Flamel

17 Recepção Imatura


Notas iniciais
Olá, mais uma vez vindo de um hiato. Peço desculpas pela demora que já faz parte de meu cronograma. Nesse capítulo, Ryan conhecerá um pouco mais do noivo de Mary e perceberá que ele não é tão bom moço quanto ele demonstra ser na frente de todos. Boa leitura!

Depois que passo por aqueles portões imensos, noto que aquela fachada medieval era bem enganadora. A arquitetura Jandariana era muito parecida com a da terra, mas tinha algumas diferenças de tamanho e material. As casas eram menores e de pedra maciça que foram entalhadas por dentro e por fora, dando a aparência mais bruta. As janelas e portas eram feitas de madeira em um formato arredondado. A maioria das construções era assim, não passavam de dois andares, provavelmente por causa do peso. Algumas tinham muretas feito de um tijolo avermelhado O chão que eu pisava era feito com o mesmo material dos muros.

— Tem certeza que estamos em Jandar? Tudo aqui parece muito com a terra. – Indaguei.

— Quem você acha que ensinou o básico do básico para os humanos? – Disse Amohi enquanto nós caminhávamos para nosso próximo destino.

— Como assim?

— A muitos anos, nós vamos para cada planeta humanoide e compartilhamos nossa sabedoria com eles. Claro que depois de várias gerações, tudo que ensinamos muda para se adequar com a necessidade de cada planeta. – Respondeu Amohi.

— Chegamos. – Disse Galter.

Paramos em frente a casa mais simples de todas daquela rua. Era a menor e estava mal conservada. Sua porta estava de uma forma que ia cair aos pedaços a qualquer momento. Galter foi na frente e logo depois eu fui seguido pelos outros. A casa só tinha um cômodo vazio e mal iluminado pela tocha de Amohi.

— Estamos prontos. – Disse Mary.

Logo um feixe de luz intenso percorre o ambiente e surgimos em um tipo de palanque no meio de um salão enorme no formato retangular com várias colunas percorrendo todo o lugar lembrando um templo da Grécia antiga. Várias pessoas estavam ali, todos uniformizados com uma roupa cinza com o símbolo de uma flamel negra no peito esquerdo e no ombro.

Assim que me viram, todos se ajoelharam e curvaram suas cabeças. Acenei para que se levantassem e fiquei bastante sem graça, pois não há como se acostumar com esse tipo de tratamento.

Galter foi abrindo espaço por aquela multidão que me recebia calorosamente como se eu fosse sua última esperança. Depois de seguir por alguns corredores, Amohi e eu ficamos para trás pois dividiríamos o mesmo quarto. Mary e Galter logo desapareceriam da minha vista em meio as sombras daqueles corredores.

— Ryan, trate de descansar, amanhã será um dia intenso. Te colocarão no teste de afinidade com Falir e um teste físico. Não fique preocupado, não vai doer, mas é para os preparativos da tomada do trono começarem. – Disse Amohi se jogando numa cama que havia ali

— Fique tranquilo, já suspeitava que isso começaria o mais cedo possível. Mary é noiva daquele cara a muito tempo?

— Todos percebemos que você ficou bastante incomodado ao saber da notícia. Pensei que ela tinha te contado antes. Sinto muito. A história deles é um pouco complicada. Como você sabe, Mary não é lá muito sentimental, mas eles são amigos de infância e a família deles os juntaram pra continuar a linhagem.

— Que droga, sou tão transparente assim? Mas eles se amam de verdade? – Indaguei

— Mary ficou um pouco incomodada quando ele a beijou. Não sei se foi por ser em publico ou se tem mais coisas no meio. Mais fácil tirar suas dúvidas com ela, não acha? Concentre-se no amanhã. Ba noite.

— Boa noite, obrigado Amohi.

Não quis falar com ninguém sobre o que eu senti, foi uma sensação muito ruim. Meu peito ainda estava preenchido com aquela dor lacerante que cada vez mais seguia em direção ao meu coração. O jeito que Mary me tratava na Terra pode ter sido um jeito dela tentar me convencer de vir para Jandar, mas eu via naqueles olhos castanhos e densos, uma verdade, um sentimento se aflorando. Não sei se era impressão minha, mas me recuso a acreditar que foi tudo em vão. Depositei uma parte de mim no relacionamento com ela. Não foi em vão…

— Ryan, acorda. Já está na hora de levantar.

