Fixação

1 Capítulo único


Notas iniciais
Esta história tem uma leve base no estilo de escrita de alguns contos, principalmente os de Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, da antologia "Os Melhores Contos de Loucura".Sim, este conto trata de um louco suicida com um leve fanatismo religioso, mas não tinha nada disso nos Avisos, então deixo avisado aqui.Enjoy.

Olho para a janela, as nuvens se movendo lentamente em um céu escuro com a chuva iminente. Ao longe, encoberta pelas nuvens carregadas de chuva, está Ela, recebendo das nuvens um toque ainda mais nefasto.

Apesar da vista obstruída pelas nuvens, sei que Ele me observa do topo d’Ela. Ele sempre me observa. Nunca me deixa em paz. Seus olhos mortos de pedra estão sempre cravados em mim, apesar da distância de quilômetros e quilômetros, e metros e mais metros de altura.

Tento desviar o olhar, mas a silhueta no horizonte parece atrair meus olhos como o metal atrai o ímã. É impossível desviar minha atenção daquele monumento escondido, aquele local que assombra meus sonhos, transformando-os em pesadelos nos quais o principal vilão é Ele, com a mesma pele dura e os mesmos lábios de pedra branca que falam mais do que um político. Oh, sim, ele fala, e como fala! Sua voz grave e baixa murmura para mim em meu sono, conduzindo-me à terra dos pesadelos pelo caminho mais tortuoso possível. E isso que dizem os cientistas que lembramos apenas nossos sonhos mais recentes de antes de acordarmos, mas que na verdade podemos ter centenas de sonhos em uma noite. Se Ele me faz tudo o que faz nos poucos sonhos dos quais me recordo, imagine durante o sono profundo, de cujos sonhos me esqueço?!

As nuvens continuam a mover-se. A imagem no horizonte deixou de ser uma silhueta. Consigo distinguir mais traços do local diabólico e as cores que me assombram – o vermelho de fundo contrastando com o branco supostamente puro d’Ele.

Não consigo ver nada além disso ao longe. O máximo que consigo distinguir são as portas e janelas, mas apenas por suas formas mais escuras contra o vermelho gasto. Apesar disso, eu sei que a visão que Ele tem de mim melhorou – ele está feliz, está comemorando, porque pode me ver melhor, comemora porque estou parado em meu lugar, estático, com medo do que Ele pode me fazer caso eu me descuide por um momento, caso desvie o olhar.

São longas e muitas as contínuas horas diárias que passo encarando-O de longe, da janela do meu quarto. Pensei que me mudar por um tempo fosse fazê-lo esquecer de mim, desistir de mim. Aparentemente não. O desgraçado ainda gosta de me ver em agonia sob seu olhar distante, mas não menos penetrante. O desgraçado não se cansa da brincadeira infantil, e Ela – ah, Ela se diverte com isso tudo. Parece que chama o Sol para deixar seu vermelho mais brilhante e infernal, ou as nuvens para desbotarem-no, deixando-a mais tétrica. Ela sabe tirar proveito de qualquer situação causada por Ele. Acho que conspiram contra mim, aqueles dois malditos.

Desde pequeno era n’Ela que minha mãe insistia ir para mostrar sua fé a Ele, e desde pequeno – desde a primeiríssima vez que me vi em frente àquele monumento monstruoso – ah, desde pequenino que sei que aquele lugar não pode ser uma casa de Deus. Aquilo é coisa do Demônio, e o que dizem ser o Jesus de pedra branca à sua frente é na verdade Satã em disfarce, atraindo fiéis inocentes. Mas eu, ah, eu sou diferente. Creio que Deus abençoou-me ao nascer, abençoou-me com o dom de distinguir o bem do mal, o Deus verdadeiro do Diabo disfarçado. E Satanás, percebendo que sou o único diferente e percebendo que posso contar aos outros, que posso espalhar a verdade, resolveu amedrontar-me, assombrar-me por toda a minha vida. Até quando havia partido de minha cidade natal eu tinha pesadelos com Ele e sua Casa mórbida. Ele podia não estar ao alcance de meus olhos, mas ainda tinha poder sobre minha psique.

