Flor de Lótus
4 Capítulo III
Notas iniciais
“O treinamento transforma as boas intenções em bons resultados.”
— Rafael Martins (Peperone).
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Treinar para obter força, implicava um compromisso diário com a responsabilidade e um controlo pormenorizado das emoções. O ódio conduzia a um aumento de reaitsu fora de si, prejudicando quem estivesse ao redor do portador. Sentimentos negativos empunhavam uma conduta errada: a vingança. Com ela, o poder tornava-se uma maldição. Para o shinigami, e para todos os que pudessem ser influenciados por seu poder espiritual.
Uma katana poderia ter duas funções: proteger ou matar. Um yin yang dos deuses da morte.
As intenções definiriam a sua finalidade, mesmo que as ações em si mesmas fossem iguais. Em determinados momentos, para proteger-se alguém querido era necessário eliminar o inimigo. Contudo, a lâmina que corta com essa finalidade — proteção — não conhece o ódio… Mantendo-se pura espiritualmente. Como a lótus a vagar na superfície de um lago, só com a água cristalina as pétalas podem desabrochar com beleza.
— Isso quer dizer que me vai ajudar, Toyotama?
— Exato, Karin. Confie em mim, mantenha o coração puro, e lhe tornarei mais forte. Dessa forma poderá reencontrar o shinigami.
— O Toushirou!? Como sabe que…? — Os olhos de Karin arregalaram-se, enquanto a cor do seu rosto modificou-se para um tom avermelhado.
Ela atrapalhava-se nas palavras, gaguejando, tentando descobrir como aquele ser místico sabia sobre o capitão de cabelos alvos peculiares.
— Sou sua Zanpakutou, esqueceu? Sei tudo sobre ti, criança.
— Isso é invasão de privacidade! Tenho direito a preservar segredos! — Toyotama manteve sua postura austera, apesar de quase rir perante o escândalo exagerado.
— Vamos começar?
— Vamos a isso, Toyo-kun!
“Toyo-kun?”
Novamente, o dragão vira-se sem reação. O sorriso aberto da jovem amoleceu seu temperamento. Era notória a tranquilidade do seu mundo desde que ela ficou entusiasmada com a paisagem.
— Karin. Como humana, sua força física é limitada. Não pode esforçar-se demais, senão o treino vai causar-lhe mais dano do que aperfeiçoamento.
— Mas, e o Ichi-nii...?
— O caso do seu irmão é diferente. Ele foi convertido em substituto de shinigami por Kuchiki Rukia. Você continua com um corpo humano, sem poderes de shinigami. Mas sua reiatsu alta pode permitir evoluir seu poder.
Karin acompanhava as palavras de sua Zanpakutou atentamente, não desviando sua atenção um milésimo de segundo sequer. A tendência da família Kurosaki era abusar do limite de suas capacidades, porém, se ela cometesse esse erro só iria atrasar sua jornada.
— Pelos vistos tomou consciência da situação. Pretende avançar ainda assim?
— Sim. — A resposta não fora imediata. Não por incerteza, mas para avincar sua determinação com essa decisão.
— Há duas formas de combate para um shinigami. Uma é aquela que já conhece, a zanpakutou. Outra, é uma magia designada de kidō. Será essa que irá aprender agora.
— Kidō?
— Feitiços avançados. Essas magias são produzidas com reiryoku e se dividem em duas categorias: hadō para ataques diretos e bakudō de apoio batalha. E são acionados por um encantamento. Shinigamis experientes podem desencadeá-los sem um, embora a eficácia do feitiço possa ser diminuída pelo menos um terço.
— Não parece muito difícil…
— Não seja apressada nos julgamentos, criança. Há uma escala de kidō, do nível 1 ao 99. Quanto mais próximo for do último mais forte será, e mais difícil de executar. Alguns encantamentos são tão longos que requerem alguns segundos para falar.
Toyotama não conseguia discernir a origem que motivara o brilho animado no olhar ônix. Ao princípio, supôs que fosse apenas surpresa, porém gradualmente foi modificando sua opinião… ela estava empolgada.
— Apesar que o poder do kidō está interligado com o poder do usuário. Um kidō de baixo nível pode tornar-se devastador com shinigamis de alta reaitsu.
A maresia intocável, começa a remexer-se, criando e elevando as ondas que colidiam violentamente contra a areia. Cada onda reflectia o poder espiritual que Karin concentrava na palma das mãos, tentando concretizar um feitiço segundo as coordenadas que Toyotama lhe ia dando.
No entanto, na etapa final, em que desferiu o golpe, este explodia em suas mãos, queimando-a. A sua zanpakutou analisa visualmente os machucados, enquanto estes fossem apenas superficiais, não tentaria impedir a jovem de prosseguir com o treino. Afinal, uma futura shinigami também teria de aprender a lidar com a dor. E, ocasionalmente, a combater com ela.
