Flor De Lótus
3 Art. 2° — Ninguém me da um tiro e sai impune.
Notas iniciais

Lucy Heartphilia – Las Vegas, Armazém de Armamentos – 14:11
— Um tira!!! Vocês deviam ter me dito que aquele carro era de um tira! Quem em sã consciência rouba o carro da porcaria de um investigador policial? Vocês são loucas, malucas...
Loke andava de um lado para o outro. Eu tenho a impressão de que ele estava reclamando de alguma coisa realmente séria, pois seus lábios se moviam freneticamente e algumas rugas insatisfeitas rabiscavam a sua testa. Mal sabia ele que eu só o ouvia dizer "blablabla", pois estava concentrada demais averiguando o lindo arsenal de armas expostas sobre a enorme bancada a minha frente.
Nós estávamos no armazém que Loke usa como esconderijo. O local era como um grande barracão revestido com placas de alumínio em formatos triangulares e no ar pairava um cheiro de pólvora mesclada com ferrugem, que causava vertigens em pessoas desacostumadas com tal odor – o que não era nosso caso. A iluminação era oferecida por lâmpadas cilíndricas de pelo menos dois metros cada. Haviam várias caixas rotuladas como mercadoria hospitalar e contêineres imensos de diversas cores empilhados por todo canto. Mas eu sabia que aquilo era fachada e o que realmente havia dentro de tudo eram produtos ilegais, como computadores, notebooks, televisões entre outros eletrodomésticos. Mas o motivo que nos levava a nutrir negócios com Loke não era por querermos um novo Processador Multifuncional Phillips Wallita. Não.
Apesar de a Levy estar babando nos computadores. Como se ela já não tivesse o bastante.
Enfim.
Todas as vezes em que éramos contratadas para eliminar algum alvo especifico, fazíamos uma investigação sistemática a respeito da nossa futura vitima, para assim, termos a convicta certeza de que ela era culpada das determinadas acusações e se realmente merecia morrer por aquilo. Loke foi um de nossos alvos que não mereceu morrer.
Um contratante nos solicitou para eliminar o ruivo ha cerca de quatro ou cinco anos, sob acusação de que ele financiava o rapto de mulheres para tráfico na Europa e Ásia. No entanto, facilmente descobrimos a farsa. Loke na verdade sempre mexeu com mercadorias ilícitas, porém, inofensivas. Certo, mercadorias nem tão inofensivas assim. E a pessoa que nos contratou não passava de um concorrente do mesmo, tentando nos usar para liquidar mais facilmente o empecilho que Loke representava para ele. Por fim, nós cancelamos o trabalho.
Naquela época a Flor de Lótus estava passando por um momento de contrariedade, pois precisávamos de armamento pesado para executar nossos serviços, mas ao mesmo tempo não podíamos negociar com contrabandistas que, hora ou outra, poderiam virar nossas próximas vítimas. Então Loke foi como uma luz no fim do túnel. Por conta de sua ampla rede de contatos ele concordou em atuar como nosso contrabandista particular de armas e em troca nós pagaríamos um preço elevado para que assim ele pudesse ampliar seu empreendimento com a exportação de produtos extraviados.
— Lucy! Você esta me ouvindo?!
A voz contrariada de Loke me fez retornar de meus devaneios e desviar o olhar, que estava sobre uma lindíssima AK-98 com lança granada embutido, para a face enfurecida daquele mesmo jovem de cabelos alaranjados.
— Para de ser careta Loke! Ta parecendo um velho de cem anos, que inferno! —revirei os olhos e tentei ignorar as reclamações dele.
— Eu já vou avisando, se eles descobrirem alguma coisa, eu juro que entrego vocês! — ele falou, cruzando os braços e fazendo um biquinho emburrado com os lábios.
— Eu sei que você nunca faria isso — falei, lançando-lhe uma piscadela.
Loke era uma pessoa muito extrovertida, embora a preocupação dele excedesse os limites da normalidade, mesmo assim eu sabia que sua maior qualidade era a lealdade, principalmente com a Flor de Lótus. Ele era o tipo de pessoa em quem eu podia confiar de olhos fechados – ou semicerrados pelo menos. Justamente por conta dessa fidelidade a nós, foi que eu tive a brilhante ideia de convocá-lo a nos ajudar no roubo do carro do Dragneel, pois ele tinha uma habilidade incontestável com arrombamento de carros de luxo, e tive receio de que eu acabasse fazendo alguma burrada naqueles super sensíveis alarmes do carro que o Natsu mais tratava como um filho.
