Flamel
14 Pais
Notas iniciais
Assim que chego da casa de Pietro já é de manhã, mas eu estou tão cansado que nem penso em fazer o café ou ir para o fatores. Todos lá me viram com minha flamel em punho, melhor não dar motivos para perguntas. O dia de hoje foi muito bom, tudo que conversamos e trocamos experiências, não havia mais aquele peso insuportável em meus ombros. Engraçado o quanto Mary me surpreende a cada dia. Ela estava agindo esse tempo por debaixo dos panos, acho que ficarei sempre devendo essa.
Abro a porta do meu quarto e lá está ela. Dormindo agarrada ao meu travesseiro e toda retorcida, vestindo uma camisola branca com algumas rendas na região das costas. De um jeito estranho, eu a vejo tão em paz e tão confortável. Faço o máximo para não fazer barulho, mas como Mary tem um ouvido monstruoso, falho em minha missão de ser discreto.
— Então você chegou. – Disse ela sentando em minha cama e esfregando os olhos e deixando uma das alças de suas vestes escorregar por seu ombro.
— Sim, consegui resolver as coisas e eu devo tudo a você. – A cada palavra eu vou me aproximando dela, até que eu sento ao seu lado.
— Era o mínimo que eu tinha de fazer depois que você e Amohi me salvaram. – Ela desviava o olhar pra baixo tentando esconder o rosto rubro. – Mas tem uma coisa que eu queria como uma forma de você me agradecer.
— E o que posso fazer por você? Nada que envolva aquele treinamento, por favor.
— Posso dormir ao seu lado? Quero ter aquela sensação de te proteger como antigamente. – Cada palavra fazia mais peso em sua cabeça e logo ela estava com a cabeça entre as pernas.
— Não seja boba. Isso não é mais nenhum de seus teste, né ? – Sorrio e me deito na cama.
— Sei que é egoismo meu, mas é que você se tornou tão independente, às vezes eu te vejo lá na frente e visando o horizonte. Acho que um dia não te alcançarei. – Ela me acompanha e também se entrega ao conforto de minha cama.
— Não seja tão dura consigo mesma. Se um dia você se sentir atrás de mim, saiba que foi só para te dar a mão e andar em um ritmo melhor para nós dois. – Levemente eu vou fechando os meus olhos enquanto Mary enrola meu cabelo com a ponta de um de seus dedos.
Sentindo-me seguro como não me lembrava, me lembrei de meus pais. Aquele casal serene e seguro de todos os seus sentimentos. Será que eu sou o filho que eles desejaram? Será que eles tem orgulho de mim? Eu não sei. Tudo que farei daqui pra frente, será para eles e para lutar por toda a pureza que eles enxergavam no mundo.
Dormindo com isso em mente, tenho mais um daqueles sonhos. Talvez um aviso do meu subconsciente de que o assunto da morte deles virá atona novamente. Nesse sonho, eu vejo um casal – Meus pais.– Eles estão um do lado do outro, mas quando vou toca-los, minha mão os atravessa e percebo que isso não é real. Logo depois eu ouço uma voz narrando. Espere, essa voz é minha.
Tudo fica branco e só estavam diante de mim eles dois e uns amigos que eu só lembro de ter visto nas fotos do casamento. Meu pai era alto com cabelos castanho escuro, por volta de 1,70m, olhos profundos e castanhos, calmo e sonhador o definia. Minha mãe tinha cabelo curto e loiro, e com seus 1,60m dava uma sensação de virar uma das criaturas mais intimidadoras quando algo ameaçava seus filhos.
"Renata e Bernardo eram jovens e tinham muita esperança de casar e viverem felizes para sempre, eles se conheceram com alguns amigos em comum em uma festa. Seu primeiro beijo foi bem engraçado, pois os dois estavam muito nervosos, mas desde o primeiro toque entre seus lábios, eles já sabiam que se amavam e que não podiam mais perder tempo."