— Ó, Lorde, Máscara de carne e sangue, toda criação, agitação das asas, tú que usas o nome de Homem! Chama ardente e guerra turbulenta, separa os oceanos, se eleva e cai, caminha em frente em direção ao sul! Hadou n.º31, Shakkahou!
O dragão desviara-se elegantemente da pequena bola avermelhada de reaitsu que fora empunhada para si. Apesar de ser pequena, era potente. Notou isso quando o ataque atingiu um dos pilares tradicionais, o quebrando por completo.
— Oh, sua opção foi Shakkahou. Uma escolha interessante, para a primeira vez. Poderia ter escolhido algo mais fácil para se acostumar primeiro.
O oceano que acentua o brilho lunar em suas águas, foi evaporando. Um terço da água extinguiu-se em menos de um segundo. Toyotama não ficou indiferente, suas escamas endureceram, como se fossem pedregulhos, sentindo seu corpo pesar drasticamente, sendo forçado a aterrar em terra firme.
Encontrou Karin estirada entre os grãos de areia, inerte ao seu chamado. Ao aproximar-se compreendeu a causa de sua fraqueza: as mãos sangravam manchando o traje escolar. O feitiço esgotou-a espiritualmente e fisicamente. Ainda assim, era visível e perceptível o sorriso presunçoso em sua face suada.
— Criança tola, avisei para não abusar. — Apesar da reprimenda, ele estava orgulhoso pelo feito da jovem. Ela sempre escutara suas indicações, sem o questionar e efetuou um feitiço considerável para sua primeira vez.
O dragão diminuiu numa silhueta parcialmente humana, com longos cabelos negros cobrindo relativamente seu rosto. Com cautela, agachou-se e suspendeu a Kurosaki em seus braços, carregando-a de volta ao Mundo Real, mais propriamente, para sua casa.
— Você será uma shinigami possante, Karin.
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Ela não deveria estar fazendo isso, mas não conseguia impedir-se — sua pernas estavam se movendo por vontade própria, como se ela fosse um robô.
Chegou na loja do estranho de chapéu e madeixas loiras apenas para pedir-lhe algo que seria útil em encobrir sua reiatsu, cada vez mais forte e potente graças ao intenso treinamento de Toyotama, que ao reconhecer sua maestria na magia, não poupou esforços em treiná-la. E mesmo que estivesse se aperfeiçoando no quesito ‘energia espiritual’ — Toyotama lhe ensinara truques valiosos para usá-la em batalha —, ainda tinha dificuldades em contê-la. Afinal, quem consegue conter o mar?
A loja estava vazia; Jinta estava numa viagem de treinamento com o time de baseball, Ururu estava na casa de algumas amigas. Contudo, a ausência de Tessai e de Urahara não eram comuns. De fato, nem um pouco usuais. A porta da frente estava aberta, o lugar não parecia sequer abandonado às pressas.
Porém, isto não impedia Karin de ter calafrios. Algo no pequeno comércio exalava perigo — só estava curiosa para saber se aquilo lhe animava ou deveria preocupá-la.
“Toyotama… Você também sente isto?” , perguntou, enquanto começava a cruzar portas e avançar pelos corredores do lugar. Contudo, a resposta do kami não veio de imediato, como de costume. “Toyo-kun?”.
“— Pelos deuses…” — A zanpakutou murmurou. — “Karin, vá aos fundos da loja.”
A Kurosaki pôs-se a andar rapidamente, atravessando corredores e se perdendo nos cômodos, guiada por seu instinto e pelas direções que Toyotama lhe dava. Achou que fosse se perder de vez no pequeno labirinto de madeira, até que ela se deparou com algo muito interessante.
Era uma porta, tradicional, que, no entanto, exalava poder. Ela já havia visto Toushirou ou seu irmão aparecerem no Mundo Real por estas portas — e Toyotama fora bem claro lhe explicando os objetos sobrenaturais durante os meses de treinamento intensivo que tivera. Somente ainda não havia treinado a arte da espada, pois até mesmo hakuda aprendera.
“— Isto é o Senkaimon, Karin…“ — A voz do dragão ecoou em sua cabeça. — “A ligação entre a Soul Society e o mundo dos humanos. A única coisa que separa você de sua origem.”
“Como eu faço para atravessá-lo?”, perguntou, encaminhando-se para o portal.