Ignorei as reclamações de Loke e voltei mais uma vez minha atenção para a mesa repleta de armas de todos os tipos. Pistolas automáticas, submetralhadoras, rifles... Mas meus olhos estavam pousados sobre três em particular: uma Colt Manhunter que, mesmo não tendo uma média de danos satisfatórios, era linda e tinha capacidade para vinte balas por pente. E eu confesso que sempre tive um fraco por Colt’s. A outra arma era a AK-98 a qual Loke me atrapalhou de vislumbrar anteriormente; completamente preta e grande, mas o que realmente me atraiu nela foi o lançador de granadas, aquilo poderia fazer um belo estrago. E por ultimo a Steyr AUG SCL, por que qualquer pessoa apaixonada por armas precisa de uma submetralhadora com tripé, e retirando esse meu lado de obsessividade, ela ainda tinha capacidade para 350 balas e uma média de 35 tiros por turno. É meu sonho de consumo.
— Eu queria mostrar uma coisa para vocês três. — Ouvi Loke dizer e olhei na sua direção, esboçando toda minha irritação por ter sido, novamente, interrompida.
— Se eu ouvir mais uma vez as palavras “carro” e “policial” eu juro que te mato agora mesmo — ameacei e percebi que Juvia e Levy assentiram em concordância ao meu comentário.
— Não é isso minha queria florzinha — ele falou naquele tom galanteador que era característico dele —, eu acabei capturando um espião que rondava meu armazém há uns três dias e agora não sei o que fazer com ele.
— E o que você espera que nós façamos? — Levy perguntou e só então eu percebi que ela tinha empilhado um monte de peças eletrônicas num canto.
— Sei lá, eu não sou muito bom com interrogatórios, daí não consegui tirar nenhuma informação dele. Então pensei que se caso vocês me ajudassem eu poderia até dar-lhes um desconto.
— E essa Colt de presente? — inquiri manhosamente, apontando para a arma.
Ele franziu o cenho, mas acabou concordando com um sorriso vencido.
Nós fomos guiadas por Loke até uma sala que ficava situada nos fundos do armazém. Dois homens corpulentos – um moreno e outro loiro – estavam dispostos diante da porta, cada um com uma pistola Ruger SW em mãos. Os dois se afastaram ao perceberem a nossa aproximação.
Aquele cômodo era pequeno e, ao contrario do restante do armazém, o local era feito por pura parede de concreto que ninguém se deu ao trabalho de pintar, então sua cor era do mesmo cinza fosco do reboco de cimento. E estava vazio, exceto por um único homem que se encontrava no centro com as mãos amarradas por correntes curtas que o obrigavam a ficar de joelhos; os dois pés também estavam unidos por uma corrente mais grossa. Uma grande coleira de ferro, e notoriamente pesada, estava fixada ao magro pescoço do indivíduo.
Fiquei um pouco apreensiva com a imagem intimidadora do rapaz. Ele era careca, magro – de forma que até mesmo suas costelas podiam ser contadas – e tinha tatuagens tribais espalhadas por todo o corpo e rosto. Mas uma coisa em especial me chamou a atenção: ele não tinha nenhum ferimento no corpo.
— Você não disse que tinha, pelo menos, tentado interrogar ele? — perguntei, olhando para Loke, que me retribuiu um olhar incompreensível.
— Eu interroguei ué!
— Você é tão burro Loke — suspirei. — Vai me dizer que você pediu para que “por favor” ele lhe contasse tudo o que sabe? É claro que ele nunca iria contar nada a não ser que levasse uma boa surra — expliquei indignada.
— E você queria que eu fizesse o que? Quebrasse os dedos dele com um martelo?
— Sim, isso seria um bom começo.
— Você me dá medo às vezes.
Levy começou a gargalhar da nossa discussão anormal e por fim nós também começamos a rir. Mas Juvia se manteve séria, ela estava parada com os braços cruzados e olhar fixo no homem acorrentado, ela nem sequer piscava. Eu a conhecia o suficiente para saber que estava lendo ele. E pela feição que esboçava não parecia nada satisfeita com, seja lá o que estivesse descobrindo.
Juvia, a meu ver, é a mais madura de nós três mesmo tendo a mesma idade que eu. Ela consegue manter o autocontrole em situações difíceis e fica séria e pensativa na maior parte do tempo. Não é como se ela fosse uma pedra de gelo sem sentimentos, muito pelo contrario, eu diria que ela é igual a um dia de chuva, frio e sombrio, porém, aconchegante.
