Flor de Lótus
20 Capítulo XVIII
Notas iniciais
“Há três coisas que todo o homem sábio deve temer: O mar em uma tempestade, uma noite sem lua, e a ira de uma mulher gentil.”
— Patrick Rothfuss (Adaptado).
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Após o ataque inesperado, os habitantes de Rukongai esconderam sua vontade assassina juntamente com sua presença. Era uma falsa paz, todos os shinigamis conheciam o perigo que viviam. Estavam a planear um golpe maior no coração da Sociedade das Almas: os shinigamis de elite. Gotei 13 ou famílias reais? Quem seriam os primeiros a serem testados, na próxima ocasião?
Apesar de a calmaria ser uma aparência utópica, as almas podiam restaurar suas forças nesse tempo. Um pouco de paz…. não deixava de ser reconfortante.
Karin estava com os braços cruzados, assistindo o seu capitão estranhamente quieto, evitando-a. Fez careta, notando um serviçal carregando uma caixa grande, entregando ao shinigami de haori.
— Pode voltar ao seu trabalho. — Gracioso. Mesmo dando ordens, Byakuya nunca deixava de manter sua postura elegante. Extremamente elegante, na opinião de Karin.
— Sim, capitão! — Numa vénia mal feita e desajeitada -por nervos-, o oficial retira-se utilizando o shunpo.
Ao nascer da alvorada, Kuchiki ordenou que deixassem uma secretária, e uma cadeira cômoda no quarto da nova recruta, mesmo esta tendo perguntado e exigido alguma explicação, o capitão não revelou suas intenções. Com a caixa de cartão nas mãos, ele dirige-se até à Kurosaki, estendendo-a na sua direção.
A sobrancelha negra arqueou-se, olhando confusa e intrigada para o objecto. Ela abriu a caixa ao lado de sua perna direita, e perplexa nota que era uma tonelada de folhas de papel, ao pegar numa para perceber o que estava escrito, abriu os lábios num “O”, arregalando o olhar para o capitão, que mantinha sua expressão indiferente.
— Não queria voltar ao trabalho? — Com a falta de resposta, ele prosseguiu. — Tem até ao final do dia para acabar todos os relatórios.
Karin ia protestar, porém, antes de conseguir expressar sua indignação ele tinha sumido. Karin estalou a língua, irritada.
“— Droga de shunpo.”
— Pensei que quisesse trabalho, Karin… — Toyotama murmurou sarcástico em sua mente, rindo.
— Fica quieto, lagarto. Eu queria treinar, lutar! Não… — Observando as centenas de folhas, em desânimo, Karin não finaliza sua fala, suspirando derrotada.— Não há que fazer, é uma ordem mesmo…
“— O taicho é cruel…”
A Kurosaki observou minuciosamente o trajecto da sua cama até à secretária. Com certeza, isso seria seu “treino”. Pegou no cabo da sua zanpakutou, que encontrava-se contra a parede, próxima do colchão. Quase gritou quando o pé recebeu todo o peso do corpo, trincou os lábios com força, sentindo um ardor perturbar a vista. Tentou apoiar-se melhor em Toyotama, praticamente coxeando até seu destino.
Somente quando apoiou as mãos na banca, percebeu que esqueceu-se da papelada. Quase socando a mesa de trabalho por isso. Se bem que não fazia ideia de como carregá-la naquele estado. Virando-se, constatou que havia alguém atrás de si. Surpresa, notou que era o mesmo shinigami que entregou os relatórios a Byakuya. Ele sorriu, um tanto envergonhado, fazendo-lhe o favor de deixar o material no local desejado.
— Obrigada… — Alargou a curva em seu rosto, deixando a Kurosaki enfim sozinha. Ao sentar-se, notou que realmente aquela cadeira era muito mais confortável do que aparentava. Deixando escapar alguns pensamentos em voz alta.— Talvez não seja assim tão mau ter ajuda de vez enquanto...
O folhear do papel, e a caneta deslizando sobre ele, foram os únicos sons audíveis naquela habitação durante toda a tarde, nada mais perturbou o silêncio instalado, fazendo-a esquecer -por instantes- que ainda encontrava-se no Quarto Esquadrão.
