Flamel
19 Suspeitas
Notas iniciais
— Suditos? Então quer dizer que você é o falso rei? – Disse um dos invasores.
— Ryan, fique um pouco atrás de mim, agora que eu cometi a burrice de revelar sua identidade pra eles, nenhum deles pode sobreviver. – Esbravejou Amohi em tom protetor.
— Vamos pra cima deles, usarei minha velocidade e … – Sou interrompido por um clarão rubro e vários gritos.
— Relaxa, deve ser a Mary, vamos cuidar desses aqui, sim? – Disse Amohi percebendo minha cara de preocupação.
Depois de suas palavras, Amohi foi correndo e jogou três deles para o ar. Ilumi desapareceu do meu lado e reapareceu atrás dos homens que estavam mais próximos do buraco da muralha.
Dois deles vieram em minha direção, me concentrei pra ser mais rapido do que eles poderiam ser. Um deles começou a se mover em minha direção, e depois, o outro tentou me surpreender com um ataque lateral. Amohi e Ilumi apareceram e defenderam esses dois ataques.
— Olha pra sua esquerda! – Gritou Amohi.
Quando olhei, um terceiro invasor estava pronto para soltar um Tyfah On Cruxim em todos nós. Percebo que não sou rapido o suficiente para soltar algum contra golpe nele e não posso contar com Amohi para segurar todo o dano. Droga, eu sou inútil. Num piscar de olhos, um borrão rubro golpeia o terceiro invasor que caía inerte.
— M-mary? – Gaguejou Amohi.
— Amohi, você não o treinou direito, ele não conhece as estratégias mais comuns. – Disse Mary em tom de decepção.
— Me desculpe, tivemos pouco tempo para treinar.
— Ryan, vá para dentro, terminaremos aqui. – Disse a Ruiva.
…
Alguns minutos depois, os invasores que sobraram, eram escoltados até a prisão para interrogatório.
Depois de retornar ao meu quarto, todos os meus pensamentos se organizaram e eu notei que devia me esforçar muito mais para ser mais independente em batalha. Sei que tive pouco treinamento, mas eu devia mostrar mais força e mais segurança a todos que se apoiam em mim.
*toc toc*
— Majestade, sou eu. – Disse uma voz atrás da porta, logo reconheci como sendo a de Ilumi.
— Pode entrar. – Mudei de posição e me sentei na cama.
— Amohi disse que vossa majestade estaria aqui. Vim conversar sobre o que aconteceu hoje.
— Me chame de Ryan. – Disse enquanto sorria.
— Me desculpe, R-Ryan. Percebi que você ficou meio perdido durante a batalha e que você se esforça pra ser forte para todos, mas você não devia jogar esse fardo inteiro nas costas. Sim, eu analisei você durante a batalha.
— Entendi, mas desde pequeno eu tenho essa mania idiota, fazer o que né? – Digo esboçando um leve sorriso.
— Não é tão dificil assim resolver, você pode contar comigo, confiar em mim, pois farei de tudo para atender suas espectativas.
Essas palavras me pegaram de surpresa, pude ver sinceridade no olhar dela, pude ver que ela estava comprometida em me ajudar a passar por essa minha insegurança. Sei que posso contar com ela, mas há algo que eu desconfio, algo que ela esconde.
— Eu sei disso, pode deixar que eu te procuro quando precisar. Muito obrigado. – Sorri.
— Obrigado pelo voto de confiança, Ryan. Bom, já vou indo, provavelmente Amohi está do outro lado da porta esperando minha saída. Boa noite Ryan. – Disse Ilumi enquanto se dirigia até a porta.
Me despedi de Ilumi com um aceno de cabeça. Logo que ela saiu, Amohi entrou me perguntando sobre o que conversamos. Depois de eu lhe falar, ele ficou pensando no motivo que ela tem para ser tão gentil comigo.
— Ryan, o que você fez que a Ilumi saiu tão cabisbaixa daqui?
— Nada demais. Espera, ela perdeu os pais, não foi? O que você sabe sobre isso? – Perguntei.
— Só o relatório oficial. Se não me engano, ela perdeu os pais quando a guerra civil na capital estourou.
— Sabe quantos anos ela tinha quando isso aconteceu?
— Mais ou menos na mesma idade que você perdeu os seus, só sobrou ela e o irmão, mas infelizmente o irmão morreu a uns meses durante um conflito com a resistencia.
Acabei de fazer uma estupidez. Desconfiei da boa vontade dela, sendo que, provavelmente, ela só queria ter alguém que compartilha da mesma dor que ela. Meu julgamento foi ofuscado pelos traumas que vivi. Ela só queria ter alguém pra conversar.
— Como eu sou burro. Amohi, sei que o quarto também é seu, mas preciso de um favor. Chame Ilumi aqui e diga que quero conversar com ela. – Disse enquanto coçava a nuca com um sorriso desconcertado no rosto.
— Sem problemas, mas não façam nada na minha cama, ok? – Amohi soltou uma bela risada enquanto saia do quarto.