Ela ergueu as mãos para que nós fizéssemos silencio e depois começou a caminhar em passos lentos na direção do homem, ignorando os protestos de Loke sobre como aquilo podia ser perigoso. Eu me recostei na parede para apreciar Juvia fazer o trabalho a qual ela sempre fazia perfeitamente bem. Olhei de soslaio para Levy que, histérica como sempre, estava quase pulando de animação.
Juvia parou a menos de um metro de distancia do homem. Presumo que ela tenha calculado o tamanho das correntes em comparação com a força cujo homem deveria ter, e deduziu que aquela distancia seria segura o bastante. Ela se agachou perante ele e abraçou os próprios joelhos enquanto encarava-o nos olhos.
— O que você esta tramando? — Juvia perguntou ao homem. Isso me fez ficar preocupada, então coloquei a mão sobre o coldre que guardava minha Beretta 92FS.
O homem abriu um largo sorriso e depois Juvia virou o rosto para me encarar, não consegui decifrar o que ela estava analisando e logo ela voltou a fitar o homem.
—Quem você esta esperando?! — Juvia elevou um pouco mais a voz ao perguntar.
Alguma coisa estava errada. Olhei de relance para Levy e a mesma já tinha as armas em punho. Entretanto, no segundo seguinte uma grande explosão fez-se ouvir, eu olhei para trás e uma onda de fogo e fumaça vinha em nossa direção. Só tive tempo de desviar para o lado até notar algo pesado bater violentamente contra a lateral de meu corpo fazendo-me cair sentindo o forte cheiro de fuligem adentrar minhas narinas e queimar meus pulmões. Tentei olhar para os lados a procura das meninas, mas minha visão estava completamente embaçada por conta do lacrimejamento decorrente dos componentes químicos da explosão. Minha respiração foi ficando pesarosa e aos poucos eu comecei a perder os sentidos, até fechar os olhos e apagar definitivamente.
Juvia Loxar – Las Vegas, Armazém de Armamentos – 15:31
Abri meus olhos lentamente e senti como se uma britadeira estivesse funcionando dentro da minha cabeça. Minha visão estava turva e havia muita fumaça esbranquiçada no ar. Um som agudo e continuo irrompia em meus ouvidos, o que aguçava ainda mais a dor latente em minha cabeça. Tentei me levantar, mas um ardume doloroso se projetou na minha perna esquerda e eu tornei a cair no chão. Olhei para conferir a causa proeminente da dor e avistei uma esfolação de trinta centímetros que partia do calcanhar e alcançava o joelho. A pele havia se descolado da maior parte do ferimento e ele sangrava um pouco. Observei o restante do meu corpo e ele estava recoberto por outros pequenos hematomas.
O som que perturbava minha audição foi se dissipando e aos poucos eu comecei a relembrar os últimos acontecimentos.
Uma emboscada, eu sabia!
Eu havia percebido alguma coisa errada com aquele homem assim que entramos naquele cômodo. A forma como ele tentava controlar os músculos faciais para não sorrir era evidente nas rugas de sua testa que tremiam inconscientemente. Além do mais, ele desviava em 25% o olhar na direção da saída a cada três segundos e, embora não parecesse, ele estava evitando o contado visual direto comigo, mesmo eu tendo ficado de frente para ele. No momento em que me agachei ele juntou os dedos das mãos em punhos fechados, numa tentativa não premeditada de buscar defesa em si mesmo.
Mas o que mais chamou minha atenção foi quando a pupila de seus olhos se dilataram ao encarar Lucy por mais de cinco segundos. A midríase pode ocorrer por diversos fatores orgânicos e emocionais, porém o tamanho da dilatação varia de acordo com cada caso. Emocionalmente falando, ela pode revelar mentira, excitação sexual, medo e/ou raiva. Como aquele homem estava propositalmente mudo, a hipótese de mentira logo foi descartada. Olhei para Lucy a fim de identificar algum atrativo sexual ao qual ele poderia estar avistando com mais pudor, mas desisti, pois a Lucy é algum tipo de mulher super atraente por natureza, selecionar um único atrativo em particular seria impossível. Quando voltei meus olhos para ele e o notei olhando na direção dos contêineres do outro lado da porta, com ansiedade e satisfação nos lábios, entendi que ele estava confortável daquela forma por estar esperando alguém, ele não estava sozinho ali. Entretanto não tive tempo de avisar ninguém, pois logo em seguida ouvi a explosão e desmaiei.