Logo essa imagem muda para uma festa em que eles estão apoiados em uma sacada e de repente, minha mãe beija meu pai, para alegria de todos os seus amigos, mas logo depois disso, a imagem muda. Os vejo separados em uma sala, cada um chorando em seu canto e cuidando para que o outro não veja.
"O problema entre eles era a insegurança e o medo de amar demais ao ponto de machucar um ao outro. Isso os separou por oito anos, foi então que eles se encontraram graças aqueles mesmos amigos que haviam lhes apresentado, eles perceberam que o amor não acaba e temos de dar esperança a todo sentimento puro que nós temos. Com eles a chama fraca, se tornava novamente aquela chama gigantesca que emanava um calor doce e gentil."
A imagem muda novamente, eles estão em frente a uma igreja. Minha mãe usava um vestido longo e branco com vários detalhes de renda e pérolas por seu corpo. Meu pai estava com um smoking preto com a parte de dentro na cor cinza escuro, mas uma coisa chamava mais a atenção, ele estava usando o mesmo all star velho e surrado do dia em que eles se conheceram.
"Logo que conseguiram, eles se casaram e foram morar juntos. Sua casa era humilde, mas era dotada de muito amor, felicidade e ternura. Dessa união nasceu Bruno e Ryan. Bruno em homenagem ao pai de Renata e Ryan, em homenagem a um ator que Bernardo sempre gostou ou porque era o único nome que ele tinha em mente no cartório. Os dois sempre foram unidos e muito felizes com seus pais, sendo Bruno o mais velho três anos. Bernardo disse para ele cuidar sempre do irmão mais novo e nunca sair do seu lado."
Bruno era mais parecido com meu pai, seu cabelo era de um castanho bem escuro e seus olhos profundos davam a impressão de insonia. Todas as imagens se tornaram móveis e tudo se transformou em um filme diante dos meus olhos.
"Um dia seus pais estavam em casa e já era noite, eles ouviram uns latidos de seu cachorro indicando que alguém havia entrado em seu quintal. Bernardo pediu para que todos ficassem quietos enquanto ele iria lá fora averiguar. Tudo que se ouviu foi um grito de Renata, então seu marido voltou para casa e entrou em desespero ao ver uma pessoa de cabelos negros coberta com um capuz empunhando uma espécie de lança. Numa fração de segundos o homem atinge Bernardo no peito o deixando com uma marca negra que a cada momento que passava se tornava maior envolvendo-o num abraço mortal.
— Fuja... – Disse Bernardo.
Renata se viu horrorizada quando reparou que seu marido estava morto do outro lado no chão da sala. Agora tudo que ela presava era a segurança de seus filhos. Em um instinto, ela jogou alguns jarros que estavam na mesinha de centro da sala ela conseguiu driblar o assassino. Ela correu em direção a rua e saiu sem rumo até que ela conseguiu despistar seu perseguidor num beco escuro a umas 20 quadras de sua casa. Bruno tinha 9 e Ryan tinha 6 anos de idade."
Agora, todo o meu redor havia mudado e a cada lágrima que escorre por meu rosto, mais daquele lugar é construído. Fui "transportado" para 6 anos no futuro, no dia da morte de minha mãe.
Renata já tinha conseguido superar aquela noite em que sem aviso nenhum o destino levou o amor de sua vida embora, mas em compensação deixou com ela duas novas esperanças. Ryan era genioso e teimoso, mas muito esperto. Bruno era bem comportado, atencioso e centrado. Renata tinha orgulho de seus dois filhos, até que numa noite aquele homem apareceu novamente e dessa vez ele estava muito mais determinado.
Depois daquele primeiro incidente, Renata se preparou, pois ela sabia que só era questão de tempo para que ele descobrisse seu paradeiro novamente, então ela fez algumas armadilhas para que o homem não conseguisse mais ferir ninguém, mas logo ela o ouviu chegando, sinal de que seu esforço havia sido em vão. Então ela decidiu ir para o plano B. Sacou dois revolveres e deu um para Bruno e o disse para ficar atrás dela protegendo Ryan. Esse homem foi diretamente a criança que estava atrás do irmão. Isso assustou Renata e Bruno."
