Flor de Lótus
21 Capítulo XIX
Notas iniciais
“O começo da sabedoria é encontrado na dúvida; duvidando começamos a questionar, e procurando podemos achar a verdade.”
— Pierre Abelard.
|x|
A expressão fechada numa carranca não correspondia às boas notícias. Após fastidiosas semanas de recuperação, Karin conseguira livrar-se do maldito aparelho que usava para poder respirar. Não era mais necessário utilizar uma máscara junto aos lábios. Isso seria uma boa notícia, se não fosse o sumiço de um certo capitão. Ou mais especificamente, de dois. Apesar que apenas a ausência de um abria um oco em seu peito.
— Quando posso sair desse lugar? —Foi rude. Um tanto demais, para Isane-taicho que sorria afável, apesar do mau humor da Kurosaki.
— Amanhã receberá alta, Karin-san. Mas evite o esforço físico, vai ficar sob vigilância. Qualquer dor ou falta de ar, venha imediatamente ao Quarto Esquadrão.
A Kurosaki acenou em concordância, obediente. Pouco escutava o que a capitã lhe aconselhava. Onde estava aquele maldito aluno do ensino fundamental!? Seu taicho e Toushirou não apareceram para a visitar quando ela iria fazer os exames que lhe disponibilizavam a carta branca para o retorno das suas actividades rotineiras. Irritada, era um eufemismo para o seu estado.
Não por eles não estarem presentes. Mas porque sabia, eles estavam escondendo algo, dela. Bufou, frustrada, eles estavam protegendo ela, de novo. A afastando dos problemas. Com certeza, isso deveria estar relacionado com aquele Ren, apesar de imperceptíveis, ela testemunhou pequenas alterações na face do Kuchiki com o nome citado brevemente por ela em visitas rotineiras.
Ela não ia ficar parada vendo eles a lutarem. Não mesmo.
A recruta do bantai de Byakuya limitou-se em acenar numa cordial despedida quando a albina abandonou o quarto. Desviou o olhar para o aparelho ao seu lado, desligado. Não escutava mais os apitos ocos e rimáticos a enervando, nem os fios ligados a seus pulsos. Suspirou aliviada por isso, e sorriu minimamente.
Hematomas arroxeados iam clareado retornando ao tom de pele original. Os músculos ainda ligeiramente doridos e adormecidos, começaram a latejar por necessidade física. Sua recuperação ainda estava longe de estar finalizada, mas não era como se estivesse a ser lenta. Ela tinha noção do perigo que correu, notou a gravidade com todos os olhares angustiados, seu estado após a batalha deveria lastimável para até seu taicho demonstrar visivelmente sua preocupação.
“— Eles gostam de você, Karin. É normal ficarem preocupados.” —Karin praguejou baixinho, as sobrancelhas uniam-se, com a testa franzida.
“Está defendendo eles, Toyotama? Afinal, és a zanpakutou de quem!? Deverias estar do meu lado!” —O grito no diálogo interior atiçou as ondas de seu mundo, inconscientemente, obrigando o dragão suspirar pesaroso.
“— Não é uma questão de lado, Karin. Você não está em condições de lutar de novo. É óbvio que os capitães investigassem o ataque, e não lhe informassem. Estão a protegendo.”
“Eu posso muito bem cuidar de mim própria!”
Teimosia e orgulho eram marcas de sua personalidade, Toyotama revirou os olhos com tanta impetuosidade. Ele compreendia os capitães, afinal, Karin naquele estado só iria perturbar a investigação que decorria, sobretudo, sendo ela um possível alvo. O interesse súbito de Ren por sua mestra não devia ser apenas coincidência.
“— Se recupere. Treine e se conheça primeiro, Karin. Ter dúvidas de si mesma e seu poder numa batalha, é a morte.”
Karin agachou o olhar, observando em seus joelhos alguns coloreados no tom alvo. Ela só não queria sentir-se mais um fardo, no entanto, estava trancada num hospital sendo sempre vigiada. Bom, ela só precisava esperar um pouco e voltar aos treinos, certo?
“Posso contar com você, Toyo-kun?”
“— Sempre, mestra. Eu estarei ao seu lado.”
Karin sorriu genuinamente com o apoio de sua zanpakutou. Apesar daquela lagartixa lhe importunar com sua sabedoria enfadonha num diálogo feito por alguém muito mais velho, ela agradecia por tê-lo como sua espada, ela encontrou muito mais que um aliado, e sim um amigo.
Suas convicções conduziram-na a uma avalanche de interrogações, não entendia muita coisa ainda. A origem de seu poder, muitos mistérios sobrevoavam Toyotama também, porém, estava certa que apesar de todas essas perguntas sem respostas, o dragão que a acompanhava era leal. Nunca a abandonaria. E com ele, iriam cumprir juntos a promessa que ela fez a Haru-baa-chan.
|x|
O barulho quase imperceptível de passos quase ritmados ecoava entre os arbustos baixos do leste de Rukongai, entremeio à tantos distritos, era impossível recordar-se dos nomes de cada território, em especial para quem carregava tanto em mente.
No bolso de Kuchiki, aquele pequeno pedaço encardido de papel parecia ser feito de brasa, atravessando o tecido de excelentíssima qualidade de suas vestes com o calor dos pingos de sangue que o cingia. Uma sensação contrastante em comparação ao frio da presença Hitsugaya em seu flanco esquerdo, ambos imersos num pacto de silêncio que nenhum dos dois estava interessado em quebrar.