Ouvi alguns passos vindo em minha direção e visualizei Loke com o rosto acinzentado de fuligem e com a mão sobre a boca para evitar a inalação da fumaça.
— JUVIA! — ele gritou ao me avistar e correu em minha direção, dando-me seu ombro de apoio. — Você esta bem?
— Mais ou menos, vou sobreviver. Onde estão Levy e Lucy? — perguntei preocupada.
— A Levy já esta lá fora, mas não conseguimos encontrar a Lucy. Ela não está em lugar nenhum, a baixinha está em desespero.
Nós saímos sem muita dificuldade. O caminho estava completamente destruído e uma parte do teto do armazém veio ao chão, o que ajudou a dissipar a fumaça mais rapidamente. O fato de estarmos num lugar ermo ao restante da cidade contribuiu para manter os bombeiros longe do acontecimento.
Lá fora alguns homens feridos estavam sentados no gramado e outros tentavam salvar parte do equipamento danificado. Levy veio correndo aos prantos com os braços abertos e senti-me aliviada ao ver que ela estava bem. Ela me abraçou com cuidado e colocou um pano sobre o meu ferimento.
— Eles levaram a Lucy — eu falei.
— Como você sabe? Ela deve estar lá dentro ainda! — Levy retrucou esperançosa.
— Não, eu tenho certeza, isso tudo foi premeditado. Eu estava prestes a dizer sobre a emboscada quando a explosão aconteceu. As bombas deviam estar escondidas em alguns contêineres e pretendiam levar a Lucy o tempo todo.
Levy se levantou e correu em direção ao nosso carro, que como estava distante do armazém permaneceu intacto. Ela abriu o porta-malas e começou a retirar alguns aparelhos de dentro. Eu apertei o pano na minha perna para garantir uma melhor estabilidade e fui de encontro a ela que já começava a ligar os computadores.
— Eu vou rastrear o microchip da Lucy para pegar as coordenadas de onde ela esta. Já se passaram quase uma hora desde a explosão, então seja lá para onde pretendiam levá-la, já devem ter chegado. Loke, verifique os carros e o helicóptero, precisaremos deles — Levy ordenou com precisão e o ruivo obedeceu sem contestar.
Eu conhecia Levy muito bem para saber – sem precisar ler o seu corpo – que ela estava tremendamente preocupada com Lucy, mas seu exímio profissionalismo a mantinha controlada. Loke, ao contrario, tremia mais que vara verde e parecia um pouco desnorteado, mais por conta da Lucy do que pelo prejuízo que acabara de levar com a destruição de sua preciosa mercadoria. Apesar de sermos todos considerados a escória da sociedade pela maioria da população, nos preocupávamos muito com nossos amigos.
— Meu Deus, ela está do outro lado da cidade! — Levy exclamou. — Como diabos eles conseguiram se locomover tão rápido?!
— ELES LEVARAM O HELICÓPTERO! — Loke gritou ao longe, correndo de volta, ofegante e com uma informação que explicava o motivo da rápida mobilidade dos atacantes. — E furaram os pneus dos carros.
— Eles querem nos atrasar, isso significa que ela ainda deve estar viva — conclui, olhando para Levy em busca de uma solução.
— Espera um minuto, eu preciso conferir uma coisa — Levy disse e voltou a pressionar as teclas dos aparelhos tão rápido quanto eu jamais a vi fazer. — O terceiro DP fica mais próximo local. O Natsu esta saindo de lá.
Levy virou a tela para nós e a imagem de uma câmera interna de segurança do DP estava passando. Natsu estava no visor discutindo com um atendente para que liberassem seu carro da perícia.
Pelo visto ele já havia encontrado seu precioso automóvel, mas não tínhamos tempo a perder analisando futilidades como essa.
— Assim que ele sair de lá eu vou me infiltrar no sistema elétrico do carro dele. Vai demorar alguns minutos até que eu consiga desbloquear o firewall, então eu vou manipular o sistema semafórico da área para obrigá-lo a permanecer no perímetro. Mas antes tenho que me infiltrar naquele computador — Levy voltou a digitalizar freneticamente.
— Vocês piraram? Vão levar um tira pra onde a Lucy está?! — Loke perguntou indignado.
— É isso ou deixá-la morrer — eu falei calmamente para amenizar o clima. — Além do mais, ele não sabe ao certo como é a aparência das integrantes da Flor de Lótus.