Depois de alguns minutos, Ilumi estava no meu quarto com os cabelos umidos de um banho recente. Ela aproveitou para trocar sua roupa, estava com uma blusa preta folgada, uma calça azul que a textura lembrava a jeans e um sapato preto fechado.
— Ryan, mandou me chamar? – Perguntou Ilumi enquanto entrava em meus aposentos.
— Sim, me desculpe por duvidar de você, sempre fui muito desconfiado com tudo e todos. Amohi me contou como você perdeu seus pais e seu irmão. Provavelmente você queria alguém pra conversar e eu suspeitei da sua boa vontade. – Meus olhos fitavam o dela com muita sinceridade.
— Eu te entendo, Ryan. Por termos um passado parecido, eu também desconfiaria se alguém chegasse perto de mim do jeito que cheguei, me desculpe. Vamos recomeçar? Prazer, meu nome é Ilumi, que significa luminoso, meus pais me deram esse nome pela cor do meu cabelo.
— Prazer, meu nome é Ryan, não sei o que significa, mas meu pai colocou esse nome em mim para homenagear um ator que ele era muito fã. – Disse enquanto Ilumi tentava não rir.
Depois desse inicio, nossas conversas começavam desde o inicio do dia até o anoitecer. Perdi as contas de quantas vezes Amohi nos expulsou do quarto para dormir. Um mês e meio se passou desde a ultima vez que soube algo de Mary, felizmente foi no dia em que conheci Ilumi.
Passeamos por aqueles salões conversando e falando sobre os amigos que tivemos, desejando tê-los de volta. Em poucas semanas, Ilumi me ajudou a esquecer um pouco dessa dor que Mary deixou no meu peito. Engraçado que ela não diminuiu a intensidade dos treinos, mesmo eu sendo amigo dela. Será que ela se sente tão bem comigo quanto eu me sinto com ela?
— Ryan, vamos além do muro? Quero te mostrar algo. – Indagou Ilumi com um lindo sorriso no rosto.
— Tem certeza que é seguro? Sei que os guardas não veem invasores faz tempo, mas nunca se sabe, né?
— Está com medo? Qualquer coisa, levamos Amohi junto, pode ser? – Ilumi apontava para o grandalhão jantando na mesa do grande salão.
E assim o trio se foi para a floresta que se encontrava na frente daquela fortaleza. Estava um pouco mais frio que o habitual. Algo me dizia que o frio de doer os ossos era algo por volta de 10-20 graus negativos.
— Ilumi, estamos perto? Ta frio aqui fora. – Indagou Amohi.
— Sim, só falta uns cinco minutos de caminhada.
Ilumi estava sorridente e bastante animada. Mesmo debaixo daquela roupa pesada de frio, dava pra ver suas bochechas rosadas de animação. Isso me animou como eu não ficava a tempos. Em alguns momentos, eu e a loira trocávamos olhares e sorrisos, até que um deles me disse que o lugar estava muito próximo.
— Amohi, preciso que você fique aqui.
— Só o rei me dá ordens. – Disse Amohi sorrindo com um tom de “Quem ela pensa que é pra mandar em alguma coisa aqui?”.
— Amohi, fique aqui só um pouco, daqui a 10 minutos, vamos embora, ok? Fica tranquilo – Disse enquanto dava uns tapinhas no ombro dele.
Ele não tinha muita escolha, então concordou.
— Ryan, o que quero te mostrar está logo depois desses arbustos, você não vai se arrepender.
Assim que demos alguns passos, meus olhos são preenchidos com a bela imagem de um lago no meio da floresta. A luz das luas de Jandar banhava e iluminava todo o redor. Agora entendi o verdadeiro significado do nome de Ilumi.
— Nossa esse lugar fica mais bonito a noite. – Disse ela enquanto me guiava para uma das beiradas.
— Realmente, esse lugar traduz o significado do seu nome. – Sorri.
Ilumi ruborisa e fica de costas pra mim admirando a luz que reflete na agua. Vejo aquela silhueta que, mesmo naquele uniforme chama muito a atenção. Sinto-me cada dia mais atraído por ela. Não posso me deixar levar por esse sentimento que está nascendo dentro de mim.
— Ryan, venha aqui, é muito bonito. – Disse ela no outro lado da margem, provavelmente ela usou sua especialidade pra chegar lá tão rapido.
Faço o mesmo e logo estou do outro lado do lago. Chegando lá, percebo qual a beleza que ela falou. Toda a luz ia em direção aos seus olhos na cor violeta e eles me olhavam com tanta intensidade, tanta simpatia e paz. Fui cada vez mais puxado por esse magnetismo e quando percebi, estava muito próximo de tocar seus lábios. Seu rosto estava ruborisado e sua pele emanava um calor muito aconchegante. Senti uma sensação horrível de desespero e uma vontade de fugir dali.
— Ryan! Cuidado! – Gritou Amohi da outra margem.
— Korir Eligor! – Disse para invocar minha flamel.
