Notas iniciais
► cнαρρү ◄ BOM ANO 2018, com muito HitsuKarin! Antes de mais, eu estou a postar este capítulo porque a Sun-chan foi de férias e pediu para eu o fazer por ela, já agora ela manda cumprimentos. Ela anda atenta uhuhuh. Espero sinceramente que tenham tido um bom Natal e um bom início de ano. Uma boa notícia é que Flor de Lótus ainda vai perdurar yeah! Ainda temos que planear os capítulos ao certo, mas eu pessoalmente não acredito que acabemos este ano, mesmo postando mais que um por mês. Seja o que for, esperamos contar com o vosso apoio nesta jornada mais um ano. Beijinhos & Boas Leituras.

“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses. ”

— Sócrates.

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As zanpakutous são as encarnações dos espíritos dos Shinigami. São seus corações materializados, um reflexo de suas almas. São um todo formado por pedaços que completam seus mestres. Suas partes mais fortes e suas peças mais triviais. Porém, para obter-se o todo de seus poderes, o Shinigami deve conhecer a si mesmo, conhecer a sua zanpakutou — desvendar seus segredos e mistérios, e, sobretudo, seus próprios pensamentos.

Karin sequer havia notado o quanto sentia falta da companhia do dragão negro até que pode reunir-se com ele novamente.

Seus pés estavam úmidos e levemente sujos de areia, enquanto a barra de seu hakama estava estranhamente dobrada, deixando que o vento dos céus lhe arrepiasse. Curiosamente, o corpo escamado de Toyotama era quente, o que lhe facilitava apreciar a vista superior enquanto passeavam pelos céus de seu mundo interior.

Algumas cicatrizes contrastavam com o tom claro de suas pernas, e a morena sentia cócegas ao notar que os longos bigodes de Toyotama acariciavam algumas delas, talvez até mesmo sob a inconsciência do dragão.

Porém, Karin não estava ali somente para apreciar a vista magnífica que tinha do imenso mar. Eles precisavam conversar, seriamente.

— Como foi que venceu Ren? — Soltou sem rodeios.

— Eu assumi o controle dele pela água que está em seu corpo — Toyotama respondeu, sentindo a mestra arfar em surpresa. — O que foi, Karin? Você me deu permissão para o controlar ao ceder.

— Mas você somente explicou como fez meu corpo ficar em pé, Toyo-kun — a Kurosaki rebateu. — Eu quero saber como foi que você o derrotou.

— Utilizei meus poderes, obviamente.

— E por que eu não pude utilizá-los? — Karin perguntou, observando a poderosa onda que se abateu na areia da praia. Estavam indo cada vez mais alto, os ventos dançavam ao redor deles.

— Você não está pronta para eles — O dragão respondeu. — Você não faz ideia do quanto meus poderes pesam, Karin. Se tem dúvidas do que um poder elemental descontrolado, ou qualquer poder, pode fazer, pergunte a Hitsugaya.

— Como você sabe que eu não estou pronta para eles? — A morena perguntou, irritada com o fim que o diálogo estava tomando. — Você disse que eu não estava pronta para enfrentar os perigos da Sociedade das Almas, e olhe onde eu estou, Toyotama. Por que você não confia em mim? — Perguntou, cerrando os punhos.

O silêncio os envolveu, enquanto o dragão começou a descer de onde estavam para encontrar o mar. Karin segurou firmemente no espírito, crente de que ele jamais permitiria que ela caísse. E de fato, quanto mais desciam, os bigodes de Toyotama passaram a segurar-lhe com força, enquanto seus cabelos negros eram empurrados para cima. Não poderia mentir ao dizer que não apreciava a súbita descida, mas a diversão perdia um pouco do gosto mediante a tensão que os rodeava como uma leoa prestes a atacar a presa.

Karin não tinha intenções de ser a caça.

Toyotama desacelerou quando chegaram no mar, perto o suficiente para que a humana afundasse os pés nas águas cristalinas. Um ar estranho e desconfortável se abateu sobre eles, revelando uma barreira que a morena antes não havia enxergado: a falta de confiança disfarçada de preocupação que o espírito tinha em si.

— Minha preocupação para com você não é falsa, Karin! — O dragão vociferou, assustando a jovem. O rugido da criatura escamosa atordoou-a por instantes, antes de enfurece-la.

— E a sua confiança em mim não é real! — Rebateu no mesmo tom, e sentindo-se satisfeita quando sua voz teve o mesmo efeito trovejante do dragão. —Você me treina de todas as maneiras, Toyotama! E a única coisa na qual eu deveria ser mestre é você, zanpakutou estúpida, mas eu não sou!

O espírito manteve-se quieto, fazendo Karin acalmar seus próprios nervos… Um pouco, ao menos.

— Por quê, Toyo-kun? — Perguntou entremeio um suspiro quase derrotado. — Eu sou indigna? Não valho o suficiente para ti?