Continuo a encará-lo de volta. Eu tento não demonstrar a fraqueza em meu olhar, tento parecer forte e firme como o abençoado que eu sou – mas não tem jeito. Não tem como não tremer sob aquele olhar de escárnio, recheado de maldade, que continua tendo efeito até a tantos quilômetros de distância.

Espero que ele finalmente se contente e me deixe ir, como acontece todos os dias – ele tem sua dose diária de divertimento às minhas custas, e então me deixa ir. Mas hoje está sendo diferente. Em vez disso, seu olhar parece cada vez mais penetrante. Até que ele se mexe. Sim, sim, tenho certeza, ele se mexe! Mexe primeiro a mão, bem de leve, um movimento tão suave que quase me passa despercebido àquela distância. Em seguida ele gira o rosto inteiro, me encarando completamente de frente. Meus ossos gelam, minhas pernas tremem, sinto um suor frio escorrendo por meu rosto. Faço um esforço para manter-me de pé sob o olhar d’Ele. Eu nunca o havia encarado completamente de frente antes. Nunca pensei que os efeitos seriam tão atemorizantes.

Ele mexe os pés – primeiro um, depois o outro – e passa a flutuar sobre seu pedestal. Então o Anjo das Trevas irá voltar ao seu covil, ou terá Deus lhe perdoado e aceitado que ele regresse ao Reino dos Céus? Não, o Senhor jamais poderia perdoar criatura tão mefistofélica, jamais poderia abrir seus braços celestiais para um ser tão repugnante, que se alimenta do medo e do ódio!

A criatura começa a flutuar para minha direção. Sinto meu coração acelerando, enviando o pânico em forma de adrenalina para todo o meu corpo por minhas artérias. Eu quero sair daqui, correr para longe antes que ele me alcance, mas meus pés se recusam a deixar o chão. Vamos, homem, vamos! Saia daí! Ele se aproxima rápido, muito rápido! Fuja!

Ele se acerca, e cada vez mais eu posso notar os detalhes que os outros consideram dignos de nosso Senhor, mas que na verdade são tão diabólicos quanto se os chifres e a cauda pontuda se deixassem mostrar. Os cabelos longos e encaracolados, a barba, a mão de pedra esticada num gesto que para os outros simboliza a salvação, mas eu sabia – ah, como sabia – que quem pegar aquela mão se perderá para sempre.

Eu quero desviar os olhos, ah, como quero! Mas não posso. Ele não deixa. Há algum truque, ele ordenou a algum de seus servos que fizesse uma bruxaria, um feitiço que me deixasse tão paralisado como se eu encarasse a própria Medusa.

Estamos enfim frente a frente, separados apenas pelo vidro de minha grande janela. Ele para, ainda encarando-me. Sinto minha expressão mudar à medida que eu percebo a situação – o vidro. Ele não pode avançar mais devido ao vidro.

Rio alto – ah, como rio! O Grande Senhor do Inferno foi detido por nada mais que um fino vidro! Isso porque, por mais que flutue e faça bruxarias, sua forma de pedra não permite que quebre o vidro. Certo? Belzebu! Há, há, há! Eis que o Senhor mostra que está do meu lado, anomalia!

Vejo a raiva nos olhos dele ao sentir os insultos que não chego a proferir, ao ver meu sorriso cínico. Sim, seus olhos mortos podem ser impossíveis de ler para alguém normal, mas não para um abençoado como eu! Muito infeliz por ser derrotado por um mero mortal com uma janela de vidro, Demônio?!

Ele está ficando irritado. Irritado demais. Volta a se mover. Provavelmente vai retornar ao local de onde veio, o Inferno, ou ao menos ao seu posto a dezenas de quilômetros de mim...

Mas estou errado. Em vez disso, ele simplesmente segue em frente, quebrando o vidro ao passar, entrando em minha sala e derrubando minhas coisas, meus móveis. Seu olhar agora traz triunfo, um triunfo doce para ele, amargo para mim. Não! Não! Saia, saia! Para longe de mim, Inferno!

