Notas iniciais
~ Olá! ~ ♡ Para começar o capítulo, Chappy e eu só gostaríamos de dizer que agradecemos o carinho e o apoio que todos tem dado a FL e que recebam esse outro capítulo como nossa gratidão! Boa leitura!

“Termos inimigos é inevitável. Porém depende de nós não ser inimigo de ninguém.”

— Valter da Rosa Borges.

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As flores não discriminam a Natureza por estatuto. Apesar de serem espécies distintas, existiam plantas em todos os locais onde habitasse água para sobreviverem. Elas poderiam florir nos espaços mais inapropriados, a qualquer momento, durante inclusive uma guerra. As pétalas coloridas, húmidas pelas gotas do céu, representavam um símbolo de esperança para quem as enxergasse.

O medo era a face de qualquer membro do Gotei 13. Até os mais poderosos ceifadores, encontravam-se num estado profundo de confusão. A armada sangrenta trouxera desconfiança entre amigos, conduzindo-os a traições mútuas.

Todos suspeitavam uns dos outros.

A notícia que um outro intruso invadiu a Soul Society retornou com essas malditas emoções. Quem era? Um novo inimigo? Outra guerra?

Nenhum shinigami estava preparado para voltar a um confronto entre a vida e a morte. Todos queriam e ambicionavam a paz. Estando esta sendo novamente ameaçada, nenhum capitão opôs-se quando o Capitão Comandante sentenciou, na reunião, que o intruso era para ser encontrado e eliminado imediatamente. Sem qualquer cerimônia, sem direito a interrogatório ou execução.

Matar sem hesitar. Essa foi a ordem dada a todos os deuses da morte.

Usualmente, ninguém se alarmava com um mero intruso de poder espiritual moderado, nas ruas miseráveis de Rukongai. No entanto, depois do caos causado pela última guerra, eles tornaram-se alertas a qualquer eventual ameaça.

Grupos de treze shinigamis, um de cada esquadrão, ajuntaram-se em patrulhas pelos mais de oitenta distritos, havendo turnos diários e noturnos. Numa rua comum de venda de mercadorias, um desses grupos de shinigamis investigava os moradores, tentando pelo menos descobrir a aparência do desconhecido. Qualquer detalhe suspeito era de imediato apreendido e informado aos treze capitães através das borboletas infernais.

Os afortunados que conseguiram manter-se atentos aos pormenores, ou simplesmente, aqueles que usufruíam de uma boa imaginação e mantivessem credíveis com suas mentiras, eram recompensados em ouro pelo Comandante.

No distrito 60, o grupo terminara sua avaliação e rumava a Seireitei. Dentro de uma das casas humildes, encontrava-se Karin agachada junto à janela, observando-os discreta distanciaram-se. Ergueu-se completamente ao perceber que tinha tido êxito ao não darem conta de sua presença.

Nunca pensou que os ensinamentos de omissão de reaitsu de Toyotama fossem ser tão úteis. Para além disso, era uma sorte não inspecionarem as casas dos residentes. Possivelmente, por estarem a oferecer um prémio, não consideraram a hipótese de o intruso ser ajudado.

Os olhos ónix focaram-se na alma atrás de si que tremia de medo pela sua ação. Ela sorriu enquanto se aproximava da simples criança que não retirava seus pequenos olhos da porta.

— Está tudo bem. Eles foram embora. – Ela sacudiu seus cabelos, tentando-o reconfortar. O rapaz, finalmente, a encarou tentando sorrir descontraído.

— Você não é uma pessoa má. Por que eles a seguem?

— Não se preocupe comigo, ficarei bem. — Mesmo hesitante, ele acenou concordante, assistindo de novo a Kurosaki sorrir, disposta a partir antes de causar algum problema para o rapaz.

