado. Ele batia os cascos no chão e tentava, a todo o custo, morder as mãos que seguravam suas habenas. Estava furioso e sua imponência era digna de um rei.

E todo o poder que a bela criatura emanava veio a ganhar mais que apenas a contemplação de alguém em especial.

Wángyé!” Os dois homens que tentavam conter o corcel se curvaram de maneira respeitosa quando o terceiro príncipe se aproximou. “Por favor, tenha cuidado.”

Shun Sying havia descido e atravessado uma das três pontes sobre o Rio Dourado, na praça ao lado do portão oeste. Não temia cavalos, muito pelo contrário. Era fascinado por aquelas criaturas e estava encantado com o porte e recusa do animal em ser levado aos estábulos. Uma simples tarefa que, por ventura, tornara-se cômica naquela tarde.

“Eu quero tentar.” O príncipe ergueu as mãos e encarou os olhos negros e assustados do cavalo. Quis tocar a pelagem que parecia tão macia, mas se conteve em busca de ganhar a confiança do cavalo. “Quem o trouxe?”

“O secretário de gabinete, majestade.”

O príncipe considerou aquela informação. O nobre que presenteara à família real com aquele belo mǎ [1], era um velho conhecido e pai de Li Huang, o jovem mestre arqueiro que retornara há pouco das missões na muralha. Sentiu-se ainda mais impelido a tocar o animal e fazê-lo se sentir seguro. Era um presente precioso que merecia mais que apenas o estábulo.

O estupendo animal soltaria fogo pelas ventas se pudesse. Os olhos, embora assustados, escondiam chamas e os cascos raspavam o chão com uma fúria sem igual. Mas tão lindo; tão bela era essa criatura que a ira o fazia ainda mais impressionante aos olhos de todos.

Principalmente aos olhos de Sying.

Os três príncipes pararam na escadaria de pedras brancas, observando o que o outro irmão estava prestes a fazer.

"Perderei meu irmão predileto nessa tarde." Yuè lamentou, sendo encarado em completo ultraje pelo herdeiro.

"Pensei que fosse eu o seu irmão favorito!" Em outros tempos, seriam severamente repreendidos por aquele jeito despretensioso de falar.

O animal, de olhos fixos no terceiro príncipe, agitou-se mais.

"Não chore, Fēi. Sua voz estridente está deixando a fera ainda mais revolta." Yuè deu alguns tapas no ombro do irmão, sem nenhum arrependimento.

Sying era a criatura mais suave que existia, não havia maneira de não preferir a companhia dele. Ao menos alguém ali sabia conversar sobre algo além de política, mudanças e melhorias.

“Hey, yǒu [2].” O terceiro príncipe, ainda com as mãos erguidas e a voz calma, continuou a aproximação, mesmo com a ira do cavalo negro que mal podia ser contido pelos dois homens que o seguravam pelas rédeas. “Calma. Está tudo bem.” Murmurou quando a mão alcançou o pescoço do animal, sentindo na palma a maciez da pelagem e a calmaria aos poucos, sobrepor a fúria do cavalo.

Os dois homens se entreolharam com certo espanto quando não precisaram de esforços para frearem as intenções arredias do animal. Ao que parecia, sua majestade tinha talento com feras selvagens.

“Não perderemos nosso irmão favorito, Yuè.” Shun Hai comentou com um sorriso admirado nos lábios. “Sying é bom com cavalos. Tão bom quanto vocês dois e essas implicâncias infantis.” Alfinetou com um olhar divertido para ambos os mais velhos. “No entanto, sou muito mais a eficiência de Sying com os animais do que o par de enfeites debochados ao meu lado.”

"Tentarei não me sentir ofendido com isso, caro irmão." Fēi estava claramente indignado. Ao menos pensou que seria o irmão favorito de Hai, mas estavam claras as preferências por ali. "E tratarei de me lembar disso quando for me informar das suas ideias inovadoras." E arrancaria todas as pétalas daquele abusado.

Alheio à discussão infante dos irmãos, Yuè desceu os degraus que faltavam e, quando tentou também tocar o animal com as mãos ainda hesitantes, quase perdeu os dedos. No entanto, o cavalo não viu problemas em voltar para as mãos que antes lhe acariciavam.

