Flightless Bird

1 Nothing to get hung about


Notas iniciais
Olá! Essa é minha terceira... quarta, quinta Songfic? OneShot? Eu já nem sei mais. Tudo depende do ponto de vista. Como eu já estou cansada de me apresentar nessa rede social, só basta dizer que é maravilhoso estar com mais essa e que logo terão mais fanfics. As referencias são muitas: A música do título da fanfic é Flightless Bird, American Mouth do Iron & Wine. A Música do título do capítulo é Strawberry Fields Forever, do The Beatles. E o trecho traduzido logo no início é da música Wake Up, do Arcade Fire. Músicas apresentadas, fanfic apresentada. Basta ir à leitura!

Algo encheu
Meu coração com nada
Alguém me avisou pra não chorar
Mas agora que estou mais velho
Meu coração esta mais frio
E eu vejo que isso é uma mentira
Crianças, acordem!
Segurem seus erros
Antes que eles tornem o verão em poeira
Se as crianças não crescerem
Nossos corpos crescerão,
mas nossos corações se perderão
Nós somos só um milhão de pequenos deuses causando tempestades
e trazendo cada coisa boa para a ferrugem.



Primrose vai se casar hoje.

Ela já usava o vestido discreto que eu pedi para Cinna desenhar, e ele o fez com prazer. Ela também testava os sapatos feitos nas maquinas de fábricas do distrito 8, já que eu jamais iria sugerir a ela que usasse aqueles saltos altos que Effie Trinket me obrigou a usar durante muito tempo, até que eu ficasse velha o suficiente para ela aceitar os sapatos baixos, dizendo que ficam elegantes com minha idade, embora eu não fosse tão velha. Me escoltar não é seu principal trabalho quando recebemos – Haymitch e eu – tributos novos, mas ela sempre mantém um olho em mim, seja porquê um mentor deve estar apresentável ao público ou talvez porque, embora eu seja hostil, é bem mais fácil me manter bem humorada do que Haymitch, principalmente enquanto ele não está por perto. Ele me irrita. Depois de anos, tornou-se novamente um mentor desistente, bebendo e repetindo piadas novas tão infames quanto ‘fiquem vivos’. E eu não posso mais olhar para aquelas crianças.

O que só me faz lembrar que Prim está se casando. Ela tem 23 anos de idade, e usa uma coroa de flores brancas na cabeça porque a família de seu noivo achou que iria ficar bonito e que combinava com sua pureza. Prim está bem. Seu futuro marido é um morador da cidade, o dono da Alvenaria, Gregor Sinclair. Ele prometeu construir um cômodo nos fundos da casa onde ela pudesse atender moribundos com a minha mãe, que já ansiosa, iria com prazer voltar a cidade para ser, novamente, um pouco boticária. Primrose terá crianças, e eu espero que o sobrenome do marido esconda o Everdeen delas. Eu já lhe pedi que não colocasse nosso sobrenome neles. Prim diz que irá acatar meu desejo.

Vestida de noiva, ela se parece como a campina na primavera, especialmente hoje, mas ela ainda tem medo de entrar na floresta comigo. Ela não precisa, no entanto. Ela vai se casar. E assim, ela já tem mais coragem do que eu.

E é por isso que desejo sair um pouco de casa enquanto as mulheres estão passando cremes no rosto de minha irmãzinha e explicando coisas sobre o casamento que eu não quero e jamais irei escutar. Eu acho que meu esse tipo de ódio ao casamento provoca um pouco da raiva de Gale, meu melhor amigo, especialmente depois do meu retorno dos Jogos Vorazes, alguns anos antes. Não tivemos bons momentos, mas eu acho que ele me entendeu. Não é ódio sobre o casamento. É sobre assistir minha filha morrer com uma lança no estômago. Eu não sei como ele pôde se casar, mas sei que irá fazer de tudo para que seus dois filhos nunca se candidatem as tesseras – Um dia eu quis dizer a ele que nossos pais também não tinham intenção em nos deixar miseráveis e explodir nas minas, mas como ele trabalha lá, só iria piorar as coisas. Deixo-o com a função de parceiro de caça nos fins de semana. O trabalho de aturá-lo agora cabe a sua esposa.