Karin assustou-se quando sentiu seu corpo escorregando pela pele escamosa de Toyotama, parando mais ao meio do corpo serpentinoso. Já Toyotama, sentindo o pescoço livre, retorceu-se com flexibilidade fascinante, tornando seu pescoço a encarar a Kurosaki.

Nenhum deles jamais havia reparado como seus olhos eram o reflexo exato um do outro.

— Karin, você viveu no Japão a vida toda. Sabe o que é um tsunami, sabe o que é uma correnteza descontrolada ou um mar revolto. Isso é a água, pequena. — O dragão disse, mirando-a intensamente. — O seu poder é capaz de destruir, arrasar, matar. Você sabe disso, só não assimilou a verdadeira extensão do seu potencial. Nunca sentiu a violência lhe sufocar.

“Quando você tem em mãos o poder, é difícil parar. É maravilhoso se sentir poderoso, todavia é perigoso, Karin. É um veneno que escorre pelas veias, exigindo mais e mais daquela sensação de ser onipotente, de ser e estar acima de qualquer coisa. E quando você tem poder, só basta querer, Karin. É preciso de coração forte e mente forte; e eu sei que você tem ambos, eu só me preocupo. Já vi milhares de homens caírem porque o poder foi mais forte do que suas lealdades e valores, Karin. Eu não quero te ver cair, pequena. Eu não quero ter arrastar para baixo, porque não tem como sair de lá.”

Embasbacada, a morena encarou os olhos de Toyotama, sentindo-se entorpecida e ao mesmo tempo renovada — estranhamente.

Sem pensar duas vezes, atirou-se para o pescoço do dragão, abraçando-o e sentido-o devolver o abraço à sua maneira. Seus olhos registraram cada pedaço daquele momento precioso, dês da variação em azul e verde e preto nas escamas de Toyotama, ao cheiro do mar, seus pés no frio da água de seu mundo e até o ronco grave e melódico que vinha de algum lugar no dragão. Esse momento nunca seria esquecido; uma perpétua lembrança cor de lua e ilustrada de mar com metades da mesma alma como a Vênus da obra; a primadonna na ópera particular deles.

— Obrigada, Toyo-kun… — Murmurou baixinho, antes de apoiar a testa na cabeça da zanpakutou e, prometendo para aquelas íris congêneres as suas, sussurrou:

— Mostre-me seus caminhos, e eu te mostrarei que não há desejo de maldade em mim, Toyotama. Permita que seja eu e você contra o mundo, não um contra o outro, Toyo-kun.

O silêncio reinou entre ambos o suficiente, cada um absorvendo as mudanças astronômicas que redirecionavam agora tudo que havia entre eles; um upgrade.

— Como desejar, mestra.

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A madeira ruía com os ecos dos passos do capitão do décimo esquadrão. Toushirou mantinha uma feição serena, contudo era perceptível seu estado abatido. O rosto sem coloração natural, substituído por uma palidez doentia, com covas negras por baixo dos olhos turquesa. O cansaço apoderou-se de seu corpo, quer físico pelos combates quase sucessivos causados pelos quincies e agora pelos da rebelião, quer psicológico por ter duas pessoas importantes para si no Quarto Bantai em recuperação e sob vigilância permanente.

Hinamori, apesar de machucada, tinha sua situação regularizada. Quem preocupava Hitsugaya era exclusivamente Karin. Tremia quando a imagem do pós-operação invadia sua memória… a notícia que ela sobreviverá não tinha sido suficiente para tranquilizá-lo quando a viu. Deitada na maca, inconsciente, ligada a tubos que a conectam com a máquina ao seu lado, permitindo-lhe respirar. Seu tom rosado não existia, o branco dominou toda a coloração de seu tom de pele, uma palidez associada apenas a cadáveres.

A respiração entrecortada era gélida, seu corpo não mantinha o calor. Durante os primeiros dias, mesmo quando esta desperta por alguns minutos, sempre tinha a presença de dois shinigamis em seus aposentos, caso ocorresse alguma paragem cardíaca no período crítico e duvidoso da “recuperação” (exigência feita por Ichigo Kurosaki, que regularmente, visitava a irmã depois de Byakuya, apesar de ser sempre breve pelas árduas responsabilidades que mantinha, não abdicava por nada o pouco tempo que tinha com ela). Qualquer segundo perdido poderia tornar-se crucial…

Apesar de ter omitido esse detalhe à Kurosaki, ele foi um desses shinigamis, sempre ao seu lado. Mesmo com a repreensão de Isane-Taicho e Matsumoto pela sua falta de descanso.

Suspirou pesado antes de bater na porta da divisão de Karin, sabia que iam discutir. Sempre era assim. Ela não gostava de sua presença durante a fisioterapia, ele sabia do motivo, e fazia questão de ignorá-la. Durante anos a deixou sozinha, não cumprindo sua promessa… se para ajudá-la, tivesse que ir contra sua vontade, ele o faria. Sem remorsos ou culpa alguma.