A figura da dupla em si era uma visão interessante: ambos caminhavam de maneiras quase iguais, mas com graças totalmente diferentes. Byakuya pisava na terra como se ele fosse o céu, enquanto Toushirou parecia querer parti-la ao meio.
A luz monocromática da lua lançava clareza apenas em suas próprias figuras, o caminho que seguiam, entretanto, parecia acompanhar tanto a escuridão seus corações como os detalhes de sua missão na surdina; nenhum aviso a ninguém, apenas ao Comandante que consentiu com apenas duas condições
A primeira era que voltassem sãos e salvos, a segunda era que o retorno deveria ser tão silencioso quanto a saída. Eles estavam sendo vigiados fortemente pelas almas ao redor dos portões, e embora pudessem se defender com facilidade, um novo conflito não era viável.
— Kuchiki-taichou, estamos próximos? — o timbre rouco de Hitsugaya retumbou pelas trevas como um tambor, embora mal passasse de um sussurro.
— Acredito que estejamos à uns cem metros do local. — Byakuya respondeu, franzindo o cenho levemente — Embora não sinta sequer uma fagulha de reiatsu.
Hitsugaya grunhiu levemente, ambos desacelerando o passo. O fato de não haver presenças levantava mais ameaça que qualquer confronto direto. Por precaução, pôs sua mão dominante sobre o punho da espada.
Finalmente avistaram o destino do endereço no papel, envolto na noite como um bebê nos braços da mãe. Um casebre, pobre e maltrapilho, castigado pelo abandono e pelo tempo. O shōji principal estava lacrado, e o vento que assobiava em seus ouvidos fazia a poeira e as folhas secas ao redor da casa valsarem conflituosamente contra o brilho tenro das estrelas.
Os olhos prateados de Byakuya cruzaram contra os esmeraldinos de Toushirou, ambos facilmente concordando com o plano não verbalizado, assim empunhando as zanpakutous e estudando cada canto e da construção.
Um…
O nome de Senbonzakura estava quase se derramando para fora de sua boca.
Dois…
Um floco de neve dançarino pousou entre eles.
Três…
Reapareceram com força no corredor de entrada, as lâminas deformando a porta em linhas diagonais oposta, invadindo antes mesmo o primeiro pedaço de madeira atingir o chão. O piso de madeira estalou sob seus pés, rangendo sôfrego.
Pararam lado a lado, esperando um ataque que nunca veio. A casa estava vazia de qualquer alma que não a deles.
Porém, Byakuya notou, com uma onda elétrica lhe apertando a traqueia, as parede continham pilhas de anotações, mapas, gráficos e diagramas. Haviam algumas pastas e até mesmo Asauchis ali, organizadas em padrões.
Aquilo era uma base. Haviam chegado à um quartel general do inimigo. Mas...
— Por que está vazio? — Hitsugaya murmurou, vasculhando o mapa marcado com tinta vermelha. O portão atacado estava circulado, e junto ao círculo havia três anexos com nomes diferentes.
— Veja. — Byakuya apontou para o do meio, com um tom cortante —Tachibana Ren. Ele é comandantes do ataque. Deveria ser o responsável por este lugar.
Os olhos de Toushirou se fincaram nos outros dois nomes, embora eles entrassem e saíssem de sua mente. Foi de esguelha que viu um quadro com nomes num árvore organizacional, e aproximou-se dele sob o olhar insistente de Kuchiki.
— Hierarquia. — Murmurou, suas mãos descolando o papel da parede. O nome de Ren estava junto de mais cinco nomes, abaixo de mais dois, como um tenente, abaixo de seu capitão e comandante.
— Haiko Gingetsu... — Byakuya sussurrou — Hitsugaya-taichou, temos de levar esses documentos para a Seireitei o mais breve possível.
— Hai.
Ambos se moveram em sincronia, olhos folheando páginas com experiência e prática. Quase irônico que suas décadas de escritório resultassem como habilidade em missão de campo, Matsumoto certamente teria um derrame paradoxal se estivesse ali.
Toushirou sentiu o coração bater forte em seu peito. Afinal de contas, eles acabaram de mudar os rumos da guerra civil, porém, acima de tudo, pelo desgosto inquietante que era ler sobre baixas, planos e contagens de seu inimigo. Reconheceu nomes de Shinigamis mortos em um relatório, sendo dois deles de seu bantai. As folhas ao seu redor começaram a ficar geladas, e a madeira apresentou um padrão intrincado de geada. Byakuya, entretanto, permaneceu mudo.
Algumas folhas eram mais importantes que outras, Toushirou reconheceu. Estas possuíam as assinaturas do tal Haiko, e falavam sobre localizações, armas, recrutamentos e…
A pilha de papéis que estavam em suas mãos caiu no chão. Sua respiração se perdeu a caminho do pulmão, e, em anos, Toushirou sentiu o frio. O frio do medo.
O nome de Karin.
— Kuchiki-taichou… — Seus lábios estavam dormentes, assim como o resto de seu rosto, da veia coronária até a ponta de seus dedos o formigamento do choque lhe aturdia — Eles estão atrás de Karin.
Fale com o autor