"Precisa dar um nome ao seu novo companheiro, Sying." O primogênito não ousou se aproximar novamente.

Um nome…

“Ele parece ser veloz.” Sying comentou. Estava sorrindo enquanto acariciava a crina alva do novo amigo. Imaginava que algumas tranças ficariam muito bem com o porte de… “Hēi Fēng [3].”

Combinava com ele. O rosto se encostou próximo a orelha do cavalo e ele deu tapinhas no dorso do animal.

“Não se sinta ofendido, gege.” Hai continuou, passando para o pátio após idealizar o quão singela seria uma pintura do terceiro príncipe com o recém-nomeado Hēi Fēng. “Mas logo não teremos privacidade para nossas conversas mirabolantes.” Ainda pensava na súbita proteção ao qual seriam impostos por pensamentos ainda desconhecidos do imperador.

Shun Fēi esperou que o irmão tomasse a frente da caminhada para sorrir enquanto lançava um olhar rápido à Galeria da Iminência Militar, imaginando o que estariam conversando o imperador e sua corja de bajuladores.

"Algo me diz que nossas conversas serão cada vez mais extensas, Liánhuā." E tocado pelo sol poente, aquela alcunha nunca pareceu tão perfeita.

Além do mais, pelas discretas trocas de olhares que havia percebido no salão, tinha certeza de que certo dragão concordaria consigo.

✽ • ✽

Li Huang e Long Wei eram amigos há quase sete anos.

Não existiam muitos mestres arqueiros de nome forte em Zijin Cheng quando, ainda jovem, viu-se encantado pela exímia e dificultosa arte da arquearia. De família nobre, nunca foi difícil buscar pelo que queria, mas foi necessária a intervenção da Liánhuā para que tivesse a excepcional autorização para passar uma temporada nas muralhas, em Chángchéng [4], em busca do aprimoramento de suas habilidades.

Foi um alvoroço.

Seus preceptores haviam recebido a atitude como uma cruel ofensa aos ensinamentos que recebera desde a tenra idade e, ademais, havia alguém… Alguém tão sereno que deixou para trás, à sua espera.

Se foi, era por estar em busca de ser um guardião à altura da família real, mesmo que o status da família Li o permitisse uma vida amena e envolta de luxos. Não tinha talento algum para a política e tinha irmãos para continuarem o legado, as emoções que lhe atraíam não estavam dentro dos muros intransponíveis da Cidade Proibida.

Mas a saudade fez com que voltasse ali na primeira oportunidade, quando o amigo foi nomeado o general das tropas imperiais e chamado de volta à Cidade Proibida. Huang o seguiu a pedido do próprio, alegando não confiar na capacidade dele de manter-se vivo e respirando na frente do Tiānzı.

Long Wei era feroz e bem treinado, mas não era a pessoa mais indicada para conversas extensas, ao contrário dele que, como o amigo tinha o costume de dizer, algum dia acabaria engolindo a própria língua grande.

Haviam se conhecido em uma das teimosas tentativas de invasão dos mongóis na fronteira norte. Era um grupo pequeno, com menos de quinhentos nomes e os dois sinais de fumaça acompanhados dos tiros de canhão deixaram toda a guarnição em polvorosa.

Obviamente, um grupo desgarrado e tão pequeno não havia conseguido ultrapassar os muros e, os poucos que ousavam tentar escalá-los, eram detidos ou sofriam uma verdadeira saraivada de flechas.

Li Huang estava em uma das enormes torres sentinelas quando avistou a luta injusta há poucos metros abaixo. Alguns dos soldados tinham deixado as muralhas a mando do antigo general em exercício para expurgar de vez aqueles que tentavam ameaçar a paz, e o homem que ia a frente, causando sérios problemas aos inimigos, fora fortemente atingido pelas costas.

Foi por pura indisciplina que Huang abandonou seu posto como arqueiro e protetor da torre para correr em disparada ao campo de batalha. Talvez a vontade de se sentir vivo em meio a uma luta tivesse sido maior que o coração caridoso e, embora preferisse arco e flecha, ainda era bom espadachim e eficiente em combate corporal.