— Nossa, dormi igual pedra. Estamos muito atrasados? – Indaguei enquanto levantava.

— Não muito, vamos pro refeitório comer algo e depois para o salão principal, aquele que nós chegamos.

Saindo do quarto, dois soldados estavam na porta de guarda. Eles me cumprimentaram e me escoltaram até o refeitório. Lá comemos o que Amohi disse que era “ração de guerra”, nada mais era que um cereal com um mingau que era até apetitoso.

Novamente fui escoltado pelos guardas até o tal salão principal. O lugar estava lotado de pessoas. Mais uma vez, lá estava eu naquele palanque com Mary, Amohi e Galter. Todos me olhavam com esperança, apreensão e nervosismo. Confesso que fui pego por todos esses sentimentos e comecei a ficar nervoso.

— Estamos aqui com o legitimo Rei de Jandar, não o pressionem rapazes. Fiquei sabendo por minha amada noiva que ele é capaz de fazer coisas maravilhosas com a Energia de Onir das Flamels. – Disse Galter para todos do salão ouvir.

— Vamos colocá-lo no teste de afinidade, estamos curiosos! – Exclamou alguém da multidão.

— Claro que vamos, mas antes, nós temos de esclarecer se ele é realmente quem nós achamos que é. – Disse Amohi enquanto me dava uma lâmina negra e bem afiada. – Ryan, chame Eligor e deixe seu sangue cair sobre ela.

— Korir Eligor. – Disse e em seguida fiz um pequeno corte em minha mão e deixei o sangue cair em minha flamel.

Instantaneamente, um clarão vermelho tomou o salão. Todas as flamels estavam reluzindo de seus núcleos uma energia intensa e muito aconchegante na minha direção. Depois de alguns segundos, a luz fica mais fraca até restar Eligor, que logo depois, volta ao normal.

— Viram? Toda essa energia descomunal vindo para proteger o Rei. Isso prova que ele é legítimo! E ele ainda conseguiu empunhar uma das flamels mais antigas que existe. – Disse Galter.

Vários gritos e urros de comemoração se seguiram daquele momento. Muitas pessoas aplaudiram e algumas levantaram suas flamels em sinal de respeito e admiração.

— Vamos as coisas que realmente estamos curiosos pra saber. Mary e Amohi, mostre o que ele deve fazer. Esse pra você e esse pra você. – Disse Galter enquanto dava duas gemas vermelhas que cabiam na palma da mão.

— Libere sua verdadeira forma, flamel que foi feita para a guerra e justiça. – Mary e Amohi disseram de forma quase uníssona.

A flamel de Mary diminuiu de tamanho e se tornou duas espadas prateadas que ela empunhava com muita destreza e agilidade. A de Amohi manteve o tamanho, mas a parte horizontal dela ficou como uma espécie de machado que ele balançava com saudade e força.

— Viu Ryan? É só dizer essas palavras com a gema na mão e a mágica se fará. – Disse Galter me dando uma das gemas.

Logo que toquei naquela pedra vermelha, ouvi uma voz áspera grave falar comigo.

— Você não precisa de um catalisador pra me transformar, mas já aviso, não ligue muito para o que vão dizer, ok? – Disse Eligor.

— Me desculpe, eu não sabia que era algo assim. Confio em você, apesar de você só falar comigo quando lhe é oportuno. – Resmungo.

— Não se gabe, você que nunca parou pra me escutar. Ande, não temos o dia todo.

— Eligor falou que não preciso disso para transformá-la. – Digo enquanto devolvo a gema catalisadora para Galter.

— Além de empunhá-la, ela fala com você? Quase mil anos desde que isso não acontece. Você está surpreendendo a todos nós. Vamos, faça como Mary e Amohi fizeram.

— Libere sua verdadeira forma, flamel que foi feita para guerra e justiça. – Exclamei.

Um clarão se seguiu de minhas palavras e Eligor diminuiu de tamanho a ponto de cobrir todo meu antebraço. A parte horizontal curvou para trás. Meu braço virou a coronha de uma espécie de balestra toda adornada e reluzente. A energia de Onir virou uma corda avermelhada que dá força ao projétil. A sensação de empunhá-las era bastante familiar. Minha flamel estava mais leve e agia como se fosse parte do meu corpo. Depois de uns instantes, Eligor retornou ao normal.

