Flanco Branco

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Alerta de gatilho: Depressão e suicídio Essa é uma abordagem mais séria do mundo das pôneis, onde elas têm problemas de discriminação parecidos com o mundo real. Esta fanfic está disponível em forma de áudio no SoundCloud e no MixCloud: SoundCloud: https://soundcloud.com/janus-c/flanco-branco MixCloud:https://www.mixcloud.com/laís-lyra-hatencia/flanco-branco/

“Desde o momento em que as pequenas pôneis aprendem a falar e galopar, elas são ensinadas sobre as cutie marks. Gravada sobre o flanco, ela é um sinal que a diferencia de todos os outros pôneis que existem ou já existiram. Ansiosas, as potrinhas esperam o momento em que finalmente descobrirão seu propósito no mundo, seja ele alegrar outros pôneis, ser uma pilota profissional ou costurar vestidos.

O que aconteceria se esse momento nunca chegasse? E se eu dissesse que, na verdade, essa é a realidade de muitos pôneis ao redor de Equestria?

Marginalizados, menosprezados, invisíveis aos olhos das massas. Essa é a vida dos eternos flancos brancos, que permaneceram por muito tempo espalhados por Equestria, sem saber da existência uns dos outros. Por meio deste livro, a autora busca lançar alguma luz sobre este assunto que se tornou um tabu em nossa sociedade.”

Passo o casco pela capa do livro, admirando o encadernamento brilhoso. A primeira edição foi finalmente impressa, e eu mal posso acreditar no que estou vendo diante dos meus olhos. Toda a luta para encontrar uma editora que aceitasse publicar o livro, o trabalho árduo de escrever e revisar tudo. Valeu a pena.

Por muito tempo eu permaneci escondida, achando que era a única que ainda tinha o flanco branco até depois de adulta. Na escolinha, presenciei todas as minhas colegas ganharem suas marcas e sair as exibindo por aí, menos eu. Os adultos me diziam que era uma questão de tempo, que eu não precisava me apressar… Mas eu esperei, esperei, esperei e a marca especial nunca veio.

O que aumentou foi apenas a vergonha de sair por aí com o flanco branco, enfrentar os olhares. Eu era uma adolescente com sérios problemas de autoestima. Passei a vestir sempre alguma coisa para não deixar a parte de trás do corpo à mostra, tudo para não deixar transparecer que, por dentro, eu estava uma bagunça.

Ainda assim, eu não podia deixar de tentar. Mudei para Canterlot, entrei para a faculdade, comecei a estudar para ser veterinária. Os animais não tinham marcas especiais, eram as únicas criaturas que me entendiam e me ajudavam a superar os tempos de crise, por isso pensei que trabalhar com eles seria o meu emprego dos sonhos.

A vida não era fácil na cidade grande. Consegui um emprego como garçonete para ajudar a pagar as contas mas, quando dei por mim, estava cansada e ocupada o tempo todo, afastada das coisas que mais amo. Minha colega de apartamento só falava comigo quando nos esbarrávamos no corredor, e eu não tinha amigos na faculdade. Comecei a tirar notas ruins e elas bastaram para me fazer entrar em uma depressão cada vez mais profunda. Eu matava aula, não conseguia levantar da cama. Comecei a acreditar que aquela carreira não era pra mim.

Tranquei a faculdade, planejando retomá-la quando estivesse melhor, mas não tinha coragem de voltar para minha cidade natal e admitir a meus familiares que eu tinha falhado. Continuei no meu emprego, mesmo sendo mal paga. No momento em que minha chefe descobriu que eu tinha flanco branco e tinha largado a faculdade, começou a tirar vantagem de mim. Dizia que eu não prestava, que se largasse o emprego ninguém mais ia me querer.

Essa foi a pior fase da minha vida, e foi durante ela que aconteceu a reviravolta mais importante.

Voltando do trabalho uma tarde, ignorando a cidade cinza e desejando chegar logo em casa, ouvi alguém gritar do alto de uma construção.

“Vocês falharam!”

Era alguém gritando, pendurado da sacada de uma torre.

“Sociedade, você falhou! Você falhou com todos nós!”