“— Você teria de estar em sua forma de espírito, pequena.” — A zanpakutou respondeu, alarmado com o intento da mestra. “— Karin, não está me dizendo que vo-”
“Como faço para sair de meu corpo, Toyotama?”, Não permitiu que o deus terminasse de falar. Ela tinha de ir para lá, era seu dever. Não sabia o por quê, mas tinha de ir, “E, por favor, não me questione. Se me conheces tão bem quanto afirma que o fazes, sabe que não pode me impedir.”
“— Karin, você está se colocando em risco.” — A zanpakutou advertiu, se preocupando com a morena.
“Eu sei o que estou fazendo, Toyotama. Já pensei nisso”, rebateu.
“— Não pensou o suficiente.” — O dragão grunhiu.
“Não me interessa, Toyotama”, ignorou-o, já perdendo a paciência, “Diga logo: como faço para sair de meu corpo?”
O moreno suspirou, vendo em seu Mundo o balançar de ondas que começava a se tornar perigosas e cinzentas, rugindo como um leão. Até mesmo a salinidade do ar aumentou e os vento se intensificaram, mostrando tamanho domínio que Kurosaki obtinha de seu interior, contudo, não de seu poder. Ele não queria arriscar — se o processo falhasse ela queimaria de dentro para fora por sua própria reaitsu. Entretanto, sabia que a jovem queria ir, e o motivo de seu desejo, até porque era a encarnação de seu coração… Ele só esperava que Hitsugaya Toushirou valesse mesmo a pena.
“— Imagine que você seja um recipiente com algo dentro de si. Você precisa que este algo saia, mas ele está preso à você por pesadas correntes. A única maneira de fazê-lo sair é quebrando as correntes com seu reishi.” — Karin fechou os olhos, concentrando-se. O dragão lhe dissera uma vez que devido a certos traços genéticos, ela poderia manipular reishi com facilidade. Ele nunca explicou a frase, que ela logo esqueceu… Bem, até agora. — “Comece empurrando o conteúdo para fora com toda sua força, imaginando as correntes se quebrarem.”
Reiatsu começou a emanar da garota, enquanto seu corpo tremeluzia entre seu estado físico e espiritual. A energia que exalava de Karin admirou Toyotama, era forte e sólida, num tom forte de azul — como o mar agitado no verão. A morena começou a sentir um cansaço e uma ardência em seu interior, como se tivesse engolido brasas ardentes, e estava enfraquecendo rapidamente.
Ela não estava aguentando o processo. Entretanto, não desistiria.
Com um esforço final, Karin empurrou a parede de concreto que descobre ser sua alma. E então, desabou no chão, exausta.
Após alguns instantes de fadiga extrema, a morena se levantou e observou incrédula seu corpo deitado ao seu lado, imóvel. A respiração de Toyotama pesava em sua mente, tão cansado e admirado quanto a mesma.
Karin ficou surpresa em notar que seu sedoso cabelo tão negro quanto a noite estava espalhado por seus ombros, com as pontas mal passando do início das omoplatas esbarravam no tão conhecido quimono negro, sustentado por três camadas de obi: o maior era imaculadamente branco, o segundo era colorido em tons de verde e azul e multiplamente estampado, enquanto o terceiro e último era fino e negro. Entretanto, não era apenas o shihakushou que lhe impressionou. Era a katana em suas mãos.
A bainha tinha uma cor cinzenta, como o mar em dias de tempestades. O punho era de couro negro, e era extremamente confortável. Na parte superior da katana, bem no punho, tinha um pequeno desenho de dragão em um metal azulado. Relutante, Karin tirou a espada da bainha, apenas para ser momentaneamente cega. A lâmina era translúcida como a água, fina e parecia extremamente afiada. Subindo por sua extensão e terminando abaixo do punho, Karin arregalou os olhos ao perceber que em suas mãos estava um pequeno e cintilante geodo. Parecia uma mistura feita com tons turquesas, negros, cinzentos, verdes e azulados. Era deslumbrante, e estava alojado no pequeno e delicado aro cinzento acoplado no punho. Ela estava presa em sua cintura, exuberante e etérea.
“Toyotama, eu consegui!”, gritou orgulhosa de si mesma. Estava exultante. Finalmente, ela conseguiria encontrar-se com Toushirou!
Toyotama não conseguiu responder, tamanho seu orgulho. Sua mestra e pupila era muito mais forte do que pensava, embora ainda tivesse muito o que aprender. Mas ela aguentaria os tempos de aflição, sem sombras de dúvida.
— Finalmente, eu vou te trazer de volta, aluno de ensino fundamental! — Exibiu um sorriso selvagem e determinado, adentrando o Senkaimon rumo à Sociedade das Almas.
A pequena faísca de esperança que dera início aquela nascente aprofundou-se numa forte corrente líquida, fluindo insanamente de uma promessa rumo a um destino incerto, corações conflitantes… E gelo.
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