Flashbacks
5 Capítulo 5 (Dia 4)
Ryan acorda com uma batida na porta e não, ele ainda não estava pronto para ver ninguém ainda.
“Uh, Ryan... eu entendo que você esteja magoado e tudo mais, mas você precisa comer! Eu trouxe rosquinhas e café! Você deve estar sentindo o cheiro! É boooom” Bill falava do outro lado da porta, e Ryan solta um grunhido para si mesmo, pois o cheiro o faz se lembrar do quanto ele estava com fome. Porém, ele ainda não queria ver ninguém naquele momento. “São quatro da tarde, e eu não sei dirigir, se você desnutrir eu não vou poder fazer nada”.
Ele coloca um travesseiro em volta da cabeça para não escutar mais nada, mas ele consegue escutar, por mais que abafado, ele dizer ‘Eu tentei, acho melhor você ir’. Nesse instante ele se senta rapidamente na cama, prestando mais atenção. O que aquela criança tinha feito daquela vez? ‘Dá um jeito nele, por favor?’ Bill implorava para a segunda pessoa, que ainda não havia feito nenhum barulho. Ele então escuta uma porta se fechando, e a segunda pessoa se aproximando da porta do quarto.
“Ryan, dá pra abrir a porta? Ou eu vou ter que usar minha chave?” A voz circulava pelo quarto, e ele sentia a onda de alívio o bater.
Ele levanta e gira a chave na fechadura, achando Jon parado com um saco marrom e um café em mãos. Jon sorri ao ver o amigo, mas depois de analisá-lo um pouco, o seu sorriso começa a desaparecer lentamente.
“Nossa, é por isso que dizem que as ressacas de amor são as piores” ele não podia deixar a chance de fazer uma piada escapar. Ele então vê que Ryan não estava no clima para brincadeiras, então ele olha para o saco em suas mãos. “Lanche?” ele sorria novamente.
“Claro. Lanche” ele dizia com sua voz de zumbi enquanto pegava o saco e ia até a cozinha, com Jon o seguindo.
Ele sentava-se à mesa, devorando rapidamente a rosquinha, e seu estômago parecia agradecer a cada pedaço que ele engolia. Jon o observava preocupadamente, perguntando se ele ainda estava vivo por dentro, e não só por fora como parecia. Ele batia os dedos freneticamente na mesa, e Ryan se perguntava se ele estava ciente do que estava fazendo.
“Então... Bill te chamou, pra variar?” Ryan dizia antes de tomar um gole do café com leite.
“Ele ficou sabendo que eu sou bom com esse tipo de ajuda” Jon dizia com um sorriso de preocupação nos lábios. Ele podia ter chamado o Spencer, mas ele era honesto demais, como ele sempre é, e ele não precisava de honestidade agora. “O que está acontecendo? Eu pensei que você tinha superado tudo isso... Agora não é a hora de bancar a bicha sentimental”.
Ryan podia se sentir magoado com o comentário, mas ele deixa passar. “Cala a boca. Olha tudo o que ele fez! Ele perseguiu vocês, e ele mostrou tudo àquilo pro Brendon e-“.
“Me poupe! Todos nós já tínhamos uma ideia de tudo isso. Não foi nenhuma novidade” Jon o interrompeu, elevando o tom de voz de um jeito não agressivo.
Ryan ficou um pouco em silêncio, e depois terminava de mastigar a rosquinha. “E como o Brendon reagiu... quando ele leu?”.
Os olhos de Jon se estreitaram, e suas sobrancelhas se juntaram. “Ele ficou... No primeiro momento um pouco chocado, quer dizer, por mais que fosse óbvio para nós, para ele não era”. Ryan colocava a testa na mesa, soltando um longo suspiro, pensando em maneiras de cometer suicídio. “Ei, Ryan” ele cutucava a cabeça do amigo ‘morto’ e esperava ele levantar a cabeça e olhar para ele. “Depois ele ficou feliz. Ele tentou não transparecer, mas ficou. Ele ainda te ama, e eu não vejo a dificuldade que você dois têm com isso. Vocês se amam, pronto” ele erguia as mãos para cima.