— Isso era pra ter acontecido? – Indaguei enquanto toda a multidão ficava em silêncio com olhar de espanto.

— Isso é inesperado. Há muitas gerações não nasce um usuário de balestra. Até agora, você só me surpreende alteza. – Disse Galter enquanto Mary e Amohi estavam espantados.

Gritos e mais gritos de comemoração e alegria vindo da multidão que assistia aquela demonstração de algo que eu não tinha certeza do que era. Pelo visto, sou bastante especial, talvez a arma secreta deles nessa guerra.

— Bom, agora vamos para o teste final, o teste de especialidades, Amohi, demonstre. – Disse Mary.

Amohi olha para sua flamel e se concentra. A energia de Onir o circula e o protege como se fosse uma armadura vermelha de pura energia. Logo depois disso, Mary faz o mesmo e para minha surpresa, ela não fica envolta dessa matéria, mas só nas partes das pernas e braços. Alguns instantes depois, a energia é absorvida por seus corpos.

— Vou explicar o que aconteceu, a energia de Onir fez um reforço no corpo de Amohi, deixando-o mais protegido para a guerra e no caso de Mary, ela vai te demonstrar. – Disse Galter dando uma piscadela para a ruiva.

Num piscar de olhos, Mary estava do outro lado do salão, meus olhos não acompanhavam seus movimentos. Tudo que eu via era um borrão vermelho passeando pelo local.

— Porque não tenta fazer o mesmo? Não é difícil. Concentre-se e empunhe sua flamel. Deixe a energia que ela controla dominar seu corpo.– Disse Amohi antes de soltar um sorriso largo.

Pus-me a olhar Eligor. Cada marca de batalha. Prestei a atenção naquele metal frio e logo fui envolto por aquela energia, eu me senti muito mais resistente, mas também muito mais leve. Eligor se liquefez e assumiu a posição de balestra.

— O que eu faço agora? – Indaguei.

— Descreva o que você sente. – Respondeu Galter.

— Me sinto muito mais leve e mais resistente a ferimento. Isso quer dizer que…

Movo meus pés para correr e logo atropelo uma das colunas do salão. Todos vem em minha direção pra me tirar dos escombros e me ajudar a levantar. Todos ficam surpresos quando percebem que eu não sofri nenhum ferimento relevante, apesar de uma coluna enorme ter caído em mim.

— Não é possível, você controla as duas especialidades?! – Exclamou Amohi.

— Isso não é algo incomum? – Pergunto enquanto voltava para o palanque.

— Esse tipo de coisa nunca aconteceu na história da nossa raça. Simples assim. Provavelmente é um efeito colateral da sua mutação genética. Vejo que não é de uma forma muito completa, talvez com treino, você consiga melhorar isso. – Disse Mary de uma forma como se ela quisesse sair logo daquele salão.

— E assim terminamos os testes que vocês tanto queriam ver o Rei tem de descansar, é a primeira vez que ele tem contato com esse tipo de poder. – Exclamou Amohi para o publico percebendo a entonação de Mary.

— Mas porque não fazemos só um duelo de treinamento entre mim e Ryan? – Disse Galter de forma bem empolgante trazendo a plateia ao delírio. –Mas é claro que só faremos se vossa majestade aceitar.

— Eu… Eu… não vejo o por que não. Já que é só treino, não tem problema.

— Ryan, você tem certeza disso? Galter é muito mais experiente em combate que você. Fico preocupada. – Os olhos castanhos de Mary fitavam os meus com muita intensidade.

— Não se preocupe, eu tive uma ótima professora. – Respondi sua preocupação com um sorriso.

— Certo, abram espaço e façam um círculo para o Rei e Galter. – Amohi comandava a multidão que queria um show.

Logo eu me posicionei numa das extremidades e Galter na outra. Algo me diz que ele vai vir no sério. Será que o relacionamento entre eles mudou e ele está a fim de descontar sua frustração em mim? Mary parecia bem apreensiva. Ele não ousaria fazer algo comigo na presença dela, ousaria?

— Vou explicar as regras do combate. As suas flamels só podem ser usadas no modo normal e é terminantemente proibido o uso de especialidades. Vai ser uma melhor de três e ganha um ponto quem claramente atacar uma parte desprotegida de seu adversário, derrubá-lo ou por desistência. Os dois entenderam? – Disse Amohi.

