Flecha do Vazio
4 Velho traidor
Milhares de dúvidas, oito olhos perturbados, um silêncio melancólico e uma dor afiada que eu não sabia explicar. Foram as coisas que preencheram aquele lugar com a saída do professor.
Alguns monitores apareceram por volta de toda a sala com muitas imagens de todas as partes do lado de fora da espaçonave, haviam soldados do Rei espalhando por toda a área. Mas o que mais me preocupava eram os uniformes, eles estavam usando dois modelos de uniforme, haviam dois generais ali.
Dois esquadrões inteiros para prender duas meninas? O que o Rei estava pensando? Tá, eu sei que o velhote é muito forte, eu nunca consegui vencê-lo em um duelo, mas dois esquadrões? Quanto exagero. Eu precisava sair da cadeira e ir atrás dele, ajudá-lo, mas eu não estava conseguindo me movimentar. Por que eu não conseguia me movimentar?
Queria que esta fosse minha única dúvida, mas não era. Por que ele estava indo lutar sozinho contra dois esquadrões do exército? Ele não teria chance alguma. Por que ele estava se sacrificando por essas pessoas que ele nunca me falou nada sobre antes? Porque elas não pararam ele? Elas tinham como se movimentar? Por que o Dexter estava só parado igual um mongolão sem falar nada? Por que todo mundo estava tão quieto? Para onde nós estaríamos indo? Por que tudo tão de repente? Por que disse que era avô do príncipe que na verdade era uma mulher? Não, espera. Como assim? O príncipe mulher era neto do professor? O professor era pai do Rei? O QUÊ?! Como assim? Não, não podia ser. Era um apelido carinhoso, alguma coisa do tipo, tenho certeza. O professor não era nada do Rei.
Não tive tanto tempo para pensar, o professor logo apareceu nas câmeras, mas ele não estava sozinho, ao seu lado estava o seu cachorro robótico, Yreve. Não sei se era só impressão, mas ele parecia muito maior do que costumava ser. Por que o velho estava levando o cachorro para a luta? Ele estava mais biruta que o normal. Ok, Yreve era um cachorro diferente (não que existisse mais algum normal em nosso mundo), sempre que o via ele estava cuidando de algum trabalho doméstico ou organizando o laboratório, mas lutar? Não acho que ele seja capaz de muita coisa em um campo de guerra
— Yvere, não temos intenção de deixar nenhum sobrevivente, entendido? — O professor estava falando com o seu cachorro sobre não deixar sobreviventes, mas estava cercado por mais de 600 soldados do exército. O que ele tinha em mente?
— Assim que eu gosto, mestre! — Quê? O cachorro falava? Por que ele nunca tinha falado comigo perto antes? Quantos segredos aquele velho escondeu de mim? Meu pensamento foi interrompido quando o cachorro se transformou em um leão gigantesco e falou de novo. — Quando quiser.
— Exército de Kvothe, perdoem-me pelo que irão sofrer, sei que não são culpados por serem prisioneiros de suas mentalidades limitadas, já fui como vocês, mas, infelizmente, as circunstâncias não permitem que eu lhes dê uma segunda chance como a que tive. — Certo. Ele estava pedindo desculpas pro inimigo, ele é um velho otário e gagá que perdeu o juízo, certeza. — Yvere, pega!
Yvere deu um salto maior do que era possível se dar e com uma mordida abocanhou dois soldados e os atirou em cima de alguns companheiros. O exército que ali se encontrava tomou um choque com aquele ataque, mas logo se recuperaram e começaram a correr rumo ao professor.
Yvere saltou na frente deles impedindo a passagem de uma grande área, porém estavam cercados e uma grande parte dos agressores continuaram a investida contra o velhote.
— Yvere, acabe logo com esse punhadinho aí, senão não vou deixar nenhum aqui sobrar para você — O professor gritou saltando muito alto, não sei quando ele se equipou, provavelmente quando eu me distraí com o ataque do leão que costumava ser cachorro. O velho usava lâminas que pareciam presas de serpente (uma muito grande) nos sapatos que pareciam cascos gigantes, tinha garras símeis anexas aos braços e um capacete com um formato estranho achatado e chifres que pareciam de bode.
