Flecha do Vazio

2 Decifra-me ou devoro-te


Depois de liberados da detenção, Dexter e eu saímos juntos da escola. Ele iria para o dormitório e eu para a casa do professor, então só nos separaríamos quando eu fosse dar a minha escapadinha. O silêncio sempre reinava entre nós dois, digamos que nossa amizade era mais baseada na companhia que na interação.

A mínima vontade de socialização de Dexter não me incomodava nenhum pouco, mas havia alguma coisa naquele anoitecer que vinha me chamando muito a atenção. Havia movimento demais, apenas alguns guardas correndo e algumas pessoas conversando furtivamente, mas ainda assim era muito mais do que o normal.

Foi então que avistei uma fumaça verde que subia aos céus, era o sinal do professor. Alguns dias atrás ele havia me apresentado um desses aparelhos tecnológicos que não temos acesso por aqui, o sinalizador. Ele disse que era tecnologia da mais antiga e simples, me explicou que o seu uso era relacionado à resgate de sobreviventes de navios náufragos ou aviões que caíram. Depois ele me explicou o que eram aviões e navios e fiquei bem curioso para conhecer um pássaro de metal ou a incrível invenção capaz de fazer aço flutuar sobre as águas.

O velhote tinha combinado comigo que se ele usasse o sinalizador era porque "alguma coisa estranha vai estar acontecendo, não venha me ver se o céu estiver verde, se não puder controlar a sua curiosidade vou te mostrar uma forma segura de chegar até aqui". Assim que visualizei aquele sinal colorido tomando conta do céu comecei a correr para a direção contrária à que estava indo, precisava chegar à passagem secreta que levava ao laboratório do professor.

Alguma coisa de errado estava acontecendo e eu precisava descobrir o que era. Todo o resto do mundo era indiferente para mim, não conseguia pensar em nada, ver nada, só conseguia correr, precisava chegar logo ao laboratório. Só me lembrei da existência do meu amigo porque podia ouvir seus passos e sua respiração ofegante, havia me seguido.

Não estou certo de que Dexter poderia saber da existência daquela passagem secreta, mas não tinha tempo para despistá-lo, aquele velho caduco corria perigo.

Passei por algumas ruas e muitos prédios baixos, todos cinzas e sem vida, como se estivessem ali apenas por existirem e não tivessem propósito algum, um reflexo em concreto que retratava perfeitamente a população que ali habitava. Finalmente cheguei à um beco sem saída entre dois dos dormitórios da zona leste do distrito.

— O que aconteceu? Por que você começou a correr do nada e parou aqui? — Dexter me questionou ofegante assim que parei de correr. Ignorei-o e me concentrei para ouvir o sinal para que desse a senha.

Não demorou muito para que uma voz baixa, mas bastante audível e macabra dissesse "Decifra-me ou devoro-te". Mantive a concentração para responder ao desafio que estava por vir, Dexter deve ter entendido que o silencio seria importante ou apenas se assustou com a voz misteriosa, pois se calou imediatamente.

"Qual animal caminha sobre quatro patas de manhã, duas durante o dia e três a noite?" Era muito fácil, se eu não estivesse tão preocupado com o professor e com tanta pressa para chegar até ele eu ficaria muito bravo por essa zombaria à minha inteligência.

— Puck, tem um leão estranho babando atrás da gente, então se souber a resposta, por favor fala logo — Dexter me tirou do transe com uma feição assustada e ansiosa. Ele não sabia a resposta, nada fora do comum já que quase nada sabíamos sobre a noite a qual o enigma se refere.

— O homem. — Respondi com convicção

Olhei para o Dexter que me encarava com um semblante de dúvida pura, mas antes que pudesse questionar qualquer coisa o chão se abriu e a única coisa que saiu da boca dele foi um grito constante e muito mais agudo do que qualquer pessoa esperaria de alguém com uma pose tão ereta e carrancuda.

Eu iria zoar muito ele por isso depois, mas agora eu também estava gritando (obviamente mais grosso que ele) porque a queda foi completamente inesperada. Nunca havia usado a passagem secreta e o professor apenas havia me falado dela, não como ela funcionava. Não sabia da charada, nem que ela seria tão fácil de ser respondida, não sabia que o professor teria uma esfinge estranha de estimação e muito menos sabia que cairíamos, achei que uma porta se abriria, seria muito mais convencional, mas fui tolo por esperar algo normal daquele velho biruta.