— A Lucy vai ficar puta quando souber quem a gente enviou para salvar ela — Levy disse já rindo. — Não temos muito tempo, as pedreiras da região de Meadow Gold podem interferir no sinal do chip da Lucy, ou seja, se eles decidirem mudar de local nós perderemos ela de vez. Precisamos levar o Natsu até lá antes que isso aconteça.
— Ele é nosso tiro no escuro e nossa única chance por enquanto — murmurei, mais para mim do que para os outros.
Natsu Dragneel – Las Vegas, 3º Departamento de Polícia – 15:43
— Não me importo com a porra da perícia, espero que ela se exploda! Eu quero o meu carro AGORA! — esmurrei com força o balcão da recepção, assustando o coitado do atendente, que nada tinha a ver com aquela merda toda.
— Me desculpe senhor, mas o sistema ainda não liberou seu automóvel. Não posso lhe conceder a autorização para retirar o veiculo.
— Sabe o que eu quero retirar? Os dentes da sua boca...
— Descontar no pobre rapaz não vai adiantar de nada Natsu — falou Gajeel, que estava atrás de mim, recostado em uma das pilastras de cor branca que sustentam o andar da recepção do 3° DP de policia.
— Eu não vou embora enquanto não reaver meu carro! — vociferei.
— Senhor, devo alertá-lo que seu automóvel precisa passar por uma vistoria sistemática. Ele esteve desaparecido por cinco horas e precisamos nos assegurar que ele esteja em perfeitas condições de segurança. Elas podem ter instalado malwares no seu sistema elétrico — o atendente se arriscou a dizer mais uma vez.
— Escuta aqui — novamente pronunciei, tentando manter a sensibilidade nas palavras, mas sentindo o sangue ferver no topo da minha cabeça —, você tem IDEIA do que eu passei hoje? Não, você não tem! Você passou o dia todo com a bunda pregada nessa cadeira macia enquanto jogava paciência no computador. Se eu soubesse que aquelas Vadias de Lótus roubariam meu possante, eu teria ignorado todas as mensagens do idiota do Gray e sequer teria me levantado da cama hoje cedo. Ainda tive que ouvir o Makarov nos repreender e recebi um bilhete delas esfregando na nossa cara o fato de não conseguirmos nem ao menos descobrir suas identidades. Mas você acha que acabou por aqui? Não, claro que não. Eu fiquei rodando por Las Vegas durante cinco malditas horas junto com o Gajeel, no carro do GRAY! DO GRAY! Por que eu estava SEM O MEU CARRO! E, quando eu finalmente o encontrei, vocês da divisão pericial decidem interceptar ele para inspeção?! Sabe qual a minha vontade? Pegar esse computador e enfiar no seu...
— Já chega Natsu, você não devia ficar tão irritado por me dever um favor — Gray fez-se ouvir, aparecendo por uma das portas duplas de acesso restrito, com uma papelada na mão e o tom irônico na voz. — Ter usado o meu carro não foi tão ruim assim, melhor do que uma bicicleta, suponho.
Gajeel soltou um riso arrastado e segurou a barriga para não gargalhar. A palavra “bicicleta” era como um tabu para mim, era o tipo de coisa que, quando dita por alguém daquela maneira, conseguia me deixar ainda mais nervoso. Acontece que uns meses atrás, um grupo de assaltantes de alto nível havia avacalhado o motor de todos os carros dos sub-departamentos policiais enquanto iniciavam um roubo de grande porte. A única opção que me restou foi parar um garoto no meio do Sunset Park e confiscar sua bicicleta. O lado bom foi que eu consegui alcançar um dos “cabeças” da quadrilha, antes de eles assaltarem o banco, e depois disso pudemos – a partir dele – chegar até os outros integrantes. O lado ruim é que virei alvo de chacota de toda polícia durante semanas, ou meses, e pelo resto da vida para o Gray.
— O bebê já esta sob custódia do juizado. Eles cuidarão dele até que o corpo de sua mãe seja encontrado para podermos dar andamento nos procedimentos burocráticos, como DNA e essas bobagens. Os superiores darão conta disso. Aproveitei e entreguei a documentação do pedido de busca na Represa Roover para a Mirajanne, então nosso serviço está terminado — Gray falou, suspirando pesadamente em seguida e se jogando em uma poltrona de espera. — Mandei que avisassem a família de Mary, mesmo sabendo que provavelmente um deles tenha contratado as Lótus, nós não temos como provar. Ou seja, estamos sem nada mais uma vez.
