Flashlight
1 Flashlight
Notas iniciais
Scott girou a maçaneta da porta devagar, esperando não fazer muito barulho. Empurrou a porta lentamente, esperando vê-lo deitado em sua cama. Mas não foi isso que ele viu assim que a porta saiu de seu campo de visão.
Sentado na cama, abraçando seus próprios joelhos e com a cabeça entre as pernas, estava Stiles. Vestia uma blusa branca (que Scott tinha certeza que era dele) com um par de números nela e uma calça moletom cinza.
Stiles deveria estar dormindo a essa hora. Principalmente depois do ocorrido com o Nogitsune. Ele precisava descansar. Ser possuído por aquela coisa drenou muita energia de seu corpo, além de sua saúde também ter sido afetada. Ele sentia frio mais facilmente, ficava gripado mais que o esperado. Perda de apetite constante...
— Stiles? — Chamou Scott, suavemente.
— Scottie — respondeu entre as pernas. Se Scott não tivesse sua super audição, não teria escutado.
— Você não deveria estar dormindo? — Scott permanecia no mesmo lugar, com sua chave e capacete nas mãos.
— Eu não posso... — Se um filhotinho triste pudesse falar, sua voz sairia exatamente como a voz de Stiles saíra. Fazendo com que Scott sentisse seu peito apertar um pouco.
Scott largou suas chaves na mesa, junto com o capacete e deixou as sacolas no chão. Tirou seu casaco pesado de frio, pendurando-o na cadeira. E, com passos calmos, se dirigiu até a cama.
— Por que não, Stiles? — Scott estava em pé, ao lado da cama, olhando para seu melhor amigo, do qual ele poderia sentir tristeza e outras emoções exalarem.
Stiles não respondeu dessa vez.
Porém, Scott sabia o porquê. Ele sabia por que seu melhor amigo estava com dificuldade pra dormir. Por que ele sentia mais frio do que o normal, mesmo em dias quentes. Por que Stiles tremia quando algo o estressava. Ele sabia o porquê... E isso o matava por dentro.
Por que ele sabia o que estava machucando seu amigo, mas não tinha nada que ele pudesse fazer para ajudá-lo. Pois não era algo físico, para que ele curasse com um simples toque. Era algo mais mental; algo mais obscuro.
— Stiles — continuou Scott — a gente já conversou sobre isso, lembra? Nada daquilo foi sua culpa. — Scott já havia retirado o tênis e sentado ao lado de Stiles, na cama. Passando a palma da mão nas costas do amigo gentilmente. Pois ele queria que Stiles soubesse que ele estava ali por ele. Que tudo ficaria bem, eventualmente.
Stiles levantou a cabeça antes de responder. Olhando nos olhos de seu amigo, disse:
— Então por que eu ainda sinto toda essa culpa, Scott? Por que eu ainda sinto toda aquela energia ruim, todos aqueles pensamentos horríveis? Por que, Scott? Se eu não tenho culpa, por que ainda sinto tudo isso?
— O Nogitsune te usou para fazer aquelas coisas, mas não quer dizer que foi você, Stiles! Eu sei que você se sente culpado, eu posso sentir isso vindo de você, mas você não pode deixar isso te consumir.
Stiles não respondeu de imediato. Apenas ficou olhando nos olhos de seu amigo por vários segundos; se perguntando como que podia um simples par de olhos amarronzados trazem-lhe tantos sentimentos.
Como se apenas ao olhar para os olhos do jovem sentado a sua frente, fosse capaz de deixar tudo mais leve, mais fácil, mais seguro.
Seria algum poder que vinha junto com o combo ser um True Alpha?
Não... Desde que eles eram pequenos, Stiles podia sentir aquela enxurrada de sentimentos vindos daquele olhar. Sempre foi assim. Ele só queria que aquele simples olhar fosse capaz de ajudar-lhe agora.
Pois ele não conseguia se livrar daqueles sentimentos de culpa, raiva de si mesmo, medo e entre outros. Ele queria, queria mesmo, mas não conseguia. Era como tentar se livrar de uma maldita sombra. Nem mesmo aqueles sentimentos que transbordavam dos olhos de Scott, eram capazes de livrar-lhe dessa. Era como se todos aqueles sentimentos bons que Scott trazia, não fossem capazes de adentrá-lo. Como se ele não fosse digno...
Mas Scott parecia não perceber que ele não sentia tudo aqui de proposito, como se estivesse escolhendo sentar ali e remoer todos aqueles sentimentos de novo e de novo. Principalmente uma coisa em especifica que ele havia feito quando estava possuído.
