Flashback (HIATUS)
8 O sim
Notas iniciais
Após os nossos lábios se descolarem, eu olhei bem fundo nos olhos dele. Olhei para a alma. Para a sinceridade daquele beijo que não durara mais que dois minutos.
Algumas horas corriam em nossos relógios e marcavam exatamente 19:35. Minha mãe ia ficar furiosa, mas isso não ia me abalar. Não mesmo.
Muitos vagalumes piscavam alegres na janela, alertando que uma noite fria estava se aproximando.
– Nem uma palavra — Hiroshi se levantou e andou calmamente até a porta. Eu fiquei ali de bruços sobre a mesa, pensando em quando eu já fora tão feliz quanto aquele dia.
*FLASHBACK ON
"Por ali Asayo. À esquerda. Primeira porta. Devagar por favor." Foi o que o professor disse ao pedir que eu levasse os cadernos de resposta para a sala dos professores. Ainda antes do Hiroshi. Quando eu ainda estudava em minha cidade natal. Eu tinha Yuu como amiga e como paixão o Yuki. Uma paixão platônica, mas mesmo assim uma paixão. Desde os cinco anos eu era iludida pela minha mente.
Eu estava correndo com os cadernos apoiados nas dobras dos braços e o corredor praticamente vazio. Apenas alguns alunos do colegial andando por lá.
Virei a esquerda e esbarrei em um garoto. Cabelos ruivos, porém mais escuros que os meus. Os cadernos estavam voando pelo ar e meus óculos foram direto ao chão, tendo suas lentes partidas pelo impacto. Os lábios se tocaram e se separaram em uma fração de segundo. Ele caiu sentado e eu cai de costas sobre as pernas dele.
– Ai! Ai! — ele estava esfregando a cabeça e como minha sorte é das melhores, quem estava sentado ali era o Yuki.
– Desculpa! Foi... Foi sem querer — eu disse já recolhendo os cadernos.
– Ah. Tudo bem — ele fez uma careta.
Levantei e corri com os cadernos para longe.
Foi o mais próximo de primeiro beijo que já tive.
*FLASHBACK OFF
Bem... Agora fora oficialmente o meu primeiro beijo. Sem quase-beijo.
Levantei-me e andei até a saída, sussurando para o ar — Nem uma palavra.
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Um frio desanimador tentava passar pelas frestas da janela. Eu estava trancada no quarto e um pequeno filete de luz passava por baixo da porta, fora isso, escuridão total. Aquela luz não iluminava mais que o branco do carpete. Alguns dos bonecos florescentes brilhavam em verde, azul e prateado sobre a estante. O sono batia na porta, porém era barrado pelos desesperos e alegrias daquele dia. Havia acabado de chegar em casa.
Asaki abriu a porta e entrou junto com a luminosidade do corredor. Sentou-se à minha frente e cruzou as pernas — Quero que me conte tudo.
Bem eu sabia que ela tinha mais experiência que eu nesse aspecto, mas o orgulho e respeito que a idade me concediam, trancaram as palavras em minha boca.
– Não hoje, garota-sedução — eu a empurrei levemente para trás — Não precisa ficar sabendo.
– Ah! Mas, Asayo! — ela fez um biquinho — Eu sei que hoje você está diferente — ela falou gesticulando e, com o canto da boca, continuou -, que dia não está né.
– Então pois bem engraçadinha — eu a levantei e empurrei na direção da porta — Hora de dormir — eu me deitei e esperei ela fechar a porta.
Os olhos realmente pesaram um pouco e a minha última memória enquanto consciente, foi o beijo que recebi de Hiroshi. As pálpebras se fecharam e cai em um sono profundo.
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– Saia daqui Asayo — ele se virou para a janela que dava para o pátio.
Eu ainda estava tentando falar com o Hiroshi sobre o que tinha acontecido no dia anterior e ele não facilitava. Quase me fazia acreditar que nunca tivera acontecido.
– Então você... — lágrimas molharam as minhas bochechas e eu solucei — Você... Você me beija e não quer saber de mim? Seu idiota! Ainda acreditei que era sincero! — eu comecei a chorar abertamente no meio do corredor que estava abarrotado de gente àquele horário, mas não me importei — Acho que não posso confiar em você! — gritei. Depois daquilo ele me olhou assustado e eu levantei a mão para o estapear, mas ele foi mais rápido e segurou meu pulso. Livrei-me bruscamente dele e então fui andando até as escadas.
– Nem uma palavra, seu idiota — eu subi os degraus e deixei meus óculos cairem, porém não me importei e continuei subindo.
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O porão do ginásio estava escuro e organizado, mas as minhas lágrimas caíam sobre o chão batido e levantava a poeira.
– Idiota, idiota, idiota! — eu soquei a parede com força e não vi um gancho que estava pregado lá que cortou a palma da minha mão. O sangue quente escorreu lentamente e fez apenas mais lágrimas irromperem. Eu me escorei na parede, chorando como nunca antes, e escorreguei lentamente até ficar com a cabeça entre as pernas.
Escutei o som alarmante da porta sendo aberta e uma voz banhou a sala — Você esqueceu isso — e então silêncio. Nada, a não ser os meus soluços, faziam som.
– Vai me ignorar mesmo? — os passos dele faziam um som abafado na sala.
Senti uma mão alcançar meu queixo e então levantar meu rosto. Quando abri os olhos, o rosto dele estava a alguns centímetros do meu e ele não pareceu se importar com a minha cara de choro. Colocou os óculos vagarosamente no meu rosto e juntamente com isso um selinho foi depositado nos meus lábios — Você esqueceu isso também.
Antes que eu tivesse reação escutamos a voz do professor de educação física — Deixaram a porta aberta de novo — Hiroshi se jogou em cima de mim e ficamos ali deitados.
– E-ei... — eu tentei dizer, mas ele colocou o dedo sobre os meus lábios.
Escutamos o som da porta sendo fechada e ele saiu de cima de mim. Eu também me levantei e bati a poeira das minhas roupas.
– O que foi isso na sua mão? — ele perguntou enquanto caminhava até a porta.
– Nada — eu estava ficando louca. Alguma coisa crescia dentro de mim e me deixava de um jeito que nunca estive antes. Deixava-me atiçada, furiosa. Eu quase sentia raiva de todo aquele sentimento que eu guardava, mas mesmo assim eu estava louca para pular sobre o Hiroshi.
Ele andou até a porta e tentou a abrir — Trancada!
Ele se virou para mim, porém eu já estava correndo na direção dele. Pressionei ele na porta e colei o meu corpo no dele — Esses beijos — eu comecei -, foram um pedido de desculpas por todos os anos que esteve fora? — eu o apertei ainda mais, deixando nossos narizes grudados. O fato dele ser mais alto, dificultava, pois eu era muito baixa — Ou um pedido de namoro? — mantive meus olhos de encontro aos dele. Os meus determinados e os dele assustados.
– E-eu — ele gaguejou e vi uma gota de suor escorrer pela testa dele — Asayo...
A gota desceu pela bochecha dele e parou exatamente sobre meus lábios, o que me deixou ainda mais excitada — Esse é o meu sim — eu empurrei mais ainda meu corpo contra o dele e senti a porta se envergar sob o peso. Envolvi o pescoço dele com os braços e o beijei. Um beijo daqueles que só se vê em cinema. Voraz, determinado e selvagem. Um beijo que eu nunca daria.
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