Ele e o atual huīxià lutaram lado a lado, sempre defendendo a retaguarda um do outro. Eram rápidos e o tilintar de centenas de espadas era ensurdecedor, esquentando o sangue de ambos, tornando-os irmãos naquele embate.

A batalha inteira durou aproximadamente cinco horas quando, sem chance de vitória, a formação inimiga bateu em retirada. Mesmo em tempos de paz, não podiam evitar um conflito ou outro com clãs inimigos ou alguns dos revoltosos que não estavam de acordo com os tratados.

Perderam companheiros naquele dia, mas venceram a luta.

Huang, sem nenhuma surpresa, fora castigado pela indisciplina e Long Wei buscou o próprio castigo, culpando-se pelo ato distraído que levou o arqueiro a se arriscar por sua vida.

Eram unidos, desde então, pela gratidão de Wei por "ser salvo" e pelas implicâncias de Huang. Ambos de famílias pertencentes à corte, sendo os Long descendentes diretos de um antigo imperador, e agora o dragão era general das tropas. Mas ainda agia como um garoto sem palavras e, as vezes, se comportava como seu servo.

Um bom exemplo disso era que ele ainda estava frente a ostensiva porta dos aposentos da Liánhuā que já havia se retirado para dormir, enquanto zelava pela integridade da flor do império, mas tinham combinado de alternarem os turnos da guarda.

"Huīxiá, pensei que essa noite quem ficaria sem dormir seria eu." Zombou quando o general sequer se assustou com a sua chegada.

Embora tivesse passos leves e, como arqueiro, não precisasse vestir a armadura barulhenta e pesada, Wei era uma das duas únicas pessoas que conheciam sua aproximação.

"E eu pensei que você gostaria de descansar. Chegamos há pouco tempo e você anda mais alarmado que quando estávamos em Chángchéng." Ele não mais trocava as palavras para falar com o amigo.

Não… Long Wei sabia que tinha algo errado, mas não no sentido de perigo.

Era uma angústia ou aflição que o mestre arqueiro tentava esconder entre os costumeiros risos no canto da boca e as piadas que, ultimamente, estavam ficando ainda mais sem graça.

Ele vivia olhando para todos os lados como se procurasse por alguém específico e, por vezes, sumia e voltava cabisbaixo. Long Wei era muitas coisas, mas nunca ignorante. Só não sabia quem era o problema do amigo.

"Se não fugisse tanto das pretendentes, diria que anda escapando por conta de algum romance proibido." Mas não conseguia pensar em alguém que fosse proibido à Huang. As princesas que ainda estavam solteiras não estavam em idade de despertar algum interesse no arqueiro.

"Romance proibido…" Distraído, o mais velho repetiu as palavras do comandante.

Wei o observou.

Ele podia ser considerado um homem bonito, talvez até demais; com feições delicadas capazes de causar alguma confusão aos que o olhavam. Vestido como estava, talvez não estivesse realmente pretendendo ficar de guarda nos aposentos da flor sagrada, embora duvidasse que ele fosse deixar o quarto príncipe desprotegido caso realmente não estivesse ali.

Se conheciam bem o bastante para saberem que não seria no primeiro dia sob sua proteção que a Lótus ficaria longe de sua guarda em plena noite.

"Quando vai se abrir comigo?" A curiosidade enfim venceu o general e Huang acabou sorrindo novamente, como o cínico que era.

"Não posso contar um segredo que não é meu, huīxiá." O tom que ele se referiu à patente foi o mais cômico que conseguiu fazer. "Mas posso adiantar que, sim, existe alguém." Riu novamente do interesse do homem. "Que curioso, general. Mas não posso dizer nada mais." Afinal, estava confuso.

Confuso com seus sentimentos e os sentimentos alheios.

"Vá, Li. E ao menos tente descansar um pouco." Wei dispensou e o arqueiro balançou os ombros.

"Vou, mas porque sei que guardar Liánhuā não será um sacrifício para você, Long." O arqueiro devolveu e escapou antes de ganhar um safanão.

Tinha sim, algo planejado naquela noite bonita. Mas nada garantia que daria certo.