— Você tem que ver pelo lado positivo Natsu, ao menos o carro realmente estava no orfanato onde o bastardo do Moore abandonou a criança — Gajeel falou dando de ombros, ele não fazia ideia do quanto me importo com meu carro.
Eu sabia que jamais poderia ser demitido pela minha atitude, pois fui selecionado como melhor investigador criminal do 1° DP. Mas meu carro é a coisa que mais amo nesta minha vidinha medíocre e eu não iria deixar três vadias que se acham o máximo saírem ilesas após roubar ele de mim. Foi por isso que consegui desvendar o local com precisão.
Bastou reduzir a lista de locais procurados: deduzi que Frederik não se daria ao trabalho de deixar a criança em um orfanato longe de sua casa, já que ele não se importava com ela e não havia meios de ele ser responsabilizado pela guarda da criança. Além disso, sua moradia ficava a um trajeto rápido da Represa Hoover, portanto era mais provável que o local onde deixou o bebê estaria em no raio de um ou dois quilômetros dentro do percurso.
Dito e feito. Meus cálculos estavam certos e nós conseguimos reaver tanto a criança como meu carro. Mas assim que voltamos para o DP ele foi confiscado para perícia enquanto eu estava ocupado assinando alguns papéis.
E é por isso que estou, nesse exato momento, com uma vontade tremenda de socar a cara do atendente do setor de perícias automobilísticas, para que ele libere o meu amado carro.
— Que estranho... — ouvi a voz do homem ao qual eu não me preocupei em perguntar o nome, pois estive o tempo todo ocupado proferindo palavras de baixo calão para o mesmo.
— O que? — perguntei preocupado.
— O sistema acabou de liberar o seu carro, mas não estou conseguindo acessar os resultados da criminalística. Estou com o acesso negado — ele ia falando sem transparecer o mínimo de compreensão. — Está tudo travado, é como se o sistema estivesse sendo remanejado pelo setor de computação eletrônica central. Mas não fui avisado sobre nada disso — ele coçou a cabeça.
— Olha — falei, batendo mais uma vez as mãos sobre o balcão. — Pelo que eu entendi você dizer, meu carro foi liberado, então eu vou levar ele e depois você se vira com esse computador.
O homem suspirou. Devia estar cansado após receber ameaças vindas de mim por mais de uma hora.
— Tudo bem, vou avisar na garagem.
Aquelas palavras foram tão boas quanto ouvir o mestre dizer ‘‘Gray está fora da missão’’. Makarov ainda não tinha dito isso, mas eu mantinha muita esperança que um dia ele proferisse essa frase divina.
— Ótimo! — Gajeel comemorou antes de mim, embora o sorriso de satisfação na minha cara estivesse aberto de orelha a orelha. — Agora posso pegar uma carona com você.
— Nem fudendo! Não passo naquele puteiro de novo nem por todo dinheiro do mundo. Eu só quero ir para minha casa e polir meu possante pelo resto da noite — peguei as chaves que o carinha do balcão me estendeu e passei direto por Gajeel, ignorando seus protestos.
Ele que fosse embora com o Gray, minha cota de boas ações do dia já estava esgotada!
Entrei em meu carro sentindo a maciez do couro do banco, passei a mão pelo painel um pouco áspero por causa do plástico e inalei profundamente o delicioso aroma de meu próprio perfume que havia ficado impregnado ali.
— Ah, como senti a sua falta bebê. Eu juro que vou pegar aquelas vadias que te roubaram — murmurei sorrindo, como se o meu automóvel pudesse realmente me ouvir e compreender.
Liguei o rádio, aumentei o volume e, por coincidência, estava tocando a música Thunderstruck da banda AC/DC que eu sempre adorei. Passei a marcha sentindo a adrenalina fluir dentro de mim e saí do DP cantando pneus.
As ruas não estavam movimentadas, o que eu estranhei, pois o trânsito caótico de Las Vegas nunca se tranquilizava daquela maneira, chegava a ser suspeito a ausência de veículos ao meu redor. Reduzi a velocidade no mesmo instante que recebi uma mensagem de e-mail.
Como eu amava tecnologia, resolvi instalar, há três meses, um sistema que me permitia estar conectado à internet mesmo dentro do carro. O melhor de tudo era que ele funcionava por sistema de voz. Esse definitivamente foi uma das melhores coisas que eu já comprei na minha vida, por que ninguém merece ficar preso em um engarrafamento sem nada para fazer.