Eu estou usando um vestido verde e sapatos de fábrica também, de modo que fui proibida por minha mãe, Prim e pela futura sogra de minha irmãzinha em ir para a floresta. Eu sei que é pela preservação do vestido – e como hoje é o dia de Prim, é nosso dever que fazer de tudo para agradá-la – mas eu não tinha a intenção de ficar em casa ouvindo as mulheres falar sobre maridos e filhos, e nem ao menos tinha a intenção de caçar ou me sujar. Só queria ir ao lago, por alguns instantes, e sentir meu pai por lá. Explicar a ele que Prim agora está bem, assim como eu, e que consegui cumprir minhas promessas e anseios. Ou pelo menos aquelas que me torturam menos.

Como fui proibida, de qualquer maneira, procuro me manter à cômodos de distancia de onde Prim está sendo moldada como um dia fui. O que se torna um pouco difícil, já que toda a casa está sendo limpa e decorada – é a primeira festa na vila dos vitoriosos na história do Distrito. Apenas Haymitch e eu moramos aqui, e o primeiro vencedor do Distrito parecia ser tão destruído como nós. A festa está sendo bancada por nós – por mim, mais precisamente – mas não me sinto incomodada em achar um fim útil a uma pequena parte da montanha de dinheiro que a Capitol me manda anualmente. Em pouco tempo a casa ficará completamente ocupada de convidados e a grande maioria deles são, embora condescendentes comigo e com Prim, do noivo. Muitos da cidade são amigos de Gregor, como os homens do prego e comerciantes eram amigos de meu pai. A coincidência da semelhança – tanto do meu pai, como outra pessoa que também terá sempre cercada de amigos – me dá um soco. Decido que vou mais ficar em casa, pouco importando o que Primrose tenha dito.

Minha mãe tenta me acalmar e designa a mim algumas funções, desde distribuir recados até pegar algumas caixas e levá-las de um lado para o outro. Por fim, quando me manda ir a cidade pegar o bolo do casamento, fico grata em sair de lá e fazer algo verdadeiramente útil em que eu possa ajudar.

Pegar o bolo de casamento. Eu posso fazer isso, penso.

Quanto mais próximo à cidade, mais meu coração se aperta. Não é só porque vejo alguns jovens nas ruas me encarando piedosamente ou porque vi uma criança feliz pela sua primeira tessera. Me dói porque a cada passo, eu me encontro mais próxima a padaria dos Mellark. E, embora eu ache que pudesse fazer isso, vejo que não posso. Não nessa padaria. Nunca mais. A vitrine continua exibindo os bolos bonitos que Prim, na infância, insistia em assistir sempre que podia – lembrando-me o quão caro eles eram e que talvez nunca tivesse condições em dar um a ela. Hoje, tenho dinheiro suficiente para distribuir bolos a cidade, mas não vejo mais a graça que eles tinham.

Minha cabeça martela a ideia de que esses bolos estão mortos. Outrora, ainda muito jovem, eles já foram bonitos e cheios de detalhes que os enchiam de vida, mas agora eles me parecem tão mortos quanto Peeta Mellark. Ele fazia os bolos da padaria. E camuflagem.

Penso em Prim novamente, casando-se. O que faria Peeta hoje nós dois tivéssemos ganhado?

Planejo entrar na padaria discretamente, e quem sabe sair de lá tão discretamente e medrosa quanto entrei, mas sou entregue pelo sino grudado a porta. No balcão, o Sr. Mellark parou imediatamente o que quer que fizesse ao ver meu rosto. 11 anos depois de matar seu filho.

Nos primeiros meses depois dos jogos, eu tinha o mesmo pesadelo em ver sua esposa, a mãe de Peeta, invadindo minha casa e assassinando-me. Eu acordava assustada, não somente por ser um pesadelo, mas por imaginá-lo tão provável que me dava arrepios. Mas quando me lembrei das palavras de Peeta – onde aparentemente sua própria mãe apostara em mim –sonhei que Sr. Mellark era o meu assassino. E lá estava eu, olhando-o infantilmente assustada, enquanto lembro-me de ver os mesmos olhos azuis e os mesmos cachos loiros padecer a minha frente. Tudo porque eu não pude cumprir a única função que minha própria família cumpre ao longo de anos no Doze: Cuidar de moribundos.