✽ • ✽

As lanternas acesas brilhavam em chamas douradas e azuis em seus postos, no alto das estruturas de pedras muito semelhantes a pequenas fontes decorativas, iluminando o caminho de noite escura e sendo as guias dos passos do terceiro príncipe.

Sying seguia pela praça da Galeria da Suprema Harmonia. Estava voltando para os aposentos quando decidiu parar para apreciar o rio escuro sobre uma das cinco pontes. Depois de conquistar um amigo de quatro patas e visitá-lo nos estábulos, passou boa parte do fim da tarde na biblioteca, entre um poema e outro. Também pensara na decisão do imperador de observá-los com mais afinco, algo que se negava a permitir, embora estivesse claramente abaixo do comando do Filho do Céu.

No mais, tinha sensibilidade para acontecimentos trágicos e não sentia nada já há muito tempo. Se o reino estava em perigo, disso ele não tinha conhecimento.

Os olhos escuros se ergueram das águas que fluíam calmas e foram para os muros que cercavam a cidade dentro de outra cidade. Os portões vermelhos estavam sempre fechados e ali ninguém entrava ou saía sem a permissão do imperador. Somente a família real, nobres da corte, concubinas imperiais e eunucos tinham morada em Zijin Cheng. Se havia alguma ameaça, provavelmente ela viria do outro lado daqueles muros. Ou talvez, ele confiasse demais nos moradores do palácio para não acreditar que algum deles pudesse ser um inimigo. Nunca foi o mais atento ou desconfiado dos irmãos, mas qualquer ameaça que tentasse invadir a cidade, era logo abatida ou simplesmente caía sob a proteção da flor do reino.

Era certamente mais fácil lidar com cavalos que com pessoas. Foi o que pensou ao fechar os olhos quando uma sombra se aproximou.

“Tem sorte de eu reconhecer os seus passos.” Comentou com o ar mais leve ao virar o rosto para a figura silenciosa feito um gato. “Ou estaria com uma espada no pescoço agora.”

Trajado em cores vermelhas que se confundiam com o beizi [5] folgado e de cor escura, os olhos pequenos eram perigosos e felinos, negros como a noite estrelada. Ele havia chegado em passos suaves como uma brisa e agora tinha o corpo repousado sobre as estruturas de pedra da ponte, parecendo pesar nada mais que a pura seda que vestia.

Não mais trajado como um guerreiro, os cabelos, agora livres do ji, estavam presos superficialmente apenas e os fios que moldavam o rosto tocado pelo sol em batalhas o tornava ainda mais harmonioso.

O nobre louco que havia decidido se enfiar nas batalhas.

"Seria uma morte interessante, pela espada do admirado wángyé Shun Sying." Os pés balançavam e as feições não demonstravam medo algum. Por que mostrariam? Era dissimulado demais para temer qualquer coisa. "A pergunta é; lamentaria minha morte, wángzǐ [6]?" A ousadia cantou no toque dos dedos quentes contra a pele gelada do príncipe.

“Por alguns dias, talvez.” Sying replicou com certo humor, mas afastou-se cuidadoso do mestre arqueiro. As torres eram sempre vigiadas e tinham guardas por todos os lugares e aquela aproximação era muito imprópria. “Tenho um cavalo agora.” Iniciou um assunto, buscando qualquer coisa que não pensar naquelas mãos e rosto tão próximos. As águas escuras também pareciam muito interessantes aos seus olhos.

Sempre tão arredio quando em lugares públicos, ele era. Quase adorável de mais para a própria segurança.

Li Huang era cativo dos gestos e olhares do terceiro príncipe desde muito tempo antes, quando o bravo rebento do imperador veio ao seu socorro enquanto se atracava com um par de mau feitores. Era normal que fosse confundido com uma mulher, principalmente por seu gosto em dedilhar as cordas oleadas de um belo guzheng [7], isso quando não estava treinando ou em retirada com o resto do exército.

Agora, era um dos poucos verdadeiros mestres em arco de Zijin Cheng, afinal.

Mas, obviamente, a serenidade do príncipe não o tornava o melhor dos observadores. Ele também o confundiu com uma mulher naquele dia e atrapalhou-se quando ouviu sua voz nada feminina.