“Não é tão simples” ele olhava para Hobo no chão, então a pegando no colo e acariciando seu pelo. “Eu sei quem eu sou. Eu vou magoar ele. Eu vou estragar tudo de novo. Eu sei” ele levanta, colocando o cachorro delicadamente no chão, logo depois indo até a pia descartar sua sacola dentro do pequeno lixo – o lixo era de um hotel que ele e Brendon tinham ficado juntos, e ele tentou não se lembrar daquilo.
“Olha” Jon levanta e fica do lado da figura magra perto da pia. “Você não pode prever o futuro. Ninguém pode. Eu só sei que você podia tentar, quem sabe-“.
“Jon. Eu não consigo. Não conseguiria vê-lo chorando de novo” ele se lembra rapidamente da lágrima escorrendo o rosto triste na sua frente, logo depois balançando a cabeça para afastar a memória.
“Suas desculpas não têm nexo, mas você que sabe. Eu não vou me meter. Eu só sei que ele pensou muito e... ele quer te ver, então é bom se decidir logo” ele pegava as chaves e o celular e ia em direção à porta. “Ah, pela última vez, não desconta no garoto. Ele não tem culpa nenhuma”. Ele então fecha a porta atrás de si mesmo, deixando o vento passar silenciosamente.
Ele não iria conseguir suportar a ideia de falar com qualquer pessoa no momento. Nem Brendon, nem Bill. Ele então se arruma e pega as chaves do apartamento.
***
O sol batia no seu corpo, por mais que ele não o pudesse sentir por baixo do tanto de roupa que ele usava. Daquele banco no parque, ele conseguia ver pessoas passeando, crianças correndo com seus balões, casais apaixonados, cachorros correndo atrás de bolas... Aquilo trazia a paz que ele precisava. Ele conseguia esquecer – nem que fosse por pouco tempo – os problemas que ele teria que lidar. Ele tinha mais dois dias com Bill e mais quatro para ficar na cidade – eles tinham dois shows locais para fazer. Ele teria que falar com Brendon cedo ou tarde, e agora tudo o que ele precisava era de sossego.
Uma criança em seus sete ou oito anos de idade se aproxima dele. Ela era loira, com o cabelo ondulado preso em duas chiquinhas. Ela se senta do lado dele no banco, e depois de uns instantes em silêncio ela o cutuca.
“Ryan? Esse é o seu nome, não é?” ela dava um sorriso enorme enquanto esperava a resposta.
“Sou sim. Qual é o seu?”
“Molly”
“Oi, Molly. Como sabe o meu nome?”
“Eu escutei uma música sua no rádio! Aquela ‘nine in the afternoooon, eyes of the size of the moon’” Ela cantava com os olhos fechados, e aquilo com certeza o emocionou. “Minha irmã ama vocês! Você pode me dar um autógrafo?” ela estendia um caderninho rosa e uma caneta azul com um pompom em cima.
“Claro!” ele assina na primeira folha, com um sorriso na face.
“Para minha fã número 1, Molly” ela lia em voz alta, logo depois abraçando o caderninho. “Obrigada, muito obrigada, Ryan!”
“De nada” ele não conseguia conter a felicidade em sua voz, observando enquanto ela levantava do banco.
“Ah, enquanto eu vinha pra cá, o seu amigo cantor, o Brenny, disse pra mim dizer pra você que... era pra você olhar para trás!” ela não conseguia conter pequenos risinhos enquanto caminhava saltitando para sua mãe, mostrando o caderno.
Ryan olha para trás e encontra Brendon, apoiado em uma árvore o esperando. Ele estava realmente perto, e Ryan se admirou de não o ter visto antes.
“Oi” ele falava e chegava mais perto, se sentando no mesmo lugar em que a menininha estava.
“Você... me seguiu?” ele se virava e colocava o cotovelo no encosto do banco, para ter total visão de Brendon.
“Por favor. Você me disse que gostava de ficar aqui uma vez há uns dois anos” ele abanava para uma criança que acenou para ele.
“Ah” ele volta a observar o parque, e uma criança estava brincando com uma pistola d’água, molhando todos que estavam ao seu redor. Ele costumava ser assim. Ele costumava ser inocente. Ele então procura uma saída, um motivo. “Eu tenho que ir. Eu deixei o Bill sozinho em casa, mas-”.