Meus olhos não foram rápidos o bastante para acompanhar cada detalhe do que aconteceu em seguida. O exército era rasgado no meio por uma investida violenta e indiscriminada. Alguns eram perfurados pelas presas nos braços do velhote, outros pelas que se encontravam os pés, os que escapavam dos ataques perfurantes não ficavam em melhor estado, pois eram atingidos furiosamente por coices e cabeçadas que arremessavam pessoas para todos os lados. Nunca pensei que um dia fosse ver isso, mas estava chovendo gente.
A batalha se estendeu por vários minutos. Os soldados usavam proteções por todos os lados, mas não eram suficientes para impedir que fossem perfurados, fosse pelas presas do professor ou pelos dentes de Yvere. A dupla aliada, entretanto, não possuía muito mais proteção que suas próprias peles, mas não sofreram um arranhão se quer. O velho bailava ora no ar, ora no interior das linhas ofensivas inimigas. Era um bailarino mortal. O sangue dos ataques bem-sucedidos parecia dançar no ar no mesmo ritmo daquela dança assassina.
Os gritos de agonia dos feridos era a música perfeita para aquele baile, tudo parecia se encaixar com uma beleza mortal demais para poder ser considerada bela, mas era lindo. O professor não era apenas um guerreiro, era um assassino, que fazia sua função carregada de arte e uma leveza que não cabia àquele tipo de situação. Ele fazia tudo parecer tão bonito, que eu me sentia assustado. Mas não sabia o que me assustava mais, ver uma pessoa com a qual sentei várias horas de minha vida e confiei mais do que qualquer outra ou por eu estar tão fascinado com toda aquela situação, por eu querer saber fazer algo tão bonito, tão ritmado, tão... poderoso.
A música cessou, o baile acabou e aquilo que há pouco era um show artístico e impetuoso fora substituído por uma pilha de corpos sem vida estirados no chão temperado pelo espesso vermelho vivo que contrastava e muito com aqueles que estavam cobertos pelo líquido que parecia tão quente e tão frio ao mesmo tempo. Eles haviam vencido, como era possível? Dois derrotarem centenas? Não conseguia acreditar no que viam meus olhos.
— Eu disse que se você não fosse rápido eu não deixaria ninguém para você. — O velho desfilava sobre aquele tapete vermelho mórbido enquanto falava com o seu leão que respondia com um gemido triste como se chorasse por não ter tido tanta diversão. O professor olhou para os corpos e retirou seu elmo em sinal de respeito.
— Meus matou homens você, velho coração seu sem — O silencio fora quebrado por uma frase incompreensível que vinha de um dos generais do rei se aproximando. Ele usava óculos na cintura uma gravata borboleta amarrada no tornozelo, tinha os dois braços enfiados em uma cueca mais esticada que o normal, localizada nas suas costas e uma luva na orelha esquerda. Haviam mais apetrechos utilizados erroneamente em seu corpo, mas estes eram os mais gritantes. Junto dele vinha um coala metálico engatinhando de uma maneira estranha, ele tinha as pernas no lugar dos braços, a cabeça ficava na barriga e ele andava com esta para cima, mas olhando para trás.
— Depois que matarmos o velho vamos poder ter quantos homens quisermos, não liga pra isso. Vamos fazer esse velho se arrepender de ter mexido com a minha mercadoria. — Um cara mal-encarado aparecera 120° à esquerda do primeiro, ele não tinha um animal visível consigo, mas perto de seu pé havia uma barbatana.
— Quantos soldados inúteis caídos, pelo jeito temos os dois mais novos generais solitários do Mundo. Pena que eu sou sozinho por opção, enquanto vocês acabam de ser forçados a isso — Fechando o cerco ao professor, vinha homem menor que uma criança de doze anos montado em um alce metálico que parecia um gigante se comparado a seu passageiro. Eram três generais do Rei.
— Ora, ora... Kvothe mandou 3 de vocês, quanta honra. — O professor dizia calmamente em tom de zombaria. — Yvere, não vai dar para usar força total, vamos ter que continuar separados, prepare-se.
— A honra será toda nossa, vejo que não perdeu a forma depois de todos esses anos, seu velho traidor — O baixinho falava com altivez e certa intimidade estranha com o professor — Ou prefere que eu te chame como antigamente, Mestre?
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