A sonolência foi-se intensificando com as horas. Uma ou outra vez bocejava, com duas lágrimas no canto dos olhos. Quando preencheu a última ficha de itens necessários para o Sexto Bantai, coçou os olhos, deitando a cabeça nos braços cruzados sobre os papéis espalhados pela secretária. Expirando mais fundo, adormeceu.
O shinigami atrás da porta, por fim, revela sua presença, deixando descoberta sua reaitsu. Sorriu de canto, notando os lábios entreabertos de Karin respirando com mais normalidade. Agachou-se, ao seu lado, apoiando a cabeça em seu ombro, depositando todo o corpo feminino em seu colo para deitá-la mais confortavelmente em seu leito.
Continuou olhando-a, ternamente, ajeitando as madeixas negras espalhadas pela testa.
— Idiota, não deveria abusar tanto de si mesma, Kurosaki. — Toushirou repreendeu-a, mesmo em sonhos. Rindo, completou em pensamentos. — “Por fim, está melhorando.”
A máquina apitava ritmicamente, um ruído suportável, demonstrando a gradual inutilidade do aparelho para a Kurosaki. Hitsugaya estava satisfeito, contudo, não deixava-se de surpreender com as capacidades de uma humana. Como ela curou tão rápido? Inclusive Hinamori, uma tenente experiente, com ferimentos menores necessitou de mais de uma semana para recuperar totalmente. Seria sua força de vontade?
Desde que a conheceu no Mundo Real notou sua reaitsu alta, e admirou-se pela sua determinação. Quando soube que ela invadiu um dos distritos de Rukongai, com uma zanpakutou, ficou igualmente abismado. Contudo, as habilidades que mais o surpreenderam foi no dia que espiou o treinamento de Karin no Sexto Bantai, que criando um jato de água, por inexperiência atira contra um shinigami que não tinha como esquivar do ataque, e por isso interveio, gelando a água com seu poder espiritual, a estilhaçando em seguida. Karin era possuidora de um poder enorme, mas não sabia controlá-lo. Isso fez com que ele identifica-se com ela, elementos naturais são estupendos… e perigosos para o possuidor dos mesmos.
Ele já previa algum assombro na recuperação de Karin. E este estava acontecendo.
Hitsugaya sorriu com seus pensamentos, ele ficaria mais atento ao desenvolvimento da humana que conheceu há mais de sete anos atrás.
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Os ventos cortantes da noite açoitavam impiedosos a Seireitei e as almas audaciosas e solitárias que pelas ruas rústicas e afetadas com a batalha caminhavam com destinos distintos. Talvez, naquela noite, fosse a figura de contrastantes branco e preto que atraira a atenção ali.
Byakuya Kuchiki geralmente não se dava às atenções que recebia por onde passava, sabendo que as tinha, mantinha perfeita compostura. Entretanto, hoje, estava ignorante delas. Rítmicos, quem conhecesse bem o capitão reconheceria em seu passar a perturbação que seu rosto não expressava.
Geralmente usaria o shunpo, mas era de extrema má educação adentrar um bantai que não o seu sem passar pela entrada principal. Mesmo quando ele tivesse acabado de sair do décimo segundo bantai. Mesmo que tivesse acabado de retirar-se da autópsia do corpo que sua pupila deixara em sua primeira grande e quase fatal luta.
Mesmo que, na parte interna de seu haori, contivesse um bilhete que o cadáver daquele identificado como Ren deixara para trás. Um erro que o inimigo pensara que não tivesse cometido ao enfrentar aquela jovem tão mais poderosa que ele — ainda que desconhecesse tal fato.
Uma mensagem codificada, com um local intrigante em Rukongai. Uma localização. Talvez a daquele que estivesse criando pandemônios do mundo das almas. Daquele que ordenara o ataque que levara tantas vidas e quase acabara com tantas outras; como a de Kurosaki Karin.
— Boa noite, Kuchiki-taichou. — Os dois oficiais que guardavam as entradas do décimo bantai o cumprimentaram com respeito, ganhando um mero aceno em troca.