Como não amá-lo? O imperador povoava a cidade proibida com criaturas fascinantes.

“Soube que o terceiro príncipe se aliou a uma fera, mas os eunucos não me disseram que a tal fera se tratava de um cavalo.” Entoou em tom de pilhéria, mas não buscou por outro toque. “Não deveria andar sozinho com a noite tão alta, bravo príncipe. O imperador se preocupa com a segurança dos seus.” Não que algo pudesse realmente vir a afligir o príncipe naquela noite.

Ele era um guerreiro feroz quando preciso e, oras, Huang estava ali. Isso significava algo.

Mas, em concordância com os irmãos, o terceiro príncipe só concluía que o imperador andava se preocupando em demasia.

Sying suspirou e decidiu que deixaria aqueles pensamentos desgostosos para a manhã seguinte. Dadas as horas, ele já deveria ter se retirado para dormir, mas era mais agradável ter a companhia do nobre em trajes vermelhos e do céu estrelado.

“Agradeço a preocupação.” Sempre tão gentil e mais recluso que os outros príncipes, apesar de se permitir ser mais leve e até mesmo se divertir ao lado dos poucos amigos. A luz da lua deixava a paisagem um tanto mais admirável, mas buscava não dar margem a qualquer aproximação suspeita. “Mas e você? Tão disperso caminhando por aí sem rumo… Sabemos que não é nada sem um arco e flecha.” Agora estava implicando, algo que raramente acontecia, já que era sempre o alvo das implicâncias dos irmãos e do próprio Huang. “Certamente eu teria que salvá-lo como daquela vez.”

Tão raro era ouvir implicâncias naquela voz que sempre trazia poesias e palavras sábias que o arqueiro quase se desequilibrou e foi fazer visita às carpas douradas.

"Oras, se não foi exatamente por isso que saí a sua procura. Quem melhor que meu salvador para proteger um pobre arqueiro desarmado?" A distância, em certo momento, se fez dolorida e o jovem saltou para o chão de azulejos uma vez mais. A cada passo que avançava, Sying recuava dois, tanto que acabou encurralado entre a ponte e seu corpo. "Por que foge tanto de mim? Não sentiu minha falta?" Era sua maior curiosidade.

Ele não havia fugido enquanto colhiam pêssegos naquela mesma manhã. Mas também não parecia exatamente feliz com sua volta.

“Huang, por favor...” O príncipe novamente fugiu pela tangente antes que as coisas piorassem. Eram aqueles momentos muito semelhantes aos treinamentos com os irmãos, pois o coração acelerava e o nervosismo tomava conta dos sentidos. Não negaria a saudade e o vazio que ali existiam, mas não podiam.

Ainda que estivessem perto, a distância era segura agora, como amigos conversando enquanto apreciavam as cores de uma bela noite. Encarou de maneira profunda aqueles olhos escuros de cílios curvados e então, o olhar deslizou para os lábios tentadoramente rosados e cheios. Pareciam clamar pelos seus, mas, novamente, controlou qualquer desejo que tentava sobrepor sua aclamada racionalidade.

“Todos os segundos de meus dias.” A confirmação surgiu com um toque caloroso entre as mãos que logo se dissipou, apenas uma memória entre seus dedos frios e os dele tão mornos. Em momentos descontraídos e solitários, as coisas eram diferentes. Naquela manhã sob os pessegueiros na contemplação da paisagem verdejante e das flores delicadas e de perfume doce, não eram proibidos um ao outro e não precisavam ser comedidos como agora. Como agora ali na ponte.

Então…

Yuè bǐng [8].” Deixou a alcunha pela qual o chamava desde quando mais jovens, flutuar no ar da noite.

Com um olhar e um sorriso contido, caminhou pela construção de pedras e olhou por sobre o ombro, esperando que o mestre arqueiro o seguisse em direção aos jardins.

Eram ainda muito jovens e saudosos dos raros momentos nos quais podiam apreciar a companhia um do outro.

E era também muito arriscado.

✽ • ✽

Ao lado da Galeria da Iminência Militar, ficavam os Jardins da Paz e Benevolência. Era maior que o Jardim Imperial e abrigava uma ostensiva qualidade de árvores com seus doces aromas e delicadas flores.

