Flamel
6 Olhares
Notas iniciais
Não consegui dormir direito. Acho que toda a ficha está caindo agora. Supostamente, tenho inimigos de outro planeta querendo minha cabeça em uma bandeja, mas o que eu fiz ? Será que meus pais eram de uma aliança interplanetária que acabou com uma festa que eles estavam fazendo ? Pela primeira vez, eu vou ouvir os conselhos de Mary. Não vou ficar remoendo na minha cabeça assuntos que eu não estou preparado para saber. Confio nela.
Droga, estou atrasado novamente pra ir para o Fatores. Meu relógio está despertando a quase meia hora, mas aquele ventilador de teto está me encarando e dizendo para eu não sair daqui. Algumas vezes eu queria ser como esse ventilador, inerte, parado, mas se eu analisar tudo, verei que o ventilador é sozinho e só se move quando algo o eletrifica, ou seja, ele não se move sozinho. Pensando bem, é melhor eu levantar. Verei meus amigos e ainda tenho uma prova hoje. Pouco a pouco a cama perde essa importância que eu psicologicamente pus. Minha luta matinal está vencida.
Meu primeiro passo foi desligar meu despertador, depois tomei um banho. Engraçado é que eu nunca havia prestado a atenção de como ficou o meu corpo depois do ocorrido. A primeira coisa que noto são meus ombros, estão mais largos e mais aparentes, os meus bíceps se tornaram maiores e mais aparentes. Meu torso foi o que mais mudou, antes eu não tinha nenhum peitoral ou definição no abdome, agora eu os tenho. Posso me dar muito bem se eu souber aproveitar esses dotes. A quem eu estou enganando ? Como Mary disse, eu ainda sou eu mesmo. Nunca foi do meu feitio utilizar desse tipo de coisa para tirar algum tipo de vantagem, gosto de ter o cérebro que eu tenho.
Termino o banho e ponho o recém comprado uniforme do Fatores, pois devido a essas mudanças físicas recentes, o meu outro ficou pequeno demais em mim. Faço um sanduíche de atum e vou comendo no caminho para o colégio. Posso parecer calmo, mas eu tenho cinco minutos para fazer um caminho de trinta. Vou correr tão rápido que as pessoas nem vão me notar ou pelo menos eu espero que isso ocorra.
Começo a correr e a cada segundo que passa eu vou acelerando mais e mais. Tudo ao meu redor novamente se torna um borrão. Afinal a quantos quilômetros por hora eu consigo chegar ? Com passadas cada vez mais largas e mais rápidas, finalmente, eu chego na entrada do tão renomado Fatores Colineares. Logo consigo avistar os dois portões que estavam trancados.
– Droga, cheguei tarde. – Pensei alto.
Tenho duas escolhas agora. Ou eu tento pular o muro ou eu volto para casa. Já que eu estou aqui, farei do modo difícil, com esses novos poderes não deve ser tão complicado assim. Dou a volta no Fatores e me concentro tentando sentir a presença das pessoas, estou procurando o lugar que tenha menos movimento. Achei um lugar que se tornou muito interessante, era um lugar deserto, tanto no lado de fora quanto no lado de dentro, o ruim é que é uma das partes em que o muro está atingindo 10 metros de altura. Está na hora de eu testar os limites do upgrade que fora feito em meu corpo.
Me afasto daquele muro esbranquiçado e velho e num piscar de olhos corro e pulo. Consigo saltar dentro do colégio sem maiores alardes. Sinto um olhar percorrendo meu corpo, logo abaixo a cabeça e vou para a minha sala de aula. Antes que eu pudesse entrar, Mary me aborda.
– Você se arriscou, como você entrou ? – Indagou ela.
– Pulei o muro da parte noroeste do colégio.
– Muito bom, não faça novamente, sinto que tem alguém nos vigiando.
– Você acha que pode ser um daqueles homens maus ?
– Não sei ao certo, Amohi está investigando, mas ele é meio lerdo.
– Sem proble... – Sou interrompido.
– Vocês vão ficar de papo no lado de fora da sala ou vão entrar logo ? – Gritou o professor de história de dentro da sala.
Eu e Mary abaixamos a cabeça e entramos na sala. Senti um frio na espinha ao ver dois olhos estranhos me observando da janela e logo depois sumindo. Olhei para Mary e ela se mostrava totalmente focada em aprender sobre a história da terra, parece que realmente estava interessada nesse planeta azul e verde. A deixei com suas reflexões sobre o mundo e comecei a observa-la.