— Abrir e ler o e-mail — ordenei.
Após um curto bip, a mensagem começou a ser transmitida por uma voz roboticamente computadorizada.
“Investigador Natsu, como está indo seu trajeto para casa? Tranquilo, não? Você não faz ideia do quão difícil foi fazer quase todos os carros em um raio de 500 metros ficarem presos em sinais vermelhos. Enfim, não vim aqui para falar sobre isso. Tenho uma proposta, atenda o telefone. ’’
— Mensagem estranha — murmurei.
Meu celular começou a tocar e olhei-o desconfiado. Entretanto, estava curioso para saber do que se tratava. Poderia ser algum ex-cliente da Flor de Lótus querendo ganhar dinheiro em troca de informações sobre elas. Atendi a chamada com as mãos suadas.
— Alô — falei.
— Investigador Natsu, fez uma boa escolha — uma voz evidentemente alterada por um programa computacional soou do outro lado da linha.
— A que proposta você se referia? — perguntei um tanto curioso e preocupado.
— Você vai seguir exatamente o caminho que aparecer em seu GPS sem questionar — respondeu.
Era só o que me faltava.
— E o que te leva a pensar que vou fazer isso? — indaguei soltando uma risada irônica.
— Se você não fizer, você e seu carro explodirão em um milhão de pedaços — afirmou.
Inconscientemente meu pé pressionou com força o freio, fazendo-me quase soltar o aparelho telefônico com o impacto. Um frio perpassou a extensão da minha espinha vertebral e engoli em seco. Algo me dizia que aquela pessoa não estava brincando.
— Pegue uma rua errada e bum. Ande abaixo dos 80 km/h e bum. Conte para alguém e bum. Desça do carro e bum. Chegue ao destino depois de 16:10 e bum. Entendeu? — questionou
Merda, merda, merda, merda! Deveria ter deixado aquele viadinho da perícia automobilística ter conferido meu carro direito. Aliás, e se for ele quem implantou a bomba? Soquei o volante numa tentativa falha de exaurir minha raiva e assustei-me com a voz feminina do GPS avisando que um novo destino havia sido traçado.
— Tique taque, o tempo está passando, aproveite enquanto o trânsito está livre — dizendo isso, desligou.
Olhei meu relógio de pulso e constatei que eram 15:46, isso significava que eu teria menos de trinta minutos para chegar ao local. Puta que pariu! Nunca que em menos de trinta minutos eu conseguiria chegar até o Meadow Gold, quanto mais a um quilômetro depois dele.
— Porra! — esbravejei, socando novamente o volante.
Passei a marcha um e, assim que o carro começou a se mover, pisei violentamente no acelerador e fui direto para a marcha cinco sem me importar com a probabilidade de tal ato estragar a embreagem naquele momento.
A cada curva que fazia, os pneus derrapavam graças ao fato de o velocímetro estar a mais de 100km/h. A voz cumpriu o que prometera, pois eu só havia visto dez carros durante todo meu trajeto o som alastrante de varias buzinas de carros em engarrafamentos podiam ser ouvidas ao longe.
Cheguei ao destino às 16:07 e, ao ver esse horário, meu corpo relaxou e eu suspirei pesadamente enxugando as mãos transpirantes em minha blusa.
— Ótimo, para que aquele louco me quer no meio da merda de um deserto? — murmurei, sentindo as batidas de meu coração se estabilizarem.
Durante três minutos esperei alguma ligação do homem misterioso, mas como não houve uma resposta eu bufei de raiva. Girei a chave na ignição para fazer a meia volta e ir para casa, porém meu carro não ligava. Desci do possante cheio de fúria e sentindo que iria derreter a qualquer instante devido ao terrível calor do lugar. Será que houve alguma pane elétrica? Pouco provável, mas tinha que conferir.
Levantei o capô inteiramente vermelho averiguando que estava tudo normal em seu interior. Tentei novamente dar a partida e mais uma vez não obtive sucesso. Retirei meu celular do bolso para chamar um guincho e vi que não tinha sinal.
Ah, que ótimo! Terei que andar pra caralho até achar alguém para me ajudar.
Tudo que eu via ao meu redor era areia, cactos e um asfalto ondulando de calor. Maravilha! Retirei minha jaqueta de couro e deixei-a dentro do carro. Por precaução, peguei meu cinto que continha minha arma, meu distintivo, uma faca, spray de pimenta e uma pequena corda. Caso algum coiote resolvesse me atacar, estaria preparado. Se bem que eu teria que ser muito azarado para algum animal, além das cobras, me atacar nesse calor miserável. Para completar, peguei uma garrafa d’água cheia que estava ali jogada há uns três dias.