— Não por favor, eu não quero rever essa cena! – Gritei.
"Logo eles começaram a afastar o homem que empunhava novamente a antiga e perpétua lança. Ele desferiu golpes no ar, mas em vão, pois a dupla mãe e filho estava dessa vez estava preparada. O homem agora virava a atenção para o irmão mais velho. O homem da lança liberou uma descarga elétrica de uma de suas mãos. Esse choque atingiu Renata que se atirou na frente do filho para protege-lo. Ryan, que já estava em choque, relembrou de em algum lugar de sua mente, a cena de seu pai morrendo. Bruno chorando pela morte de sua mãe atirou várias vezes na direção do assassino, até que o mesmo desse uma brecha para a fuga deles.
A partir daquele dia, suas vidas nunca foram as mesmas. O irmão mais velho emancipou Ryan para que ele não dependesse mais de ninguém. Bruno sempre foi muito estudioso e esperto, em 1 ano e meio eles saíram da casa que os policiais os abrigaram e compraram uma casa. Feito isso, o irmão mais novo se estabeleceu no Fatores Colineares, mas havia algo de errado com seu irmão.
— Mano, você tá mais silencioso que o normal. Houve alguma coisa ? – Indagou o irmão mais novo.
— Só me promete uma coisa. Escolha bem em quem confiar e não esquece quem você é e o que nossos pais nos ensinaram. – Ele olhava com preocupação.
— Que papo é esse cara ? Eu sei quem eu sou e nunca esquecerei do papai e mamãe. – Disse Ryan com uma voz tremula.
— Só prometa Ryan. – Seus olhos estavam fixos nos do irmão, esse era um jeito dele dizer que a coisa era séria.
Um sim saiu da boca do mais novo e no dia seguinte, Bruno não estava mais lá, mas tinha deixado um bilhete, “Vê se não faz merda na minha ausência, você ainda tem o gênio da mamãe, então não faça nada que ela não faria. Daqui a uns dias eu estou de volta, Bruno.”
Seis meses se passaram e o irmão não voltou ainda, mas algo me diz que ele está bem e provavelmente foi uma exploração que ele ficou com vontade de fazer ou algo do tipo."
Logo que essa cena se termina, eu acordo e me vejo deitado em minha cama olhando pro ventilador que se mostra inerte. Uma dor no peito começar a reaparecer e crescer cada vez mais. Sinto falta de minha família, espero um dia tapar esse buraco que existe e assola a paz em meu peito. Olho para o lado.
— O que houve Ryan ? – Disse Mary.
— Sonhei com meus pais de um jeito que eu nunca havia sonhado. – Disse enquanto voltava a olhar pro ventilador.
— Como assim?
— Digamos que eu assisti tudo, mas havia algo que eu não me lembrava, o assassino dos meus pais usava uma flamel, eles estavam atrás de mim. – Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
— Não vou mentir Ryan, eles te queriam, como querem até hoje. – Ela repousava sua mão em meu peito. – Conte comigo para fazer essa dor diminuir, certo?
— Obrigado Mary, eu to muito feliz que você tenha entrado na minha vida. Sei que as vezes você pode ser bem confusa e difícil de decifrar, mas eu sei que desde o inicio você só queria o meu bem. – Sorrio levemente.
— Idiota. – Disse ela levantando com o rosto corado. – Temos de parar de moleza. Pronto para o treinamento?
— Ok ok, eu vou, mas já vou avisando, eu to cansado. – Digo enquanto levanto.
— Nem vem com essa, temos de compensar todos os dias que ficamos parados resolvendo a sua vida.
— É a vida, espero que eu consiga responder as suas expectativas. – Sorrio.
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