Os pôneis começaram a se juntar ao meu redor. Eles olhavam para o alto do edifício e gritavam, tentando convencer o pônei a não pular. Eu não conseguia falar nada. Observei enquanto o pônei dava o seu último passo e caía em direção à morte certa. Quando se esparramou no chão à minha frente, também não consegui reagir. Olhava para tudo em choque, até que os bombeiros chegaram para me levar para outro lugar.

Havia apenas uma coisa em minha mente: Aquele pônei também tinha flanco branco.

A notícia estava em todos os jornais na manhã seguinte. Falavam do suicida sem marca da noite anterior, e eu ficava imaginando se esse teria sido o motivo que o levara até ali.

Faltei ao trabalho, deixei o emprego inteiramente. Voltei para a casa da minha mãe e expliquei para ela o que tinha acontecido. Ela me aceitou de volta em casa, e eu tive que lidar com o sentimento de ter voltado à estaca zero.

Apesar de tudo, eu não me sentia mais derrotada, pois eu tinha achado alguém que era igual a mim. Se havia um pônei, provavelmente havia muitos outros dos quais eu não sabia, esperando para serem encontrados, e que, assim como eu, precisavam saber que não estavam sozinhos.

A minha mensagem precisava ser compartilhada, e isso me deu um novo fôlego de vida.

Comecei a procurar e me conectar com outros pôneis de flanco branco. Queria formar uma rede de apoio, através da qual nós pudéssemos encontrar semelhantes e ajudar uns aos outros.

Foi através deles que fiquei sabendo que muitos flancos brancos procuram clínicas clandestinas para tatuar uma marca ou passam a vida inteira se escondendo, fazendo maquiagem para se encaixar.

Foram muitas sessões em grupo, muitas conversas que tive com outros pôneis para poder contar a história deles em meu livro. Dentre todas essas conversas, uma delas se destacou. Eu estava conversando com a pônei que hoje em dia é minha noiva. Ela disse:

“Minha vida mudou a partir do momento que passei a encarar a minha falta de marca não como uma limitação, mas como um leque de possibilidades infinitas.”

O que eu queria que todos os flancos brancos por aí entendessem é que não é uma marca que te faz mais ou menos especial. É legal ter uma marca, assim como é legal ter uma tatuagem indicando uma parte de sua personalidade em seu corpo, mas a marca, por si só, não faz um pônei melhor ou pior do que o outro.

A verdade libertadora é esta: ser um flanco branco significa que o seu destino não está gravado em rocha. Você pode ser quem você quiser, passar por mudanças, gravar o seu próprio destino. Uma vez que entender isso, vai ser muito mais fácil encarar os desafios do dia a dia com um sorriso no rosto. Nós, flancos brancos, temos um nível de conhecimento pessoal que a maioria dos pôneis nunca sequer sonhou em ter.

Escrevo isto de madrugada. O sol começou a raiar e as velas que utilizei para escrever durante a noite estão chegando ao fim. Hoje é o dia oficial do lançamento de meu livro.

Levanto de minha escrivaninha e saio de casco dado com minha noiva, formada em psicologia e logo minha esposa. Nos tornamos colegas de curso. Daqui a um ano, serei eu a me formar.

Enquanto isso, saio para o mundo anunciando a mensagem que não pode esperar. Ela tem de ser ouvida por todos os pôneis através de Equestria, não só pelos flancos brancos como também os pôneis comuns. Fazemos isso para que, no futuro, nenhum flanco branco tenha que passar pelo que nós passamos.

Notas finais
Curiosidade: Essa fanfic a princípio foi planejada como um crossover de Umbrella Academy, em que Vanya acreditaria ser uma pônei de flanco branco até descobrir que mentiram pra ela o tempo todo. No fim acabei achando que a história permaneceria essencialmente a mesma, então não tinha porque recontá-la deste jeito. O meu headcannon sobre o mundo de MLP é que lá ser uma "pônei lésbica" é super comum, já que por volta de 80% dos pôneis são fêmeas. É isso ou elas são poligâmicas. Aquele episódio do Bic Mac com a Cherilee nunca vai me convencer de que a proporção de pôneis machos e fêmeas é similar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!