E então Stiles falou:
— Eu matei a Allison, Scott. Eu a matei.
Scott podia sentir a raiva repentina sendo exalada do corpo de Stiles.
— Não, Stiles. Você não a matou. O Nogitsune, sim.
Stiles, inconscientemente, arrumou sua postura na cama, como se estivesse se preparando para um confronto direto. Scott reparou nisso, esperando não ter que tirá-lo de cima de si ou algo do tipo.
Mas isso não aconteceu.
Stiles voltou a abraçar suas pernas, com a cabeça entre elas. E sussurrou:
— Eu quase matei você, Scott...
Aquilo atingiu Scott. Pois ele se lembrava do dia que quase foi morto por seu melhor amigo.
Lembrou-se de estar olhando para Stiles, na busca de algum sinal de que ele ainda estava ali. O verdadeiro Stiles. Que aquele menino hiperativo e idiota, ainda pudesse estar por trás daqueles olhos sombrios. Esperava ter algum sinal de que seu Stiles ainda estava vivo.
Mas ele não teve.
Pensou que morreria ser ver seu amigo bem outra vez. Em não poder mais ouvir suas piadas sem graças, ou ver seu sorriso, no qual Scott sempre achou a coisa mais linda do mundo.
Scott sempre soube que Stiles não era apenas seu melhor amigo. Ele sempre sentiu coisas diferentes em relação a Stiles.
Ele reparava mais nele do que em seus outros amigos. Seu sorriso, sua risada, seus lábios, suas pintinhas espalhadas pelo corpo...
Era de praxe para Scott observar seu melhor amigo todos os dias. Era como um pequeno jogo entre ele e sua mente, onde ele decorava cada lugar de suas pintinhas pelo rosto e corpo; cada mania esquisita que ele tinha; cada piada que fazia Stiles rir...
Scott sempre amou e sempre amará cada pedaço de Stiles.
Mesmo Stiles estando em pedaços.
— Stiles, olhe pra mim. — Pediu suavemente.
Stiles não se mexeu, apenas deu uma fungada.
— Stiles, olhe pra mim, por favor.
Stiles levantou o rosto lentamente, piscando rapidamente, tentando livrar-se das lagrimas que cobriam seus olhos.
Scott segurou o rosto de Stiles suavemente entre suas mãos, olhando firmemente em seus olhos.
— Nada disso aqui é culpa sua, ok? Nada. Ok? — Stiles tinha seus olhos marejados. Seus olhos como uma represa a ponto de se romper. — Eu não gosto de entrar aqui e, toda vez, te ver assim. Eu sinto falta daquele idiota que você sabe ser todo dia! — Scott sorriu, ainda olhando firmemente nos olhos de Stiles. — Te ver aqui, desse jeito, não só te machuca. Machuca a mim. Por que não tem nada que eu possa fazer pra te ajudar, Stiles.
Uma lágrima escorreu do olho esquerdo de Stiles, deixando um rastro úmido por sua bochecha. Scott logo a limpou com seu dedão.
Stiles ouvia tudo aquilo, e a única coisa que ele conseguia fazer era balançar a cabeça concordando levemente e segurar para que não haja mais lágrimas além daquela que Scott secou.
A medida em que Scott falava aquelas coisas, seus olhos se enxiam de água também. Talvez por ser a primeira vez que ele demonstre tão intimamente seus sentimentos com Stiles. Ou pelo fato de seu amigo estar tão vulnerável que faça com que seus poderes de alfa floresceram ao ponto de ambos compartilharem sentimentos.
— Eu sinto falta de ouvir suas piadas ruins, Stiles. Sinto falta de suas mensagens sem nexo no meio do dia. — Scott fez uma pausa. — Sinto falta de sua risada.
Aproximando-se ainda mais, Scott cola sua testa na de Stiles. Permitindo que ambos se olhem diretamente um nos olhos do outro.
— Eu sinto falta de um sorriso nesses lábios... — Continuou, passando a ponta do dedo carinhosamente sobre os lábios rosados do amigo.
Scott retirou uma das mãos do rosto de Stiles, pegando na mão do mesmo.
— Eu sinto falta do seu toque. — Confessou, enquanto apertava suavemente sua mão, antes de voltar a ter ambas no rosto de Stiles.
Scott ficou em silencio por uns segundos. Ambos agora de olhos fechados. Apenas escutando respirações pesadas dentro daquele quarto silencioso. Mais alguns segundos se passaram, com eles apenas sentindo a respiração quente um do outro contra seus rostos.
