Flor de Lótus
9 Capítulo VII
Notas iniciais
"Tudo se resolve. Na maioria das vezes não como gostaríamos, mas como deve ser."
— Michelle F. Carvalho
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— E existe outra maneira de me arranjar permanência? — Questionou, zombeteira. — Imagino que não, é claro.
A curiosidade estava estampada claramente na face dos capitães, embora ainda pensassem em punições para a garota que não mostrava o mínimo senso de reverência perante eles. A cada minuto que passava, a humana Kurosaki se mostrava ser cada vez mais autêntica.
— Imagino que conheça alguns dos nossos aqui. — Kyouraku falou, pensando na papelada que teria mais tarde. Realmente, por que Yama-ji tinha que morrer? — Tens preferência por algum esquadrão?
Dizer que ela havia meditado nisto antes era uma terrível mentira, porém, sua língua não se refreou em dizer:
— O décimo.
Atrás de si, Toushirou ofegara. Se antes tivera sorte de escapar vivo da Guerra, agora esta oportunidade se fora. Kurosaki Karin seria a causadora de sua morte; por infarto fulminante, detalhadamente.
— Posso saber o motivo? — O Comandante não deixara de se surpreender. A jovem parecia tão segura sobre sua decisão, como se já fizesse parte do bantai propriamente dito.
Os olhos negros de Karin miraram o Comandante com um brilho de escárnio. Jii, como aqueles shinigamis eram curiosos!
— Isso é da sua conta, os-san do chapéu? — Rebateu petulante. Como se fosse dar pormenores importantes de sua vida para um bando de estranhos.
“ — Mesmo que um destes ‘estranhos’ seja o motivo de sua vinda, garotinha linguaruda?”
“ — Toyotama, vá ver se me encontra na esquina! Ainda não lhe concedi perdão, sua lagartixa traidora.”
“ — Lagartixa? Sua pirralha insolente!”
Karin desejou que um caranguejo grudasse suas pinças em todos os bigodes de Toyotama e só soltasse-os na virada do século. Se isto aconteceu ou não, ela desconheceria, pois no mesmo instante, uma voz um tanto conhecida se pronunciou:
— Ela vai ficar no meu esquadrão.
Karin, Toushirou, Kyouraku e o resto dos capitães encararam Byakuya em descrença. Era costume do Kuchiki não querer acolher novos membros sem antes passar por longos testes, e isto era o oposto da normalidade.
— Mas eu aceito-a. — Toushirou respondera, tão rápido como Karin.
Por algum motivo, a presença de Byakuya, que antes lhe era agradável, passou a lhe causar certo desconforto e uma raiva pressurizada — o Kuchiki estava se aproximando rapidamente da tempestade de audácia e motivos desconhecidos que a hipotética invasora era, estranhamente.
— Não tenho dúvidas, Hitsugaya-taichou. — O barítono de Byakuya ecoou como um trovão entre eles. — Contudo, eu encontrei-a e certamente poupei sua vida. Agora, Kurosaki Karin está sob meus cuidados. Ela tem uma dívida para comigo.
Kyouraku assistia tudo com uma incontrolável vontade de pegar uma garrafa de sake e apreciar o espetáculo. Desde que deixou seu posto como o capitão da oitava divisão, não tinha mais tanta liberdade quanto antes, porém agora, como Comandante, não poderia dizer que não haviam menos… Situações interessantes.
E, bem, por que não colocar mais lenha na fogueira se tudo já havia sido tomado pelo incêndio?
— Aprovo seu pedido, Byakuya-kun! — Cantarolou, um pouco receoso com o olhar que a mais nova entre eles lhe lançara. Pelos deuses, que garota atemorizante! Parecia até Nanao em seu dias ruins… — Por favor, vamos todos voltar aos nossos respectivos quartéis!
Ele deu as costas, sentindo-se incomodado pela temperatura que descera alguns graus no ambiente, mas se esforçou mais um pouco para vê-los antes de sumirem de sua vista.
Afinal, não é todo dia que se vê o gelo queimar.
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Enquanto isto, Karin fuzilava o haori branco de Hitsugaya, que acabou por sumir na chuva. Ele sequer despedira-se! E até mesmo Hirako, que, diga-se de passagem, havia lhe passado um carisma reconfortante, dissera-lhe “Até breve!”.
— Vamos, não há motivo para ficar tomando chuva.
Encarou Byakuya com toda a raiva silenciosa que possuía. Kuchiki abusado! Rukia era uma pessoa agradabilíssima! O contrário do irmão, reparou. Porém, havia notado algo que antes deixou passar.
— Como sabia? — Questionou-o, apressando-se até ficarem lado a lado.