“Ele foi para uma livraria comprar uns exemplares para a escola, e depois foi visitar um amigo. Ele não vai voltar tão cedo, mas eu te levo até o apartamento” ele se levantava e esticava a mão, indicando para Ryan segui-lo. Ele tinha conversado com o Bill? Quando? Ele não queria companhia até em casa. Por que ele se voluntariou? Ele não queria conversar, queria?
O apartamento era perto, então eles decidem ir caminhando. O vento frio faz Ryan puxar a sua gola e o cachecol mais para cima. Ele pensa, vagamente, se Brendon perguntaria se ele estava com frio e o abraçaria. Mas ele não o fez, e nem tinha motivos para fazer.
“Brendon, eu não sei o que te disseram, ou o que você leu, quer dizer, não era pra ninguém ler”.
“Eu sei” ele não olha para Ryan, somente caminhando e olhando para frente.
Eles caminham em silêncio até faltar uma quadra para o apartamento.
“Sabe, eu fiquei surpreso” Brendon fala subitamente. “Eu não esperava aquilo vindo de... você. Eu pensei que a sua vida tinha se ajeitado, pensei... Que você tinha esquecido” ele ria para si mesmo, olhando rapidamente para Ryan e depois para o chão. Ele não tinha como responder àquilo. “Eu quero saber se é verdade... vindo de você”.
Ele não podia falar que era mentira. Ia ser óbvio em seus olhos, e ele tinha escrito tudo em um caderno que ele pensava que ninguém ia ler. Ele não poderia mentir. “É” ele falava rapidamente, com a voz trêmula. Ele umedece os lábios para ter uma desculpa para não desenvolver sua frase. Ele não tinha se preparado para essa conversa ainda.
“Ah” Brendon falava e olhava para o chão novamente, evitando pisar na divisão do piso. Desde que eles se conheceram, ele tinha essa mania. Era uma mania nervosa que, depois de um tempo, Ryan percebeu que não iria passar.
Eles chegam na frente do apartamento, ambos em silêncio. Ele não estava indo embora, e fitava Ryan apreensivamente.
“Quer... uh... tomar um chá lá em cima?” ele pergunta, já que ele não havia saído do lugar.
“Pode ser” eles seguiam para as escadas e entravam no apartamento em silêncio.
Ao chegar ao apartamento, Hobo pula nas pernas de Brendon, que fica na sala brincando com ela enquanto Ryan vai para a cozinha preparar o chá. Ao ferver a água, ele ria enquanto escutava ‘quem é essa linda’ e ‘é a hobo-hobo?’. Ele tinha esse dom com animais, ou com qualquer ser que se mexesse. Ele tentou até ser vegetariano por um tempo, mas para a sua infelicidade ele não conseguiu aguentar.
“Cuidado. Quente” ele colocava as xícaras em cima da mesa de centro, apontando enquanto falava. Ele sentou no sofá, esfregando as mãos e se acomodando. Brendon remove sua atenção da cadelinha e se senta na poltrona, suas pernas quase se encostando nas de Ryan pela proximidade dos móveis.
Os dois se esticam ao mesmo tempo para pegar as xícaras, e Ryan sente o frio da mão alheia, o que o fez estremecer um pouco. Ele se encosta no sofá novamente, assoprando o chá e o provando, que esquentou sua garganta e fez o calor percorrer seu corpo. Brendon só olhava para o seu com um ar preocupado.
“Eu não te entendo, Ross” ele dizia sem tirar os olhos do líquido marrom. “Eu dava qualquer coisa para entrar na sua cabeça” ele colocava o chá na mesa sem sequer prová-lo, dando um pequeno riso ao fazê-lo.
“O que você quer dizer com isso?” ele não entendia todo o drama que ele estava fazendo, ele nunca foi assim. O Brendon que ele conhecia era hiperativo, falante e impulsivo, mas nunca foi dramático desse jeito.
“Olha, eu vou direto ao ponto” ele se virava para Ryan, suas pernas se encostando. “Se você se sente daquele jeito, e eu acho que se sente, você deveria ter falado, quer dizer, é importante e eu me importo com você, eu devia ter perguntado, e isso não devia mais ser estranho para nós, e-”
“Brendon” ele falava secamente, intrometendo os pensamentos que ele estava tendo. Agora sim ele sabia com quem estava falando. Ele tinha ficado sem fôlego para terminar o que tinha para falar, e Ryan não conseguia ver nexo em todos aqueles pensamentos soltos.
