Eu estava mais confiante agora. Não deixaria que o humano — Edward — brincasse comigo daquela forma, não me ajoelharia diante de ninguém. Muito menos um saco de sangue. Quem ele pensava que era!
De qualquer forma, eu havia decidido por observar onde aquilo iria dar. É verdade que a vida andava um tanto retardada, e Edward era, apesar de tudo, o fato mais interessante que havia ocorrido em décadas naquele lugar úmido e pálido. Eu não iria matá-lo por meus próprios motivos; porém, nada me impedia me divertir com ele. Por que não?
Afinal, não era culpa do garoto. A culpa era daquela bruxa insuportável. Essa, sim, merecia cada milímetro do ódio que eu havia direcionado ao Cullen — mas cada coisa no seu tempo. Se eu fosse enfrentá-la agora, provavelmente Edward sofreria alguma consequência. E eu não queria o garoto danificado.
Não enquanto ele poderia ser meu.
O rapaz dos leitosos, gentis olhos verdes. Minha diversão. Ah, seria bom sair da rotina.
Ela achava que Edward Cullen seria minha derrota. Nada mais apropriado que deixá-lo então representar a mais legítima prova permanente de sanidade de Isabella Marie Swan.

Era noite. Vesti um casaco grosso, com capuz, para me misturar na densidade do azul-escuro. Deixei tudo para trás, o pedaço de papel com o endereço de Cullen no bolso direito. Eu havia conseguido isso por meio da diretora, com o argumento de que Edward havia esquecido seu livro na sala e eu, muito amável, iria devolver pra ele.
Claro que não era preciso dizer toda essa baboseira, mas eu tinha uma imagem a manter.
Procurei localizar pelo cheiro o tipo de árvore que eu tinha certeza que havia no local, por já ter caçado lá, só para achar o caminho mais fácil. O cheiro chegou com mais intensidade pelo caminho da minha esquerda, e eu o segui, parando quando vislumbrei o reflexo da lua no vidro.
Era ali. Não foi difícil descobrir o quarto do Cullen, graças ao seu cheiro levemente ardente. O quarto abria para uma pequena varanda, grudada numa árvore, que escalei para chegar até lá.
E o que vi tirou-me o folêgo.
Embora não houvesse nenhuma iluminação, o cabelo cor de bronze do rapaz brilhava, à luz puramente da lua. Ele estava numa posição indefinida: nem sentado, nem deitado, os braços cruzados no peito. Mas estava adormecido, sem dúvidas. Sua face era tão clara quanto asas de anjo, percebi, uma pessoa com aquela expressão não poderia ter qualquer sentimento ruim dentro de si.
Era algo celestial, parado ali, na minha frente. Algo que eu não podia tocar.
Nem Tobias parecia tão calmo em seu sono mais profundo. Os anos e os perigos o tornaram sempre alerta, sempre irriquieto. Mas aquela visão era uma realidade alrernativa, era algo que Tobias poderia ter sido em algum momento antes de me conhecer, antes de a vida cravar suas garras e deixar suas cicatrizes em nós dois.
Eu sentia tanta saudade.
Quando não podia mais me sustentar, recorri a uma cadeira em frente a cama. A dor não achava espaço no peito, e pressionava minhas têmporas, fechava minha garganta, em busca de lugar para se instalar. Meus dedos tremiam tanto que cerrei o punho para que parassem. Eu mordia o lábio, mas a dor escapou em forma de um arquejo fraco. Em um instante, eu estava chorando. Chorando pela primeira vez em um século.
E a sensação era ótima.
"Bella, querida, demonstrar fraqueza não é ser fraco. Ser fraco é não ser forte o bastante para demonstrar fraqueza".
Ele podia simplesmente voltar. Ele podia estar aqui.
"Bem, tecnicamente, ele está", pensei, olhando Edward através das minhas vistas embaçadas. Não era a mesma coisa, mas talvez
Eu avistei um vulto à minha esquerda. Era uma coisinha preta e pequena, encolhida na parede. Virei a cabeça e encontrei Alice, em silêncio, olhando para mim. Então Alice saiu tão silenciosamente quanto apareceu, e supus, pelo barulho da cama, que fora se deitar.
Enchuguei as lágrimas e continuei observando Edward, que havia mudado de posição, agora mais deitado que sentado. Cheguei mais perto para ver todos os detalhes que eu já sabia de cor: os longos cílios pretos, a sobrancelha grossa, o rubor do calor nas bochechas, os cabelos na têmpora suados como eu sabia que ficavam sempre que o dia havia cobrado dele além da conta e os lábios.
Os lábios. Eu lembrava exatamente da última vez em que os havia beijado. Não havia sido lento, nem tranquilo. Fora um momento agitado e cheio de paixão, a fúria dos sentimentos podia ser sentida em cada toque. Havia sido um ato de despedida, de carinho, de um amor fervoroso.
Os lábios de Edward não tinham os riscos que eu sabia de cor dos de Tobias. Eram puramente cheios e rosados, apenas, o que eu notava no instante em que a irmã gritou, no quarto vizinho, e Edward correu até ela antes mesmo de abrir os olhos. Fiquei atrás de sua porta, e ouvi. Ela murmurou algo sobre mágica — estava desesperada. Ele a abraçou, beijou seus cabelos e garantiu com toda a confiança do mundo que ficaria tudo bem. Ela chorou um pouco em seus braços, e então sua respiração ficou estável novamente. Havia adormecido. Mesmo assim, Edward não voltou para sua cama tão cedo. Continuou fazendo promessas sussurradas à irmã, envolvendo-a com calor e segurança. Com amor. Então, quando ele mesmo já ia pegando no sono, desvencilhou-se de Alice, deu-lhe um beijo e voltou ao seu quarto.
Não dormiu sem antes murmurar à Deus um pedido de que guardasse a irmã mais nova, e eu não saí dali antes que o sol nascesse.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.