— Sim! – Respondemos.

— Certo, que Onir vos proteja. Boa sorte e lutem!

Vejo um brilho vindo de sua flamel até a direção de suas pernas e braços. Droga, ele vai usar a especialidade de velocidade no início? Aceno para que Amohi intervenha na luta, mas ele não conseguiu perceber a energia fluindo no corpo de Galter.

Galter ficou parado me observando, esperando uma brecha ou esperando meu ataque para agir com um contragolpe. Depois de alguns segundos ele se movimenta com velocidade e me ataca pelo meu canto esquerdo. Defendo e sou atirado a alguns metros. Corro em sua direção e ele pula atrás de mim e bate com sua flamel nas minhas pernas, tirando meu equilíbrio e me fazendo cair no chão.

— Um ponto para Galter.

Droga, esse tipo de atitude de bom moço não me convence. Será que ele quer me humilhar na frente de Mary? Quer provar a si mesmo que é o macho alfa? Isso é algo bastante imaturo para alguém que aparenta ter seus quase 30 anos. Me levanto e me recomponho. Minha base permanece inalterada e Eligor novamente fala comigo.

— Sinto que ele está colocando uma pressão psicológica em você. Percebo que ele é o tipo de pessoa que faz um teatro para manipular as pessoas. Vamos fazer algo que ele jamais vai esquecer. Tome um pouco do meu poder e faça-o te respeitar.

— Obrigado Eligor, duas vezes só hoje, é um recorde.

Sinto o poder de Eligor fluindo por mim. Até onde sei, não estou quebrando nenhuma regra. Minha velocidade aumenta de uma forma absurda e consigo golpeá-lo no estômago, mas eu utilizo um pouco de força demais e ele é arremessado para o teto do salão.

— Droga, me desculpe. Não medi a força para esse golpe.

Quando consigo vê-lo novamente, sua expressão era um misto de dor e ódio. Será que ele achava que eu estava o desafiando? Ele está se sentindo humilhado por ter recebido um golpe tão forte de alguém que não tem experiência relevante em lutas reais?

Sua velocidade em minha direção era estrondosa, tão rápido quanto Mary ou talvez ainda mais. Entro mais uma vez no seu jogo e uso do mesmo artifício que ele e vou em sua direção. Mary surge na minha frente e me impede de continuar. Vejo que Amohi faz o mesmo com Galter.

— Vocês dois foram desclassificados, não podem usar especialidades numa luta dessas. – Exclamou Amohi para o publico que por sua vez aplaudia.

— O que você pensa que está fazendo? – Mary me fitava com muita preocupação e dureza.

— Me desculpe, por um momento eu perdi o controle. – Respondi olhando em seus olhos.

— É um empate, estamos muito felizes que nosso rei é bastante forte e vai nos ajudar bastante no campo de batalha. Muito obrigado aos que vieram e me desculpem, mas tenho de ir a enfermaria. – Disse Galter ao publico enquanto se apoiava em Mary me fitando de soslaio.

Logo Amohi vem em minha direção e nós voltamos ao nosso dormitório.

— Ele sempre foi tão dissimulado assim? – Indaguei.

— Porque diz isso?

— Ele usou especialidade a luta inteira. De alguma forma, eu pude ver toda a energia fluindo por seu corpo, mas o resto de vocês não conseguiu ver. Claro que ele não utilizou sua velocidade de forma tão absurda no início para não levantar suspeitas, mas eu vi.

— Mary se sente em dívida com ele, por isso não toma uma decisão. Algumas vezes ele age como um babaca. Enquanto vocês estavam lutando eu conversei com ela. – Disse Amohi enquanto coçava os olhos.

— O que ela disse?

— Porque você não pergunta diretamente a mim? – Disse Mary surgindo das sombras.

— Que susto Mary. – Disse Amohi.

— Vamos lá pra fora Ryan, há um lugar que quero te mostrar. – Mary me estendia a mão e sorria de uma forma muito convidativa.

— Vamos.

Notas finais
Muito obrigado por ter lido esse capítulo que é um dos maiores até hoje. Comentem sobre o que acharam desse pequeno pedaço dos acontecimentos que ainda virão nesse livro. Desde já agradeço sua paciência e ameaças de morte para que eu continue a escrever. Welldone, Cya.