— Obrigado, por me ter salvo…

— Ah, está falando daqueles idiotas que soquei mais cedo? Não foi nada, eles mereciam…

Karin perdeu-se na lembrança ao encontrar uma criança estendida na terra, toda suja pelo pó, enquanto era espezinhada por cinco homens. A pobre alma inofensiva chorava com dores, evitando abrir a boca para não engolir terra, tarefa que não foi cumprida.

Ora, em determinados instantes, acabava por gemer de dor e cuspia de imediato qualquer grão de areia que entrasse por seus lábios. Ela mantivera-se a observar aquela situação, tentando entender qual a origem daquela briga…. Notou, após dois minutos, pelas grosserias jocosas dos homens, que ele apenas roubou uma maçã.

Ele justificava-se em vão, implorando perdão, porque simplesmente tinha fome. Seu poder espiritual aumentou drasticamente naquele momento, denunciando sua presença. O grupo, porém, não tivera a oportunidade de ver seu rosto, em menos de um segundo estavam inertes dos golpes que nem sentiram.

Karin sabia que devia ter sido discreta, não se envolver em conflitos usuais das almas, já estava demasiado envolvida nelas. Contudo, não conseguiu ser fria e manter a indiferença com aquela calamidade. Furiosa perante tamanha injustiça e covardia, agiu sem pensar. Não que se arrependesse.

— Agora está tudo bem, garoto. Eles não voltarão a meter-se contigo. — Ele ainda tinha medo, mas não evitou um sorriso aberto perante o entusiasmo genuíno da morena procurada. Ficou ligeiramente corado, ao perceber que foi salvo por uma mulher linda, principalmente, por esta o ter elogiado.

— Você é corajoso, me escondendo em sua casa, mesmo sabendo que pode arranjar problemas por minha causa. Não me esquecerei disso. — Com um último sorriso, em forma de agradecimento, ela desapareceu num piscar de olhos. Todos os requisitos de sua presença foram eliminados.

O tempo voltou a escurecer pela cobertura cinzenta no céu, as gotas frias iniciaram sua rota natural. Chovia mais do que o habitual na Sociedade das Almas, como se a água pudesse limpar as impurezas espirituais, provocadas pela morte alastradora durante o conflito anterior.

As circunstâncias climáticas não alteraram o trajecto da Kurosaki que mantinha o ritmo calmo de seus passos, deixando seu corpo vulnerável à água, ficando com o cabelo colado nas maçãs rosadas de seu rosto, não tendo noção da sua própria beleza naquele instante.

Desde longos minutos, ela sentiu uma presença forte na sua retaguarda, porém, esta limitava-se a segui-la sem a atacar. Karin não compreendeu essa atitude. Por que ele faria algo assim?

“ — Talvez esteja tentando perceber seus motivos.”

— Meus motivos?

“ — Sim. Karin, você entrou na Soul Society sem identificar-se num período recente pós-guerra, obviamente foi declarada inimiga. Mas suas ações não correspondem à imagem que criaram, por isso, ele pode estará tentar entender a razão pela qual está aqui.”

— Toyo-kun, isso significa que ele é alguém bom? Talvez, se eu perguntar, ele me diga onde está o Toushirou…

“ — A bondade não é tão fácil assim de definir, criança. Não se deixe enganar, ele pode estar a agir assim por outras razões. Pode estar simplesmente analisando suas capacidades, esperando para atacar na hora certa.”

— Entendo.

Mesmo com as advertências de sua zanpakutou, Karin não considerava que aquele estranho fosse um real inimigo. Presa a esse pensamento, travou sua caminhada, desviando o olhar para a direção do estranho, que se mantinha camuflado.

— Até quando pretende me seguir? Não vai atacar?

Ele permaneceu parado, como se fosse uma estátua. Ou a atacaria ou desapareceria nas sombras, pensou. Entretanto, suas hipóteses se provaram erradas quando o estranho finalmente largou sua camuflagem.

O dono da magnífica reiatsu também era magnífico, Karin concluiu, espantada. Era um homem alto e com um porte e postura altivos. Desde o contraste da pele alva com os cabelos tão negros quanto os seus, ele era belo. Os olhos cinzentos lhe perfuraram a alma. A chuva que havia ensopado seu shihakushou apenas acentuava seus traços.