Apesar das batalhas, o esquadrão permanecera intocado, pelo que o cinza de seus olhos esquadrinhara. Até mesmo o maior dos tolos reconhecia a maestria com que Hitsugaya Toushirou regia seu bantai, mesmo tão jovem.
Ao chegar no escritório, bateu com moderada força nas portas, esperando uma rápida recepção. Conseguia sentir o cheiro de chá, ouvir o barulho de uma conversa quase que murmurada e o som de uma ponta metálica arranhando o papel.
—Kuchiki-taichou. — A loira tenente cumprimenrou-o com curiosidade e surpresa no olhar, muda ao mover-se para permitir a passagem do capitão.
Byakuya não encontrou surpresa ao deparar-se com Hitsugaya sentado em sua poltrona, uma organizada pilha de papéis a direita, chá a esquerda e as madeixas bagunçadas encobrindo entrecortadamente seu rosto cansado e evidentemente contentado — o moreno imaginou que a vista à sua subordinada tivesse sido boa.
— Kuchiki-taichou, o que faz aqui? — O grisalho encarou-o com curiosidade.
Ainda mudo, atirou o bilhete na mesa de Toushirou, atraindo a atenção do outro mais notoriamente. Enquanto as orbes azul esmeraldinas dançavam pelo papel, finalmente encontrou oportunidade de falar.
— Foi encontrado num bolso do adversário de Kurosaki Karin. Como pode ver, é uma localização.
Um silêncio pesado rodopiou no escritório. Somente o barulho da garrafa de saquê de Matsumoto fora audível. Por fim, o capitão de gelo saiu de seu torpor.
— Kuchiki-taichou, por que trouxe-o a mim e não ao Soutaichou?
— Quero que me acompanhe numa revisão ao endereço.
O mais novo franziu o cenho levemente, antes de assentir e levantar-se de sua cadeira. Lançou um olhar significativo a tenente antes de questionar:
— Acredito que seja necessário uma Borboleta Infernal avisando o Comandante, ou já mandaste?
— Faça-o, Hitsugaya-taichou.
O grisalho desapareceu do escritório. Byakuya se virou para sair da divisão e esperar pelo colega, até que notou o discreto todavia profundo olhar da tenente. Ela bebericou de leve o copo e voltou a assinar os documentos, mas ao notar que tinha a atenção do outro capitão, largou o copo e mirou-o.
— Kuchiki-taichou, compreendo por que veio aqui, e não ao Comandante. — De facto, a mulher dos olhos de safira era muito perspicaz, apesar do desleixo lendário com o trabalho, Byakuya reparou — Mas sabe que uma hora ou outra ela descobrirá e não lhe deixará opção, não sabe?
Byakuya assentiu levemente, mas mediante ao olhar inquisitivo da oficial, emendou sério, ao sair da sala:
— Se Kurosaki Karin juntar-se a nós, Matsumoto-fukutaichou, deverá ser ao encerramento do conflito.
— Isso não acontecerá, vê? — Jogou as madeixas loiro-arruivadas pelos ombros — Assim que conseguir recuperar-se ainda mais um mínimo, não deixará a vocês escolha. Tendo agido você sigilosamente com o taichou ou não, a Karin-chan é uma Kurosaki. Ela vai à luta. Se não, a luta vai até ela.
A porta do escritório se fechou ao passo que usou o Shunpo para encontrar Hitsugaya. Quando chegou ao outro, ele já estava fora de sua divisão.
Trocaram olhares e então desataram a caminhar até seu destino em Rukongai. Entre os dois, um motivo muito mais pessoal para a caçada noturna do que o fim da guerra na Soul Society. Também, não havia necessidades de palavras.
Acima deles o céu negro afundado em ventanias engolia-os. Negro como a raiva crescente em seus corações, como o uniforme dos tantos que perderam as vidas e como o abismo que agora não mais separava Rukongai da Seireitei, mas como prometia rasgá-los ao meio. Sobretudo, negro como os cabelos de Kurosaki Karin e de sua força jovem comovente, que juntaram-nos numa impossibilidade.
A caçada para o início do fim começara.
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