“Sei o que envenenamento sanguíneo é, Katniss,” diz Peeta. “Mesmo que minha mãe não seja uma curandeira.”

— Olá, Katniss. — Ele diz. Eu me mantenho, por um tempo, calada.

Peeta Mellark tinha os olhos tão azuis que, embora tenha sido herdado de seu pai, pareciam mais bonitos do que estes olhos foscos e sem brilho que me encaram tão cuidadosamente quanto eu o encaro. Não tinha pelos no rosto, embora estivesse em idade para ter. Talvez a Capitol tenha depenado-o como fizeram comigo. Já o Sr. Mellark carregava, além de linhas de expressão, fios tão loiros que mesmo sendo grossos não se faziam notáveis, com exceção dos pelos mais escuros na região do queixo e jugular. Enquanto faço as minhas comparações com o pai e imagino Peeta Mellark com seus 27 anos – idade que tenho hoje – noto que ainda não esqueci as características físicas e emocionais de Peeta. Eu pensei que ao longo dos anos, perderia coisas sobre ele, porque isso acontece com os tributos que tento salvar ou porque depois de tanto ver as mesmas cenas todas as noites vou perdendo um pouco a exatidão por detalhes, mas Peeta parece para mim tão fixo quanto meu pai. E isso machuca.

— Olá. — Eu finalmente digo. Respiro fundo e tento não chorar constantemente, porque o eterno rosto jovem de Peeta continua na minha memória. — Eu vim buscar o bolo.

— De sua irmãzinha, correto? — Diz o padeiro. Mesmo sendo um bom homem, ele sempre fora muito calado consigo, pelo que me lembro dos anos em que negociava com ele. Nem mesmo no nosso último encontro, no edifício da justiça enquanto se despedia para sempre do seu filho e de mim, o Sr. Mellark engajou-se em palavras. Ele me deu alguns biscoitos, com dentes de leão e prometeu manter Prim alimentada. Desde minha volta, fiz questão de deixar com Gale a função de negociar com o padeiro, e modo que não queria contato com os Mellark. Mas talvez seja por Prim que ele esteja dando um sorriso fraco. Peeta uma vez me disse que seu pai gostava muito de mim e de minha irmãzinha.

— Ela vai se casar hoje. — Digo em voz alta pela primeira vez no dia o que me rondou em pensamentos todos os minutos.

— E você está feliz? — Ele pergunta.

Sei que não teve a intenção de soar rude, mas a frase saiu agressiva na minha cabeça. É como se ele estivesse dizendo “Está feliz que sua irmãzinha, do qual você se voluntariou, está contente, viva e se casando agora que meu filho está morto?” Bem, se a frase saísse da boca de sua esposa, tenho certeza que seria nesse sentido. Mas provavelmente ele só está tentando ser gentil, mas não leva muito jeito, assim como eu. Penso em como Peeta saberia o que fazer nessa situação, no nosso lugar.

— Ela está feliz. Então eu também estou. — Respondo, sorrindo pela primeira vez para ele. Falar de Prim é sempre um bom ponto para me fazer sorrir. Como Peeta fez na caverna, com a história da cabra, um pouco antes de eu me jogar no meio da ágape, levar uma facada na testa por Clove e ter o remédio de Peeta roubado antes de Thresh a matar. Antes que a natureza esperasse eu ter outra chance de salvá-lo, e eu só me lembro do quão bravo ele ficou porque eu o dopei e ele reparou, olhando-me com traição nos olhos. Ele nunca mais acordou. Eu não lhe dei ao menos a chance de morrer com dignidade.

— Ele também estaria feliz. — Sussurrou o padeiro. — Por você.