Porém, era inegável que o que havia feito seu coração sair em disparada não fora seu poder, beleza ou postura — fora o haori branco. Aquele estranho era um capitão, como Toushirou.

Não poderia dizer, contudo, se aquilo significava sorte ou azar.

— Ora, vamos! — Karin ergueu uma sobrancelha. Ainda não havia decidido se contava ou não sobre o albino. — Me seguiu o tempo inteiro apenas para ficar em silêncio?

— Não está em posição de abrir a boca, intrusa. — Ele respondeu, régio. — Quem és?

— Acho que eu deveria fazer esta pergunta. — Rebateu ávida. Nunca abaixou sua cabeça para Toushirou, Urahara nem qualquer outro shinigami, e não o faria agora.

— Capitão da Sexta Divisão e líder do clã Kuchiki, — Sentenciou plenamente altivo. — Kuchiki Byakuya.

Karin arregalou os olhos, sentindo a boca abrir-se em descrença. Kuchiki? Aquele capitão era parente de Rukia?

— Você é parente da Rukia ou algo assim? — Antes que pudesse ponderar ou deixar que Toyotama intervisse, seus lábios se moveram mais ligeiros. — Ela é a amiga do meu irmão, Ichigo.

Agora fora a vez de Byakuya sentir-se surpreendido. O “intruso” sentenciado à morte era a irmã do energúmeno que tentava cortejar Rukia? Aquilo explicava muitas coisas e complicava muitas outras… Matá-la estava fora de questão — por algum motivo, aquela humana lhe cativara. Não parecia ser alguém facilmente descontrolada como o irmão, porém lhe transmitia a mesma sensação que o ruivo… Totalmente divergentes e extremamente parecidos.

Se Byakuya não fosse um gênio, certamente estaria num impasse.

— Você está presa.

Karin não emitira nenhum som, ao contrário do irmão se estivesse numa situação dessas. Porém, arqueara uma das sobrancelhas e o rosto retorceu-se numa faceta de pura teimosia e determinação. Queria ver alguém ousar impedir-lhe de arrastar Toushirou de volta ao Mundo Real para realizar o último desejo de sua baa-chan!

“ — Não lute contra ele, criança!”

“ — Enlouqueceu, Toyotama?! O cara está querendo me prender e você está compactuando com ele?”

“ — Primeiramente: ele é um capitão, Karin. Nunca subestime o poder de um shinigami, especialmente se ele for um capitão. E segundo: eu tenho uma forte impressão de que ele está à fazer algo certamente heterodoxo. A chuva me revela os sussurros dos Ceifeiros, mestra… E a ordem não era prendê-la.”

A hostilidade em seu corpo se remexeu, abalada. Tanto pelo poder surreal que Toyotama apresentara, quanto pela realidade antes desconhecida. Aqueles caras realmente estavam desestruturados.

Seu olhar se fixou na zanpakutou do moreno. A espada possuía uma lâmina longa, e Byakuya parecia muito confortável com zanjutsu. Karin havia conhecido a forma de espada de Toyotama há muito pouco. Não possuía muita experiência e com certeza desafiar o Kuchiki era idiotice de sua parte.

Relaxou sua postura, permitindo que o mais velho se aproximasse discretamente confuso com as atitudes muito provavelmente atípicas da família Kurosaki. Aquela garota que sequer havia lhe dito o nome era com certeza um quebra-cabeça quase impossível de ser montado.

Com um grunhido extremamente irritado, Karin sentenciou enquanto começava a andar na frente de Byakuya:

— Toyotama, para seu próprio bem, espero que esteja certo.

Mal sabia Karin quanto Toushirou que seus destinos estavam prestes a chocar-se com a brutalidade de um mar revolto, e com um maremoto maciço de sentimentos reprimidos prestes a transbordar em ambos os corações.