Assim que minha lança se materializava na minha mão, pude defender o ataque de uma sombra encapuzada que vinha da floresta. Nesse ato de defesa, consegui ferir seu braço. Assim que seu ataque surpresa falhou, ele voltou para a floresta. Ilumi que por algum motivo, estava em choque. A protegi até o momento que Amohi chegou onde estávamos.
— O que aconteceu com ela? Até agora pouco ela estava bem. – Perguntou Amohi.
— É, também não entendo. Vamos tira-la daqui podem haver outros inimigos aqui. – Disse enquanto a segurava nos braços.
Eu e Amohi adentramos na mata. Deixei minha flamel com o grandalhão e deixei minha habilidade ativa para caso um outro ataque surpresa ocorra. Pouco mais a frente, somos cercados por mais cinco soldados empunhando suas flamels. Novamente o inimigo surge das sombras para tentar me atacar, sua visão é ofuscada quando Amohi lança um sinalizador para avisar a base.
— Ryan, deixe ela comigo e salve-se, todos nós somos descartáveis aqui, não você. – Disse Amohi enquanto suas mãos apertavam mais e mais sua flamel.
— Jamais, não deixarei que meus amigos morram! – Sinto a energia de Eligor fluir no meu corpo de uma forma muito intensa.
Segundos depois, me movo e ataco de forma tão rápida nossos atacantes que, quando dou por mim, eles já estão mortos, com exceção de um que fugiu na direção do lago.
— Vou atrás dele! – Disse, mas Amohi foi mais rápido e me impediu.
— Não vai, é arriscado demais! E quanto menos pessoas descobrirem sobre seu cabelo branco, melhor.
— Meu cabelo mudou? – Perguntei.
— Sim, parece que agora tá mais fácil de você ficar nessa forma, não é?
— Com certeza, senti a Eligor passando uma grande quantidade de energia para o meu corpo.
— Vamos leva-la daqui, precisamos voltar logo. – Disse Amohi pegando Ilumi no colo.
— Relaxem meninos, eu estou bem, acho que só fiquei sem reação por fazer o Ryan passar perigo.
— Mesmo assim, vou pedir para um médico checar você, ok? – Falei enquanto acariciava sua cabeça.
Amohi a colocou no chão e nós corremos em direção a fortaleza. No meio do caminho, encontramos Galter com o braço levemente ferido e seu cavalo. Outros soldados da resistencia estavam vindo logo atrás dele.
— Vim para essa localização assim que pude. Majestade, você está bem? – Disse Galter.
Noto um ferimento no braço dele, muito parecido com o que minha flamel acabara de fazer num dos atacantes.
— Galter, você está ferido? – Amohi perguntou.
— No caminho pra cá, encontrei um desses bastardos e um deles foi sortudo e me feriu. – Galter falava e ao mesmo tempo escondia seu ferimento.
— Ryan, tenha cuidado com esse homem, ele não parece estar sendo sincero com você. – Disse Eligor em um dos momentos raros que fala comigo na minha cabeça.
— Obrigado pela dica Eligor. – Disse baixinho.
Olhei para o ferimento de Galter e logo serrilhei os olhos.
— Levem Ilumi para a fortaleza e peça para que um médico a analise. Ela ficou em estado de choque durante a luta. Faça um checkup das condições psicológicas dela. – Disse Amohi a um de seus subordinados que logo chegava.
No caminho para a fortaleza, percebi o quão estúpido eu fui. Devia ter levado uma quantidade de homens para assegurar não só a minha proteção como a de Ilumi também. Recentemente ela perdeu o irmão e provavelmente ela ficou em estado de choque com medo de me perder. Droga, não consigo fazer as coisas direito.
Assim que adentramos nos salões, eu e Amohi fomos para o nosso quarto e conversamos.
— Você percebeu como Galter estava adiantado? Mesmo os outros cavalos estavam muito longe dele. Para que ele chegasse tão rapido assim, ele tinha de estar por perto. – Indagou Amohi.
— Vi que o ferimento no braço dele é do mesmo tipo que eu fiz a um dos homens que estava na emboscada. A história que ele falou sobre ter sido atacado não parece ser veridica também, pois o único que sobrou foi na direção ao lago e ele estava vindo do castelo que é na direção oposta.
— Será que Galter é um agente duplo? – Perguntou Amohi de forma retórica.
— Desde a primeira vez que eu o encontrei, tive essa sensação ruim vindo dele. Como se ele escondesse algo de todos. Espera, se ele é um agente duplo, Mary corre perigo!
— Ela sabe se cuidar, primeiro, precisamos de provas. Tudo que temos é uma suspeita contra um soldado de alta patente. Fique tranquilo quanto a isso, vou deixar alguns dos meus agentes de confiança de olho nele, ok? Vamos dormir, amanhã começaremos nossa investigação.
— Boa noite, Amohi.
Mesmo com ele me dizendo para ir dormir, não pude parar de pensar na noite e em como isso me pareceu muito suspeito. Galter é muito mais forte que isso, será que ele queria testar minha habilidade ao invés de me assassinar ou sequestrar? Se ele for um agente duplo, não podemos deixar ele suspeitar que pensamos isso. É, vai ser mais dificil do que eu imaginei.
Fale com o autor