Não era uma queda livre pelo menos. Esta foi por apenas uns 4 metros, caímos em uma superfície macia e começamos a escorregar em uma espécie de rampa. Dexter não parava de gritar e, ele vai negar depois, mas juro para vocês, ele estava chorando. Eu não posso falar muito, porque também gritei o tempo todo, mas a partir de um dado momento os meus gritos se tornaram uma espécie de liberação de energia porque aquilo era muito divertido.

Escorregamos por uns 10 minutos e aterrissamos em um perfeito breu. Como se respondêssemos ao ambiente, Dexter e eu paramos de gritar. O silencio combinava muito mais com tamanha escuridão, tudo ficava muito mais assustador, mas tudo se encaixava tão bem que parecia que aquele lugar teria sido feito para funcionar naquela situação. Cheguei a pensar se não estávamos mortos e aquele vazio poderia ser o outro mundo, mas ouvia a respiração ofegante de meu amigo e não foi só a respiração quando ele me acertou outro de seus potentes socos e eu não faço ideia de como ele o fez, porque era impossível ver qualquer coisa inclusive um ao outro.

— Você errou, não foi? Seu babaca convencido. Fica se achando o sabichão, o gênio da nossa época. Foi prepotente e arrogante como sempre, deu uma resposta precipitada e fomos devorados pelo chão e vamos morrer aqui.

Ainda estava tentando pensar em como ele conseguiu me acertar um soco tão bem dado sem me ver que quase não prestei atenção no que ele estava dizendo. Porém, quando consegui sintonizar-me de volta, até que fazia sentido. A esfinge nos ordenou a decifrá-la ou ela nos engoliria, e se a esfinge não fosse o leão estranho, mas o próprio corredor. Não podia ser, eu tenho certeza que a minha resposta estava certa, era um enigma muito fácil, não havia como estar errado.

— Por que você fez isso? — Dexter me surpreendeu mais uma vez. Ele havia me erguido pela gola da minha camiseta, espantei-me com todo o seu senso de direção, poder da audição, ou seja lá o que isso fosse. Me preparei para outro soco e o tomei, sendo lançado pelo quarto escuro e quebrando alguma coisa de vidro. — Por que você disse homem?

— Porque era a resposta certa — Não era a minha voz, era uma outra que eu conhecia muito bem, mas nem precisaria ter lembrado dela, pois ela veio à tona junto as luzes sendo acesas. Era o professor. — Quando muitos jovens, nós, homens, humanos, nos locomovemos usando duas pernas e dois braços, quatro. Depois não nos é mais necessário o suporte dos braços para andarmos e na velhice, teoricamente usaríamos uma muleta. Se bem que em muito eu já passo da idade para poder ser chamado de velho e nunca precisei desse tipo de tecnologia barata para me locomover. Vocês acham que eu ficaria bem com uma? Só por estilo, mesmo?

— Velhote — exclamei me levantando rapidamente como se para enfatizar toda a minha felicidade ao ouvir aquela voz, ao ver aquele biruta de imensurável sapiência, ao ver aqueles cabelos brancos bagunçados, mas minha euforia logo foi substituída por algo que não sei explicar. O professor estava acompanhado por duas garotas, o que era algo completamente esquisito de se imaginar. Porém o que mais me incomodava era o sorriso no rosto dele, era algo despreocupado demais para ser verdade, como se ele estivesse prestes a aceitar alguma explicação mal dada sem fazer nenhuma pergunta, sem pesquisar para ir mais a fundo. Isso não tinha nada a ver com ele.

— Vocês não deveriam ter vindo até aqui se prezam por suas vidas como são, mas gostaria de dizer que estou profundamente agradecido e aliviado por o terem feito. — O professor falava com aquele sorriso no rosto. Do que ele estava falando? Por que nós não deveríamos estar ali? Ou deveríamos? E o que isso mudaria em nossas vidas? — Ah, sim. Que rude da minha parte, quase me esqueço das apresentações: Puck, Dexter essas são Hayley, minha aprendiz assim como você, Puck e Ximena, a filha do Rei.