Claro que eu não era idiota o suficiente para acreditar que aquilo tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto, alguma coisa muito séria estava acontecendo e eu odiava não saber o que era, principalmente por eu ter sido manipulado a fazer algo contra minha vontade nessa causa desconhecida. Durante todo tempo eu tive ciência do perigo e de como as pessoas poderiam achar estúpida a minha atitude de obedecer a ordens de uma voz misteriosa sem ao menos hesitar, mas era isso mesmo que sempre me caracterizou como um investigador de renome: agir independente do perigo e ter sucesso dessa forma.
E confesso que esse tipo de caso inesperado sempre me deixava animado, muito mais interessante do que procurar carros roubados e bebês abandonados. Mas estar no meio de um deserto, completamente sozinho e isolado, não era nada entusiasmante e ainda menos compreensível.
Pus meus óculos de sol e andei pelo caminho mais próximo de civilização, que era adiante, no sentido que meu carro continuaria a seguir. Após vinte minutos eu já estava praticamente me arrastando, com a camisa e cabelos encharcados de suor. Quando vi uma pequena cabana a minha direita, há uns 300 metros de onde eu estava, mal acreditei na minha sorte. Ok, a casinha era feita de tábuas de madeiras velhas, o telhado estava com diversos buracos e parecia estar prestes a desmoronar a qualquer momento, contudo, eu pouco me importava. Preferia morrer na sombra a morrer sob esse calor escaldante.
Minha mão começou a coçar, e isso nunca era um bom sinal. Normalmente esse efeito só ocorria quando eu me aproximava de algo perigoso. Mas ignorei. Não era hora para advertências de sexto sentido idiotas. Nada ali seria pior do que morrer, aos poucos, de desidratação ou desnutrição, o que viesse primeiro. Além do mais eu realmente precisava de um bom local para descansar, refletir e, claro, estrategiar uma forma eficaz de encontrar o dono da voz para matá-lo com minhas próprias mãos e me vingar por ele me causar tamanho sofrimento.
Comecei a gastar toda minha energia correndo desesperadamente na direção daquele refúgio. O suor cegava e fazia meus olhos arderem, o ar quente secava e rachava minha boca. Estava tão concentrado na simples tarefa de fazer minhas pernas se moverem que não notei o movimento da porta se abrindo.
Senti um impacto doloroso em meu tórax, mas cambaleante prossegui com meu objetivo. A corrida incessante queimava meus pulmões e a dor latente do lado esquerdo das minhas costelas me impedia de acelerar ainda mais. Olhei na direção do local dolorido e só então eu percebi. Havia sangue ali... muito sangue.
Parei no mesmo instante e notei um homem musculoso apontando uma pistola em minha direção. Imediatamente coloquei-me sob rápida reflexão, levando em consideração o local onde eu me encontrava e a posição da perfuração da bala. Ele não devia ter uma habilidade categoricamente perfeita com disparos, pois mesmo tendo obviamente mirado em meu coração ele não calculou a distancia de pelo menos 210 metros entre nós e a direção do vento – mesmo quase imperceptível – que transpunha de leste para oeste, por isso a bala havia errado sua trajetória e acertado abaixo do previsto.
Recomecei a correr, só que na direção contrária e ligeiramente transversalmente.
Como o atirador não continuou a disparar contra mim, presumi que aquele foi um tiro de alerta, do tipo: ‘‘não se aproxime’’ ou ‘‘caia fora daqui se não quiser presenciar uma sessão de tiro ao alvo.’’ Além de atirar muito mal ele também era burro por ser um criminoso que sequer consegue reconhecer o melhor investigador do 1° DP.
Não me importava com a voz, com o que estava acontecendo, o motivo que me levara a estar ali ou com o diabo a quatro. Ninguém me dá um tiro e sai impune. Ainda mais na porra de um deserto!
No próximo capítulo de Flor de Lótus.
Senti a faca perfurar minha coxa direita, porém não expressei a dor infernal que eu estava sentindo. O objeto deslizou por meu músculo, fazendo o sangue quente pingar no chão empoeirado. Eu sabia que estava chegando ao limite. Se aquela tortura continuasse por muito mais tempo, eu iria perder a consciência. Caso isso acontecesse, seria o meu fim.
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