Pego vasos, cadeiras, porta-retratos, e tudo ao meu alcance para atirar na estátua flutuante. Nada o repele; sua pele dura é incapaz de sentir qualquer coisa. Ah, Deus! Ajude-me, Senhor! Sou Teu filho abençoado, não sou? Ajuda-me! Ajuda-me!

Ele estende a mão pálida para mim, aproxima-a até estar a centímetros de meu rosto. Não, não, não! No momento em que tocá-lo, tornar-me-ei um ser impuro, imundo. Não, não! Devo permanecer limpo e abençoado, tocado por mão alguma fora a do Senhor. Não, não, não, não!

Este anjo da morte não parará de me seguir jamais. Só há uma solução.

Pensando nisso, corro para meu quarto, sem nunca desviar os olhos. A janela, tão grande quanto a da sala, está entreaberta para deixar entrar uma brisa, medida falha para amenizar as altas temperaturas de Janeiro. A janela, a janela. Eu devo chegar à janela antes que a criatura imunda me alcance, sim, devo.

Consigo chegar à janela no momento em que o Lúcifer paralisado passa pela porta do meu quarto, que não é pequeno. Abro completamente a janela e sento-me na beirada, pondo um pé para fora. Junto as mãos em prece e, pela primeira vez, fecho os olhos para minha última oração. Pai nosso que estás no céu...

Estou sentado com o tronco virado para fora e as pernas pendendo da janela ao dizer o “amém”. Estou agora não apenas de olhos fechados, mas também de costas para Ele! Grande avanço, sim! Mas não comemores, infeliz: quando meu espírito subir ao Reino do Senhor, verás quem há de rir por último, traidor! Há, há, há!

Vejo sua mão fria surgindo ao meu lado, pela janela aberta. Eu já não o temo mais. Logo ele verá quem há de prevalecer. Eu sei que meu Senhor condena os suicidas, mas pode ser considerado suicídio quando apenas o que eu quero é fugir deste demônio sujo e encontrar meu Pai de uma vez por todas? Será considerado suicídio se a razão for silenciar as gargalhadas malévolas d’Ela, que, incapaz de sair do lugar, ri ao longe, observando tudo com seus olhos invisíveis? Será um pecado se for para fugir das Trevas e buscar a Luz?

Não, não será. Se for, meu Senhor me perdoará, tenho certeza.

Olho para baixo. Estou no vigésimo quarto andar, apenas mais um acima de mim antes do topo do edifício. Lá em baixo eu vejo pequenas manchas se movendo nas ruas, e manchas ainda menores nas calçadas. A cidade está movimentada com os turistas. Será um evento e tanto, com tantos espectadores. Uma pena eu não ter podido contar a verdade sobre aquele templo malévolo para ninguém – será que não deveria escrever uma carta ao Mundo e pôr em meu bolso, para que lessem aqueles que tentassem socorrer meu corpo já morto? Não, não, eu não tenho tempo – a mão d’Ele continua esticada, aproxima-se de mim. Não posso recuar. Não tem como. O que está feito, está feito, e eu só posso rezar para que Deus abençoe um ser mais nobre, capaz de contar ao mundo as verdades sobre aquela estátua e a chamada “igreja” onde se encontra seu pedestal.

Mais uma vez, fecho os olhos, e uso as mãos para dar um pequeno impulso para frente, deixando a beirada de minha janela.

Ao longe, eu ouço o riso louco d’Ela, rindo como se tivesse vencido uma batalha.

Notas finais
A Igreja da qual fala esta história é a Iglesia del Cerrito, em Montevideo. Não tenho certeza se a estátua em cima dela é de um Jesus ou uma Maria ou algum outro santo, mas vamos fazer de conta que é um Jesus.Não, eu não acho que aquilo seja um templo satânico. E não, não é só porque meu personagem é completamente religioso que eu sou também (sou ateia, na verdade). Personagem e autor são pessoas completamente diferentes.Espero que tenham gostado! :) Se possível, comentem! Principalmente se tiverem alguma correção de português a fazer, eu fiquei completamente confusa com os tempos verbais e posso ter errado alguma coisa nos pretéritos. Ah, eu também gostaria de uma ajuda com os gêneros da história. Classifiquei como Death Fic, mas não sei se pode ser considerada Darkfic e/ou Terror. :T
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!