Byakuya lhe fitara interrogativamente, descompreendendo a súbita mudança de humores de sua nova subordinada.
— Que minhas emoções estavam causando a tempestade. — Completou, curiosa.
— Ao contrário dos outros, eu me acostumei à sua reiatsu mais cedo, sei diferenciá-la. Sua essência é muito divergente, Kurosaki Karin. E naquele instante, cada mínima gota d’água exalava sua essência. — Explicou, causando espanto na garota. — Entretanto, seu poder ainda me é uma incógnita.
Ambos passaram a andar em silêncio, até que dois ruivos — Ichigo e Renji — se fizeram presentes. Estavam quase no Sexto bantai.
— Kurosaki Karin.
— Hai? — A morena perguntou, atenta.
— Renji lhe mostrará a divisão. E passe em meu escritório à meia-noite em ponto; não tolero atrasos.
E com isto, a figura meticulosa e enigmática do capitão sumiu, deixando para trás uma Karin aturdida e com o coração socando suas costelas em pura adrenalina.
Por algum motivo, sentia algo novo começar a se mover nas sombras de seu futuro.
— Karin!
— Olá… Ichi-nii. — Pela primeira vez, sua voz quebrou ao encarar o olhar apreensivo de seu irmão. Sem jeito, desviou o olhar do ruivo que corria em sua direção. Ela não podia ser fraca naquele momento.
— No que estava pensando Karin!? Ficou doida! Vou levá-la agora para casa!
— Não. Há algo que eu preciso de fazer aqui. Por isso ficarei no esquadrão do irmão da Rukia.
A forma calma com que a morena divulgara a notícia só contribuiu para o aumento do choque tanto do substituto de shinigami como Renji. Contudo, a feição do Kurosaki era incomparável. Os olhos avelãs escureceram num tom opaco e seus lábios decaíram numa expressão morta. Karin a viver na Soul Society, a lutar contra inimigos fortes ficando constantemente em perigo…?
— Que disparates estás dizendo, Karin? Não és uma shinigami! Não podes…
— Você também não, Ichi-nii! Eu também quero ser forte para proteger os meus amigos, a Yuzu, o velho pervertido… e a ti, Ichi-nii. Me deixa proteger-te também, não sofra sozinho!
Abarai, por respeito, não interveio em momento algum no diálogo, apenas entreolhando aleatoriamente entre os dois. Por outro lado, Ichigo ficou petrificado com aquelas palavras que foram como agulhas. Atingiram-no em cheio, juntamente com as lembranças do dia chuvoso em que sua mãe falecera… E de quando encontrou suas irmãs agarradas ao velho, pedindo para ele não se isolar. Como família, deveriam sofrer juntos. Lutar juntos, e superar juntos.
As nuvens cercavam a Seireitei, molhando os habitantes esmiuçadamente. Ichigo encarou o céu, molhando diretamente seu rosto. Nunca foi bom em detetar poder espiritual, mas sempre reconheceria o de sua família. Limpou algumas gotas que deslizavam pela sua face, compreendendo a responsável por elas.
Karin tinha crescido. Estava mais forte.
Observou os olhos ónix húmidos, por conta das lágrimas que tentava conter. Ele estava sendo egoísta, sabia disso. Não queria perder mais ninguém importante para si, por isso carregava todas as responsabilidades, não entendendo que isso faria sofrer os outros.
A chuva… para Ichigo era a maior responsável pelos seus pesadelos, porém, para Karin poderia implicar a sua força. Até àquele instante não tinha notado o aumento de reaitsu estrondoso que provinha de sua irmã… Mas, a maior surpresa foi quando, por fim, percebeu as vestes de shinigami que ela trajava!
— Como…?
— Confie em mim, Ichi-nii.
O Kurosaki estalou o pescoço, ainda com um certo receio em aceitar. Desviou o olhar quando Abarai depositou a mão em seu ombro, rindo presunçoso.
— Não se preocupe, Ichigo. Eu e o taicho não iremos deixar que nada de mal aconteça.
Sorriu demonstrando toda a sua gratidão com aquele simples gesto. Voltando a focar a atenção em Karin, que o observava curiosa pelas suas próximas atitudes. Alargou ainda mais a curvatura em seu rosto, sem sentir que a chuva ainda os encharcava, colocou a mão no topo de sua cabeça, bagunçando o cabelo molhado em formas bizarras e engraçadas.
— Torne-se a melhor shinigami que o sexto bantai já viu!
Uma lágrima solitária escorreu por sua face, fundindo-se com as gotas do temporal. Sem conter a felicidade que preenchia seu peito, saltou para o pescoço de Ichigo. Nada sucedera como planeado, mas sem dúvida, realizou-se da melhor forma.
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