E todo o trabalho que mantive para esconder as lágrimas foi em vão. Venho ao chão, metaforicamente, quando gotas e mais gotas de lágrimas caem dos meus olhos. Ao contrário de mim, o padeiro aparentemente mantém-se firme. Ele se retirou do balcão e fora buscar o bolo que eu encomendei, enquanto meu nariz escorre loucamente e eu tento não parecer tão ridícula, ou fraca. No fim, de que adianta? Porque deveria parecer forte, no controle de qualquer situação? Prim está se casando. Tudo o que eu poderia fazer para protegê-la já foi feito. Tudo pelo qual batalhei e vivi já foi cumprido. Agora só resta a mim, triste demais para tentar qualquer coisa e minha mãe, que aparentemente vê um pequeno recomeço pela frente. Foram 11 anos sem pisar na padaria Mellark, dirigir-me a eles com o peso de deixar o garoto morrer. Posso chorar a vontade.

Choro por não acreditar nas atrocidades que fui obrigada a fazer. Choro por mais anos e anos de Jogos Vorazes, e porque negar? Choro por Peeta Mellark. Por seus sorrisos ingênuos, um pouco mal compreendidos por mim. Sua recusa em ser uma peça qualquer dos Jogos. Seu inestimado amor. Soluço um pouco, por nunca compreender ao certo o que se passou comigo naquela arena com Peeta, e por não saber ligar os sentimentos que tenho por ele a palavra correta. Pena? Afeição? Carinho? Admiração? Paixão? Acima de tudo, choro pelo jovem rosto de Peeta Mellark, que sempre terá 16 anos. Que nunca irá se casar ou ter filhos. Que nem ao menos teve a chance. Tão novo, e eu não consegui salvá-lo. Em algum lugar do meu coração, onde ele e Rue são aliados, eu choro porque estou viva.

O Sr. Mellark volta com um bolo inteiramente branco, com uma única linha lateral formado por prímulas. Como não quero destruí-lo ou cobri-lo com minhas lágrimas, seco o rosto com a palma das mãos e o seguro, admirando-o.

— É muito lindo. — Digo sorrindo, e realmente o achei. — E a cara de Prim. Ela vai adorar. — Dou uma pausa, olhando para cada perfeição de prímula, pensando em como anos atrás, estariam ainda mais bonitas. — Quanto custou?

— Sua mãe já deixou pago. — Ele me informa. Não me preocupo em ao menos ponderar se a informação é verdadeira. Dou um sorriso de agradecimento e, um pouco trêmula, sussurro um adeus e, antes que eu pudesse chegar à porta, um segundo Mellark aparece. O filho do meio, o mais velho de Peeta, aquele que não se voluntariou. Ele abre-a para mim, fazendo o sino pendurado tocar, e eu agradeço-o sem olhar muito para seu rosto. Decido não me perguntar o que quer que aconteceria se ele tivesse, como eu, se voluntariado.

Quando volto para casa, deixo o bolo em cima da mesa da cozinha e saio de cada silenciosamente antes de ser pega. Não quebro as regras em relação a Prim, de modo que não vou a floresta, nem a campina, nem retorno a cidade. Vou a minha antiga casa, aquela que morei por 16 anos antes de ser arrancada, limpada, preparada, depenada, destroçada, machucada até me transformar em tantas as coisas que me resultam em um nada. Quando era vivo, o gato da minha irmã, Buttercup, costumava vir comigo. Mas não estou triste por estar sozinha.

Porque esse é o momento em que coloco meus olhos nos dente-de-leão que cresceram tímidos e robustos próximos as paredes laterais da casa. E eu faço a ligação deles com o garoto, e me pergunto incessantemente o que aconteceria se nós dois ganhássemos. O que Panem acharia de dois vencedores. Se eu teria paz, sabendo que ele está vivo. Talvez seríamos amigos até hoje, ou os beijos de Peeta – Beijos de verdade, sem lábios frios, feridos ou febris – me fariam convencer sobre algo mais. Mas agora que sou adulta, decido abandonar esses pensamentos e me concentrar nos dentes de leão, uma forma estranha de me mostrar que Peeta ainda vive neles. E seguir em frente com minha vida vitoriosa.

Mas agora que Prim está se casando, eu me pergunto qual foi meu papel na minha própria história.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!