Karin precisava de estimular os pontos vitais. A maioria foi restaurado pelo poder espiritual da capitã da divisão médica, porém, três pontos em específico precisam de impulso.

Ren. Foi assim que apresentara-se a Karin. Essa alma conseguiu fechar completamente as linhas internas interrompendo a função de transporte. Karin não poderia mover-se enquanto seus tendões estivessem feridos, e se o sangue nas artérias perdesse novamente o seu fluxo, ela perderá a consciência.

As funções sanguíneas são como o fluxo da água, na qual os pontos vitais servem como um chafariz. Quando desobstruído, o fluxo é livre e fácil. Porém, obstruído ocorre uma estagnação.

Entreabrindo a porta, enxergou a Kurosaki apoiando-se desajeitada nas barras de ferro da cama, contendo os gemidos de dor ao colocar-se em pé, sozinha. Suspirou, levemente irritado.

“— Espere por mim. Não comece a fisioterapia sozinha.” — Foi o que lhe dissera no dia anterior, em vão.

Uma das dificuldades de Karin era justamente o equilíbrio, uma vez que um dos pontos vitais machucados era nos ossos da canela esquerda, uma área sensível e desprotegida que com o ataque violento imobilizou a perna. Para além disso, o pior era a coxa direita. Enquanto a outra perna mantinha-se imobilizada, a segunda causava fortes dores e espasmos dolorosos ao menor esforço.

Notou que com cinco passos, ela ofegava, escorrendo suor pelo seu pescoço. Respirando com dificuldade o ar à sua volta. Esse tinha sido dos trinta e seis pontos vitais, o mais gravemente atingido -a traqueia-. O ataque perdurou durante mais tempo, numa maior profundidade, aumentando o dano.

Karin utilizava uma máscara sem cor presa no couro cabeludo. Mais um minuto, e aquele teria sido a causa da sua morte. Foi inclusive o que roubou seus sentidos durante o combate. Para além de ser a maior causa de sofrimento para a humana, nos três primeiros dias não pode iniciar a fisioterapia pelos engasgos e vômitos constantes.

— Kurosaki, não se esforce demais. Pode prejudicar seu estado. — Karin olhou-o assustada por não ter detectado antes sua presença.

Notou a aproximação do shinigami e bateu em seus braços quando Toushirou ia segurá-la.

— Não preciso de ajuda, vá embora Toushirou!

— Que droga! Deixe de ser teimosa, Kurosaki! Quase morreu e quer manter o orgulho!? — Hitsugaya elevou o tom de voz, claramente zangado pela teimosia dela.

Karin com o esforço físico e pelo desgaste da nova discussão com o albino, perdeu as forças que restava, caindo. No entanto, seu corpo nunca foi de encontro ao chão, na verdade, não assustou-se com a queda, sabia que ele a apanharia antes de machucar-se.

Carregou-a até à cama, a cobrindo, sem falar nada. Karin imitou seu gesto, e não olhava diretamente o amigo.

— Até quando pensa agir assim? — Estava frustrado. Queria ajudá-la, apenas isso.

— Não preciso de ajuda. Sei me virar. — Treinou com Toyo-kun para evoluir suas capacidades, não depender de Toushirou, ela não queria mais ser protegida… queria ser útil, não um fardo.

A porta foi movida de novo, roçando contra a madeira do piso. Byakuya notou o ambiente desagradável entre os dois, contudo não comentou nada a respeito.

— Como se sente Kurosaki?

— Muito melhor. Não entendo porque não me deixa começar a trabalhar, taicho! — Karin encarou fulminante o Kuchiki, irritada.

— Como não entende!? Nem consegue manter-se de pé e quer começar a treinar, Kurosaki!? — Gritou, descontrolado, Toushirou.

— Não se intrometa nos assuntos dos outros bantais, Hitsugaya-Taicho. — Karin carregou proporcionalmente no sobrenome com o título do albino em ironia.

Não quis admitir, mas não gostou do tratamento formal. Nem de como foi pronunciado. Abaixando os ombros, Toushirou suspirou cansado. Não conseguia continuar aquela discussão, já não tinha forças para manter-se estável, muito menos, convencê-la. Num cordial aceno de cabeça, Toushirou despediu-se do outro membro do Gotei 13, abandonando o quarto.

Os olhos ónix observaram atentamente o percurso do capitão, e captaram o mesmo arrastar os pés. Quarenta e cinco horas sem dormir. Apostava que esse seria o motivo para seu desgaste. Estava irritada com sua situação, porém não deixou-se de culpar. Entendia sua preocupação, mas não podia depender sempre dele. Não queria um reencontro com discussões, mas suas visões diferentes do mundo que os rodeava sempre se impunha entre eles.

Bufou, virando o rosto contra a almofada, com um pesar em seu peito. Arrependimento. Não devia ter sido tão brusca com ele, ele também estava mal afinal.

“— Maldição.”

O nobre, líder da família Kuchiki, remetera-se ao silêncio. Observando a sua nova recruta, identificou o seu característico orgulho definido em Kurosaki Karin.