— Eu te amo, Stiles. — Sussurrou, ainda de olhos fechados. Não tinha por que abrir os olhos agora. O bem mais precioso na vida de Scott estava bem a sua frente. Entre suas mãos, firmemente agarrado.
E então Scott beijou Stiles.
Um beijo calmo, quente e com lágrimas. Pois depois de ter dito que o amava, Scott não conseguiu segurar mais suas lágrimas; deixando-as apenas caírem pelo seu rosto.
Stiles sentiu incrível euforia dentro de si. Como se alguém tivesse injetado um milhão de doses de adrenalina em suas veias. Como se ele fosse explodir a qualquer momento. E ele adorou.
Aquele simples beijo, despertou o lado que queria lutar de Stiles. O lado que ainda via esperanças em seguir em frente, em sair daquela incrível auto piedade na qual ele se encontrava.
E as palavras que Scott havia falado pouco antes do beijo...
Stiles ouvira tudo aquilo com extremo aperto no coração.
Stiles não estava apenas se machucando remoendo culpa, ele estava machucando Scott. Seu Scott.
Ao abrir os olhos, Stiles deu de cara com aqueles olhos novamente. Porém, dessa vez, algo estava diferente.
Stiles podia sentir todos aqueles sentimentos vindos daquele olhar novamente. Podia sentir o calor que aqueles olhos passavam. Podia sentir segurança, paz... E o melhor de todos: amor.
— Scottie...?
— Stiles?
— Você precisa de um banho. Você tá fedendo... — Scott sorriu de orelha a orelha, ao ouvir seu Stiles sendo ele mesmo, novamente. Um sorriso que, na opinião de Stiles, era lindo.
— Bom ter você de volta, Stiles... — Falou sorrindo enquanto tinha seus dedos entrelaçados nos de Stiles.
[...]
Scott saiu do banheiro e viu Stiles abraçado a suas pernas, com o queixo apoiado no joelho. Mas diferente de mais cedo, Stiles estava sorrindo. Não com os lábios, mas com os olhos.
Pendurando a toalha recém-usada na porta, Scott dirigiu-se até o interruptor do quarto e apagou a luz. Deixando apenas a luz do abajur acessa. Pois ele sabia que Stiles tem medo do escuro agora.
Andou em direção à cama, e deitou-se, fazendo com que Stiles repetisse a ação.
Ambos olhavam para a janela, maravilhados com o céu incrivelmente estrelado lá fora. Estrelas brilhando frio numa noite congelante.
Até que Stiles resolveu quebrar o silencio.
— Você lembra aquela vez que fomos “acampar”? — Sua voz ainda estava mais fraca do que costumava ser, mas Scott achava que era por falta de uso, já que Stiles sempre gostou de falar muito.
— Lembro, sim. Por quê?
— Lembra como você ficou com medo no meio da noite?
[...]
E como Scott poderia esquecer?
Tinham por volta de 11 ou 12 anos, e haviam decidido irem ‘’acampar’’. Não era bem acampar, pois eles não foram longe o suficiente para isso. Pois Scott ainda conseguia ver sua casa da barraca.
Scott estava adorando a ideia de ir dormir no meio do mato, ver as estrelas naquela noite também fria do ano. Fizeram fogueira, assaram marshmellows e cantaram músicas.
Tudo ia a mil maravilhas, até a hora de irem dormir.
Scott se assustava com qualquer barulho que ouvia fora da barraca. Seja esse barulho real ou inventado em sua cabeça.
Stiles, que estava em outra barraca, ouviu o que parecia choro vindo da barraca ao lado, e foi até lá verificar.
— Scottie?
— Stiles! — Scott também havia se assustado com seu amigo o chamando.
— Tá tudo bem? Parece que eu ouvi choro... — Scott estava envergonhado demais para assumir que estava com medo de dormir ali fora, mas também tinha um orgulho muito grande para simplesmente voltar para sua casa.
— Tá tudo bem, Stiles. Pode voltar a dormir...
Mas desde quando Stiles foi bom em obedecer?
Entrou por conta própria na barraca do amigo, e viu que, de fato, ele estava chorando. Ele estava deitado, segurando uma lanterna contra o rosto, na esperança de afastar os monstros que habitavam a noite. E sem dizer nada, Stiles deitou-se ao seu lado e segurou firme em sua mão.
E de repente, Scott não precisava mais da lanterna.
[...]
— E você segurou minha mão até eu conseguir dormir... — respondeu, envolto em lembranças daquela noite. — claro que lembro, Stiles. Você foi minha lanterna naquela noite.
— Você pode ser a minha hoje, Scott?
Apagou o abajur e, em seguida, segurou forte a mão de Stiles.
— Sempre.
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