Sinto que Mary está se apaixonando por aqui, ela está sendo a aluna perfeita e não está evitando todo mundo como no inicio. Ela mudou bastante nesse pouco tempo, mas o que se passa na cabeça dela ainda é um mistério pra mim. Apesar de ter momentos em que ela mostra afeto por mim, há vários outros em que ela me despreza totalmente. Não sei se ela faz isso de propósito, mas isso só contribui ainda mais para a minha mente confundir.
O sinal do intervalo toca.
Como de costume, eu passeio pelos pátio do Fatores, até que vejo Marisa sentada em um banco que ficava debaixo de uma árvore, que por sinal era uma figueira. Ela estava com as penas cruzadas em uma posição que indicava que havia algo errado, normalmente ela estaria cercada de garotos ou lendo um livro. Em seu semblante, nota-se um olhar perdido e tristonho.
– Que bicho te mordeu para você ficar isolada assim ? – Disse sentando-me ao seu lado.
– Não foi nada. – Disse ela se encolhendo cada vez mais no mundo que ela mesma criou naquele outono eterno que era o pátio do Fatores.
– Marisa, te conheço faz tempo. Não adianta tentar esconder que você está aborrecida lembra ?
Uma folha cai no meu cabelo. Marisa olha em meus olhos e a tira, dando um leve sorriso sem graça como um sinal de "você me pegou dessa vez". A menina que antes estava presa em seu mundo pede para eu sentar e reclina sua cabeça em meu ombro, que por sua vez, eu faço um cafuné enquanto ela fica com um semblante de quase choro.
– Marisa, você sabe que pode contar comigo para o que der e vier.
– Não é por isso Ryan, eu estou muito machucada. Terminei com meu namorado no final do ano passado e quis apostar em Pietro, mas parece que ele não está nem aí para mim. – Disse ela afagando o rosto cada vez mais no meu ombro.
– Então é isso né ? Pietro gosta de você, e eu sei que vocês dois sempre se gostaram, mas só ultimamente vocês estão se dando conta que isso não é amor de amigo.
– Então porque ele não me diz isso ao invés de ficar me dando falsas expectativas ?
– Pietro é alguém como eu, nós somos ruins em expressar o que nós sentimos. Sempre que nós vamos conversar com alguém sobre os nossos sentimentos, o que ocorre é algo exagerado ou sem sentido.
– Você sempre foi um desastre mesmo, seu idiota. – Ela deu um leve sorriso e secou as lágrimas que haviam descido pelas suas bochechas rosadas sem que ela percebesse.
– Lembra de todos os relacionamentos que eu tive ? Não duraram muito por isso. Se quiser, eu levarei um papo com Pietro, para que ele tome uma atitude com relação a vocês dois. Sei que vocês vão dar certo juntos.
– Não precisa. Vou ser eu mesma e vou tomar uma atitude. – Seus olhos tinham o fogo de determinação e esperança.
– E qual seria essa atitude ? – Disse sem sequer imaginar do que se tratava.
– Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé.
– Então você vai dizer tudo que você sente pra ele ?
– Sim, mas não hoje, eu estou um bagaço.
– Não está. – Disse sorrindo.
– Você me ama e é meu melhor amigo, não conta. – Disse ela antes de mostrar a língua.
O Sinal do retorno às aulas toca.
– Já deu a minha hora e eu nem fui lanchar. – Meu estômago roncava.
– Quem mandou ser legal com as pessoas ? – Disse ela levantando e pegando sua mochila que estava em um canto jogada.
Apenas sorri e acenei, enquanto ela ia para sua sala. Um frio percorreu minha espinha quando percebi novamente que eu estava sendo observado. Logo quando aqueles olhos que me fitavam com um certo olhar de desconfiança, eles desapareceram. Algo me diz que não gostarei de descobrir quem é essa pessoa que está me perseguindo, e se forem aqueles encapuzados ? A segurança de todos aqui estaria comprometida.
Vou andando para a minha câmara de tortura, mais conhecida como sala de aula, Mary estava na frente da sala comendo uma maçã, tão vermelha como seus cabelos.
– Vejo que você está bem e está feliz. – Disse Mary com uma desconfiança.
– Sim, pude ajudar Marisa em um problema pessoal dela. Sentiu minha falta ? – Disse fazendo uma cara zombeteira.
