Fjara og Cliff
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Havia corrido incansavelmente na última hora. Sua respiração ofegante de alguns minutos atrás, enfim a abandonara. Mas apesar de ter parado de correr, continuava caminhando sem parar. Sabia que se parasse, iriam alcançá-la. Ela olha para trás a cada pouco, temendo ainda ser seguida; mas a única coisa que vê, é a mata densa que deixou para trás.
De repente, ao longe, escuta o barulho da água caindo. A princípio, estremece ao lembrar do penhasco que havia tido de enfrentar, mas logo se acalma, foi justamente o penhasco que havia ajudado a despistá-los. Continua caminhando, dessa vez seguindo o barulho da água. Até que chega, no que inicialmente acredita ser uma clareira, porém logo percebe ser o fim da floresta.
Sentiu o vento, antes parcialmente bloqueado pelas folhas e árvores, acariciar seu rosto. E quando olhou em volta, enxergou a cachoeira que a havia guiado até ali. A mais alta e violenta que já havia visto. Caminhou lenta e vagarosamente até o rio que se formava no final da queda. E flutuando no meio do rio, havia uma caixa preta comprida; um caixão feito para uma alma pobre.
A garota entrou na água e nadou até o caixão. Perto o suficiente, agarrou a corda que saia de uma das extremidades da suposta caixa e puxou-a até a margem.
“Este é o mais longe que eu irei.”
Estava gravado na tampa do caixão. Ela lê com pesar.
— Não. Eu levarei você até o topo. – Diz decidida encarando o topo do penhasco.
Segurou a corda novamente, e passou a arrastar o fardo pesado. Ela sabia que, ambos, ela e o caixão, deveriam estar no início da cachoeira, lá em cima. Seria uma longa caminhada, mas se tinha algo que havia aprendido com o pai, era que longas caminhadas eram necessárias. Apenas os grandes sacrifícios traziam a salvação. E ela precisava travar esse grande sacrifício, pois precisava de uma grande salvação.
— Nunca mais serei a mesma pessoa. – Sussurrou. Não conseguia deixar de pensar e sua antiga vida, naqueles homens a caçando, no que havia feito. – Minha vida nunca mais será a mesma. Pra falar a verdade, nunca mais será alguma coisa.
Encarou o fardo novamente, e notou um papel saindo da pequena fresta entre uma estaca e outra mal pregadas do caixão. Era uma carta.
“Horríveis encantos me atraiam
No dia em que corria para a vida novamente
Se eu ganhar desta vez
Ainda vai ser o meu fim
Minha crença é de que nada acaba bem
Este é o fim para mim”
— Pois não há nada após a morte – completou a carta com suas próprias palavras.
A carta tinha razão, mesmo se ela ganhasse, seria o fim para ela. Mesmo se ela alcançasse o seu objetivo, seria o fim da jornada. Aliás, era justamente chegar lá que acabaria com tudo.
Um sussurro chega ou seu ouvido.
“Dia e noite meu coração esteve pesado
Desejos destruídos, sorrisos congelados”
— Que pena para você. – Ela sorri ironicamente – Pois eu... Eu continuo. Mesmo com meu coração bombeando lágrimas.
A voz torna a sussurrar.
“Dia e noite eu andei sozinho...”
— Chega. – Ela o interrompe duramente. Não queria mais ouvi-lo. E quem poderia culpá-la? Era difícil ouvir uma alma condenada sussurrar suas dores, quando ela era a responsável pela condenação; e pela dor.
Continuou a caminhar. Suas mãos e pés doíam, era difícil carregar aquele peso numa subida tão íngreme e longa.
Soltou a corda e foi atrás do caixão tentando empurrá-lo. Procurava por uma maneira mais fácil e menos pesada de carregar aquilo, mas empurrar o objeto se mostrou ser ainda mais difícil.
Então o largou. Largou ali no meio do caminho.
Pensou em continuar sem ele, mas mesmo sem nada para carregar, não poderia andar mais. Precisava ao menos descansar, concluiu. Sentou com as costas apoiadas em algumas pedras, e percebeu que era melhor não se apoiar em nada do que naquela superfície dura livre de pecados, que a obrigava a ficar de frente a sua cruz.
Pensou e concluiu novamente, mas dessa vez o contrário: não podia descansar. Nem se quisesse.
Levantou, segurou a corda, e continuou seu caminho.
E então, o sussurro voltou.
“Ossos apodrecendo na terra
Como os seus segredos
Que há muito tempo tem escondido de mim”
Ele sabe, se desespera. Uma brisa envolve seus cabelos, e ela para por alguns instantes.
A voz insiste:
“Mas o sangue pesa mais que o silêncio, e é fácil notar o tanto de sangue que você tem nas mãos.”
A garota olha para as próprias mãos, elas sangravam. Havia se cortado com a corda. Segura a barra suja do vestido branco e rasga dois pedaços, em seguida amarrando-os em suas mãos.
— Eu preciso de um abraço. – Ela ajoelha no chão e começa a chorar. – Eu preciso de um abraço – repete.
Mas o choro cessa no instante em que sente braços em torno de si. Fecha os olhos, e sente as mãos acariciando seus cabelos.
Respira fundo, e ambos — o sussurro e a garota -, completam em uníssono:
“Palavras destruídas, fragmentos em sua boca.
Corte mais profundo do que qualquer ferida.
Os laços quebrados nunca serão os mesmos.
Pois mentiras são como a picada de uma víbora”
Algumas lágrimas solitárias escorrem pelo rosto dela. Ela sabia, seus laços nunca mais seriam os mesmos, e se arrependia todos os dias por isso.
Olhou novamente para o caminho, e viu o topo do penhasco. Estava quase lá.
Andou mais um pouco e chegou. Lá tinha outro caixão, esse não tinha uma corda para ser carregado, mas estava molhado, assim como ela esteve todo esse tempo, mas só agora havia percebido.
Decidiu que era hora de abrir o caixão que havia carregado todo esse tempo. Abriu. Um homem enforcado pela corda que ela tinha puxado pelo caminho.
Segurou o corpo do homem em seus braços, acariciou seu rosto, e selou os lábios pálidos com os próprios. Para então, com dificuldade, arrastá-lo para fora do caixão e jogá-lo do penhasco. Agora, ele havia sumido. Se misturado com a água do mar e virado cinzas.
Seguiu até o segundo caixão e tentou abri-lo também. Mas por mais que não houvesse fecho nenhum, simplesmente não abria. Sentou no chão e olhou para o céu. Ainda era dia, ainda havia tempo antes que as trevas chegassem e consumissem o que haviam prometido consumir.
Até que notou que na parte de dentro da tampa do caixão já aberto havia algo. Chegou mais perto, e focou os olhos nas palavras escritas ali: “Eu te perdoo.”
Levou as mãos até a boca, e lágrimas desceram. Voltou ao caixão molhado e tentou abri-lo novamente, e dessa vez, cedeu. Ali havia uma garota loira, molhada, com as palmas das mãos cortadas e sangue por toda parte. Mas em questão de segundos, o sangue voltou para as mãos dela, e os cortes se fecharam, deixando cicatrizes.
Segurou o corpo da garota em seus braços, e os seus cabelos loiros se misturaram com os dela. Assim como suas lágrimas alcançaram o rosto dela. Arrastou esse corpo até a ponta do penhasco, e o despejou junto com a cachoeira.
Estava livre.
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