Sob um dos oito pavilhões de telhas verdes e colunas vermelhas, encontravam-se duas figuras muito próximas a apreciar o início de mais uma noite primaveril. As pétalas arroxeadas dos pessegueiros, pintavam a grama e esvoaçavam em coloridos pontilhados pelo ar com a brisa entre as folhas. A falta de luzes das lanternas sempre acesas, não impediam que olhos miúdos e atentos capturassem o que acontecia logo a frente.

Dispersos de qualquer possível observação, as duas figuras tocadas pelo tênue cintilar prateado da lua, aproximaram-se mais, como dois amantes proibidos enfim libertos de quaisquer amarras. Os rostos se nivelaram e por alguns momentos, somente se olharam, perdidos nas mais densas sensações. As mãos que antes estavam postas aos lados do corpo, subiram para as maçãs do rosto da figura de cabelos soltos, experimentando a textura e calor da pele com uma devoção velada. E então, os lábios findaram a frágil distância e se tocaram com um ardor palpável.

Foi uma surpresa deveras interessante quando reconheceu aquela figura de trajes vermelhos e pele corada pelo sol a se desmanchar nos braços daquele que buscou seu beijo. Daquele que possuía um importante cargo na família imperial.

Os braços subiram suaves e se encaixaram no pescoço da figura mais alta, exigindo dali mais fervor do que lhe era proporcionado naquele encontro que dava a impressão de ser o primeiro depois de muito tempo longe um do outro. E que grata surpresa foi, quando eles se separaram e o aparentemente mais jovem acabou por sorrir ao dizer palavras que certamente deveriam externar aquele amor proibido.

Certamente, havia sido uma boa ideia fazer uma gentil caminhada noturna.

Por ora, decidiu voltar aos aposentos enquanto deixava que os amantes desafortunados se amassem.

Pensaria com calma em como usaria aquela nova e oportuna informação

Notas finais
Glossário: [1] Mǎ: Cavalo. [2] Yǒu: Amigo. [3] Hēi Fēng: Vanto Negro. [4] Chángchéng: A Grande Muralha. [5] Beizi: É um item de vestuário tradicional chinês comum a homens e mulheres, um grande casaco solto. [6] Wáng zǐ: Outra variação para príncipe ou infante. [7] Guzheng: Também conhecido como a cítara chinesa, é um instrumento de 16 ou mais cordas. [8] Yuè bǐng: Bolo lunar. * CURIOSIDADE: Hoje é Dia dos Namorados Chinês! É chamado de 七夕节 Qīxì jié! E olha que lindo, tivemos um lindo casal nesse capítulo e foi apenas uma coincidência. O Sying agora tem um cavalinho que não permite que ninguém chegue perto O/ Um bichinho dócil desses XD A amizade entre o Wei e o Huang, é algo tão bonito ♥ Se tornaram amigos nas fronteiras e, desde então, vivem juntos e cheios de implicâncias. Amo o fato de um ser preocupado com o outro. Bem irmãozinhos sim. E o Huang não perde a oportunidade de comentar sobre a florzinha pro dragão * moonface * Olha, mas quem diria, não é mesmo? Esses quietinhos viu… O Sying é de longe o príncipe mais Disney que temos por aqui. Nunca se teve nada de ruim pra falar sobre ele e ele é conhecido pela boa conduta entre todos os outros, e ter um amorzinho proibido é a última coisa que geral imagina sobre ele :3 E esses dois têm uma história tão lindinha, desde a adolescência, porém, com tanta gente ao redor e tantas obrigações, eles raramente conseguem dar uns beijinhos... E sobre o apelido pelo qual ele chama o Huang… Siim! O príncipe chama o amor dele de “bolinho”. Que fofura, gente! E tem uma explicação bem amorzinho pra ele ter dado esse apelido pro boy ♥ Ah, detalhe que o cavalo, foi um presente do sogrão, por isso o príncipe quis ainda mais amansar o bichinho. E opa! Alguém pegou esses dois em flagrante D: O que será que essa pessoa vai fazer com essa preciosa informação? Muito obrigada por lerem e, por favor, comentem o que acharam, isso nos motiva muito a continuar.