Ela revirou os olhos e entrou na sala de aula.
– Mary, eu só estava brincando, relaxa. – Fiz a maior cara de culpado que existe na face da terra.
– Amohi investigou e como sempre desde que chegou aqui, ele não conseguiu achar nenhum vestígio de quem está nos investigando, mas ele vai continuar investigando. – Disse ela ignorando minhas desculpas.
– Muito bem alunos, vamos a próxima aula que será de álgebra. – Dizia o professor.
...
No final das aulas, aqueles olhos estranhos que me vigiavam só apareceram algumas vezes. Algo neles me era familiar, mas eu não lembrava de quem era. Pus-me a pensar sobre a possibilidade dos meus amigos estarem desconfiando de algo diferente com relação a minha pessoa, o que não é muito improvável, pois minhas mudanças físicas somada a minha ausência no círculo de amizades, está chamando a atenção deles de uma forma negativa.
Saindo do colégio, todos os meus amigos estavam no portão como já era de costume. Olhei perifericamente para eles, ou pelo menos é o que consegui fazer, Mary estava me puxando para iniciar o sagrado e misterioso treinamento que ela havia me prometido.
– Mary, eu quero falar com eles. – Disse enquanto senti a ruiva puxar-me com mais força.
– Não temos tempo para isso, aceite. Eles só irão nos atrapalhar.
– O que você quer dizer com isso ? – Disse enquanto soltava meu pulso das mãos dela.
– Se o inimigo perceber o seu envolvimento com eles, nós não poderemos garantir a segurança deles.
– Se ao menos eu pudesse explicar a eles ... – Comecei.
– Ryan, quanto menos eles souberem, melhor.
– Eu sei, vamos logo com esse treinamento então. – Eu já começava a ver o inicio de minha rua.
Primeiro de tudo, nunca tive porte atlético, logo nunca fui interessado em esportes, mas parece que Mary não quer saber desse fato. Ela está arrancando meu couro no mano a mano mesmo. Tudo que eu faço é esquivar ou pelo menos tentar. Depois de vários golpes eu estava cansado e totalmente anulado.
– Já nos aquecemos, agora ensinarei algumas posições, para você ter noção de base de equilíbrio. – Disse ela sem expressar nenhum sinal de exaustão ou qualquer coisa do tipo.
– Pensei que estávamos terminando. – Disse arfando.
– Aqui toma. – Mary me deu um bastão e pegou outro para ela.
– Pensei que nós começaríamos com a flamel. – Começo sendo interrompido por Mary.
– Tudo na vida tem um começo mais fácil, e acredite usar e controlar a Flamel não é algo que você conseguiria agora.
– Entendi, mas queria aprender um pouco mais na prática.
– Claro que vai, mas isso vai ocorrer ainda hoje, mas não agora. Aquele dia em que você me ajudou a matar aqueles soldados jandarianos, foi simplesmente um truque de sorte. Normalmente as flamels não respondem nossos impulsos assim, digamos que você tem um tipo de conexão muito anormal com aquela arma, por isso não quero arriscar nossa segurança. – Disse Mary vindo em minha direção com a intenção de usar o bastão.
Depois de algumas horas treinando eu me acostumei com todo o esquema de Mary, parecia que ela estava se divertindo de verdade. Diversas vezes ela sorria e ria dos meus tombos e dos meus golpes. No final das contas aquilo me trazia uma liberdade muito grande e uma conexão muito boa com aquela menina que começava a mostrar seu lado mais humano para mim.
…
No final do dia eu aprendi umas posições que são conhecidas como Qiang, elas são parte do Kung-Fu que nós conhecemos. O engraçado é que agora eu posso fazer parte dos filmes do Jackie Chan, ou não. Algo me diz que esses dias de treinamento serão longos, mas só de saber que ela não se preocupará mais por minha causa, isso me faz muito bem.
Eu e Mary sentimos um vulto correr no redor da casa. Logo percebi que aqueles olhos que estavam nos vigiando dentro do fatores, estavam lá em minha casa.
– Fique aqui, vou pegar o invasor. – Disse Mary pegando sua Flamel.
– Mary, cuidado e traga a pessoa aqui, tenho que interroga-la.
– Você que sabe.
Instantes depois, Mary chega com uma pessoa encapuzada e uma silhueta familiar. Andei até ela e retirei o tecido que tapava seu rosto. Ela era ... Therese ?
Notas finais
Bom, Cya.
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