Ele se acalma, abaixando o tom de voz e falando mais suavemente. “O que eu quero dizer é que... eu ainda gosto de você. Eu sei que sabe disso” ele se levantava e se sentava no sofá, do lado de Ryan. Eles permaneceram se olhando por alguns instantes, antes de Ryan olhar para o outro lado, em direção à cozinha.
“Eu ainda não-“ ele engolia um pouco de saliva e olhava para suas próprias mãos. “Eu não sei se-“ nesse tempo em que ele vira para olhar para o outro lado, Brendon o puxa e o beija.
Ele decide se entregar, procurando naquele instante tudo o que ele tinha imaginado em que eles tinham ficado separados. Não era nada daquilo; era, na verdade, muito melhor. Ryan vê novamente a necessidade de continuar em seus braços para sempre, de nunca sair do seu lado. O beijo agora era confuso, ambos tentando recuperar o tempo em que passaram sentindo falta um do outro. Ryan interrompe e olha os grandes olhos castanhos na sua frente. “Não” ele levanta, colocando as mãos na face. “Eu não posso. Não de novo”.
“Me poupe, Ryan” Brendon fica em pé e gira o corpo na sua frente para que eles possam se olhar diretamente. “Eu não entendo! Nós ainda nos amamos! Isso-“ ele coloca a mão gelada no peito de Ryan, e o frio o atinge, fazendo-o ficar arrepiado. “Isso é real. Eu sei que você quer. Pra quê complicar as coisas, é só-“ ele tenta se aproximar novamente, impedido pela mão que empurrava o seu tronco para trás.
“Eu sei quem eu sou. Eu vou te machucar, e eu não quero ver você triste de novo!” ele elevava o tom de voz e tentava conter a tristeza para si.
“Me escuta! Nós podemos dar um jeito!” ele estava gritando, sua face já vermelha e seus punhos cerrados.
“Não! Isso já é difícil pra mim! Não faz isso mais difícil do que já é... eu só quero que tudo fique como estava, é pedir demais?”
“Você não tem nenhum motivo pra querer fazer isso! Eu li. Eu li! Por favor!”
Ele sentia seu estômago revirar, e começou a ficar tonto. Ele tinha que tomar uma decisão rapidamente, uma decisão que ainda não estava pronto para revelar. “Bren... eu-“ ele falava um pouco mais suavemente.
“Quer saber? Eu desisto! Eu-” ele interrompe a frase para olhar para seu celular que tremia no bolso. Era Rob, o produtor. “Não é um bom momento. Sei, as faixas alternativas. Ah, verdade? Eu não preciso perguntar pra ninguém, pode tirar Northern Downpour!” ele colocava o telefone de volta no bolso, se virando em direção à porta.
Aquela música era especial para os dois, eles a escreveram juntos, com significados que só eles entendiam. “Ei, pra quê tudo isso?”
“Tchau, Ryan. Boa sorte com sua vida cheia de ilusões.” ele já havia aberto a porta, colocando o casaco enquanto saía.
“Espera, Bre-“ a porta já tinha sido fechada, com muita força. Ele escuta os passos pesados descerem o único lance de escadas que ele teria que descer.
De repente, o silêncio chega e ele se sente completamente sozinho. A noite começava a aparecer, e o sol não era mais visível no céu laranja. Ele não sabia o que tinha acontecido, ou o que viria a acontecer, nem o que ele deveria pensar sobre o assunto. Ele amava Brendon, mas o pensamento de magoá-lo um dia consumia seus pensamentos. Ele o amava demais para tê-lo. E isso soava incrivelmente idiota em sua mente.
Ele se move morbidamente até a cama. Se Bill chegasse, ele tinha chave e comida, e ele sabia da regra – não entrar no meu quarto se a porta estiver fechada. Ele se deitava na enorme cama, sozinho. O teto branco parecia interessante enquanto ele pensa em como teria sido se ele aceitasse a oferta de Brendon. Ele pensa no que teria sido da banda se eles tivessem continuado.
Acontece que ele não se importava com a banda. Só tinha uma coisa com o que ele se importava.
Ele se cobre com o cobertor enquanto passa a noite pensando no passado e se remoendo sobre o seu futuro.
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